A Tentação.
Estou fazendo uma experiência comigo mesma. Eu sou a cobaia. Uma experiência que envolve o campo religioso e os seus símbolos, lembrando Bourdieu.[1]
Nesta experiência, são testados os instintos, as intuições e a racionalidade. Em tempos de intolerância, os cientistas sociais precisam testar os seus limites.
Mas... Afinal? O que fiz comigo mesma? Vou contar para vocês: Eu fui a um centro espírita. Parece algo sem graça, irrelevante no país da mestiçagem, mas realmente não é. Não é, porque sabemos que ainda vigora um tremendo preconceito contra as religiões de matriz africana ou que dialogam com ela.
Sabemos que a tolerância ainda é uma utopia. Por isso, digo que foi uma experiência relevante. Séculos e séculos socializados e aculturados com a demonização dos candomblés e dos espiritismos em geral, a cristandade dos trópicos ainda vê com “olho torto” estes cultos.
Mas foi assim que estou resistindo à chamada tentação no deserto do etnocentrismo demonizador. Sim! Uma demonização que aprendemos no berço.
Como é este culto? Sincrético? Panteísta? Politeísta ? Como é?
Uma reunião serena em busca do equilíbrio cósmico, com músicas e palestras sobre a vida além da morte. Sincrética, porém com as suas peculiaridades. Panteísta? Politeísta? Diria que monoteísta, mas com um monoteísmo aberto.
Não vi muita distinção em relação aos cultos evangélicos. Há correntes do bem, há orações a todo instante, leituras das Sagradas Escrituras. Mas o que é este monoteísmo “aberto”?
O etnocentrismo não combina com o que resolvi chamar de monoteísmo “aberto”. O etnocentrismo suprime as possibilidades das diferenças culturais coexistirem. Neste culto, que participei, tentando desmistificar e resistir à tentação diabolizante, há o convívio entre as entidades. O Cristo é cósmico, figura central das celebrações, mas também há alusões a entidades originárias dos cultos africanos e indígenas e referências a Maria, mãe de Jesus. Cantam hinos evangélicos. Por este motivo, diria que prevalece um monoteísmo “aberto”.
O que tem de interessante neste ato, é a democratização do discurso: Geralmente, nos cultos evangélicos, há a figura do pastor – na maioria homens - que preside as reuniões. Nestes cultos, a participação dos integrantes é mais plural. Um avanço notável, pois as religiões ainda têm um viés androcêntrico.
A minha experiência no centro espírita, acompanha um processo desmistificador e de um exercício real de tolerância religiosa. Venho desenvolvendo esta prática, desde os estudos dos candomblés da Bahia e do curso que ministrei na Universidade sobre Religiosidades Coloniais.[2]
O Centro espírita não é a casa do capeta, como ainda se escuta por aí. Não é. É uma casa religiosa assim como é a igreja, a mesquita e a sinagoga. Só para citar alguns exemplos de templos mais conhecidos.
A casa espírita – no caso esta casa que visitei chamada Adventos Crísticos -, reúne pessoas de vários segmentos sociais e culturais, pessoas interessadas na leitura dos textos espíritas, interessadas nos passes e mesmo os curiosos.
Natalie Zemon Davis diz em seu livro Culturas do Povo, que a adesão a uma religião exclui a verdade da outra. Isto é muito sério, porque a conversão - por mais superficial ou profunda que seja - exige do seu devoto a negação das outras. Negação agressiva, como todos nós sabemos. Agressividades que ainda provocam muitas guerras.[3]
A casa espírita tem um aspecto interessante: Ela nos ensina o exercício da meditação e da imaginação transcendental. Imaginamos o outro “mundo”, aquele que costumam chamar de “espiritual”.
O que realmente vem impactar o olhar é a manifestação dos chamados “espíritos”. É nesta fase do culto, que toda fúria demonizadora realmente emerge. E emerge como um “tsunami” devastador! O que fazer, então? Como exercitar o olhar da tolerância? Um segredinho: Saber que as sociedades convivem com fenômenos espirituais desde os tempos pré-históricos, e ter consciência de que as pessoas são plurais em suas escolhas. É importante materializar esta consciência e não apenas verbalizá-la.
Não vamos fazer como o luterano empedernido nas naus que cruzavam o Oceano Atlântico nos tempos das conquistas territoriais da Europa, que exigiam dos católicos considerados papistas, que se “desbarretassem”.[4]
Ou mesmo, como católicos acirrados que no século XXI ainda colocam a intolerância em prática ao exigir de uma pessoa que tire o chapéu para visitar a Catedral de Notre Dame, na capital francesa. Fato recente que presenciei.
O exercício da tolerância exige abnegação. Uma abnegação generosa em busca da compreensão das almas humanas. Acho que com esta experiência, estou no começo de um longo e demorado processo: O amadurecimento das perspectivas sobre os seres humanos e as suas disparidades incontáveis.
Rossana Britto – UFES.
[1] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. RJ: Bertrand Brasil, 2005.
[2] SANTOS, Edison. Candomblés da Bahia. SP: M. Fontes, 2008.
[3] DAVIS, N. Z. Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
[4] BRITTO, Rossana G. Os pecados do Brasil: Luteranos e Inquisição – Séculos XVI e XVII. (Tese de Doutorado) - UERJ, 2010.
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Não, caro Bruno.
São reflexões para as aulas que ministro aqui na UFES.
Prof. Rossana Britto.
Comentário de Bruno Leal em 24 fevereiro 2012 às 11:15 Rossana, sua experiência é para monografia?
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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