Quando se diz “crença cristã” ninguém se ofende. No entanto, toda crença religiosa é uma invenção. Na Antiguidade os deuses pertenciam ao tempo mítico, um tempo sem precedência onde tudo era possível. Ninguém se perguntava nem quando, nem onde e nem por quê? Era somente a narrativa de uma historieta simbólica que tinha objetivo e função social no seio de um determinado grupo. Assim foi até que o cristianismo resolveu inovar, criando a sua divindade humanizada não mais no tempo mítico, mas no tempo histórico, no tempo onde normalmente se pergunta pelo quando, pelo onde e pelo porquê. E foi mais ousado ainda, pois havia concebido uma crença única para todos os grupos do mundo.

A doutrina cristã já veio com as respostas prontas, exigidas pelo tempo histórico, e tudo tem feito para que a sua origem “histórica” seja confirmada, isto é, a “história” da sua origem é parte da sua doutrina. Seguramente seus criadores estavam conscientes dos afazeres que isso implicaria às suas gerações futuras. Portanto, o cristianismo não foi trabalho de um grupelho. Certamente se iniciou assim, mas seus fundamentos encontraram acolhimento e continuidade porque partiam de uma consciência ampla que, no seu nível mais profundo, permaneceu oculta até Ludwig Feuerbach. Evidentemente, só mesmo uma identidade cultural muito forte seria capaz de dar sustentação a conhecimentos tão especiais, com a utilização de algo que contasse com respeito e a admiração do mundo helenizado – a filosofia. Foi ela a ferramenta da transformação.

Não foi por acaso que os membros da igreja patrística eram ligados à filosofia. Pelo fato de o cristianismo ser a primeira filosofia religiosa e ao mesmo tempo basear e constituir a cultura ocidental, ainda conta com significativa proteção no ambiente filosófico que permeia as atividades acadêmicas e é amparado pela cultura dominante. Isto não significa que não possam existir outras soluções para os domínios nos quais a religião se estabelece. Especificamente essa parte da história precisa ser passada a limpo e livrar-se das mentiras que só trouxeram constrangimentos a própria cristandade. A vara que não verga com o vento, acaba quebrando.

Os criadores da crença cristã não deviam ignorar que um dia a transposição da figura central - Jesus Cristo - do tempo mítico para o tempo histórico ia trazer problemas. Seria impossível convencer a todos, e todo o tempo, da sua frágil versão “histórica”. Esta lacuna da história ocidental que é preenchida pela bíblia, Novo Testamento, especificamente. Os crentes aceitam tal preenchimento como verdade histórica, devido o alcance sentimental desta filosofia religiosa séculos a fio. Outros também porque é a versão oficial e teve o apoio interesseiro de Engels, pois queria dar base histórica ao socialismo científico. Entretanto, os mais céticos, que não são poucos, querem ver esta lacuna preenchida com história e não com filosofia religiosa. Isto se considerarmos apenas o interesse histórico. Por que aceitar a utilização reversa da filosofia a reprimir o desejo de conhecimento?

Como um direito, eu não sou contrário às crenças religiosas. Trata-se de uma manifestação cultural como muitas outras. Todavia, quando esta específica manifestação se impõe sobre as demais, se arrogando num direito adquirido sob condições das mais discutíveis, oposição há de encontrar eternamente. Filosoficamente é possível se encontrar diversas justificativas por causa da plasticidade do pensamento e da habilidade mental de quem pensa. O antigo hábito da imposição de conceitos pela força, só começou encontrar dificuldades com o avanço da ciência e da tecnologia, por conseguinte, da economia e do progresso das comunicações. Não fosse isso, o mundo ocidental ainda estaria daquele jeito. O progresso tecnológico é algo imprevisível nos detalhes, ainda mais para os antigos, porém nunca como uma impossibilidade. Claro que aqueles que imaginaram o cristianismo não ignoravam o fato de que grandes transformações viriam com o tempo. A ausência de limites ao pensamento humano é perceptível às mentes mais primárias, ainda mais à mente de filósofos. Certamente, não havia ingenuidade na igreja patrística. A teologia da substituição que o diga.

A despeito de tudo, havia também a consciência das conquistas gradativas que caracterizam o aprendizado humano. Um projeto arrojado desse apresentava risco de encalhar numa das suas etapas por falhas dos seus continuadores, mas não tinha jeito. Durou muito até. Hoje, se encontra numa etapa difícil do crescimento do entendimento humano. Não se pode avaliar, como querem alguns, um movimento do porte e penetração do cristianismo, inclusive no tempo, como uma imbecilidade que deu certo, porque teve aproveitamento político de um estranho (Constantino). O cristianismo se propagou em todas as classes ao mesmo tempo praticamente, a partir do século II. Se imbecilidades estão pelo seu caminho, e sem dúvida alguma estão, talvez esteja nelas mais uma evidencia de genialidade, ou seja, a sugestão de uma origem popular que nunca existiu a confirmar a sua invenção histórica. Elaboração demais? Sim. Mas muitas circunstancias podem ter colaborado para isso. É o que se percebe, ao o analisarmos mais pelos seus acertos como uma obra política.

Há quem zombe dessa conclusão por considerar tudo fantástico demais (teoria da conspiração) até pelo trabalho de ter que reformular as próprias convicções, no entanto, crenças mais absurdamente fantásticas e diligentemente inventadas foram acolhidas por todos os segmentos das sociedades durante quase dois milênios. Junto com elas a mais absurda de todas: a crença de que o Homem precisa ser enganado para reagir positivamente. Mas, agora o prazo de validade, pelo menos desta crença, está vencido. Esse assunto desconfortável só está começando. Em nossa visão democrática ainda existem tabus e, para muitos, a liberdade de expressão deve baixar a cabeça a eles. Muito se têm apelado à responsabilidade social sob o argumento da intocabilidade devida aos bilhões de crentes, inclusive com a sugestão de censura à Internet entremeada de outros pretextos para disfarçar. As crenças religiosas que pretenderam o tempo histórico nunca se sentiram tão ameaçadas.

Defendo o estudo do cristianismo por todas as ciências com decisão, isto é, depurado das invenções e do receio de mágoas. É importante demais para que a pretensão ingênua de conservá-lo do jeito que está se sobreponha a necessidade de conhecermos em profundidade a nossa própria história. As religiões que se atreveram no tempo histórico terão de dar lugar às exigências do tempo que ora vivemos; tempo que elas mesmas consumaram. É impossível se fazer a omelete sem que se quebrem os ovos. 

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Tags: crença, filosofia, história

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Comentário de Ivani de Araujo Medina em 9 março 2012 às 6:47

Prezados Marcos,

É grande a satisfação de reencontrá-lo aqui no CH. Obrigado pelo comentário positivo ao meu modo de escrever. Aprendi muito com as suas indagações e vejo nesse nível de debate uma grande oportunidade para nós no aprimoramento do estudo dessa parte da história.

Suas discordâncias são preciosas, nem se preocupe. As nossas visões do problema - acredito que você admita a existência de um problema relacionado à invenção e ocultação de fatos - nos diferenciam na apreciação. Quando você diz que os criadores do cristianismo não teriam planejado uma religião milenar, sou obrigado a concordar contigo parcialmente. Mil anos comportam muita coisa. O cristianismo não foi traçado numa prancheta sobre papel milimetrado. Porém quando prossegue com a sua ideia a dizer que para eles o mundo não duraria tanto, pois acreditavam que o fim do mundo estava próximo, o seu enfoque deriva para a aceitação da versão oficial. Eu não aceito isto do mesmo modo porque é dissonante com os fatos. Interpreto essa conversa de fim do mundo como uma técnica de convencimento imediato. Não que seus criadores, de fato, acreditassem nela.

O cristianismo do século I é uma fantasia. Ele surge mesmo no século II pelas notícias dos seus contrários. Para o judaísmo o cristianismo é de origem pagã. Custa-me crer que os judeus mentem enquanto os cristãos dizem a verdade. A singeleza enternecedora a qual você se refere é grega, e não judia. O seu bom coração fala mais alto. Duas coisas diferentes seguem paralelamente nessa história. Cada um segue aquela que mais satisfaz aos próprios objetivos. Como eu digo no texto, a filosofia religiosa prevaleceu sobre a razão. Um especialista em mentiras disse algo muitíssimo interessante:

“Numa Grande Mentira há sempre uma certa força de credibilidade; porque as extensas massas de uma nação são mais facilmente corrompidas [...] e assim na primitiva simplicidade de suas mentes eles mais prontamente caem vítimas de Grandes Mentiras do que de pequenas mentiras [...]Nunca ocorreria às suas cabeças fabricar mentiras tão colossais e eles não podem acreditar que outros possam ter a imprudência de distorcer a verdade tão infamemente. Mesmo que os fatos que provem que tal foi o que ocorreu possam ser apresentados claramente às suas mentes, eles, mesmo assim, duvidarão, hesitarão e continuarão pensando que deve haver uma outra explicação.”  Adolf Hitler, Mein Kampf, vol I, ch X

Marcos, o que significa Velho e Novo Testamento? Significa que no século II os pais da igreja disseram para os judeus: daqui para frente o livro sagrado de vocês pertence a nós. Como foi mediante ameaça de força - o professor de direito é você – acho que isso se chama roubo. Era ou não uma conspiração contra o judaísmo?

Claro que os gregos tinham consciência dos séculos e das suas importâncias na sedimentação dos pensamentos. Comparativamente, imagino-os bem mais naturalmente cultores do que a maioria de nós pode ser hoje. Eu não tenho por que não priorizar os detalhes mais baixos em detrimento da singeleza da filosofia religiosa cristã. Esta é a nossa diferença básica no enfoque do assunto.

Saudações cordiais do Ivani

Comentário de Marcos Arruda Raposo em 8 março 2012 às 19:19

Prezado Ivani, 

Aprecio muito o que você escreve e a forma como o faz, objetiva, direta, corajosa.  Seus textos provocam, atiçam, quase exigem crítica, não é possível ler o que você escreveu e permanecer inerte.  Só por isso peço licença para acrescentar que os fundadores do cristianismo não teriam planejado uma nova religião para durar milênios.  Seus objetivos e seus horizontes seriam mais modestos e mais imediatos, até porque não pensavam que o mundo durasse tanto, acreditavam que o fim do mundo estava próximo.  Se lermos as cartas atribuídas a Paulo, por exemplo, que pobreza!  Ninguém que pensasse em termos de séculos e milênios escreveria coisas tão banais e de aplicação tão imediata.

Aí é que caimos na velha discussão: será verdade que um texto é só metade obra de seu autor, sendo a outra metade obra do leitor?  Quem disse isso foi Montesquieu, foi Descartes, quem foi? - me ajudem.  Os textos do cristianismo, lidos com isenção, são de uma singeleza enternecedora.  Extrair deles uma filosofia que servisse aos viventes da época foi, sim, a obra inicial.  Porém, extrair deles algo que dura séculos, milênios, não pode haver sido obra de gente que vivia nos primeiros séculos.  Foi obra continuada, de gente que reinterpretou tudo várias vezes, ora num sentido, ora no outro, ao sabor das necessidades de cada século.  Gente que continua a fazer isso hoje, debaixo de nossas barbas.  Pelo menos das minhas, que as tenho...

Saudações cordiais do Marcos.

 

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