A morte, o paraíso e o inferno - representações do sobrenatural na Idade Média

WEYDEN, Rogier van der
The Last Judgment Polyptych


"Para o analfabeto, que durante a Idade Média constituía a grande maioria da população, as imagens pintadas nas paredes das igrejas eram tão
importantes quanto o sermão proferido do púlpito, pois aí estavam
claramente representados o Céu e o Inferno, Cristo e os Apóstolos, a
Virgem Maria e os Santos."


Como podemos observar na Citação acima de H. R. Loyn, eram nas pinturas medievais que estavam as mais ricas representações do sobrenatural e as
quais os fiéis tinham acesso e compreendiam na visualização toda a
mensagem retratada por de trás das imagens.


A iconografia representava o principal meio de divulgação da mensagem cristã que marcou o período medieval, toda a mentalidade de uma época
foi fortemente estigmatizada pelo pensamento cristão.

A morte representada como algo que o indivíduo deveria de aceitar, respeitando-a e procurando a salvação que encontraria no pós-morte, um
rito de passagem, uma cerimônia que envolvia além do morto, todos que a
ele rodeavam quando vivo, no entanto, a morte também ganhou ares
sombrios durante a Idade Média, as pestes e a fome contribuíram para
que a representação da figura da morte adquirisse tons macabros. Ela
representava um encontro inadiável com o sobrenatural, com o
desconhecido.

COSTA, Lorenzo the Elder
The Triumph of Death

O medo generalizado dos mistérios além da vida eram confortados pela promessa cristã da eternidade e do paraíso, no entanto havia também o
inferno e a promessa do sofrimento eterno aos pecadores. A Igreja
inverteu os papéis sociais e a hierarquia predominante na terra,
pregando que os últimos seriam os primeiros e as crianças viriam antes
dos adultos, era um reflexo invertido da sociedade da época o que
atemorizava os ricos e contribuíam para que os miseráveis aceitassem
sua condição servil.

"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.
E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.
Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.
E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus."
(Mateus 19:21-24)


BOSCH, Hieronymus
Death and the Miser


"A morte nos faz cair em seu alçapão,
É uma mão que nos agarra
E nunca mais nos solta.
A morte para todos faz capa escura,
E faz da terra uma toalha;
Sem distinção ela nos serve,
Põe os segredos a descoberto,
A morte liberta o escravo,
A morte submete rei e papa
E paga a cada um seu salário,
E devolve ao pobre o que ele perde
E toma do rico o que ele abocanha."
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII, 1996: 50, vv. 361-372)

ANDREA DA FIRENZE
Way of Salvation

A salvação do homem, portanto, estava no seu caminho, sua peregrinação durante a vida, era na conversão de seus pecados que o homem
encontraria sua salvação, voltaria ao paraíso, porém, este Éden não
estava mais para o homem nesta vida, após a Queda e a expulsão do
paraíso o homem somente poderia voltar a ele após a morte, vista aqui
como uma viagem da alma, uma transição, uma ponte, a ligação com o além.

BALDUNG GRIEN, Hans
Eve, the Serpent, and Death


"Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da
vida, e coma e viva eternamente,
O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.
E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o
caminho da árvore da vida."
(Gênesis 3:22-24)


BOUTS, Dieric the Elder
Hell

As almas não salvas e que viveram o pecado na terra aguardavam os sofrimentos eternos, o Inferno portanto era um lugar de dor e as
punições que aguardavam o pecador permeavam o imaginário coletivo da
medievalidade fazendo com que nas representações em pinturas e outras
imagens a imaginação ganhasse asas, monstros, demônios e torturas
incalculáveis aguardavam o ex-vivente.

ANGELICO, Fra
Last Judgement (detail)


BOSCH, Hieronymus
Last Judgment (fragment of Hell)


"E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo."
(Mateus 10:28)


Portanto as representações do sobrenatural na Europa medieval estão intimanente ligadas ao pensamento cristão e este por sua vez está intrínsecamente
ligado à iconografia, as imagens faziam a vez da escrita e ilustravam a
maioria da população analfabeta o que lhes esperava no além-túmulo.


Fontes e Referências:

ARIES, P. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos Dias. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977.

Bíblia Sagrada. Correção e revisão: Almeida. 1994

LE GOFF, Jacques. O Imaginário Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.

LOYN, Henry R. (org). Dicionário da Idade Média. tradução, Álvaro Cabral; revisão
técnica, Hilário Franco Júnior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

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Exibições: 1834

Tags: história, idade, imaginário, mentalidade, média

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Comentário de Célio Roberto Pereira em 1 março 2010 às 9:40
Também tenho algumas obras de Pieter Brughel como referência, são de uma riqueza de detalhes impressionante!
Comentário de Daniel Carvalho em 27 fevereiro 2010 às 10:05

Comentário de Daniel Carvalho em 27 fevereiro 2010 às 10:01
Muito bom, a idéia da "educação iconográfica" me faz lembrar da importancia daquelas iluminuras que estavam em todos os livros antigos. De como a imagem pode ser melhor assimilada por aquela população.
Mesmo não fazendo parte do período medieval me lembro sempre de o "Triunfo de Morte" de Pieter Brughel como metáfora para o fato de a morte sempre alcançar qualquer pessoa seja rei ou camponês.

Comentário de Célio Roberto Pereira em 26 fevereiro 2010 às 16:08
Valeu Bruno, olha que escrevi ele já a alguns dias lá no blog!
Comentário de Bruno Leal em 26 fevereiro 2010 às 15:51
Olá, Célio! Seu post é super pertinente com a chamada do Café História de hoje!!

abs!

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