
A discussão sobre a questão da norma e do ensino da língua não pode ser resolvida sem levar em consideração este aspecto fundamental: a língua é expressão de um povo. É unânime a comunidade científica quando diz que o grupo social manifesta seu pensamento e sua visão do mundo por meio da sua língua, ou seja, como disse Martinet, o pensamento não pode existir sem a língua (Martinet, 1970:9).
Em todas as circunstâncias, e independentemente de seu nível escolar, o homem pensa primeiro na língua que fala e é através desta que ele transmite seu pensamento. Negada a possibilidade de expressão pela língua falada na sociedade - porque não corresponde à língua de comunicação oficial - limita-se o pensamento. O discurso do homem permanece a nível do solilóquio, das relações familiares ou da vizinhança. A sociedade perde assim a oportunidade de, talvez, aprender dele um pouco de sua mundividência, um pouco dela mesma. Se a língua de comunicação, oficial e ensinada, é muito diferente da língua falada, ela introduz confusões na expressão e, simultaneamente, no pensamento: o homem não pode pensar de maneira clara e lógica. Em conseqüência, a sociedade perde outra oportunidade que é aumentar suas capacidades de conviver em harmonia com o mundo, físico e humano, e desenvolver-se. Em outras palavras, a língua que não permite a completa expressão do pensamento do homem não é representativa da sociedade a que ele pertence; ela cria uma situação contrária aos interesses da mesma sociedade.
É sem dúvida o que acontece no Brasil e é provavelmente por essas razões que não existe, como lamentou, entre outros autores, Regis de Morais, “uma produção filosófica brasileira” (Morais, 1989:30). Também podemos ver nisso causas parciais à impossibilidade que tiveram Carlos Guilherme Mota e Dante Moreira Leite, após minuciosos estudos, de definir a cultura brasileira e o “caráter nacional brasileiro” (Mota, 1994; Leite, 1992). E, de maneira mais ampla, podemos aplicar ao Brasil o que disse um dirigente africano a respeito das relações entre língua francesa e línguas nacionais: “Negar [estas] línguas e o papel que podem e devem jogar, reduzi-las ao nível de sublínguas, veículo de subcultura para subclasse, lugar de uma dupla alienação e de uma dupla marginalização, é negar à África toda possibilidade de desenvolvimento específico, é retirar-lhe o direito à palavra” (Bal, 1979:247).
Em suma, a inadequação formal entre a língua oficial e ensinada e a língua falada, dificulta a criação, o desenvolvimento, a expressão e a divulgação do pensamento brasileiro e, de maneira mais ampla, de toda a cultura brasileira. Como, nessas condições, não acreditar na necessidade de reformas na língua oficial do Brasil?
Você precisa ser um membro de Cafe Historia para adicionar comentários!
Entrar em Cafe Historia