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Falar sobre o passado, discutir momentos importantes que marcaram nossa civilização, nossas culturas e sociedades sem duvida são elementos que nos levaram a optar pela carreira de historiador. Mas é verdade também que para todos nós, em algum momento de nossa vida, houve um professor de história que veio validar essa escolha.

Comigo não foi diferente. Além do encantamento de discussões sobre tempo, memória e cultura oferecidas pelos estudos históricos , tive professores sensacionais que me fizeram ter certeza de minha escolha. E estou falando de professores do Ensino Fundamental e Médio.

Hoje, já depois de algum tempo de formado em História, continuo guardando esses professores em um lugar muito importante do coração. Suas lições e conhecimentos foram deveras valiosos. Mas hoje tenho um dever ético de ser crítico em relação ao ensino de história. E por isso, preciso admitir que hoje eu preciso ser um professor muito diferente dos professores de História que eu tive.

Meus antigos mestres (e sei que muitos novos mestres seguem o mesmo caminho) tinham uma visão dogmática da História. Sempre tinham na ponta da língua a resposta para "o que é História". Sempre souberam muito rapidamente me dizer quem tinha razão e quem não tinha nas "lutas históricas". Eles sempre diziam que o mundo é muito mais amplo do que um mundo divido entre "bons" em "maus". Mas quando ensinavam história era quase sempre por meio dessa divisão. Mas esse "engajamento" era o que fascinava a todos. Inclusive a mim. Eu confundia história com ativismo, assim como eles. Eu confundia "gostar de história" com "ser indignado", com eles. Para mim, bem como para eles, aprender história era aprender mais sobre as injustiças e a partir desse conhecimento começar revoluções.

Há alguns anos eu penso História de forma diferente. Tenho muito mais dúvidas sobre aquelas falas quase decoradas. Tenho dúvidas sobre a dicotomia do pensamento. Não sei responder ao certo o que é História. Se sei de algo é que História não é partido, ideologia, agressividade ou potência de combate social. História - e isso posso dizer sem medo de errar - é para mim uma grande diversão, uma forma de reflexão que faço sobre mim mesmo, meus colegas e minha sociedade. Olhar para o passado não explica meu presente. Mas me ajuda a compreender as rupturas e continuidades do tempo. Me ajuda a compreender as diferenças e semelhanças entre os homens, me ajuda a compreender acima de tudo um pouco mais do gênero humano. Hoje não vejo mais a História como processo, mas como uma experiência social que engendra alguns processos, os quais sempre temos que desconfiar, pois embora eles tenham alguma ordem e lógica, também são suscetíveis àquilo que nos faz humanos: a contingência.

Pensar "História" tão diferente de meus antigos mestres não me faz triste ou querer apagar essas referências. Mas pelo contrário: penso que é um dever meu enquanto ex-aluno.

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5 Comentários

Claudia Lessa Comentário de Claudia Lessa em 2 julho 2009 às 22:24
Não sou historiadora nem professora. Sinceramente ainda não descobri "o que quero ser quando crescer", e até esse dia chegar, vou amargando meus dias como assistente administrativo. Descobri este site ontem, justamente procurando por um professor de História que tive, que ocupa "um lugar muito importante do coração".
Ah coração... Se eu tivesse ouvido o meu coração, teria cursado História, e no mínimo, teria mais conhecimento sobre acontecimentos que ajudam "a compreender as rupturas e continuidades do tempo."
Kell Dacosta Comentário de Kell Dacosta em 14 janeiro 2009 às 12:51
Olá Bruno, boa tarde!!!
Li sua consideração a respeito de história, e ... como se parece com os pensamentos atuais... Pois já é tempo deste trabalho engessado, decorado, ser repensado, onde se sabe o começo e o fim, onde os ditos maus e os bons estão sempre em lados opostos, numa competição sem fim, onde ao meu vir, todos saem perdendo. Entretanto, ainda precisamos recorrer a alguns métodos, afim de atingir nossos objetivos: monografia, dissertações, teses...
Se bem que quando escolhi história, e isto foi lá pelo ensino médio, estava em mente, fazer parte de alguma movimentação social e até mudar a sociedade. Porém, quando entrei no curso, já tendo passado por outros caminhos e com isto adquirido algumas marcas, percebi algo que estava bem óbvio e poucos percebem: somos nós de forma individual que devemos mudar. Não é o mundo que muda, quem tem esta função somos nós que o construimos e portanto, temos o poder de destruir ou desconstruir, para quem curte os eufemismos.
E quanto a contingencia... Somos prática constante disto.

Abrajos
Marcelo Angra Comentário de Marcelo Angra em 21 dezembro 2008 às 23:19
Estou certo de que nossas mentalidades (como educadores) não trabalham em favor de uma irresponsabilidade científica (ao menos a grande maioria de nós...), portanto, as palavras de Bruno são de um grande valor. Apesar de termos sido educados com esmero, carinho e paciência inesquecíveis, temos que reconhecer a nossa grande responsabilidade em ensinar história hoje. E, Bruno, a palavra CONTINGÊNCIA foi magníficamente bem escolhida por você! É isso aí mesmo! Abraços.
Domitila Madureira Comentário de Domitila Madureira em 21 dezembro 2008 às 20:23
Muito bem, Bruno, continue ousando. "Toda unanimidade é burra" (N. Rodrigues). Receba meu cordial abraço.
Maria do Socorro Pinheiro Moura Comentário de Maria do Socorro Pinheiro Moura em 21 dezembro 2008 às 14:02
Bruno, compartilho um pouco de suas idéias sobre o que seja História. De uma coisa hoje tenho convicção: considero história uma disciplina das mais importantes. Quem não tem nenhum embasamento sobre a história enquanto disciplina tem um conhecimento deficiente. Estudar história, fazer diferenças sobre as teorias, posições ideológicas de historiadores, metodologias, etc, etc, não é uma coisa simples. Escrever história é uma grande responsabilidade. Ao me ver. Gostaria de ter mais tempo pra tentar ser uma historiadora de fato e me aprofundar nessas questões. É função dos historiadores lutar pelo espaço que a história deve ter para melhor formação dos indivíduos e do povo em geral.

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SANGUE NEGRO

Virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um mineiro de minas de prata derrotado, que divide seu tempo com a tarefa de ser pai solteiro. Um dia ele descobre a existência de uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando do solo. Daniel decide partir para o local com seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a única diversão do local é a igreja do carismático pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos.

Livremente inspirado no romance "Oil!", escrito em 1927 por Upton Sinclair (1878-1968), Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) foi muito bem aceito pela crítica, sendo comparado, inclusive, com o clássico "Cidadão Kane". Dirigido por Paul Thomas Anderson, um dos mais cultuados diretores americanos dos últimos anos. Trata-se de um filme épico, que discute temas como poder, fé, família e o paradoxo de ter tudo e nada, ao mesmo tempo.

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