A História da Amazônia é bem pouco conhecida, principalmente, quando estamos nos referindo às regiões brasileiras economicamente mais ricas. A ótica chega a ser bem negativa quando há um registro referente aos estados da Região Norte.  O que nos faz lamentar! Portanto, a proposta deste ensaio é expressar um pouco da história regional amazônica e fazer sua inserção no contexto nacional, comparando às necessidades prementes em todas as cidades capitalistas no início do século XX. Falemos, então, sobre a Borracha, a riqueza que produziu a Belle Èpoque. Comecemos explicando a maneira como a borracha era explorada.

    O SISTEMA DE AVIAMENTO

      A exportação da borracha representou o mais importante ciclo econômico da Amazônia. A seringueira (hevea brasiliensis) encontra na Amazônia o alto grau de sua concentração natural. Os nativos da região utilizavam o látex extraído dessa árvore na fabricação de diversos artigos de uso próprio, fato que foi observado por naturalista estrangeiros em suas viagens exploratórias pela floresta tropical, daí levarem amostras para análise e estudos, o que resultou em sua transformação em uma das mais importantes matérias-primas industriais.

            Para que a borracha produzida atendesse às pressões da demanda era preciso superar alguns problemas: falta de mão-de-obra, precariedade no setor de transporte e disponibilidade de capital. Para solucionar o problema da mão-de-obra, tentou-se a imigração estrangeira e nordestina. Foram, porém, os nordestinos, vítimas da seca, que vieram padecer as febres, enfrentar a hostilidade de uma região selvagem em todos os sentidos, até na ganância desumana do proprietário do seringal, cuja primeira preocupação era explorar o máximo e pagar quase nada ao trabalhador. A questão do transporte foi dinamizada com a introdução da navegação a vapor, o que reduziu em muito o tempo das viagens e possibilitou ligações mais freqüentes entre os pólos de produção e comercialização da borracha. Quanto ao capital, ele veio na forma da participação estrangeira nas casas de crédito e comércio em Belém e Manaus, e na instituição do aviamento, sistema de crédito no qual o dono do seringal (seringalista) financiava o extrator da borracha (seringueiro), oferecendo bens vendidos no barracão, que permitiam o seu sustento e de sua família, em troca da borracha produzida. O dono do seringal, por sua vez,  era financiado pelas casa exportadoras de borracha, sediadas na capital. Esse sistema causou dívidas dos seringueiros, presos a intermináveis listas de compras no “ barracão”.

A grandiosa produção de caráter rudimentar da borracha e a exploração desumana do seringueiro, praticamente escravos do seu trabalho, mostram o lado miserável de um “fausto” que não trouxe novos investimentos produtivos, ou na melhoria da técnica do cultivo da seringueira, no beneficiamento do produto natural ou na criação de fábricas que, utilizando aqui mesmo o látex produzido nos seringais, o transformasse em bens industrializados. Após o auge da produção, até 1910, houve a prática da contrabando de mudas por ingleses, que pacientemente estudaram o vegetal transformando-o em mudas aclimatadas em suas colônias na Ásia (Malásia). Logo, toneladas de borracha racionalmente cultivadas inundaram o mercado, com uma produção mais barata e de melhor qualidade.

 

                             A REURBANIZAÇÃO DE BELÉM

 

        Um sonho francês na floresta tropical, define bem a época da Belle Époque em Belém e em Manaus. Se de um lado a mão-de-obra empregada na exploração da borracha mostrava o lado miserável e que nem tudo era luxo e fantasia neste contexto; do outro, temos duas cidades que viviam um frenesi provocado pelas riquezas oriundas desta economia.

         A borracha produziu a Belle Époque na Amazônia e impôs um modelo europeu de urbanização no início do século XX. Belém evoluiu rapidamente, reforçando o discurso da época: progresso e civilização, amplamente defendido pelos governadores republicanos a partir de 1889. Ruas arborizadas, avenidas calçadas, prédios em estilo neoclássico ou art noveau espalhavam o clima de modernidade que refletia o ritmo das exportações e se desdobrava, ainda mais na arquitetura e no comportamento social. Destaque é dado à administração de Antônio Lemos, comprometido com os valores burgueses dos grandes comerciante empresários. Lemos idealizou e concretizou uma urbanização disciplinadora  quando implementou obras de infra-estrutura e saneamento: reformas de cemitério, construção de hospitais e asilos, caixa d’águas, mercados, matadouros, usina de lixo, jardins, bosque, horto, iluminação elétrica, bondes e praças com traços europeus. O processo de modernização, aparentemente harmonioso e coletivo, escondia uma triste realidade, quase sempre não revelada em obras urbanísticas de grande porte, o submundo da prostituição, mendicância e o crescente número de vendedores ambulantes, que comprometiam a imagem da Belle Époque.  Nos Códigos de Posturas de Lemos, os populares eram obrigados a retirar-se de centro da cidade para as áreas periféricas, na época surgiram bairros como Umarizal, Cremação, Pedreira, Marco e São Braz, entre outros. Também introduziam um controle do comportamento dos habitantes, quando implicavam em proibições como tomar banho e lavar roupa nos córregos urbanos. Ideologicamente falando, o saneamento da pobreza era executado para a burguesia reinar. Mas, apesar de todo o controle social e a disciplina urbana os populares continuavam tramando suas estratégias de resistência.

 

 

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Tags: Belle, borracha, reurbanização., èpoque.

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Comentário de Bruno Leal em 1 outubro 2012 às 16:56

Muito bacana!

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