A Ambiguidade de Millôr Para Reflexo e Reflexão (1924 - RJ - 2012)

RETRATO 3X4 DE MILLÔR

Millôr Fernandes nasceu indefinido e viveu como livre pensador humorista cartunista. Virou Emmanuel Vão Gogo. Permaneceu Millôr. Seria Milton se não fosse a invenção de o T ser confundido com um L e por ficar um pouco estranho, o O foi enfeitado com um acento circunflexo e o N do Milton foi apagadinho para  um R, o que acabou sendo descoberto por Milton aos 17 anos e achou bom ser Millôr.

Suas datas de nascimento são: 16 de agosto de 1923 ou a mais aceita: 27 de maio de 1924, no Rio de Janeiro, portanto, aos 88 anos de idade, na noite de 27 de março de 2012 ele deixa o rastro de sua presença na passagem pelo nosso planeta, muito ao seu modo, centrado no tempo atual dos fatos: via satélite na Internet, no seu site na teia criado em 2000

BIOGRAFIA DE MILLÔR NO WEBSITE

http://www2.uol.com.br/millor/aberto/biografia/index.htm

Órfão de pai quando tinha 1 ano de idade e de mãe aos 10 anos, foi separado dos quatro irmãos, cada um foi dado a alguém, e muito cedo descobre a injustiça da vida e fica de mau com Deus, se declara sem crença, (no entanto, aos 28 anos já em viagem jornalística a Israel, quis ser batizado por um ministro brasileiro da comitiva, nas águas do Rio Jordão). Mas, o tempo passa e Millôr anda nos caminhos do saber e do conhecimento, mesmo que o acompanhem pela vida toda, cenas da infância em que um bife na casa do tio, era dado aos primos e a ele não.

Aos 14 anos começa a estudar desenho no Liceu de Artes e Ofícios (da Sociedade Propagadora das Artes, fundado no Rio, em 23 de novembro de 1856 pelo arquiteto Bethencourt da Silva). Exerceu atividades de jornalista, escritor em prosa e verso, dramaturgo, desenhista, tradutor (sobretudo das obras de Shakespeare), cartunista, e humorista, mas, foi na verdade, um pensador humorista.

Millôr escrevia seu humorismo com a pureza de uma redação de criança. Nos mais engraçados textos ele começava com o artigo definido (tão condenado pela técnica redacional), detalhista, indicativo, real e verdadeiro como o que ele queria dizer.

Famoso, nos idos de 60, pela sua coluna “É...” na revista O Cruzeiro. Conta que seu apartamento no 4º andar na Vieira Souto, antes local de elite, quando comprado em 1954, hoje é um local (antro) ideal para um sociólogo amador. Eis a questão: tudo da ambiguidade de Millôr fica para reflexo e reflexão, que o leitor e teleleitor bem entenderem.

 

ALGUNS DE SEUS LIVROS:

Tempo e Contratempo – 1954

A Verdadeira História do Paraíso – 1972

Trinta Anos de Mim Mesmo – 1972

 

PEÇAS DE TEATRO

• 1950 - Do Tamanho de Um Defunto
• 1951 - Uma Mulher em Três Atos
• 1955 - Pigmaleoa
• 1958 - Bonito Como um Deus
• 1960 - Um Elefante no Caos
• 1960 - Pif-Tac-Zig-Pong
• 1963 - Flávia, Cabeça, Tronco e Membros
• 1965 - Liberdade, Liberdade (com Flávio Rangel)
• 1965 - O Homem do Princípio ao Fim
• 1967 - A Viúva Imortal
• 1968 - Momento 68 - Show Rhodia
• 1968 - Do Fundo do Azul do Mundo - Show (interpretado pelo autor, Elizeth Cardoso e Zimbo Trio)
• 1969 - Mulher, Esse Super-Homem - Show Rhodia
• 1970 - Computa, Computador, Computa
• 1976 - É...
• 1977 - A História é Uma Istória
• 1978 - Duas Tábuas e Uma Paixão
• 1979 - Bons Tempos, Hein? - Show (para o MPB4)
• 1980 - Os Órfãos de Jânio
• 1983 - O MPB4 e o Dr. Çobral Vão em Busca do Mal - Show
• 1984 - De Repente (Texto para musical de Arthur Moreira Lima)
• 1995 - Kaos (inédito)

 

RETRATO 3X4 DE JAGUAR POR MILLÔR

"Primeiro de uma série de retratos que, durante anos, fiz de grandes amigos, profissionais do mesmo racket: Jaguar, Ziraldo, Ivan Lessa, Nássara, Fernanda Montenegro, Jô Soares, Fortuna, etc. As palavras e as construções são usadas de modo escorregadio, com sentido às vezes ambíguo, às vezes permitindo o reflexo e a reflexão que o teleleitor bem entender.

Jaguar tem dois lados, o lado de lá de tarde bate sol, por isso é que sua fisionomia é toda contra-luz. Movimenta-se em vários sentidos, três deles completamente neutros, nem por isso, porém, impraticáveis. Usa bigode, mas não se vê. É patriota contratado esperando efetivação. Com as suas mãos conseguiu executar uma terceira que usa para os melhores desenhos que faz. É casado mas não acredita no inferno. Às sextas-feiras, às vezes entrando pelo sábado é apocalíptico. Em dias de alegria fica triste mas esconde isso sob tal tumulto que sempre recebe o troféu alegria da festa. Tem uma filha cor de rosa e um filho verde, nascido misteriosamente em Pirassununga, alguns anos atrás, quando um OVNI baixou por lá.
Agora, quanto ao câncer, é a favor. Seus melhores amigos estão nas linhas transversais, mas não se importa; de vez em quando desenha um com aquela espada. Pratica-se diariamente, por isso é que é tanto. Tem degraus, setenta e oito ao todo, mas está pensando em instalar elevatória. Grande coração, as dimensões do qual têm sido até exageradas pois não transplanta. Da ponta do pé ao topo da cabeça vai toda a sua altura, mas nem isso o diminui. Reto quando a prumo, se curva todo ao menor elogio contrário. Tem olhos azuis, com os quais procura disfarçar seus estranhos óculos redondos. Modelo de pai, tem sido escolhido sempre como mau exemplo. Sua diversão preferida é ficar todo torcido diante dos espelhos que distorcem e fundir a cuca dos espelhos. Qualquer balança porém logo o desequilibra. No Banco do Brasil é considerado um funcionário bárbaro porque por onde ele passa não cresce a grana.
Se levanta com o sol: o difícil é ir deitar lá em cima da montanha da Gávea às quatro da manhã, depois de um pifa. Não fuma, mas, zangado, deita fumaça. Túnel Rebouças foi apenas durante quinze dias, pois detesta ar encanado. Quanto a Ipanema, diz sempre com orgulho: "I am a Banda". Tem trinta e seis anos, o que fica muito bem na sua idade. Como o vidro, é eternamente jovem, a não ser que o arranhem. Embaça um pouco, em dias de maresia interior, mas basta uma flanela e de novo ele brilha e reflete. Costumo lhe dizer: "Com teu talento, Jaguar, eu não estaria aqui. Estaria em cana, nos Estados Unidos."

PENSAMENTO DE MILLÔR

"A gravidade é a negação da vida desde o começo dos tempos"

"Prudência: E devemos sempre deixar bem claro que nenhum de nós, brasileiros, é contra o roubo, somos apenas contra ser roubados"

"Não é apenas o orgulho que cai quando caimos mas toda a nossa segurança interior"

"Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é a oportunidade que os outros aproveitam" - Millôr Fernandes, pseudônimo Emmanuel Vão Gôgo

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Comentário de Bruno Leal em 1 abril 2012 às 10:25

Vamos sentir muita falta...

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