Corria o ano de 1179, fria e nebulosa era a manhã. Nos seus agasalhos aconchegado, o santo padre, que de santo só tem o nome, passeava meditativo, tinha que resolver um problema na longínqua Ibéria, os Portucalenses, descendentes dos Lusitanos que outrora tinham combatido os romanos e derrotado por diversas vezes a César, estavam a criar problemas e situações embaraçosas, queriam formar o seu reino e lutar contra a mourama que ocupava terra cristã.
Mas o rei de Leão e Castela, poderoso e ávido daquelas terras, opunha-se, tinha mais poder e era mais interessante para os jogos políticos que Alexandre III executava em nome da santa igreja.
É verdade que em 1143 Portugal já fora reconhecido como País independente por Afonso VII, pelo tratado de Zamora, mas este reconhecimento escondia o desejo de Afonso VII se tornar imperador da Hispânia e tomar Afonso I de Portugal seu vassalo.
Desejo inocente para quem pensou que Afonso I de Portugal se tornaria vassalo.
Enquanto percorria os corredores ladeados de pedra fria, envolto em pensamentos de questões terrenas, tocou de leve no crucifixo pesado, ouro e pedras preciosas ornavam o corpo macerado de Cristo e um arrepio percorreu o seu corpo. Com um desvio brusco de sua cabeça desviou o pensamento espiritual que no momento o ocupou e novamente se embrenhou na questão política: que anseio leva o espírito humano a gritar liberdade e a lutar pela sua identidade?
Bem, se esse povo, com tanto ardor defende a terra que é sua e quer libertar a terra cristã ocupada pelos infiéis desde séculos, seja declarado e reconhecido o reino de Portugal e Afonso Henriques seu Rei, vassalo da Santa Igreja.
Assim nasceu Portugal…

Bula Manifestis Probatum.
A Bula rezava assim (em português actual):
Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, Ilustre Rei dos Portugueses, e a seus herdeiros, in perpetuum. Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendemos às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te fervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos S. Pedro e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico magistério.
Alma Lusa

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Tags: História, de, portugal

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Comentário de Ricardo Martins em 18 outubro 2008 às 5:42
Cordial abraço Domitila.
Comentário de Domitila Madureira em 18 outubro 2008 às 5:34
Obrigada, Ricardo. Mas meu nome é DOMITIL-A.
Cordial abraço.
Comentário de Ricardo Martins em 18 outubro 2008 às 3:45
É verdade, mas estamos a falar de um termo gramatical que na altura não se utilizava, embora o conceito seja o mesmo. Os Portugueses de "antanho" eram Portucalenses, habitantes da região entre Douro e Minho chamado Condado Portucalense, com idioma próprio mas muito perto do Galego, dai o Galaico-Portugês. A Ibéria sempre teve povos muito muito aguerridos e independentes, embora com cultura muito similar. A frase que escrevi com o termo identidade tem por finalidade o tempo mais actual, o texto serve de "moldura" e embora com base real é ficção.
Um bom fim de semana Domitilia.
Comentário de Domitila Madureira em 17 outubro 2008 às 19:52
Oi Ricardo, bonito texto. Só tem um porém... "identidade" é um conceito do século XX. Os habitantes do reino português então podiam se reconhecer como semelhantes de algum das três ordens, podiam se entender como minhotos, trasmontanos, como cristãos ou conforme o senhor a quem deviam vassalagem, mas não se discutia a questão de identidade que foi introduzida pela psicanálise.
Cordialmente,
Domitila Madureira

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