
então abro os olhos todos os dias e observo as coisas, respiro o ar profundamente. abro os jornais da burguesia, acesso os sites da contra-informação, leio os panfletos dos movimentos sociais. no ar um aroma inconfundível de sentimentos plasmados, perplexidades entre os dentes, incertezas e angústias típicas do mundo moderno. a hipnose da velocidade de mãos dadas com a devastação sócio-ecológica do capitalismo tardio.
e os discursos dos arautos do estabelecido é cada dia mais canastrão, cada dia mais conscientemente cínico. os bispos e papas do mercado adocicam-se com termos falsos, emprenhando a barriga da falsa consciência coletiva. espalham sua “democracia” como um câncer imperialista mal disfarçado. as justificativas para o “uso da força em defesa da liberdade” são patéticas.
e a grande mídia não perfura nada, não mostra estrutura de nada, não busca causas em nada. remexem a mistificação, a alienação, e jogam goela abaixo. a história é devidamente matada, com auxílio de teorias fashion dos filósofos pós-modernos. a ciência continua servindo ao poder. o pensamento crítico é sufocado.
mas há brechas, ainda que mínimas. o aparato da indústria cultural é extremamente hábil na seleção, diluição, distorção de movimentos e idéias contrárias. todos se expressam, mas as massificações, os monopólios de mídia ou as mistificações do jornalismo hegemônico erguem-se como um muro alto, cheio de vidros e arames farpados. e se as idéias/movimentos começam a ganhar força, maior notoriedade, os leões-de-chácara do estado – polícia, forças armadas – não fazem cerimônia em usar a repressão.
o fluxo de contra-informação, de discursos desmistificadores, de pensamento critico não pode cessar diante da torrente caudalosa do sistema de informações dos grupos hegemônicos. rachaduras no próprio meio – como a internet – devem ser constantemente esgarçadas. fluxo que deve ser acompanhado por práticas, ações diretas, protestos, pressões, desobediências civis... vida que pulsa.
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Publicado originalmente em
katonigra, em junho/06.
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