
No alto do Monte Parmasso, junto de outras musas ela vivia. Com uma beleza esplendida tinha em suas mãos o estilete da escrita e a trombeta da fama. Entre as outras musas Clio, a musa da História, filha de Zeus, o deus dos deuses e Mnemósine, a deusa da Memória. Como sua mãe estava dentro do campo do passado, este que pode ou não ser lembrado e narrado.
O mundo de Clio passou e passa por diferentes modificações a cada dia, transformando-o em cada vez mais complexo e envolvente. A História Cultural, hoje é o novo mundo de Clio. Um mundo de teias envolvidas pela cultura, como define Pesavento, trata-se pensar a cultura como um contíguo de significações divididas e construídas pelos homens para explicar o mundo (PESSAVENTO, 2003, p. 15).
A mudança da direção dos olhos de Clio para explicar o mundo, começou por volta da década de 90, que é considerada a marca verdadeira da mudança de olhares. Mas se formos um pouco antes teremos marcas na história que foram fundamentais para essa virada, a crise de maio de 1968 pode ser um exemplo claro, pois aí tínhamos a luta dos jovens em busca de cultura.
De acordo com um dos autores mais consagrados da história cultural hoje, Roger Chartier, a história cultural se constitui através da critica de três principais autores: Franco Venturini que denunciava o apagamento da força criativa das novas idéias em proveito de simples estruturas mentais sem dinamismos e originalidades (VENTURINI, 1970); Carlo Ginzburg que recusava a noção de mentalidade por três razões: a insistência exclusiva em elementos inertes, obscuros e inconscientes das visões do mundo; em seguida, porque pressupõe indevidamente a partilha das mesmas categorias e representações por todos os meios sociais; e pela aliança com os procedimentos quantitativos e seriais que em conjunto retificam os conteúdos do pensamento (GINZBURG, 1976); e por último Geoffrey Lloyd que endureceu mais ainda a critica, postulando dois essenciais da história das mentalidades: de um lado atribuía a sociedade inteira um conjunto estável e homogêneo de idéias e de crenças; por outro, considerava que todos os pensamentos e todos os comportamentos de um indivíduo são governados por um estrutura mental única (CHARTIER, 2006, p. 32).
Hoje a Musa da História, Clio, vive em um mundo sem fronteiras e limitações. Esta que está inserida na cultura, não estando mais obrigada a obter certezas e nem considerar verdade o que está contido nos documentos. Neste mundo, a história escrita hoje pode ser mudada amanhã, dependendo da visão de cada historiador, da sua linha historiográfica, a cultura será vista de formas diferentes. Podendo assim ser interpretada de diferentes ângulos, como a se a escrita da história do mundo estivesse tendo a visão através de um caleidoscópio.
A história cultural é uma multiplicidade de objetos, de domínios e de métodos; uma articulação entre objetos que comunicam os processos de apropriação; a multiplicidade de sentidos que se produzem a partir dos processos de apropriação, fazendo com que a escrita seja dependente da interação e intuição de cada leitor perante o objeto em estudo.
Os objetos de pesquisa para a história cultural são os mais diversos possíveis, estando esses inseridos na teia da cultura. Podendo ser analisados individualmente, mas sem que haja o distanciamento do meio, um objeto jamais pode ser analisado sozinho, pois como já foi dito tudo está dentro da cultura independente do que for. Pode-se pesquisar a vida de uma pessoa dentro de uma época inteira, ela estará dentro da cultura daquela época, fazendo com que seus hábitos e costumes caracterizem o seu meio, estará imersa na cultura de massa.
O campo de pesquisa da história cultural é realmente vasto, pois este contempla um número de vários objetos que analisados trarão consigo a cultura de determinada época e lugar. Fazendo com que através da história de um objeto ou de uma pessoa podemos ver a história cultural de uma época. Um exemplo claro disto é a obra do autor Carlo Ginzburg, O queijo e os vermes, onde conta a história do moleiro Menóquio que vivia na Idade Média, através da história da vida do moleiro podemos identificar a cultura de uma época de acordo com a sua vida.
A história hoje conta com parceiros que não delimitam fronteiras e nem hierarquias, trabalham juntos para proporcionar um campo de conhecimento vasto, dentre eles estão a Antropologia, a Literatura e Arte. O objeto em estudo é o que se tem de comum entre eles, partilham diferentes discursos e pontos de observação, como também o lugar de onde é lançada a questão a ser resolvida (PESSAVENTO, 2003, p. 109).
A história cultural hoje é uma grande contribuinte para o ensino escolar, pois através desta temos um longo e vasto campo de estudo da cultura, fazendo com que torne-se de mais fácil entendimento a cultura atual e a cultura de povos que já não estão mais entre nós. Os materiais didáticos são os principais utensílios para o conhecimento de culturas distantes, estes que hoje certamente contribuem para o aprendizado da história de nações passadas e atuais. Se analisarmos os materiais didáticos de alguns anos atrás teríamos a certeza de que os únicos que faziam história eram os grandes homens, heróis e bandidos, estes que faziam uma história dualista.
A participação da história cultural nos métodos de ensino hoje poder ser considerada uma grande aliada para o conhecimento amplo de vidas e culturas passadas, pois esta não fará distinção em os ricos e pobres, reis e camponeses, letrados e não letrados, etc., o estudo será igualitário para ambos sem que haja uma prevalência dos considerados “heróis da história”. A história é construída por todos independente da classe e poder. O trabalho do professor e historiador na historiografia cultural é proporcionar o conhecimento para seus alunos sem a objeção de fatos, períodos e pessoas.
Hoje a história não é mais aquela vista de cima pelo historiador, sua participação na construção está totalmente presente, não há como se distanciar do documento em estudo, pois o historiador está imerso na história, fará sua analise de acordo com a sua concepção de história, não haverá mais a separação entre historiador e objeto, haverá uma analise em conjunto que no final terá a participação de ambos.
O novo mundo Clio é um universo sem fronteiras e verdades absolutas. É constituído de verdades hoje e de mentiras amanhã, verdades construídas agora e desconstruidas depois, mas sempre resultados possíveis e mais próximos do que pode ter acontecido no passado. O universo da história cultural é aquele que resgata o individuo, recompondo historias de vida, principalmente daqueles egressos das camadas populares (PESAVENTO, 2003, p. 118).
O mundo de Clio é o mundo das suspeitas e incertezas, o mundo que foi um dia contado de uma forma, pode ser amanhã ser contado de outra. Assim continuará a história cheia de pontos de interrogações que farão com que nos historiadores e professores os respondam, cada um da sua maneira.
Sejam bem vindos ao Novo Mundo de Clio!
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