Outro dia uma aluna minha se viu de um difícil dilema. Eu havia usado em sala de aula a expressão “bipolaridade” para me referir à Guerra Fria, período caracterizado pelo antagonismo entre o chamado “mundo livre” capitalista, liderado pelos EUA, e a “cortina de ferro”, liderada pela extinta União Soviética. Um texto escolhido para orientar uma questão de prova se referia exatamente ao “fim da bipolaridade ideológica no cenário internacional, a saturação dos mercados nos países mais ricos e a ação dos meios de comunicação, aliados a um crescente fortalecimento do poder das corporações e inversa redução do poder estatal”. Ao formular a questão, por descuido ou porque não acreditei ser isso fundamental, ao invés de usar a expressão “bipolaridade ideológica”, como aparecia no texto, utilizei “polaridade ideológica”. Apesar de todas essas dicas, a aluna, visivelmente desconfortável e angustiada, depois de reunir forças, pergunta: “Professor: ‘polaridade’ e ‘bipolaridade’ é a mesma coisa?” Evidentemente, caso levemos a precisão dos termos às últimas conseqüências, eu havia cometido um equívoco, já que apenas a palavra “bipolaridade” contém, a rigor, a idéia de antagonismo. No entanto, dadas as condições em que as duas palavras aparecem – a primeira como texto-base da questão proposta na prova e a segunda na pergunta propriamente dita – e dado o contexto em que a questão se inseria – o tema da Guerra Fria, abordado duas ou três semanas antes –, a angústia da aluna, se não pode ser considerada absurda, é, no mínimo, denotativa de absoluta falta de desconfiômetro. A não ser que seu objetivo fosse apenas “zoar” o professor. Detalhe: estamos falando do conteúdo de uma disciplina denominada Estudos Sócio-Antropológicos para uma turma de um curso universitário. Entre alunos e alunas dessa e de outras disciplinas, nos vários cursos universitários onde venho vendendo meu suor, minhas lágrimas e, felizmente, ainda recebendo, vez por outra, algumas alegrias, perguntas desse tipo ocorrem com uma freqüência tão assustadora que me fazem, sinceramente, desconfiar do que realmente é (ou deve ser) a realidade dos estudos universitários no Brasil. Já fui perguntado sobre o significado de “subjacente”, “subentender”, “convenção”, “estatuto” e dezenas de outras palavras ou expressões que, na minha santa ingenuidade, eu acreditava deverem fazer parte de um vocabulário mínimo de um estudante universitário – acompanhadas, obviamente, dos seus respectivos significados (nem pretendo discutir aqui sobre as polissemias...).
Como interpretar essa deficiência básica? Será que o que estou denunciando é, na verdade, fruto de uma formação elitista, distanciada do “mundo real”, no qual raríssimas pessoas têm a capacidade e a oportunidade de se apropriar de informações e conceitos básicos para, como diria Paulo Freire, fazer uma “leitura de mundo” satisfatória e que lhes permita sentirem-se sujeitos minimamente autônomos? Se a resposta for positiva, basta a constatação? Estamos, então, definitivamente condenados a ser um povinho de merda? Ou, ao contrário, devemos responsabilizar a formação básica dessas pessoas, com todos os seus componentes: professores mal preparados, forçados e/ou incentivados (a diferença aqui pouco importa) a se afastarem dos livros, dos estudos e da pesquisa em troca do corre-corre de mil salas e duzentos mil tempos de aula para fecharem suas contas no final do mês, com salários irrisórios e, salvo exceções, sofrendo com o desprezo ou – o que é pior – com a apatia de parte significativa da sociedade – que, aliás, nunca foi à escola, ou, se foi, pouco aprendeu, ou, se aprendeu, pouco ou nada teve que fazer com o que aprendeu; instituições escolares caindo aos pedaços; material pedagógico absolutamente distante da realidade globalizada (e não vai aqui nenhum juízo de valor) dos avanços tecnológicos, dos computadores portáteis, internet, enfim, do mundo (i)mediatizado; meios de comunicação de massa fazendo as vezes do professor, sem que este se disponha ou tenha condições concretas de com eles competir ou dialogar; cultura pedagógica positivista, extremamente distanciada do “mundo real”, que passa ao largo de questões significativas para a imensa maioria das pessoas, mesmo que consideremos a importância da investigação e do conhecimento desinteressado, que não tenha como objetivo único ou principal aumentar os lucros das grandes corporações internacionais.
Evidentemente, tenho mais perguntas do que respostas. Mas, sejam elas quais forem, ou repensamos o ensino universitário no país ou, cada vez mais, a solução será empurrar os graduados universitários (uma minoria entre uma minoria) para o mestrado e estes, por sua vez, para o doutorado, pós-doutorado e que mais outros níveis de hierarquização se fizerem necessários. Obviamente, nada garante que essa via, por certo ainda mais elitista e elitizante, assegure a melhoria da qualidade dos nossos profissionais de nível universitário. Mas isso já é outra história...

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Comentário de Alberto Moby em 22 fevereiro 2008 às 19:44
Ivy,

Juro que até tentei. A turma nem era das piores rs. Mas a maioria, mesmo assim, ainda fazia aquela cara de que pessoas como eu vieram de outro planeta, um bem distante, onde diferenças tão desprezíveis como um prefixo numa palavra têm tanta importância.
Comentário de Ivy Gomide em 21 fevereiro 2008 às 21:38
Realmente fiquei perplexa..
Depois li os outros comentários e sabe o que me veio à cabeça? Não é precisamente necessário frequentar uma Universidade pra ampliar conhecimentos. Lembrei do Patativa de Assaré... vc o conheceu?
Pois é, tem muita gente na Universidade que não tem o menor interesse em aprender. Pensando bem, a moça estava até ouvindo a sua aula. Que bom! tem gente que entra na sala e nem escuta...rsrs.. Juro!
Por vários motivos entra-se numa Universidade: Status, espera marido, tempo ocioso, conhecer gente, frequentar o barzinho, e aprender( uff... tem gente que busca o aprendizado).
Já vi muitas coisas absurdas....a garota queria saber a diferença... vc explicou?
Palavra eu aproveitaria e daria uma aula sobre polaridade e bipolaridade.. rsrs..
Comentário de Alberto Moby em 4 fevereiro 2008 às 23:19
Fernanda,
Ficamos assim: como você topa o desafio, não vou me estender nas pequenas divergências (ou, mais provavelmente, nos mal-entendidos) entre o que eu disse e o que você pensa. No fundo, vivemos a mesma angústia. Quanto ao PROUNI, concordo totalmente. Até breve.
Comentário de Fernanda Moura em 4 fevereiro 2008 às 19:45
Como disse, concordo que o Estado, as instituições de ensino, professores, todos tenham sua parcela de culpa nesse desinteresse geral das pessoas pelo mundo a sua volta. Claro que eu topo esse desafio Alberto. Mas, para mim a questão não se detém apenas em má qualidade de ensino e baixo poder aquisitivo. Os colégios de aplicação da UFRJ e da UERJ são considerados colégios de excelência e, no entanto, seus alunos também partilham dessa experiência. Desse desinteresse. Poderia se, talvez, afirmar que em menor grau, mas, de qualquer forma, isso não poria fim a discussão. Não sou elitista, nem liberal, muito menos de direita, inclusive para mim o governo deveria voltar atrás nesses investimentos que fez no setor privado com esse PROUNI e voltar a investir na educação pública! Contudo, creio que nessa história há muito mais do que falta de presença dos patrões. Não sei, talvez apenas Sartre seja muito presente na minha visão de mundo.
Abçs,
Fernanda
Comentário de Alberto Moby em 4 fevereiro 2008 às 18:09
Fernanda,
Mesmo depois de ter dito ao Bruno que fiquei feliz por ele compartilhar das minhas angústias e perplexidades, mas acho que, no fundo, isso não é motivo de felicidade pra ninguém. Até porque cada perplexidade leva a outra e mais outra e mais outra e acabamos como cachorro mordendo o próprio rabo.
O que sei de certeza é que estamos num momento de profunda crise - que parece atingir a História mais em cheio do que as outras áreas do conhecimento. Pra ajudar na reflexão, me permita citar aqui Eric Hobsbawm no seu A Era dos Extremos:
"A destruição do passado - ou melhor dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo oficio é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Par esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores" (p. 13). Se realmente quisermos seguir à risca as sugestões de Hobsbawm é preciso ter claro que o trabalho que temos pela frente (e alguns de nós já por detrás) não é nada fácil, é quase digno de super-herói. Eu, que me considero um trabalhador, um profissional da memória, e não um missionário, acho que uma das coisas que é preciso fazer com firmeza é cobrar dos patrões (Estado ou empresários da Educação) esforços reais no sentido de melhorarem as condições que fazem com que a gente receba os alunos que recebe, sob pena de estarem cometendo crime de homicídio doloso contra a cultura. Como é crime que atinge o coletivo, trata-se, portanto, de genocídio cultural. E aí, você topa?

Um abraço.
Comentário de Fernanda Moura em 4 fevereiro 2008 às 17:38
Eu também sou mais pessimista que o Bruno. Claro que vejo uma certa responsabilidade de professores, instituições de ensino, governo etc na falta de conhecimento dos alunos, mas acho que a maior parte da responsabilidade é sempre do próprio aluno. Creio que quando responsabilizamos os professores, as autoridades, o FMI, a globalização e o sistema capitalista pela má formação de qualquer indivíduo, seja em qualquer assunto, estamos esvaziando a enorme potencialidade do ser humano, de cada indivíduo, sua capacidade de ser sujeito, de agir, de transformar, de modificar a realidade. Modificação esta que começa pela sua própria realidade, que não é o "onde estou" (posição econômica e social) mas o quem sou!
É papel da escola formar sujeitos críticos? É. Mas o papel principal nesta formação é do próprio aluno! O que eu sinto é que cada vez mais as pessoas dão menos valor a quem são e mais ao que tem. E nesta de quem são inclui-se a inteligência e o nível cultural. Muitos culpam a sociedade pós-moderna (se é que isto existe!), mas isso para mim significa esvaziar o sujeito. Parece que a maioria dos alunos de história não querem conhecer a história, discutir versões do fato, refletir sobre elas, refletir sobre a própria história, tentar tornar essas reflexões acessíveis aos demais e sim apenas ter um diploma, seja pelos motivos que forem, status, conseguir um cargo público, ter direito a uma cela especial, ou o que mais a pessoa possa querer...
Quanto a este descontentamento ser fruto de uma formação elitista, eu não creio. Já meu avô, um português analfabeto que sempre teve que dar muito duro reclamava da falta de vontade das pessoas de aprender, reclamava do fato de muitas delas parecem preferir serem ignorantes. Meu avô "aprendeu" a ler e a escrever com minha avó, mas ela mesma tinha uma formação muito primária, logo, o letramento dele não fora dos melhores, muitas das vezes quando o texto era um pouco maior que o habitual ele não conseguia entender o que lia, mas isso não o fazia desistir. Ele queria saber o que estava escrito! Então, nesses casos, ele sempre pedia para alguém ler pra ele e explicar. Uma de minhas memórias de criança sou eu explicando ao meu avô que impeachment é quando você despede o presidente por que ele fez muita coisa errada.
Mas também não acho que seja o caso de dizer que o povo brasileiro é um povo de merda. Até por que eu estaria me sujando, já que eu também seria de merda... Acho que é o caso de pensar que estamos em uma letargia, ou entorpecidos, o que for, e que vamos acordar e aí vamos pensar criticamente sobre nós mesmos e vamos dar valor a outras coisas, ou pelo menos mais coisas e vamos querer mudar. Aí acho que (in)felizmente cabe ao professor (de qualquer disciplina) o papel de despertador. E não digo apenas fazendo seu papel, mas fazendo papel de pai, de psicólogo de consciência, de musa, de deus, ou seja lá quem for capaz de “iluminar” alguma consciência. Tentar mostrar para os alunos que eles podem ser mais do que são. E que isso não significa apenas ganhar mais e morar em um lugar melhor, mas saber mais, conhecer mais, pensar mais criticamente sobre o mundo etc. Sempre vai existir um aluno ao menos que vai despertar.
Comentário de Alberto Moby em 4 fevereiro 2008 às 15:00
Bruno,

Obrigado pelos comentários. Fiquei feliz pelo fato de você compartilhar comigo minhas perplexidades e angústias. Mas confesso que sou um pouco mais pessimista que você... Tenho minhas dúvidas, por exemplo, quanto ao fato de os jovens de hoje serem mais abertos a novidades, ao diálogo e à crítica. Mas pretendo escrever outra mensagem sobre isso em breve. E aí vou ficar aguardando seus novos comentários.

Um abraço.
Comentário de Bruno Leal em 4 fevereiro 2008 às 12:10
Caro Alberto,

Compartilho de sua angústia e me sensibilizo com as questões que você coloca em seu texto. Não conheço a aluna que lhe fez a pergunta sobre a "polaridade", mas arrisco lhe dizer - para nosso assombro definitivo - que não houve maldade, e sim desconhecimento de vocabulário, conteúdo, sensibilidade...enfim....todos estes fatores e mais alguns que desconhecemos.

Penso que enfrentamos um grave problema educacional no Brasil. E vários fatores colaboram para este quadro. Muitos deles você abordou, como os baixos salários, as péssimas formações docente em todos os níveis de ensino, a dificuldade dos governos em fazer uma boa administração, o desinteresse do aluno e o descompasso pedagógico, seja nos materiais ou nas metodologias. É gritante, por exemplo, o abismo que há entre nossa realidade global e o que boa parte dos professores (especialmente do ensino fundamental e média) vêm fazendo. E não estou culpando esses professores, mas sim o bombardemaneto moral que eles sofreram nas últimas décadas.

Você quer ver uma coisa? Muitos alunos estão envolvidos com várias novas mídias, ambientes colaborativos, nova produção do conhecimento, espaços de trocas...Enfim, uma nova linguagem rica e desafiadora. Quando esse aluno chega na escola se depara com ferramentas que em nada se diferem do que era visto no século XVIII, muitas vezes ainda com um professor que se intitula o guardião do saber. Como exigir que o aluno se interesse. Quando essas pessoas chegam na universidade o estrago é muito grande e somos incapazes de reverter o quadro. E aí, meu amigo, só nossas lágrimas e sangue mesmo...É preciso mudar instrumentos e práticas. Mentalidades e propostas. Posturas e conteúdos. E isso leva muito tempo...

Os problemas são vários. Não param por aqui.

Porém, acredito que exista esperança. Acredito no potencial e de todos os professores, de todos os níveis.Vejo que os jovens hoje são muito mais abertos a novidades, ao diálogo e a crítica. Claro, quando são chamados a desenvovler tais características. E acho que é nisso que temos que trabalhar. Sei que é muito desconfortável remar tanto contra essa maré, mas é preciso acreditar que de alguma forma a batalha pode ser ganha em algum momento, não é mesmo?

Enfim...muito bacana o texto...acho que dá "pano pra manga"

abração!

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