PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)



O Conde General Alfred Von Schliefen, chefe do Estado Maior Alemão de 1891 à 1906, tinha a aparência alquebrada, de maneiras frias e distantes, ele dedicou à sua vida ao militarismo e se concentrava com tamanha intensidade à sua profissão, que quando um ajudante, no final de uma noite inteira cavalgando pelo leste da Prússia, chamou sua atenção para a beleza do Rio Pregel reluzindo ao sol nascente, o General lançou um olhar breve e severo, respondendo: “- Um obstáculo pouco importante”.

Essa era a mentalidade alemã dos profissionais da guerra, impregnados com doutrina militar de Von Clausewitz (1780-1831), General e estrategista militar prussiano, que é considerado um grande mestre da arte da guerra, sendo que nos treze últimos anos de sua vida escreveu a obra Von KriegeDa Guerra” e suas lições de tática e estratégia iam além dos exercícios militares, propriamente ditos, e se constituíam, inclusive, em uma profunda reflexão sobre a filosofia da guerra e da paz. Sua frase mais conhecida, era uma associação entre a guerra e a política : “ a guerra é a continuação da política por outros meios”.
Essa mentalidade militar era, em muito, senão na sua totalidade, influenciada por 100 anos de filosofia alemã, que continha muito em si uma espécie de semente da autodestruição e um sentimento, muito grande, de nacionalismo alemão, sendo alguns de seus representantes, o filosofo Fichte (1762- 1841), que considerava o povo alemão o escolhido pela Providência para ocupar um lugar supremo na história do universo, ou Hegel ( 1770- 1831), que os via liderando o mundo para um destino de kultur compulsória, ou ainda Nietzsche ( 1844- 1900), que lhes ensinou que os super- homens pairavam acima das restrições comuns; Treitschke , considerava o aumento de poder o mais elevado dever moral do Estado. Agora, some-se a isso tudo, os interesses econômicos, políticos e até mesmo militares das grandes potências da época para se formar um barril de pólvora. A Europa era uma pilha de espadas em equilíbrio precário, e não se podia puxar uma sem mover as outras.

O contraste foi impressionante para os nascidos antes de 1914, e especialmente os centro-europeus, não conseguiam distinguir qualquer continuidade com o passado, “Paz”, significava “antes de 1914”, e depois disso passou a existir algo que não se podia se chamar de “Paz”. Em 1914 não havia uma grande guerra, já fazia um século, ou seja, uma guerra que envolvesse todas as grandes potências, ou pelo menos, a maioria delas. Eram as potências da época, as “seis grandes “ , Grã- Bretanha, França, Rússia, Áustria- Hungria, Prússia, Alemanha e mais Itália, EUA e Japão. Houvera, sim, uma breve guerra, em que mais de duas das grandes potências combateram, a Guerra da Criméia (1854-1856), entre a Rússia de um lado e Grã Bretanha e França do outro e além disso a maioria das guerras, envolvendo grandes potências, fora rápida. A extensão de uma guerra se media, até então, em meses e até mesmo em semanas, como foi a guerra entre a Prússia e Áustria em 1866. Entre 1871 e 1914 não houvera na Europa guerra onde exércitos de grandes potências cruzassem alguma fronteira hostil, somente no Oriente o Japão combateu, vencendo a Rússia em 1904- 1905, apressando, com isso e Revolução Russa. Entre 1815 e 1914, nenhuma grande potência combateu outra, fora de sua região imediata, embora expedições agressivas de potências imperiais contra inimigos mais fracos, do além mar, fossem comuns e é claro, espetacularmente unilaterais, como as guerras dos EUA contra o México (1846- 1848) e várias outras campanhas para os impérios coloniais britânicos e francês.
Esse contexto mudou drasticamente em 1914, uma vez que a Primeira Guerra Mundial envolveu todas as grandes potências, aliás, envolveu todos os Estados da Europa, exceto a Espanha, Países Baixos, Escandinávia e a Suíça. Pela primeira vez, tropas do ultramar foram, muitas vezes enviadas para lutar fora se suas regiões imediatas. Canadenses lutaram na França, australianos e neozelandeses no Mar Egeu, em “Gallipoli ”, os Estados Unidos enviaram seus soldados para a Europa, determinando de maneira inquestionável a história do século XX. Indianos foram enviados para a Europa e Oriente Médio, batalhões de trabalhadores chineses vieram para o Ocidente, africanos lutaram no exército francês. A guerra naval foi, mais uma vez global, a primeira batalha travou-se em 1914, ao largo das ilhas Falkland e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A Primeira Guerra Mundial, foi global de fato e praticamente todos os Estados independentes do mundo se envolveram, não tendo outra alternativa. As repúblicas da América Latina só participaram, praticamente de forma nominal e as colônias das potências imperiais não tiveram escolha.
A Primeira Guerra Mundial começou como uma guerra essencialmente européia, entre a tríplice aliança (França, Grã- Bretanha e Rússia) e as conhecidas como “Potências Centrais”, Alemanha e Áustria- Hungria, sendo todos os países que orbitavam as grandes potências, foram inexoravelmente arrastados para um dos lados beligerantes.

Os alemães, na Primeira Guerra, como viria a acontecer, também, na Segunda Guerra, viram-se na eminência de uma possível guerra em duas frentes as frentes ocidental e oriental. O plano alemão, conhecido como Plano Schlieffen, que seguia a filosofia de Clausewitz, pregava como principal objetivo numa guerra ofensiva, uma vitória rápida, numa “batalha decisiva”, era abominado qualquer coisa que adiasse uma campanha e temia-se como fogo do inferno a “redução gradual” do inimigo ou uma guerra de atrito, como acabou acontecendo na Primeira Guerra. Basicamente o Plano Schlieffen, tinha como objetivo principal liquidar o mais rápido possível a França, no Ocidente, assim podendo dedicar-se a Alemanha, inteiramente e com igual rapidez para derrotar a Rússia no Oriente antes de que o império do Czar pudesse movimentar efetivamente todo o peso de seu enorme potencial militar a humano, o conhecido e temido como o “rolo compressor russo”, então, já na Primeira Guerra a Alemanha, tinha a necessidade de uma guerra relâmpago, o que na Segunda Guerra Mundial veio a ser conhecida como blitzkrieg . O plano por pouco não deu certo e o exército alemão avançou sobre a França, atravessando a Bélgica, neutra, só sendo detido algumas dezenas de quilômetros a leste de Paris, junto ao rio Marne, seis semanas após ter sido declarada a guerra. A Alemanha, em seguida, veio a recuar um pouco e os franceses foram completados pelo restante dos belgas e por uma força britânica que logo cresceria enormemente. Os dois lados improvisaram linhas paralelas de trincheiras e fortificações defensivas, que logo mais iriam se estender sem interrupção da costa do Canal, em Flandres, até a fronteira suíça, deixando grande parte da França oriental e da Bélgica sob ocupação alemã. Nos três anos e meio que se seguiram não houve mudanças significativas de posição.


E foi essa a conhecida “ Frente Ocidental”, que ficou conhecida a maquina de moer carne, provavelmente, sem precedentes na história da guerra. Milhões de homens ficavam frente à frente, nos parapeitos das trincheiras, barricadas com sacos de areia os quais viviam como e com ratos e piolhos. As vezes os seus generais tentavam romper o impasse, dias e dias de incessante bombardeio de artilharia, que um escritor alemão chamou de “furacões de aço“ (Ernst Jünger, 1921), “amaciavam” o inimigo, os mandando para baixo da terra, até que, no momento certo, levas de homens saíam por cima do parapeito, geralmente protegido por rolos e teias de arame farpado, para a “terra de ninguém” , um caos de crateras de granadas inundadas de água, tocos de árvores calcinadas, lama e cadáveres abandonados, e avançavam sobre as metralhadoras que os ceifavam, como eles sabiam que aconteceria. A tentativa da Alemanha em romper a barreira em Verdun, em 1916, foi uma batalha de 2 milhões de homens, com 1 milhão de baixas e fracassou.


Os britânicos, também, atacaram no Some com o objetivo de forçar os alemães a suspender a ofensiva de Verdun, o que custou à Grã- Bretanha 420 mil mortos, sendo 60 mil no primeiro dia de ataque. Os franceses perderam mais de 20% de seus homens em idade militar e se considerarmos os prisioneiros de guerra, os feridos e os permanentemente inválidos e desfigurados, que se tornaram parte tão vívida do pós guerra, não mais do que 1/3 dos soldados franceses saiu incólume da guerra. A possibilidade do primeiro milhão de soldados britânicos sobreviver à guerra incólume era de mais ou menos 50%. Os britânicos perderam uma geração, meio milhão de homens com menos de 30 anos, notadamente entre suas classes altas, cujos rapazes, destinados como gentlemen a ser oficiais, davam o exemplo, marchavam para a batalha à frente de seus homens e em conseqüência eram ceifados primeiro. Mesmo as baixas, aparentemente modestas dos EUA, 116 mil, contra 1,6 milhão de franceses, quase 800 mil britânicos e 1,8 milhões de alemães, demonstram a natureza assassina da Frente Ocidental. A carnificina, o sofrimento dos soldados era tão grande que era comum, os países envolvidos proibirem a divulgação de tais horrores nas frentes de combate, para a sociedade era passada uma imagem “romântica” e heróica da frente de batalha.


Os horrores da guerra na Frente Ocidental teriam conseqüências ainda mais tristes, pois, sem dúvida, a própria experiência ajudou a brutalizar tanto a guerra como a política, pois se uma poderia ser feita sem contar os custos humanos ou quaisquer outros, por que não a outra? Quase todos os que serviram na Primeira Guerra Mundial, em sua esmagadora maioria soldados rasos, saíram dela inimigos convictos da guerra. Contudo, os ex-soldados que haviam passado pela guerra, sem se voltarem contra ela, as vezes extraíram da experiência partilhada de viver com a morte e a coragem, um sentimento de incomunicável e bárbara superioridade, especialmente contra não combatentes e aqueles ex-combatentes viriam a formar as primeiras fileiras da ultradireita do pós- guerra , sendo Adolf Hitler apenas um desses homens para quem o fato de ter sido um frontsoldat era a experiência formativa da vida, o que pode-se notar amplamente em todos seus discursos quando sua ascensão como líder do Partido Nacional Socialista, até alcançar o poder como füher do povo alemão e nas suas decisões políticas e especialmente militares durante a Segunda Guerra Mundial, que demonstraram uma total falta de compaixão até mesmo para com os soldados alemães, não rara vezes lançados em campanhas e batalhas suicidas onde foram proibidos até mesmo de recuar ou se render, mesmo já não tendo condições para resistir.

Bibliografia:

Canhões de agosto; Barbara Tuchman

Era dos extremos; Eric Hobsbawm

Ascensão e queda do III Reich; Henry Shirer

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