De 30 estudantes ouvidos, apenas três reconhecem o ‘herói’ brasileiro

Nany Fadil
Da Agência BOM DIA (21/4/2008)

Nem herói nem mártir. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é Jesus Cristo. Pelo menos para estudantes de 5ª série do ensino fundamental até o 2º ano do ensino médio. O BOM DIA foi para a frente de escolas públicas com uma imagem de Tiradentes e a mostrou a 30 estudantes com idades entre 11 e 16 anos.


(Tiradentes Esquartejado do pintor e escritor paraibano Pedro Américo, 1843-1905, datado de 1893, acervo do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, MG)

A pergunta foi a mesma para todos: quem é esse personagem da história?

Apenas três responderam ser Tiradentes. A maioria respondeu, quase perguntando: “Jesus? Não sei. Acho que é ele”, falou Letícia de Oliveira, 15 anos, que cursa o 1º ano do ensino médio. “Não sabia. Não vi nada a respeito dele até hoje. Não tenho a menor idéia de quem seja”, disse Lilian de Oliveira, 13.

Stephen Ribeiro, 11, titubeou e disse: “Acho que é Tiradentes. Ele morreu enforcado porque pensava uma coisa e os outros pensavam outra. Não lembro direito.”

Duas alunas também souberam se tratar de Tiradentes. Mas desconhecem a Inconfidência Mineira. O que acontece para que estudantes não reconheçam um personagem tão marcante da história, a ponte de ter um dia, 21 de abril, em sua homenagem?

Para Célia Reis Camargo, professora de história na Unesp, a mudança no enfoque da história pode explicar esse desconhecimento geral. “A história não é mais vista e nem ensinada como um processo conduzido por homens notáveis”, diz.


Tiradentes não usava barba

(Alferes Tiradentes, óleo de Washington Rodrigues, acervo do Museu de História Natural, Rio de Janeiro)

Na imagem mais famosa de Tiradentes, ele aparece com cabelos e barbas longos e uma corda no pescoço.

“Tiradentes tinha cabelos curtos. Ele era militar.” A afirmação é da professora de história da Unesp de Assis, Célia Reis Camargo.

Quem participou da transição de Império para República foi tratado como herói da identidade nacional.

Em um país cristão, como o Brasil, nada mais adequado do que construir semelhanças com Jesus. “O cabelo, a barba, mais a túnica, que a história anterior dizia que Tiradentes vestia foi a forma de criar identidade com Jesus Cristo e assim torná-lo herói”, diz.

Para a professora Célia, a idéia de herói é equivocada. “Ele foi um um grande líder que lutou pelos seus ideais. Quando foi enforcado, Tiradentes estava careca e com a barba feita. Cabelo e barba longos poderiam interferir na ação da corda.”


(Fonte: http://www.bomdiasorocaba.com.br/index.asp?jbd=2&id=158&mat=127466)

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Tags: cristo, efeméride, ensino, história, imaginário, memória, tiradentes

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Comentário de Manuel Rolph Cabeceiras em 22 abril 2008 às 4:05
Justamente o que pensei, mas há um detalhe, com pitada de ironia, mais interessante nessa história toda: a explicação da Profª Célia Camargo, da UNESP.
Diz-nos ela, como explicação para o equívoco: “A história não é mais vista e nem ensinada como um processo conduzido por homens notáveis”. Ou seja, justamente os professores de História, cujo papel seria questionar a memória e desconstruir mitos, acabam proporcionando a manutenção dessa imagem ao se optar pela passagem ao largo dessas qüestões.
Comentário de Bruno Leal em 21 abril 2008 às 11:42
A confusão não é totalmente descabida. No livro "A formação das almas", o historiador José Murilo de Carvalho discute as imagens republicanas e monarquistas de Tiradentes. Um delas - a vitoriosa -foi a que optou por assemelhar o mártir a figura de Cristo, com todas as simbologias que podemos extrair deste paralelo.

Pelo visto, a comparação deu mesmo certo...

abs!

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