
Entre 1973-1974, um dos períodos mais duros do regime militar, sob a presidência do general Emilio Garrastazu Médici, foi sobretudo sobre a imprensa e a música popular que se concentrou a atenção da Censura. Esse duplo rigor faz sentido: sendo a música popular o bem cultural mais consumido pelas camadas popular e média urbana e tendo como elementos principais de divulgação o rádio, a TV (estes sob controle) e, em menor escala, os jornais, é aí que se realiza o cerco mais rígido e eficaz. Assim, o desestímulo à criação musical é evidente e explica a atitude (ainda que provisória e titubeante) de “ex-compositor” assumida por Chico Buarque. Para burlar a Censura, os compositores se vêem obrigados a enveredar pelos caminhos do chamado “desbunde” (expressão utilizada por Eduardo Amorim Garcia[1] para designar, na MPB, as canções cujas letras se fizeram às imagens de uma utopia não localizada no tempo ou no espaço através de “viagens”, “portos”, “cais”, “partidas”, “trens”, “estações” ou “festas”, “brincadeiras”, “carnavais”, etc.) ou na linguagem da “fresta” (expressão cunhada por Gilberto Vasconcellos[2] para as letras cujo sentido estava não no dito, mas no interdito, nas entrelinhas). Do primeiro grupo fariam parte Milton Nascimento e seu Clube da Esquina, por exemplo, e do segundo Chico Buarque e Gonzaguinha.
A interpretação lúcida de Matinas Suzuki Jr., em 1976, centrada na obra de Chico Buar-que, captava o espírito da época, que Gilberto Vasconcellos consagraria no livro
Música popular: de olho na fresta, no ano seguinte:
"[...] Como se sabe, a violência é um dos fundamentos da sociedade classista; e ela se reproduz cotidianamente, fecundando mesmo a solidão do verso lírico. No sentido de Bandeira, as rimas de Chico Buarque freqüentam um canto sórdido: aquele que carrega em si a marca suja da vida. [...]
[...] Diante dos estorvos objetivos impingidos pela ideologia hegemônica, a metáfora - para os mais lúcidos - deixa de ser meramente uma arma de estilo, para se transformar num recurso estratégico contra a afasia. A criação popular passa a se valer da elipse; do discurso reticente, do falar pela negação: abrir o jogo é uma tática suicida. O constrangimento do silêncio ronda por perto"[3].
Tais dificuldades se refletiam, obviamente, na redução da quantidade – de músicos e de canções – no mercado. O hermetismo do discurso musical passa a requerer público-alvo cada vez mais especializado, fiel e atento. Começava a onda de se conferir certo status de superioridade intelectual e argúcia a quem tivesse a explicação mais convincente para o significado de algumas letras de canções, como as inversões de ditos populares realizadas por Chico Buarque na canção
Bom conselho (Aja duas vezes/antes de pensar:/Está provado:/quem espera nunca alcança...) ou da frase “agora as portas vão todas se fechar” da canção Clube da Esquina, de Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges.
Além da novidade do conjunto Secos & Molhados, de linguagem mais “rock” e apoiando-se em letras de poetas consagrados da literatura nacional, o espaço da canção “universitária” (expressão utilizada, na época, como sinônimo de MPB) é ocupado pelas canções de estilo
Kitsch[4], geralmente originárias do movimento “jovem guarda”, de estilos musicais não urbanos bra-sileiros ou ainda da onda de música romântica ligada à tradição hispano-americana dos anos 50. É também desse período a proliferação dos chamados “cantores-fantasmas” que, usando pseudônimos de origem inglesa, cantando em inglês[5] e quase nunca aparecendo em público, começam a disputar com a música “pop” norte-americana e inglesa as paradas de sucessos e particularmente com os demais compositores brasileiros os direitos autorais. Ainda no campo da indústria fonográfica, é também nesse período que se registra um grande boom de reprensagem de discos de antigos sucessos musicais e o surgimento de edições e/ou séries históricas de compositores e compositores brasileiros.
[1] GARCIA, Eduardo Amorim. “Canto curtido, a MPB nos anos setenta”. Revista do Brasil (Rio de Janeiro: Secretaria de Ciência e Cultura), v. 2, n. 4, 1985.
[2] VASCONCELLOS, Gilberto. Música popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro: Graal. 1977.
[3] “Os olhos, o aviso e o sorriso”. Opinião, n. 215, p. 20, 17/12/1976.
[4] A denominação
Kitsch tem, no Brasil, dois sinônimos: “cafona” e “brega”. A palavra “cafona”, que refere-se a quem, com aparência ou pretensão de elegância e finura, é ridículo e de mau gosto, teve seu auge na década de 1970, reforçada pela produção da novela
O Cafona, da Rede Globo de televisão em 1971 para o horário das 22h. A palavra “brega” tem origem duvidosa, mas parece estar associada, desde a origem, à música popular, ao contrário de “cafona”, cuja origem parece ter sido a moda. Há quem diga que o nome vem dos prostíbulos nordestinos em que esse tipo de música era usado para embalar os romances de aluguel. Para uns, devido a uma casa de shows cujo nome era Nóbrega, de cujo letreiro teria se despencado a primeira sílaba. Outros, afirmam que a origem, na verdade, é a palavra “chumbrega”, que tem o significado de algo ruim, ordiná-rio, reles, que, por sua vez, teria sua origem no sobrenome do aventureiro alemão Friedrich Hermann Schönberg, que comandava tropas portuguesas contra os espanhóis por volta de 1600 e cujo nome, aportuguesado para Chumbrega, teria sido ridicularizado em Portugal. O fato é que, desde o começo da década de 80, a palavra vem sendo usada para designar a música de mau gosto, geralmente feita para as camadas populares, com exageros de dramaticidade e/ou letras de uma insuportável ingenuidade. A origem do estilo “brega” na música brasileira, hoje alçado à condição de quase-gênero, pode ser encontrada na década de 1930, em Vicente Celestino e suas trágicas canções em forma de opereta:
O ébrio (música-tema do torturado filme estrelado por ele e dirigido por sua mulher, Gilda de Abreu) e Coração materno (gravada por Caetano Veloso no auge da Tropicália, pouco tempo antes da morte de Vicente). Nas décadas seguintes, o samba-canção e o bolero levariam adiante essa estética, principalmente quando cantados pelas vozes empostadas de artistas como Orlando Dias (viúvo que desafogava a emoção no palco, acenando com o lenço branco para o público), Silvinho (de
Esta noite eu queria que o mundo acabasse e
Mulher governanta), Nelson Gonçalves (
A volta do boêmio), Anísio Silva, Altemar Dutra (abastecido pela dupla de compositores Jair Amorim e Evaldo Gouveia, de
Que queres tu de mim?), Waldick Soriano, (
Eu não sou cachorro não), Adilson Ramos (
Sonhar contigo), Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Agnaldo Rayol e Lindomar Castilho. Mesmo Teixeirinha, cantor e compositor dedicado à música tradicional gaúcha, obteve sua inscrição nesse "clube" ao gravar em 1960 a dramática
Coração de luto, uma narração da morte da própria mãe, que acabou sendo popularmente rebatizada de "Churrasquinho de mãe". A Jovem Guarda, inadvertidamente, abriu caminho para novas modalidades musicais que desafiaram os padrões de bom gosto da classe média brasileira. Inspirados pelas levadas de guitarra e as letras de romantismo primário, músicos de todo o país resolveram embarcar naquela onda. Em Recife, apareceu Reginaldo Rossi, líder da banda The Silver Jets, com a qual chegou a participar de alguns programas da Jovem Guarda. Seu primeiro sucesso em carreira solo foi O pão, que abriu caminho para uma série de outras músicas com estilo muito próprio, que o tornaram um dos artistas mais populares do Nordeste a partir do começo dos anos 70:
Mon amour meu bem, ma femme (que teve mais de 50 regravações),
A raposa e as uvas (regravada recentemente por Lenine) e
O rock vai voltar, entre outras. Rossi tornou-se o contraponto nordestino para Roberto Carlos, apropriando-se do título do companheiro de movimento: Rei. No fim dos anos 90, sua
Garçon, clássico da “música de corno”, transformou-o subitamente em sensação no Sudeste, ajudando a detonar uma onda de reavaliação do “brega”, com direito inclusive a um disco-tributo pela geração roqueira do mangue beat:
ReiGinaldo Rossi (1999). Preferi manter aqui o uso da palavra alemã
Kitsch por me parecer mais abrangente, além de já consagrada pelo uso no meio acadêmico, principalmente a partir da produção intelectual da chamada Escola de Frankfurt. (As informações aqui prestadas têm como base o dicionário
online Wikidicionário, http://pt.wiktionary.org/wiki/chumbrega; ESSINGER, Silvio. “Brega: divertido desafio ao bom gosto”. Disponível no site CliqueMusic – a música brasileira está aqui, http://cliquemusic.uol.com.br/br/Generos/Generos.asp?Nu_Materia=5, ambos acessados em 17/09/2007; ARAÚJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2005; e de FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Minidicionário da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.)
[5] Por exemplo, Mark Davis (Fábio Jr.); Christian (antes – e depois – cantor de música “sertaneja”, em dupla com o irmão Ralph); Morris Albert, garoto da Zona Sul do Rio de Janeiro que se transformaria em superstar de um único sucesso,
Feelings; Michael Sullivan (aliás, Ivailton Souza Lira, depois transformado em compositor de encomenda, em dupla com Paulo Massadas, para incontáveis cantores de sucesso fácil dos anos 80 e começo dos 90); os grupos Light Reflections e Pholhas, entre outros.
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