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Quatro anos cursando uma faculdade é tempo suficiente para compreender muita coisa do meio acadêmico. Ao fazer a faculdade história percebi algo muito interessante, porém preocupante. Muitos colegas tinham uma visão extremamente utilitária da História, entendendo-a como um conjunto de fatos, datas e informações. Eles chegavam à faculdade esperando aulas expositivas, tal como tinham nas escolas. A única diferença que esperavam (e cobravam) era que essas aulas aprofundassem em detalhes aquilo que eles já haviam visto. Ou seja, esperavam mais conteúdo, mais informações para preencherem seus cadernos.

Para alívio de muitos colegas (e meu desespero) ainda é possível encontrar professores conteudistas na faculdade. No entanto, você também acaba topando, vez por outra, com professores que possuem outra abordagem, que exploram a construção dos fatos, sua representatividade e historicidade. Em outras palavras, professores que preferem discutir a subjetividade da História, suas relações e sentidos. Para os alunos ávidos por fatos, essas aulas era um verdadeiro suplício. Não raro, chamavam os professores de “picaretas”. Diziam-se enrolados por alguém que não queria dar aulas e só passava textos para discussão. Esses meus colegas (não todos, claro) queriam um quadro cheio de matéria; queriam copiar tudo para seus cadernos. No dia da formatura, todos de beca no palco, pude ver quem vaiasse alguns professores “picaretas”.

Em minha modesta opinião, digo que esta obsessão por conteúdo é, na verdade, um profundo medo de pensar. Todos nós, ou pelo menos a esmagadora maioria, crescemos tendo aulas conteudistas de história. Antes de chegar à universidade ainda passamos por uma grande avaliação conteudista que é o vestibular. Não é de se estranhar, portanto, esta postura. A visão que se tem da História é de uma disciplina compartimentada, no qual as informações estão muito bem organizadas em períodos, “eras” e demais classificações. Afora isso, os fatos são tomados como encadeados. O que varia apenas é a lógica que produz o sentido entre um fato e outro. Ora, para que desordenar isso tudo? Daria uma trabalho danado começar a entender a história por outra lógica! “Melhor deixar como está”, concluem. Para que inventar moda? Como vou dar aulas para meus alunos sem conteúdo? Afinal, a história (“a de verdade”) é aquela de fatos e dados acumulados. O resta é “encheção de lingüiça”.

A postura, além de constrangedora, é preocupante, pois muitos colegas acabam se formando com esta perspectiva de História e reproduzindo-a nas escolas em que vão trabalhar. O dano não poderia ser pior. E aqui pouco importa a formação que tiveram. Estamos falando de profissionais formado tanto em universidades públicas ou privadas.

Não estou aqui dizendo que os fatos históricos são desprezáveis. Em hipótese nenhuma penso dessa forma. O que estou dizendo é que muito mais importante do que conhecer e memorizar fatos, é importante saber o porquê e o como são construídos e lembrados de uma determinada maneira e não de outra. Cabe aos historiadores serem leitores críticos e reflexivos das informações que manipulam. A construção de um painel sobre o passado é uma operação que envolve muitos procedimentos e intenções. E é isso, principalmente, o que deve ser estudado com muito carinho por todos nós. O momento, por excelência, que o historiador tem para começar a fazer isso é justamente a universidade.

Optar por desconstruir o que entendemos por história é um processo forte de ruptura, sem dúvidas. Tememos o que não nos é familiar. Mas, por outro lado, torna a coisa toda muito mais interessante e prazerosa. Do contrário, é ter medo de pensar, medo de admitir que é possível conhecer as coisas de uma forma diferente. O medo paralisa.

No livro “Fahrenheit 451”, do escritor Ray Bradbury, conhecemos um mundo em que os livros são proibidos. Os bombeiros não são mais responsáveis por apagar incêndios, mas sim por atear fogo aos livros. Nesta sociedade, que existe em um futuro não muito distante, as pessoas se contentam com uma avalanche de dados, informações inúteis que substituem o conhecimento. Trata-se de um mundo em que os governos incentivam o não-pensar, substituindo a reflexão pelo prazer a todo custo. Reproduzo a seguir uma passagem do livro, no qual o chefe dos bombeiros explica para a personagem principal o funcionamento desta sociedade que optou por uma espécie de “servidão voluntária”:

“Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com ‘fatos’ que ela se sintam empanzinadas, mas absolutamente ‘brilhantes’ quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam”.

Esse curto trecho de Bradbury traduz o que penso sobre a obsessão por conteúdos, especialmente no tocante ao ensino de história.

Do mais, pouco adianta reforçar um discurso do lamento. Para aqueles que pensam e pensam a história de outra forma, há muito trabalho. Difundir a informação que existe uma história diferente, muito além do que uma massaroca da fatos é o nosso primeiro grande desafio. Nossos alunos não são depositórios de conteúdo, esponjas de informação. Assim como não somos o portais da verdade do mundo.

Tags: ensino, factualidade, história, medo, metodologia

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Zulma Sônia de Paula Comentário de Zulma Sônia de Paula em 12 dezembro 2008 às 22:54
Estive em sala de aula por 32 anos e é impressionante como a gente se prende aos conteúdos. Eles estão prontos nos livros e criar algo novo dá trabalho, toma tempo, um tempo que geralmente o professor não tem. Quem se acomoda repete o livro, o texto pronto, as velhas provas, ano após ano. Só que não acrescenta nada. Quem acrescenta é aquele que a cada ano de trabalho olha para os seus alunos, estejam eles na faculdade ou na 5ª série e diz "É com esses que eu vou" e começa uma nova história, a partir da linguagem do aluno, dos fatos novos, analisando esses fatos, relacionando. Quem disse que não se pode ler o livro de trás prá frente, ou começar pelo meio? O sistema educacional diz que não pode, mas ele não está na nossa sala de aula, e aulas inovadoras levam os alunos ao sucesso e aí o que é que o sistema vai dizer? Que vc não deu a sua aula corretamente? Tá! Sempre desconfiei das verdades acabadas dos livros didáticos, dos textos ensebados pelo uso, dos caderninhos de planos de aula. Concordo com vc, Bruno, um bom projeto é tudo e quem sabe não é exatamente isto que precisamos mostrar aos alunos!? A estabelecer metas, a traçar caminhos para alcançá-las, a serem sujeitos da sua história. Isto prá mim é construir a história. Zulma
Giba Comentário de Giba em 10 novembro 2008 às 14:13
Bruno parabéns pelo texto e ótimo.
ele se encaixa exatamente na realidade que vivencio, e triste, e revoltante, como "educadores" assim irão para salas de aula.
senti seu texto como um desabafo, e compartilho dele em cada letra.
Silvio Inácio Moreira Comentário de Silvio Inácio Moreira em 30 outubro 2008 às 14:23
correção...(pela bibliografia...).
Silvio Inácio Moreira Comentário de Silvio Inácio Moreira em 30 outubro 2008 às 14:18
Realmente essa sua preocupação em fundamento, haja visto que o ensino nas faculdades ainda possuem essa faceta conteudista que formam professores robotizados e que na prática também vão encontrar dificuldades em ensinar, pois não aprenderam como se dá os fatos históricos, ou seja, sua construção. Como dizia um dos meus Mestres, Udson Lustosa: "ler as entre linhas", "desatar os nós". É impressionante como em nosso próprio meio, alguns profissionais tem dificuldades de interpretações dos acontecimentos até mesmo do cotidiano, seus posicionamentos políticos, suas visões sobre os movimentos sociais e muitas vezes do comportamento autoritário quando de uma simples promoção a serviço das ordens superiores.
As dificuldades e obstáculos montados pelo sistema imposto no processo de redemocratização do país, retardará em décadas as melhorias que deveríam acontecer no sistema de ensino no Brasil. Talvez a montagem do sistema seja baseada na idéia transmitida pela biografia citada em seu texto, pois a cada dia temos menos leitores, inclusive entre nós.

Um abraço.
Jô Camurugy Comentário de Jô Camurugy em 30 outubro 2008 às 7:52
Entrei ontem no site e estou adorando.
A idéia de ter um espaço reservado para os que gostam de história é muito interessante.
Parabéns!
Espero q possamos trocar muitas figurinhas.
Domitila Madureira Comentário de Domitila Madureira em 28 maio 2008 às 20:04
Concordo e discordo. Concordo pois "pensar" a História e ensinar graduandos a pescarem peixe é uma coisa boa. Discordo porque na minha experiência - e isso infelizmente continua existindo - parte do corpo docente não quer dar aula, com argumentos os mais variados. Mandam os estudantes lerem o texto recomendado e se furtam a ajudar como fonte de experiência que são - será porque detêm conhecimento e esse tem valor estratégico? - e debaterem sem nenhuma exposição prévia. Ocupam dessa forma o horário e não trabalham. Para ler não preciso de tutores. Além do que esse método de trabalho não é nada produtivo. São docentes que se limitam a "fazer mais do mesmo", sem se preocuparem em fechar o ciclo ensino-aprendizagem: pedem resenhas de textos mas não devolvem nunca seu trabalho anotado, comentado. O estamento de funcionários públicos vai chiar, afinal são 1/3 da nação. Antecipo minha rsposta aos incomodados: saiam de sala de aula! Pesquisem, escrevam, realizem funções administrativas, posto que ao fim e ao cabo sois mesmo inamovíveis...
Bruno Leal Comentário de Bruno Leal em 7 abril 2008 às 15:30
Oi Mina!

Obrigado pelo comentário. Concordo com você. VI "Obrigado por fumar" e a coisa é bem por aí mesmo. E mais do que treinados, é possível dizer que muitos gostam de não questionar. Uma pena, pois pensar criticamente é muito divertido e revelador.

Chega de História dos verbetes, né?

abs!
Mina Comentário de Mina em 6 abril 2008 às 17:44
Olá Bruno,

Entrei recentemente no site e estou gostando muito.
Ótimo relato! Acrescento também que além do medo de pensar, inclui também a automatização do ensino: nós fomos treinados a não questionar e um pequeno trecho do filme "Obrigado por fumar" mostra esta pequena "falha" da sociedade. Na verdade confiamos e nos deixamos guiar pelos superiores, considerando que eles possuem mais experiência.
A História é muito mais que uma "Barsa", ela é a composição de todo o pensar do indivíduo durante a sua evolução...Mas eu demorei anos para compreender isso rs

Abçs!

Cinehistória

ABRAÇO PARTIDO

Ariel (Daniel Hendler) é um jovem de vinte e poucos anos, que largou a faculdade e ainda vive às custas da mãe (Adriana Aizemberg). Sua vida gira basicamente em torno de dois locais: a loja de lingeries de sua mãe e o cybercafe local, onde costuma encontrar sua namorada.

Ariel sempre estranhou o fato de nem sua mãe nem seu irmão falarem sobre seu pai, que nos anos 70 partiu para lutar na Guerra do Yom Kippur, em Israel, e nunca mais retornou. Com a crise econômica instalada na Argentina, que força o fechamento de várias lojas tradicionais no bairro onde está a loja de sua mãe, os amigos de Ariel sonham em conseguir a cidadania européia e partir do país em busca de emprego. Ariel também tem este sonho, mas cada vez mais alimenta o desejo de conhecer seu pai e também a verdade sobre seu afastamento da família.

"El Abrazo Partido", filme argentino de 2004 fez bastante sucesso aqui no Brasil. No fundo, sua trama gira em torno de Ariel, que não consegue aceitar o fato do pai tê-lo abandonado para ir lutar na guerra do Yom-Kippur. Essa rejeição à figura paterna também fica explícita no pouco conhecimento que Ariel tem do judaísmo. Face à crise que se abate sobre a economia de seu país, Ariel decide batalhar pelo passaporte polonês (seus avós eram poloneses) e, dessa forma, ter a possibilidade de entrar na Europa e viver com um seguro-desemprego.

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