
(Da esq. para a dir.) Os presidentes da Venezuela (Hugo Chávez), do Equador (Rafael Correa) e da Colômbia (Álvaro Uribe)
Tudo indica que a temperatura na América do Sul esta semana será mais alta do que o normal. A crise envolvendo Equador, Colômbia e Venezuela parece longe de um final feliz, haja vista as últimas declarações de porta-vozes destes três países.
O imbróglio diplomático começou no último sábado, dia 1º, quando militares colombianos atacaram um acampamento das Forças Revolucionárias Colombianas (Farcs), que há mais de três décadas disputam com o governo colombiano o controle de diversas áreas do país. Na operação, morreram cerca de dezoito pessoas, dentre elas Raúl Reyes, número dois da organização paramilitar. Em seguida, o governo equatoriano de Rafael Correa rompeu relações diplomáticas com a Colômbia de Álvaro Uribe, alegando que a operação colombiana havia sido realizada em terras equatorianas. A violação das fronteiras – algo grave em qualquer situação – provocou as mais diversas reações da comunidade internacional. Hugo Chávez, presidente da Venezuela (aliado de Correa e inimigo de Uribe) solidarizou-se com o Equador e também rompeu relações diplomáticas com a Colômbia. Tropas militares equatorianas foram deslocadas para a fronteira com a Colômbia. O presidente Correa exige que a Colômbia peça desculpas formais e pague algum tipo de indenização.
A violação territorial cometida pelos militares colombianos é algo extremamente perigoso. Por mais que a operação tenha ocorrido em uma zona de mata fechada (amazônica) e em legítima defesa (como alega), invadir militarmente a zona territorial de outro país soa como irresponsabilidade e ameaça à soberania do país invadido. As autoridades equatorianas possuem toda razão de exigir uma explicação de Uribe, que até agora não o fez de maneira formal. Por outro lado, o governo Equatoriano parece ter reagido com mais agressividade do que a situação exigia. Atualmente, espera-se que todos Estados resolvam suas diferenças por meio da diplomacia e da negociação pacífica. Mas esse não parece ser o caso na América do Sul. Movimentar milhares de homens armados para a fronteira e expulsar o embaixador colombiano em Quito soou como uma negação ao diálogo. Porque não sentar a mesa e conversar com as autoridades colombianas antes de envolver armas na questão?
Oportunismo
Enquanto isso, o presidente venezuelano, Hugo Chavéz, continua intervindo em todas as questões do continente. Oportunista mais uma vez, Chavéz também expulsou o embaixador colombiano de Caracas e disse que qualquer nova violação de território será encarada como uma declaração de guerra da Colômbia. A julgar pela instável economia venezuelana, as palavras de Chavéz parecem não passar de uma jogada de marketing, dentre as muitas que ele vêm se utilizando em seu mandato. Custo a crer que Chavéz estaria disposto a entrar em um conflito armado. O episódio, porém, é grave, pois pode ser tomado de outra maneira pelos Estados envolvidos. Desta forma, Hugo Chavéz dá provas de irresponsabilidade e intolerância, optando pela agressão em detrimento da diplomacia.
Brasil e Argentina estão empenhados em apaziguar a disputa, tentando evitar qualquer tipo de confronto físico entre os três países. Lula conversou com Uribe e aconselhou o presidente colombiano a fazer um pedido de desculpas ao Equador. Celso Amorin também está empenhado na questão. E levando em consideração sua experiência e profissionalismo, tudo indica que ele pode ter um peso decisivo nesta crise. A ONU e a União européia adotaram posições mais neutras, apesar de condenar a violação territorial da Colômbia. Os EUA, entretanto, reforçaram seu apoio ao governo de Uribe (como em feito nos últimos anos) alegando que embora o incidente seja negativo, foi em prol da “luta contra o terrorismo”. Além destes países e instituições, o ex-líder cubano Fidel Castro acrescentou que “já pode escutar as trombetas da Guerras na América do Sul”, mostrando total falta de tato e humanismo assim como seu aliado Hugo Chávez.
Hoje, dia 3, a Colômbia prometeu levar ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia (Holanda), documentos que provariam o envolvimento do presidente Hugo Chávez e de autoridades equatorianas com membros das Farc. Uribe afirma que o presidente da Venezuela, por exemplo, contribuiu com U$$ 300 milhões para o grupo de rebeldes, que nos últimos anos parece ter sua principal fonte de rende oriunda do narcotráfico.
Pelo que se vem escutando, os governos da Venezuela, EUA e Cuba possuem certa preferência por uma resolução militar e, portanto, violenta da crise sul-americana. Diante disso, Brasil e Argentina – lideranças naturais da região – ganham ainda mais responsabilidade, devendo encaminhar a situação, de modo que os desejos bélicos de alguns não sejam a opção para esta questão.
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