Orlando Zapata Tamayo, estopim da mais recente crise cubana
Um dos piores negócios do mundo durante os últimos 50 anos foi apostar no fim do regime da chamada revolução cubana. A quantidade de livros, ensaios, declarações e resoluções prevendo a queda de Fidel Castro é quase infinita. Ela só foi superada pela quantidade de erros de informação e de análise – para frustração dos que não ocultam o desejo de uma mudança profunda ou o fim do regime.
Lembro-me de uma coluna que publiquei no jornal espanhol El País e na revista Newsweek , em 1990, intitulada O velho e a ilha, quase suplicando ao "Cavalo" (apelido de Fidel) para que fosse embora. Talvez ele enterre todos nós. Mas apesar dos antecedentes negativos e do peso dos erros passados, é possível que a ditadura tropical comece a ouvir, pela primeira vez, passos no jardim.
http://cubarepresion.blogspot.com/2010/09/hrf-hablan-de-las-damas-d...
A conjunção de três fatores justifica uma nova aventura analítica.O primeiro fato novo, ou ausente desde 1994 (quando Cuba sofreu uma queda espetacular de sua economia, depois do colapso da União Soviética, sua patrocinadora), é uma grave crise econômica, que introduziu características de fome e miséria desconhecidas desde aquela época.
A queda do preço do níquel (principal exportação), o recuo do turismo no ano passado, a estagnação das remessas procedentes de Miami e os furacões dos últimos tempos paralisaram as atividades na ilha; os apagões, as terríveis deficiências do sistema de saúde, a falta de alimentos ali produzidos ou importados, a crise generalizada de moradia e a suspensão dos pagamentos de Cuba a seus credores, desde janeiro de 2009, pintam um cenário desolador.
O subsídio venezuelano é ao mesmo tempo indispensável e insuficiente. As privações e as dificuldades da vida cotidiana alcançam grau inusitado, até para um povo acostumado a sofrer. E não é mais tão fácil jogar a culpa no "império": George Bush ou Ronald Reagan não são o mesmo que Barack Obama, cuja popularidade entre os cubanos comuns é descomunal.
Como muitos já apontaram, mais uma crise, por si só, não vai derrubar os Castros. Porém, junto com os próximos fatores, talvez nos leve a territórios inexplorados.
De fato, apesar do caráter minoritário e isolado, tanto o movimento dos grevistas de fome (dissidentes de oposição ao regime castrista) quando o das Damas de Branco (um grupo de mulheres que luta pela libertação de seus parentes presos) criaram um elemento discordante e novo na política cubana.
A morte do pedreiro e preso político Orlando Zapata Tamayo, de 43 anos, pôs o governo na defensiva e cancelou qualquer possibilidade de normalização com a União Européia ou com o México, apesar do vergonhoso cinismo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, do presidente mexicano Felipe Calderón, e de Miguel Angel Moratinos, ministro das Relações Exteriores da Espanha. A morte de Zapata também adiou indefinidamente a aproximação com Washington.
A perseverança de Guillermo Fariñas (psicólogo e jornalista dissidente cubano) em sua greve de fome, iniciada após a morte de Zapata, sua recusa aos convites da Espanha para viajar àquele país em um avião-ambulância, seu crescente caráter de líder oposicionista eloqüente e centrado, além do claro altruísmo de sua causa – ele não é um preso político, mas suspendeu o consumo de água e comida para obter a libertação daqueles que são – lhe dão uma importância interna e externa que só uns poucos dissidentes conseguiram.
Caso se confirmem as informações sobre Darsi Ferrer (médico e dissidente preso) e o oposicionista Franklin Pelegrino – dois novos grevistas de fome que se uniram em solidariedade a Fariñas, em 30 de março – e se o quadro médico de Fariñas se complicar, os fatos poderiam tomar rumo desconhecido.
As Damas de Branco produziram expectativa semelhante. Há anos elas marcham e assistem à missa todos os domingos, buscando libertar seus familiares, presos políticos detidos a partir de 2003.

Só que as multidões formadas pelas Damas, pelos agressores, pelos seguranças e pelos espectadores foram captadas em fotografias, deram a volta ao mundo na imprensa e na internet. Até pouco tempo, um dos trunfos do autoritarismo cubano consistia no isolamento dos oposicionistas e na ignorância em que a população cubana era mantida. Ninguém sabia nada, a não ser pela versão truncada da Rádio Bemba, transmissão boca a boca baseada na tradicional loquacidade cubana. Mas agora, em parte pela pequena fresta aberta por Raúl Castro em relação a celulares, internet, chamadas telefônicas de Miami, um pequeno aumento das viagens de parentes nos Estados Unidos (graças a Obama) é possível que agora se saiba muito mais do que antes.
O que todos sabem, sem lugar para dúvidas, é que Fidel já não cuida das questões do dia a dia. E aqui está o terceiro fator. O comandante jamais teria permitido que um assunto como Zapata saísse de suas mãos. Ou o libertaria, antes que iniciasse a greve de fome, ou o fuzilaria, ou o condecoraria, mas nunca seria visto encurralado, como ocorreu com seu irmão mais novo (Raúl).
O mesmo seria com Fariñas, com as Damas de Branco e, sobretudo, com os possíveis efeitos da simultaneidade de uma crise econômica e de um incipiente movimento de protesto.
Dessa vez, Fidel não estará lá para se dirigir ao Malecón de Havana, como em agosto de 1994, em pleno êxodo dos balseiros, para se confrontar com um enorme grupo de manifestantes e dobrá-los com a magia de suas palavras e com seu aparato de segurança.
Raúl Castro é incapaz de uma cena dessas. Carece dos instintos políticos que permitiram a seu irmão, durante meio século, detectar opositores em potencial, antes deles mesmos pensarem em sê-lo.
O pasto está seco. A faísca, minúscula, existe. Os bombeiros estão esgotados. E a única tábua de salvação – localizada em Caracas – pode afundar a qualquer momento.
Esta conjunção de fatores é inédita na história do castrismo. Pode ser uma explosão a mais. Ou o princípio do fim.
Publicado pelo Diário do Comércio por Jorge G. Castañeda - Opinião - América Latina
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Comentário de mario americo de moura filho em 5 abril 2011 às 7:31 Bom dia Márcia.
Complicadíssimo! Mas é preciso entender que muitas matérias sobre pesquisas científicas em Cuba, mortalidade infantil (que ainda se mantém baixa), saúde pública gratuita, que elogiavam o padrão de saúde em Cuba, antecederam a falência econômica. Evidente, também, que muitos intelectuais, artistas e outras 'celebridades' de esquerda, elogiaram o regime cubano, apesar da violência, da repressão, do Estado policialesco, de uma ditadura que já se arrasta por cinqüenta anos, e que só agora, pela luta de dissidentes e foragidos do regime, iniciamos um aprofundamento do que realmente ocorreu e ocorre em Cuba. Há um post que coloquei sobre a experiência feita por um brasileiro durante, se não me engano trinta dias, vivendo como um cubano, experimentando o racionamento de alimentos etc. Seria interessante que você o lesse. Uma observação: estudar e pesquisar história contemporânea, é lidar com a contradição das informações. É preciso postar notícias, esperando garimpar comentários que acrescentem outras informações, que enriqueçam e gerem novas formas de ver o mesmo acontecimento, fato ou notícia.
Como você disse, é complicado, complicadíssimo, principalmente quando tratamos de regimes fechados, em que apenas vazam informações do interesse do ditador da hora. Com isso, a história se alimenta de mitos, como é o caso de Che Guevara. Um abraço cordial. mario
Oi Mario , é complicado.
muito complicado. Meu melhor amigo esteve lá há dois meses, e refutou todas estas informações.
Não compreendo. Até mesmo jornais que deveriam ser tendenciosos, atestam a evolução da medicina cubana e principalmente, a oferta com qualidade, da saúde publica.
Até mesmo o New York Times, numa crítica ao sistema de saúde americano, tece elogios à baixa taxa de mortalidade infantil cubana. E também, ao auxilio às gestantes e o acompanhamento durante o crescimento.
Aí vc se depara com outras informaççoes totalmente diferentes... busca a fonte e percebe que a maioria são tendenciosas...
logo, só indo lá pra saber...
mas obrigada, quanto a comentários, gosto de fazê-lo com a certeza absoluta do que estou dizendo... para não cair na armadilha do disse - me - disse...
um abraço.
Comentário de mario americo de moura filho em 4 abril 2011 às 17:05 Como vai Márcia.
Como você bem pode observar, o post foca aspectos de natureza política, no que diz respeito as diversas dissidências, como a de Orlando Zapata Tamayo, Guillermo Farinãs, as damas de branco etc.
Quanto ao que você interroga, (fontes que confirmem o problema "saúde pública em Cuba",) há de convir que são inúmeras e difusas: comentários, crônicas, ensaios políticos, posts de viajantes que estiveram em Cuba etc. e cuja credibilidade decorre de conhecermos quem escreve, os seus trabalhos etc.
Um dado elementar para ser analisado, deve começar pelo bloqueio econômico que Cuba sofre há longo tempo, o que certamente, provoca a degradação, não apenas nos setores de saúde, mas em inúmeros outros. Uma asfixia que pretendendo atingir o governo dos irmãos castros, acaba por degradar as necessidades básicas do povo. Não há como sustentar instituições públicas saudáveis, com uma economia falida, e que vem recebendo ajuda, insuficiente, de vários países, inclusive do Brasil.
Com os últimos acontecimentos políticos em Cuba, o início de uma abertura que está permitindo retratos mais realistas e confiáveis, podemos bem avaliar o esgotamento do regime cubano,que já não responde adequadamente aos inúmeros problemas que estão vindo à tona.
Seria interessante, independente das referências que você pergunta "de onde tirou todas estas informações", que você fizesse o seu comentário. Há nas minhas páginas, várias referências ao regime cubano, que não sei se você as leu, de pessoas que lá estiveram e conviveram com o povo e viram de perto o verdadeiro estado da sociedade. Um abraço cordial.
Mario Américo, gostaria que vc postasse as referências de onde tirou todas estas informações, principalmente sobre a saúde em Cuba.
assim, poderei postar um comentário.
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