A Querela de Nanquim

O chamado “Massacre de Nanquim”, evento disputado entre China e Japão nas últimas décadas, é um exemplo de como a memória se tornou uma espécie de munição simbólica no cenário internacional contemporâneo

Nas últimas décadas, a questão da memória adquiriu status de verdadeiro fenômeno social e global, não apenas para os países mais participativos no âmbito das relações internacionais, mas também para países que até pouco tempo atrás eram caracterizados por uma política externa mais isolada. É o caso da China com a sua mais recente postura diante do polêmico "Massacre de Nanquim". O genocídio de milhares de civis de Nanquim, então capital da República da China, após a cidade ter sucumbido ao ataque japonês de dezembro de 1937, sempre foi uma querela entre os dois países. Mas foi somente nos últimos anos que a China encampou o assunto como questão importante (e até mesmo estratégico) de sua política externa.

Os primeiros sinais de que o "Estupro de Nanquim" - como o genocídio também é chamado pelos chineses - estava tomando uma nova dimensão ocorreu ainda em 2004. Em abril daquele ano, diversos protestos ocorreram na China contra livros didáticos japoneses que não reconheciam os atos genocidas das tropas japoneses em Nanquim. Os manifestantes chineses cercaram a embaixada japonesa, atiraram pedras na casa do embaixador japonês e também quebraram vitrines de lojas do Japão. Em nenhum momento, o governo chinês - famoso por sua repressão a manifestações sociais - se mostrou contra a onda de violência, um forte indicativo que no seio do governo de Pequim nutria-se um renovado sentimento antinipônico. Um ano depois, em 2005, o clima ficou ainda mais tenso, após parlamentares japoneses fazerem uma visita oficial ao Santuário Yasukini, em Tóquio, um templo que homenageia os mortos japoneses em batalhas, dentre os quais notórios criminosos de guerra que participaram do "Massacre de Nanquim". Para os chineses, o ato representava uma afronta à memória do massacre.

Se por um lado, o estado japonês não reconhece oficialmente a acusação de crimes de guerra ou ainda crimes contra a humanidade movidas contra ele, as autoridades chinesas, por outro, reafirmam com cada vez mais vigor cada aspecto deste passado sensível. Além de ser exercitarem a tolerância diante das manifestações populares contra o Japão, o governo chinês também aposta pesado em narrativas de memória.

É o caso, por exemplo, do Memorial do Massacre de Nanquim (Foto), localizado na província de Jiangu. O espaço foi construído em 1985 para lembrar o evento. Em 2007, o memorial passou por uma ampliação, sendo reaberto ao público justamente quando o massacre completou 70 anos. Na data de sua reinauguração, mais de 50 mil pessoas passaram pelo lugar. Além disso, o circuito artístico chinês é outro espaço que começa a ser largamente utilizado como lugar de memória para os chineses que não querem esquecer do Massacre de Nanquim. Em 2009 foram lançados inúmeros livros, documentários e filmes, entre os quais se destaca Nanjing, Nanjing, de Lua Chuan, vencedor da Palma de Outro do Festival de Cinema de San Sebastián daquele ano.

Embora as teorias sociológicas trabalhem a memória basicamente do ponto de vista social, é preciso reafirmar o elemento político na construção de narrativas que operam tanto com a lembrança quanto com o esquecimento. No caso das relações entre China e Japão, a politização da memória está longe de ser um fenômeno meramente cultural. Na década de 2000, os dois países divergiram de forma recorrente em relação à reforma no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a ONU. Para as autoridades chinesas, seria extremamente danoso o Japão conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Neste sentido, episódios como o "Massacre de Nanquim" e também de outros, como a questão de Taiwan, foram largamente utilizados como munição nesta disputa diplomática. Para a China, um país como o Japão, que não reconhece crimes de grande proporção ocorridos no passado não possuiria direito ético ou moral de pleitear uma responsabilidade de tamanha envergadura no cenário internacional.

Embora a disputa tenha surgido no âmbito governamental, o tema vem sendo absorvido por setores nacionalistas. É o caso do chamado “revisionismo japonês”. Trata-se de um grupo de autores e pesquisadores, independentes ou acadêmicos, que rechaçam ou relativizam as acusações chinesas. Para estes “revisionistas”, o massacre em Nanquim não aconteceu ou não passou de um exagero criado pelo governo chinês para atacar o estado japonês. Apesar de os “revisionistas japoneses” não formem um grupo homogêneo, consistente ou ainda plenamente reconhecido pela comunidade acadêmica, sua atuação vem se intensificando, sobretudo após a popularização da internet, no final dos anos 1990. O risco deste tipo de narrativa, que super-politiza a memória de modo a transformá-la em arma simbólica é reduzir crimes e genocídios a meros aspectos conjecturais, como se o episódio de Nanquim fosse um caso de pura interpretação história ou de falsificação ideológica. O revisionismo japonês engendra, neste sentido, um perigo igual ou ainda maior do que aquele gerado pelo “negacionismo” europeu ou americano, no qual um grupo de autores, alguns deles com alguma posição acadêmica, negam o genocídio nazista contra os judeus. É preciso, porém, marcar uma diferença importante entre os dois casos: se para o negacionismo europeu o que está em jogo é a reabilitação de partidos extremistas (de esquerda e principalmente de direita) ou ainda a desqualificação a qualquer preço do estado de Israel, no caso asiático a disputa é mais ampla e profunda, pois envolve o nível governamental, até mesmo de modo oficial, e produz tensões que impactam diretamente na geopolítica mundial.

O “Massacre de Nanquim”, finalmente, é aquilo que se pode chamar de um verdadeiro imbróglio da memória no quadro das relações entre os países asiáticos. Os aspectos que envolvem o episódio são tão incontroláveis, que mesmo a China parece ter problemas ao reafirmar essa memória. Isso ocorre porque ao colocar um genocídio em primeiro plano, ela evoca outras memórias sensíveis, acusações de violação dos direitos humanos contra ela própria, por exemplo. É o caso da censura, dos protestos da Praça Tianannmen (1989) ou ainda sua postura em relação ao Tibet. Enquanto isso, negar ou reafirmar com tanta ênfase esta memória, torna-se um problema para os dois países, que a cada ano intensificam suas relações comerciais. E se o revisionismo japonês, por sua vez, não conta com nenhuma condenação diplomática efetiva por parte dos Estados Unidos, país com grande interesse nas relações existentes naquela parte do mundo, aliado do Japão, essa simpatia velada torna-se constrangedora, pois vem da China a lembrança de Pearl Harbor. Enfim, uma miscelânea de lembranças e acusações capazes de provocar uma querela interminável.

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Tags: China, Genocídio, Japão, Memória, Nanquim, Ásia

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Comentário de Natasha Petrov em 17 agosto 2012 às 20:16

genocídio é a barbárie da humanidade. Sempre existem aqueles que praticam pra estar no poder e usufruir das riquezas e aqueles que apoiam. Na maioria das vezes usam como pretexto: a religião ou a etnia pra receber apoio. A força e o terror (tortura, assassinatos) são suas armas. Quais são os impérios, repúblicas ou estados que não a praticaram?

Comentário de Jefferson Ramos da Silva em 24 janeiro 2011 às 19:02

        Massacres ocorrem de ambos os lados. Dos que vencem ou perdem os conflitos. Atrocidades que tropas de ocupação realizam são base desses processos históricos. A destruição de Cartago pelos romanos. Os genocídios e bombardeios sistemáticos no Vietnã. Em Mogadíscio a intervenção dos EUA em 1995. Retratada no filme Falcão Negro em perigo. Do lado dos fuzileiros navais americanos 19 mortos do outro lado mais de 1800. Em apenas 24 horas. O lado vencedor sempre possui as canetas da história. Pode carregar nas tintas.  Enaltecer os seus heróis, relativizar as suas ações não éticas em combate, sempre justificando o mal menor pelo bem maior. Neste sentido, o estupro de Nanquim deve passar por reuniões para buscar entre Japão e China - uma procura pelos fatos; uma análise em que sentados de ambos os lados historiadores, antropologos e testemunhas possam chegar a demonstrar o que sempre acontece. Quem chega implanta o terror para exercer o mando. O bombardeio de Dresden na Alemanha. O massacre de oficiais polones pelos soviéticos durante a segunda guerra. Todos abusam, neste momento degenerados, psicopatas e bêbados fazem horrores em nome da pátria, do ódio e da libido. Jovens querem quando soldados duas coisas: comida e sexo. Se o comando não impedir vai haver mortes, orgias e violências das mais variadas. Porque a primeira vítima de uma guerra é a verdade. 

 

Comentário de Andre Bueno em 17 janeiro 2011 às 14:27

Caro Kevin, tudo bem?

Já conhecia o trabalho de vocês pela net, e estão de parabéns! Excelente a atuação de vocês e seus projetos. Quanto a questão chinesa, é de se esperar algo assim. Por analogia, veja o nosso caso (o do Brasil): já fui na argentina e fui muito bem recebido; de fato, muitos dos brasileiros que iam para lá é que eram extremamente mal educados, arrogantes e agressivos. Por fim, não vi nenhuma propaganda anti-brasileira lá. Mas ao chegar no Brasil, vejo este ódio instigado pela mídia, esta determinação em criar a idéia de que são nossos inimigos. Isso prova, em muito, que a consciência de uma nação é criada pelo jeito como ela é educada (como já dizia o sábio Confúcio). É curioso notar que os japoneses e taiwaneses são investidores assíduos na China continental, o que demonstra, a meu ver, que daqui algum tempo estes discursos devem mudar...

Caro Kevin, o prazer será todo meu de manter contato contigo. grande abraço! :) 

Comentário de Kevin de La Tour em 16 janeiro 2011 às 22:59

Olá André,

Sou recente no Café História e tive a oportunidade de ver a sua matéria que inclui o massacre de Nanquim. Parabéns pelo texto! Eu (americano) e minha esposa Simone (brasileira) residimos na China há mais de 10 anos, promovendo programas culturais entre o Brasil e a China. Somos ativos na comunidade acadêmica chinesa, na área de Filosofia Chinesa. Informações sobre o nosso trabalho no site www.sino-brazilian-exchange.org. Anualmente, principalmente na época que o massacre de Nanquim ocorreu, inúmeros artigos e reportagens são apresentados na mídia chinesa, o que alimenta um sentimento negativo excessivo entre nações.  Vamos manter contato!

Comentário de Wilson Simão em 13 janeiro 2011 às 20:38

De modo geral, a história do mundo deve ser refeita.

Só sabemos a versão ocidental, enquanto a oriental ? pelo jeito, ainda não existe.

Comentário de Ana Beatriz Carvalho Baiocchi em 11 janeiro 2011 às 17:12

Matéria muito interessante! Nos faz pensar que hoje em dia, as formas de dominação e afirmação sobre outras culturas, perpassa essas relações de memória, tanto no âmbito cultural, como político e econômico. A memória está se tornando uma nova arma, uma nova configuração de "guerra" na tentativa de se sobrepor sobre as demais culturas.

Gostaria também de ter mais acesso a textos sobre as culturas orientais, tão intrínsecas na própria cultura ocidental e dela herdeira.

Comentário de Andre Bueno em 10 janeiro 2011 às 14:46

Obrigado pelo comentário Lygia! De fato, a memória coletiva, tanto quanto a história oral, sofrem muito com a "magia do documento" de que ainda sofremos. Este fetiche documental é curioso: nos faz desprezar ou reafirmar as fontes segundo uma lógica e coerência próprias, mas não necessariamente científicas.

Se vocês me permitirem a oportunidade, gostaria de convidá-los a visitar o Projeto Orientalismo:

www.orientalismo.blogspot.com

O projeto é uma iniciativa virtual em divulgar textos sobre história e cultura asiática, principalmente China e Índia. Na seção "Outras páginas do Projeto", há um conjunto de textos que podem ser do interesse público. O projeto tem apoio institucional da UEPR (ou FAFIUV) de União da Vitória, PR.

grande abraço!

Comentário de Lygia Oliveira em 9 janeiro 2011 às 20:28

Oi!

Gostei muito do artigo. Faz pensar na questão da memória coletiva na forma como pode ser reativada ou esquecida de acordo os interesses da classe dominante.

Aproveito a oportunidade para uma sugestão: gostaria que fosse publicados mais artigos sobre a história da China. Afinal cada vez mais a China desponta como potencia e particularmente não tenho muita informação sobre este povo milenar.

Grata 

Comentário de Andre Bueno em 9 janeiro 2011 às 16:03

Caro Bruno, obrigado pelos comentários. E o que dizer do café história, que é o máximo? :)

Breno, quanto ao seu comentário: de fato, que país no mundo gosta de revisar sua história e assumir o que pode ser um crime de guerra? (embora, claro, esta noção - "crime de guerra" - seja relativamente recente na história). No entanto, me permita perguntar: para quem este evento ficou bem marcado?

Abraço

André

Comentário de Breno Araujo em 9 janeiro 2011 às 13:50
Isso mostra o que um evento desse calibre pode ser marcado como bom para uns e mau para outros.

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Chega aos cinemas o filme islandês "Sobrevivente", de Baltasar Kormákur. 

Sinopse: Durante o inverno de 1984, um barco pesqueiro naufraga no Atlântico Norte, nas proximidades da Islândia. Os tripulantes tentam sobreviver, mas as águas geladas impedem que essa tarefa seja facilmente concluída, restando apenas Gulli (Ólafur Darri Ólafsson), um homem bom, de fé, querido por todos, e com uma vontade de viver inacreditável. Após nadar por cerca de seis horas e enfrentar vários percalços, ele consegue contato com a civilização. Após a incrível experiência vivida, Gulli terá ainda que viver com a dor da perda dos amigos e, pior, a incredulidade de todos, que não entendem ele ter sobrevivido a uma situação tão extrema e insistem em fazer testes para saber como isso pode ter acontecido. Baseado em fatos reais.

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