Contando um Conto (História das Relações Sócio-culturais)

Foto: José Maria R. de Almeida.


Fartura

Década de 1930.


As cacimbas que se enfileiram no leito seco do riacho Araibu serviam, além de fornecer água, para marcar a alegria do povo pelo avanço das águas nos anos de invernada, era o fim do estio.

Quando corria a notícia de que as águas do Jaguaribe estavam dando de beber ao Araibu, as irradiadoras do cinema alarmavam no prédio da Sociedade Beneficente, emitiam em boletins informativos, quais as cacimbas que as águas já haviam engolido. O interessante, é que nas informações veiculadas, não se dizia o nome do proprietário da terra daquela cacimba, mas o nome das lavadeiras de roupa que utilizavam as cacimbas para o seu ofício.

Ao primeiro alarme de que as águas estavam chegando, imediatamente grande número de pessoas se encaminhavam para o Sítio Canto, com o intuito de acompanharem, juntamente com a Banda de Música, a trajetória
incessante da água. Ao se aproximar da sede do município, o foguetório anunciava esse tão aguardado líquido. Se por um lado destruía o trabalho das lavadeiras, por outro, irrigava todas as terras a sua margem e a resposta era uma grande explosão de fartura de frutas, legumes, cereais e criações.

O mercado velho servia como pretexto para que as barracas se espalhassem em sua volta. Todas recheadas das muitas variedades de víveres da região jaguaribana. As festas da igreja eram realizadas nesse espaço, pela noite que dava mais frescor aos transeuntes e acolhia melhor as apresentações musicais e as diversas brincadeiras, entre elas, o piado do carrossel de madeira de Antônio da Marta, os grupos de Bumba-meu-boi, as Pastorinhas, os sambas, as novenas nas casas e na Matriz do Rosário.

Os cheiros inundavam o espaço. As lavadeiras, assim como a maioria das mulheres, entregavam-se ao ofício de preparar os sabores mais apreciados desses sertões, questão de orgulho. Carne cozida com jerimum e maxixe, pirão coberto com peixe no coco, carne assada com farinha e leite, galinha capoeira no sangue com pirão e feijão de corda, tutano machucado com feijão e farinha, beiju, pamonha, tapioca no leite de coco, costela de criação e porco assada, avoante torrada na banha de porco, doces de rapadura, caju, mamão e quarenta, suco de manga, ata, qualhada com bolacha seca, laranja com pato cozido, capote no quiabo com farofa de cebola, tatu refogado com cebola, pimenta e macaxeira, panelada, fuçura, pirão de rabada e mão de vaca, buchada, aluá, cachaça, suco de tamarina, castanha de caju assada, quebra-queixo, bolo de milho, bolo de batata doce, farofa de tripa de porco assada, peixe torrado com farofa de ovo, pão de milho com carne seca, churisco, caça, etc. todas as comidas enfeitando com seus sabores e aromas as conversas que permeiam aquela gente.

Até que a próxima estiagem reforce a necessidade de comer carnaúba preta. Café de mangirioba adoçado com rapadura sustenta o estômago enquanto não chega a hora do sono. Os sinos da Matriz badalam indolentes e põe em marcha todas as almas que esperam hóstia para salivarem seus impulsos de fé. Os olhos sempre arribados para o céu, esperam o nublado que traz novamente a alegria de ver o Jaguaribe, o Araibu e a lagoa da Caiçara esporrando toda a sua riqueza e esplendor, da aurora ao arrebol. Estômago e Espírito satisfeito.

Hider.

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Comentário de Hider Albuquerque Lima em 19 setembro 2010 às 22:46
Olá Celso!
Obrigado pelo comentário! Olha, do jeito que a situação climática do planeta vai, não podemos duvidar de nada.

Abraços e tudo de bom!
Comentário de Celso Pedro Scolari em 19 setembro 2010 às 19:56
Olá!
Parabéns pelo conto, gostei.
Será que um dia na Região Sul do Brasil, não estaremos festejando a época das chuvas?

Um abraço,
Celso

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