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POR Lucas Alves

 

 

A posição da mulher no período colonial

 

 

A investigação dos elementos literários como mecanismo da expressão de determinada sociedade é completamente viável. Avaliar a maneira de escrita, o teor de determinados discursos, a compreensão de mundo, a avaliação da própria existência, a construção dos conceitos e da cultura, além de demonstrar as relações sociais moldadas pela cultura de cada sociedade, são elementos passiveis de investigação com a utilização de obras literárias como fonte. Compreender a literatura não como uma manifestação prática da sociedade, mas como uma manifestação que perpassa várias seleções, de modo a ser avaliada como pertencentes ao campo das ideias de um povo e que pode nos aproximar (com a devida apuração crítica) das relações sociais presentes em determinada cultura. Esse é o cuidado que se deve ter no trato do elemento literário para que possamos compreender as mutações que o mesmo sofreu ao longo do tempo. O presente trabalho propõe-se a estabelecer uma leitura d crítica da obra do Padre Antônio Vieira e com o auxílio de Emanuel Araújo estabelecer uma aproximação dos conceitos e discursos formados acerca do papel feminino no período colonial brasileiro.

Após essa introdução, proponho agora envolver-me mais no recorte deste trabalho: a condição da mulher ao longo do período colonial sob a ótica barroca dos Sermões do padre Antônio Vieira contando com o apoio do trabalho Historiográfico de Emanuel Araújo.

 

A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom de comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também a seu marido, que comeu igualmente”. (Bíblia sagrada)

 

Na sociedade ocidental amparado por uma filosofia greco-judaica a mulher era vista como uma pecadora em potencial e que, portanto, deveria ser afastada das atividades sociais para que a sua natureza não prejudicasse os homens mais uma vez. A literatura barroca do período colonial brasileiro expressa de maneira clara a posição da mulher na referida sociedade.

 

Na sociedade colonial a mulher era vista em tentação permanente e, assim, podia ser potencialmente adultera, feiticeira, enganadora, sibarita, repositório enfim de todos os males já presentes desde a primeira mulher, Eva, a Eva tentadora”. (Teatro dos vícios PP.213 - Emanuel Araújo)

 

 

A conhecida frase “lugar de mulher em casa” que vigora até os dias atuais demonstra o quanto esta filosofia se fez e se faz presente na sociedade brasileira. Assim como Portugal e quase toda cultura ocidental, diretamente influenciada pela cultura hebraica, o Brasil é uma sociedade patriarcal, onde o homem é a cabeça da família e a mulher é submissa às vontades deles. Eva, além de cometer o pecado ela convenceu Adão a comer o fruto proibido o qual expôs toda humanidade ao pecado original e o castigo foi à expulsão do paraíso. Portanto Eva não é apenas “a pecadora”, mas também uma ameaça à vida social e, por isso, ela deve ficar reclusa em casa para não expor os homens, novamente, ao pecado e aos prejuízos advindos dele. Outra concepção sobre a mulher expressa no barroco era a da sua natureza de fácil convencimento, portanto, elas eram mais facilmente atraídas pelas tentações do demônio o que torna a mulher uma ameaça constante à sociedade.

 

A serpente era o animal mais astuto de todos os animais dos campos que o senhor Deus tinha criado. Ela disse à mulher: ‘É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim? ’. A mulher respondeu-lhe: ‘Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas da árvore que está no meio do jardim Deus nos proibiu senão nós morreríamos’. ‘Oh não! – respondeu a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem do mal”. (Bíblia sagrada)

 

Se a primeira mulher criada diretamente por Deus foi persuadida pela serpente, quem dirá as mulheres do período colonial que são em maior quantidade e mais vulnerável à tentação do maligno, como afirmava padre Antônio Vieira:

 

No Paraíso havia uma só árvore vedada; no mundo há infinitas” (padre Antônio Vieira “sermões da quinta feira da quaresma”. Na misericórdia de Lisboa. Ano 1669 pp.184).

 

Era este o pensamento do período e, portanto, a mulher deveria se manter afastada da sociedade. Para isso, foram elaborados uma série de elementos de reclusão da mulher, entre eles, o de denegrir a mulher como “puta” ou outros adjetivos baixos para aquelas que possuíssem uma vida social mais ativa. A mulher que possuísse uma vida social mais ativa era mal vista pela sociedade, então, concluímos que para aquelas que tentassem participar das atividades sociais teriam que enfrentar uma série de pré-conceitos, ainda mais fortes em uma sociedade patriarcal como a brasileira. A elaboração desses discursos acerca do papel feminino deve ser observado como um elemento envolvido e uma serie de relações de poderes espalhados pelo corpo social.

A manutenção deste discurso a favor da reclusão feminina é encontrada nos Sermões de um dos maiores ícones da literatura barroca, padre Antônio Vieira. Antônio Vieira é incisivo em seus sermões em reafirmar a posição da mulher na sociedade. Apesar de possuir um papel de mãe e até mesmo foi a “mãe do filho de Deus, uma mulher”, o feminino continua sendo submisso aos pais, irmãos e, posteriormente, aos seus maridos(Foucault. A ordem do discurso).

 

Tenta e engana o demônio aos filhos de Eva com a mesma traça e com a mesma astúcia com que a enganou a ela. Como a fé é o fundamento da graça, contra a fé vomitou a serpente o primeiro veneno, e na fé armou o laço à primeira mulher. Mas como? Porventura intentou persuadir-lhe que não cresse em Deus, ou duvidasse da sua divindade? Tão fora esteve disto o demônio, que antes ele ratificou a Eva essa mesma crença de Deus, uma e outra vez, supondo sempre que o que lhe pusera o preceito, era Deus: Cur praecepit vobis Deus? E o que lhe ameaçara a morte também era Deus: Scit enim Deus quod in quocumque die comederitis ex eo. Pois em que esteve logo a tentação contra a fé? Não esteve em que Eva não cresse o que Deus era; esteve em que não cresse o que Deus dizia. Deus disse a Eva e a Adão que, no ponto em que comessem da árvore vedada, haviam de morrer.” (sermões)

 

 

Tinha roncado e barbateado Pedro que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário, e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar.”(sermões)

 

 

A posição da mulher na sociedade brasileira faz parte, também, da construção identitária do Brasil. As palavras incisivas de padre Antônio Vieira e a ironia de Gregório de Matos perpetuaram pela sociedade e vigorou até meados do século XX e ainda é presente em nossa sociedade em pleno século XXI. É recorrente vermos nos noticiários pesquisas acerca da condição da mulher no mercado de trabalho, demonstrando que as mulheres em relação aos homens não possuem a mesma possibilidade de sucesso profissional. Mesmo com o crescimento das mulheres chefes de família o discurso do período colonial ainda vigora, aquelas tem que enfrentar uma série de bloqueios sociais para conseguirem um maio espaço.

Mediante o exposto é interessante perceber como é cunhado os discursos com os quais atribuímos sentido à sociedade, e como os mesmos permaneceram arraigados na sociedade brasileira ao longo do tempo. A reclusão das mulheres continua recorrente na sociedade atual e como os mecanismos de exclusão diminuíram com o advento do século XXI nos vemos cada vez mais diante de crimes contra as mesmas. Os incisivos discursos contra as mulheres sofreram intensas transformações e que nos deixa uma inquietação. Qual é o lugar da mulher brasileira na contemporaneidade?

 

 

 

Bibliografia

 

 

ARAÚJO, Emanuel. O teatro dos vícios. Transgressão e transigências na sociedade urbana colonial. Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/UnB, 1993.

 

Vieira, padre Antonio. Sermões. Ministério da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do livro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Às 13:38 em 4 fevereiro 2011, Sebastiana Rosa disse...

Olá Lucas!

 

Quando vc disse "geradores de representações" cabe discutir a esse respeito. A representação e a discriminação está presente em várias instituções e em diversos períodos. No caso do hopício houve a necessidade de esconder essas pessoas, pois ao mesmo tempo em que os indivíduos eram motivo de ameaça para a sociedade, eram também considerados vergonhosos diante diante do que representavam em público.

Acredito que não seja o momento certo para citar, mas temos a exemplo disso o Brasil Colonial onde a loucura é registrada desde os primeiros séculos da colonização. Aos poucos os loucos que passeavam pelas ruas da Corte, foram confinados em manicômios e submetidos a tratamentos radicais, prática pouco tempo corrente no país. Tenho um dossiê interessante pra te indicar, mas agora estou sem a bibliografia.

 

Abraços!

 
 
 

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