Caros amigos,
Hoje sou um homem sem passado. A paternidade me reduziu à situação de quase inexistência. À medida que o amor de pai aumenta a personalidade do cidadão desaparece. É incrível, mas me tornei ninguém.
A primeira hora de minha filha fora do hospital já revelava meu futuro. Ao chegar em casa, fui à farmácia comprar algo que está sempre acabando: fraldas. Ao retornar, como havia esquecido a chave do portão, bati o interfone, atendido por minha sogra: “Quem é? “, perguntou ela; “Sou eu” – respondi com voz ofegante. Deu pra ouvir minha mulher perguntando quem estava chegando. Minha sogra respondeu na altura suficiente pra avisar ao mundo a minha nova situação: “ Não é ninguém não, é o Cássio.”
Os dias seguem e a gente desaparece em casa. A sua cama já não lhe cabe; o número de pessoas desconhecidas que freqüentam a sua casa - e tem a chave-, é uma barbaridade. Já aconteceu de eu achar que entrei na casa errada.
De uma hora pra outra você tem que dominar coisas inimagináveis, já que o bebê não fala, só chora: “Será que é fome?”; “A fralda está suja?”; “Pode ser dor de ouvido?”, “É cólica?”, “Olha o umbigo”... E isso tudo de madrugada!
Além do bebê, a pessoa mais importante da casa passa a ser a conselheira de plantão: uma mãe experiente; uma babá formidável; uma enfermeira inigualável; o pediatra. O pai, meu caro, é um mero apêndice, um estrangeiro em sua própria casa, um estorvo. A sua função é atrapalhar o mínimo possível e fazer qualquer serviço que não exija qualificação, a ponto de um amigo – pai de 5 filhos - ter me dado uma camisa vermelha de presente, escrita na frente e atrás em letras garrafais: “POSSO AJUDAR?”. Quando ponho a camisa pra lavar, uso um crachá.
Um dia senti que a minha ausência naquele momento era bem-vinda, ou melhor, incentivada. Saí uma noite pra distrair, beber um pouco, essas coisas da humanidade. Quando retornei mais alegrinho, fui dar um beijo na minha filhota que estava dormindo. Ela acordou, e acordou a mãe, que acordou a cidade ao me agradecer por desfazer 5 horas de luta pra fazer a Gabi dormir.
Uma coisa aprendi rápido: é impossível viver nesses primeiros meses sem uma enfermeira competente, sobretudo para auxiliar na madrugada. Auxiliar, não!, nos salvar. A que contratamos chegava às 22:00h. Quando dava 18:01h, eu começava a contar os segundos esperando a hora passar. Nunca papariquei tanto uma pessoa na minha vida. Abria a porta, preparava o prato que ela gostava, recebia o sermão da vez, pois ela era Testemunha de Jeová – pregava todo dia. Nesse ponto, contei com o benefício do perdão, já que não conseguia cumprir as tarefas religiosas que me eram passadas todas as noites. Deus sabe o que é ter a meta de converter 5 amigos por mês; logo eu, que sou meio budista.
Após 6 dias de trabalho veio a folga da enfermeira. Num ato de loucura resolvemos – eu e a Bela – passarmos, sem apoio, o domingo e a segunda-feira. Resultado: fui ao hospital 5 vezes; à farmácia, 12; e liguei tanto para o pediatra que ele me disse que estaria aposentando, agradeceu a confiança e não atendeu mais.
Os amigos se assustaram com a minha aparência de eucalipto triste, agravada pelo fato de eu dormir todos os dias no elevador. Todos passaram a querer me ajudar, cujo primeiro ato seria arrumar uma enfermeira qualificadíssima para fazer a folga da titular. Veio uma senhora de estilo militar. Quando abri a porta e lhe estendi a mão, a primeira coisa que ela fez foi me perguntar: “Quero álcool!” O meu estado de necessidade era tal, que respondi de pronto: “uísque à esquerda, vodca embaixo, cerveja na geladeira”. Incrivelmente, ela queria apenas desinfetar as mãos. Foi uma decepção – para os dois. Não voltou mais.
Mas não devo me queixar. O meu amor pelas duas mulheres de minha vida aumentou à proporção dos conselhos que recebi. Petraccone, amigo que se notabiliza por ser desprovido de vontade (pois é capaz de assistir a quase todos os jogos do Galo sem beber um gole de cerveja!), disse-me que era preciso ter força de vontade, pois tudo na vida passa – ou a gente se acostuma. Mas de todos, o que mais me marcou foi quando Godoy (o único philósofo contemporâneo reconhecido no Mercado Central e ghost-writer do Presidente de vocês), entusiasmado pela cerveja, me disse aos berros: “Quem não faz falta não tem importância, meu caro”. Por isso é que eu faria tudo de novo, pois aquela baixinha e sua mãe fazem uma falta danada na minha vida. Sem elas sou um homem sem futuro.
Um abraço do Cássio
Escrito por Cássio Roberto dos Santos Andrade em dezembro de 2010.
e-mail: cassioroberto@cassioandrade.adv.br
Postado em 13 outubro 2011 às 15:19 0 Comentários 0 Curtiram isto
ENCONTRO MARCADO COM A MORTE
Era uma fria manhã de segunda-feira, com céu cinzento e vento forte a bater na janela do quarto. Virgínia passara a terceira noite sem dormir, mas não chorou desta vez. Ao contrário, parecia mais leve, com um semblante sereno que nunca havia experimentado. Desligou o despertador antes que tocasse; levantou-se, tomou um banho quente que encheu o quarto de vapor, e escolheu uma roupa…
ContinuarPostado em 10 junho 2011 às 17:07 0 Comentários 0 Curtiram isto
Caros amigos,
Este país é realmente curioso: para o Cesare Battisti que daria tudo para ficar aqui eternamente, o Supremo mantém a prisão durante a tramitação do processo evitando a fuga (?); já para o Roger Abdelmassih que daria tudo para fugir, o Supremo concede a liberdade enquanto perdura o processo. Será que é herança de Portugal (sem nenhuma ofensa, até porque é minha ascendência)?
Abraços do Cássio
Postado em 6 junho 2011 às 15:21 1 Comentar 1 Curtiu isto
O SUPREMO PEDE DESCULPAS?
O sol brilhou na janela de um luxuoso quarto, refletindo o azul de um mar tranqüilo em algum lugar paradisíaco deste mundo afora. É nesse cenário onde, provavelmente, o Dr. Roger Abdelmassih desperta para degustar o sabor delicioso da liberdade a lhe provocar um imenso sorriso de satisfação, talvez na mesma intensidade do gozo que fruía ao estuprar suas pacientes. Mas nada lhe deve dar mais prazer do que rir do Judiciário,…
Continuar
Elizabeth Tadiello disse... Chegando agora, Cássio?
Ótimo, espero ler mais de suas crônicas e afins.
Bom Café!
Abralos!
Bem-vindo (a) ao
Cafe Historia
Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
Ativado por

