O TRÁGIGO FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA NA POESIA LÍRICA DE OLEG ALMEIDA
Quando recebi o livro Memórias dum Hiperbóreo, que me foi gentilmente oferecido pelo autor na primeira semana de setembro de 2011, fiz logo duas leituras atentas. Naqueles dias me recuperava de uma cirurgia na mão direita, o que me impediu de escrever imediatamente minha opinião sobre o livro. Com certa dificuldade ainda rabisquei algumas linhas num bloco de anotações que agora retomo como base para redigir este texto.
O autor, Oleg Almeida, é um poeta nascido na ex-república soviética da Bielo-Rússia. Vivendo no Brasil desde 2005, publicou seu primeiro livro em português, Memórias dum Hiperbóreo, em outubro de 2008.
Antes de me aventurar em fazer qualquer comentário sobre o livro tive o cuidado de ler a crítica especializada e o que li me pareceu muito superficial. A maioria dos críticos pareciam usar o método dos mecanicistas do século XVIII, descrevendo aparências e formas exteriores, sem compreenderem a composição e a estrutura interna das coisas. Me lembro ainda de ter lido um artigo de Paula Cajaty, em que a autora confessava não saber sequer onde ficava a Bielo-Rússia, pensando que esse país talvez fizesse fronteira com a Grécia.
Além da rica poesia lírica, Memórias dum Hiperbóreo expressa concepções filosóficas em forma de versos quando o autor diz:
“Sou ínfimo e sublime,
como só pode ser um pedaço de carne dotado de espírito:
a minha vitória resulta das minhas fraquezas,
o cosmos, que me enclausura, íntegro cabe no meu pensamento.”
Mais adiante, manifestando pensamentos que refletem um pouco da ideologia sob a qual surgiu o Estado soviético, o poeta diz “confia nas coisas concretas do mundo”(p. 15), expressando uma visão materialista do mundo, típica de uma sociedade em que o Estado promove a educação do povo combatendo as superstições religiosas. Logo em seguida os versos “desde que sou apátrida (sabes o que esta palavra?), venero o espaço”, revelam, sem dúvida, a condição do autor, refugiado num país estrangeiro porque sua pátria foi conquistada e destruída, mas também nos fazem lembrar do internacionalismo proletário, ainda que esse princípio tenha sido profundamente desvirtuado pelo stalinismo na sociedade soviética.
O livro de Oleg Almeida exalta as paixões e prazeres da vida, como se vê no poema número VIII. Mas o eixo central de Memórias dum Hiperbóreo é, indiscutivelmente, o desmoronamento de uma sociedade em que, como diz o poeta, as pessoas “viviam de modo que mesmo o pior dos malogros lhes dava razão, com gosto e ousadia viviam”(p. 13). É assim que o autor lamenta o tráfico fim da URSS: “e fica a saudade do Éden desmoronado”(p.10).
Como um livro de memórias, a obra revela que o autor é um homem dividido entre os valores da sociedade onde nasceu e se formou e a necessidade de adaptar-se aos valores da barbárie capitalista em que foi obrigado a sobreviver. “Estava morta a minha felicidade, nas não acabara a vida, só tinham mudado os valores dela”.
Através de analogias históricas com a Grécia antiga, o autor nos remete a importantes fatos da história da ex-União Soviética. Quando diz “e se alguém violasse, igual a Xerxes, as suas fronteira, acabaria expulso pelo exército grego!”, nos faz lembrar inevitavelmente da épica resistência soviética à invasão nazista e da expulsão das forças de Hitler pelo Exército Vermelho, fato que marcou o início da derrota do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial.
Em outro trecho da obra, os versos de Oleg Almeida indagam sobre quem poderia definir os destinos de sua pátria, “o povo que cai no anzol do ínfimo demagogo?”. Ao ler esses versos, nos vem à mente a figura infame de Mikhail Gorbachev, pregando ilusões com sua Perestrika/Glasnost, que prepararam o terreno para a contra revolução e a restauração capitalista na ex-URSS.
Enfim, o grande mérito de Memórias dum Hiperbóreo está em ser a primeira obra literária a retratar de forma clara o maior desastre geopolítico da humanidade no século XX, o fim da União Soviética. Pelo valor literário e a temática histórica, Memórias dum Hiperbóreo é uma obra-prima que projeta seu autor na galeria dos mestre da literatura. Vale a pena ler esses versos:
“Faltaram recursos à mente estreita
para prevê-las, as trevas lúgubres e visguentas,
arrematarem a obra das labaredas
na terra que, toda mágoas, já fora nossa,
mas doravante pertenceria a quem a quisesse,
aos lobos e lobisomens,
aos avarentos, hipócritas e velhacos,
menos a nós, perdedores;
faltou-nos juízo nas vésperas do desastre,
senão tê-lo-íamos aplacado.
Destarte a vida tomou dimensões duma gruta,
o sol obumbrou-se,
murcharam, num átimo, plantas e sentimentos;
o povo, sincero e ledo amante da luz,
aprendeu a viver, ou melhor, vegetar às escuras,
cumprindo a pena que lhe coubera.
Profunda e tétrica foi a noite;
rogaram em coro noviços e patriarcas
que revogassem os deuses a punição,
ansiosos pelo renascimento,
mas, cobiçado,
não trouxe alívio o amanhecer –
demorara nas pulcras Arábias a fênix traidora!
Disperso o negrume,
abriu-se à vista um panorama –
diria sinistro, se revelassem tais parcos epítetos
um milionésimo da verdade, funéreo diria – ,
uma paisagem composta inteiramente
de baças nuanças do cinza:
pomares, trigais e vinhedos, florestas e cerros,
aldeias vazias, estradas sem trânsito, mudas cidades,
e tudo da cor de borralho, de pânico, de falência.
Cabelos grisalhos e lívida tez das pessoas que conhecera na
[flor da idade.”
Por Nada... É um prazer!
Maria Isabel disse... Olá meu querido espero que através das mensagens trocadas..sejamos grandes amigos.
Beijão !
maria lucilene silva disse... estou bem Luiz e vc?
otima sexta pra ti...
Rosângela Silva Mesquita disse... Olá Antonio...
por favor oriente me alguns filme de origem marxista no Brasil... sou professora no ensino fundamental e médio... minha preocupação é repassar esse conteúdo de forma mais dinâmica...
Lilian Brandão disse... Olá Antônio!
Fico muito grata pelo elogio, mas eu não desperto inveja em ninguém,
imagine eu um reles mortal despertar inveja em Cleopatra, capaz!
Mas muito obrigada!
Abraços
Antonio, me tire uma duvida:
Na República Velha (1889-1930) os trabalhadores das fazendas dos
"coronéis" não eram mais os antigos escravos que a lei da Abolição
libertou, mas sim camponeses, eles eram livres perante a lei, mas
na pratica, sofriam vários abusos, como o voto de cabresto,minha
pergunta é:
Quem eram esses camponeses "livres" das fazendas dos "coronéis"
na República Velha:
1º os imigrantes europeus que vieram substituir os escravos ?
2º os ex-escravos ?
3º gente daqui do Brasil mesmo ? (pessoas "brancas" e pobres
brasileiras...)
Quem eram eles ???
Abraco
Oi!
Sou professora do Estado em Baturité, que estória é essa de ossos quebrados,foi acidente?
Saúde e Paz!
Olá!
Espero que estejas bem!
bella oliveira disse... eh isso mesmo...Lisieux eh um pouco independente sim...cresceu muito em apenas50 anos...e um distrito bem desenvolvido,mas o sonho de se emanicipar ficou meio distante agora que foi aprovada uma lei que impede isso.
Bem-vindo ao grupo "O Golpe Militar de 1º de Abril de 1964".
Agradeço, ainda, a contribuição e o questionamento que lá deixaste.
Se interesse houver, convido-te para outros grupos que aqui fundei:
Os Anos 60
http://cafehistoria.ning.com/group/os-anos-60?xg_source=activity
1968 – O Maio Francês
http://cafehistoria.ning.com/group/1968omaiofrancs
Cheikh Anta Diop
http://cafehistoria.ning.com/group/cheikh-anta-diop?xg_source=activity
Hasta Siempre!
Postado em 24 fevereiro 2012 às 6:37 0 Comentários 0 Curtiram isto
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Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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