A Primeira Escola de Samba do Brasil

Você sabia que a primeira escola de samba brasileira foi a "Deixa Falar", fundada em 18 de agosto de 1928, no bairro do Estácio, Rio de Janeiro? Se quiser saber como começou essa história, leia o artigo do professor e historiador Ricardo Barros Sayeg, colaborador do Café História.
Ricardo Barros Sayeg *
“Ê, FAVELA! / DA BATUCADA, DO MEU GRANDE AMOR / EU SOU MALANDRO E FAÇO HISTÓRIA / NA ZONA DO MANGUE ONDE TUDO COMEÇOU / NASCIA EM FORMA DE ORAÇÃO / NAS MESAS DO CAFÉ, UMA CANÇÃO/ BAMBAS QUE O BERÇO DO SAMBA UM DIA EMBALOU / VERSOS DE ISMAEL, "SE VOCÊ JURAR" / TE DOU EM POESIA, A "DONA DO LUGAR" / VAI MINHA INSPIRAÇÃO... DEIXA FALAR”
(Do samba enredo: “Deixa Falar, a Estácio é isso aí. Eu visto esse manto e vou por aí”, 2010)
A primeira escola de samba brasileira foi a Deixa Falar, fundada em 18 de agosto de 1928, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, por Nilton Bastos, Ismael Silva, Silvio Fernandes, Oswaldo Vasques, entre outros. Seus componentes ensinavam e difundiam o samba, por isso ela foi considerada a primeira escola dedicada ao samba.
Na verdade, a Deixa Falar durou pouco tempo. Desfilou nos carnavais da Praça Onze nos anos de 1929, 1930 e 1931. Em 1932, quando foi organizado o primeiro concurso de escolas de samba pelo jornal Mundo Sportivo, a escola não desfilou. Naquele ano, a agremiação resolveu mudar sua categoria para rancho. Ela já havia desfilado em 1931 nessa nova categoria com o enredo “O Paraíso de Dante” e teve boa avaliação na mídia da época.
Em 1932, decidiu concorrer nos desfiles de ranchos com um novo enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro”, mas não conseguiu sequer classificação. De acordo com a comissão julgadora daquele concurso, a Deixa Falar teria se apresentado “simples e sem maiores pretensões”. Nesse mesmo ano, a escola viria a acabar devido a conflitos entre os fundadores, sobre a subvenção oferecida pela prefeitura para aquele desfile.
O termo escola teria sido cunhado por Ismael Silva, um dos grandes compositores do samba carioca, pois próximo à Deixa Falar havia uma escola normal. Ele então teria dado o nome de escola de samba, pois sua escola formaria sambistas e não professores. Alguns historiadores, entretanto, discordam dessa explicação, pois teriam dito que o termo escola já teria sido utilizado antes de 1928.
As cores da Deixa Falar eram o vermelho e o branco, em homenagem ao América Futebol Clube, que ficava próximo à escola, e também ao bloco A União faz a Força, que havia deixado de existir em 1927, com a morte de Mano Rubem, um de seus fundadores, admirado pelos integrantes da Deixa Falar.
A escola de samba Estácio de Sá, em 1980, desfilou com o enredo “Deixa Falar”, em homenagem à escola pioneira da década de 1910, e em 2010, a mesma Estácio desfilou com o enredo: “Deixa Falar, a Estácio é isso aí. Eu visto esse manto e vou por aí” em homenagem àquela que foi a primeira agremiação do samba brasileiro.
*Ricardo Barros Sayeg. Professor de História do Colégio Paulista. Mestre em Educação e formado em História e Pedagogia pela mesma universidade.
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Comentário de Elson Granzoto Junior em 14 março 2012 às 22:42 O mais legal é que nada mudou,ainda existem pessoas que se dignam chamar de profissionais da história que negligenciam experiências humanas e sociais riquíssimas...
MAS a esperança é a ultima que morre!
Comentário de jocimar em 14 março 2012 às 20:07 o legal em vespera de uma crise mundial nós brasileiros conseguimos pensar em carnaval e o interessante que nada mudou ainda pensamos em curti carnaval enquanto nosso pais se a funda em crise politica.
mais a esperança é a ultima que morre um abraço a totos..
Comentário de Elson Granzoto Junior em 4 março 2012 às 21:03 Evidentemente, o livro de José Ramos é excelente, mas trata superficialmente de inúmeras questões que envolvem não só o surgimento das agremiações carnavalescas, bem como seu desenvolvimento e ação política e social. É claro que não estou apontando isso como uma deficiência de suas obras pois elas têm outros objetivos e tratam de outras questões com mais afinco. A obra de mestrado que virou publicação de Marcos Napolitano "A síncope das ideias" parte da perspectiva de Tinhorão para traçar as transformações na cultura popular musical brasileira a partir da disseminação do rádio.
Porém nenhum desses autores se atem às questões que levantei no comentário anterior. A história das populações pobres em momentos "recreativos" é um frutífero campo para nossa atuação.
Pois eu tenho pra mim que José Ramos Tinhorão é um pesquisador de primeiríssima, pois em seus dois livros "Música popular, um tema em debate" e "Pequena história da música Popular Brasileira" , trata de um estudo aprofundado sobre a música, as origens do carnaval e muitas outras coisa....
Comentário de Elson Granzoto Junior em 3 março 2012 às 10:44 Acho interessantíssima a história das primeiras organizações populares de samba que vieram a se denominar "Escolas de Samba". Como o primeiro colega comentou, infelizmente ainda faltam pesquisadores na área para 'desvendar' os meandros das relações estabelecidas por esses bambas no início do século passado.
E estou apenas citando o caso do Rio de Janeiro que por comportar o espetáculo mais conhecido das escolas de samba possui uma bibliografia razoável, porém de poucos historiadores. Quando nos voltamos para outros locais de raiz do samba como São Paulo, por exemplo, a falta de bibliografia chega a ser "deprimente" para quem se debruça sobre o tema.
Outro fato interessante é que a primeira organização que adotou o nome de "Escola de Samba" na cidade de São Paulo surgiu em 1935, pouco menos de sete anos após a fundação da Deixa Falar e da Estação Primeira de Mangueira. Interconectar essas histórias para poder traçar um paralelo entre os fenômenos e, por que não, relações entre eles parece-me uma pesquisa muito interessante, ainda a ser desenvolvida.
Comentário de Maria Fernanda A. Guimarães em 23 fevereiro 2012 às 11:28 Gostaria de fazer um adendo a esse texto. A "Deixa Falar", conforme conta o jornalista Sérgio Cabral (pai) em seu livro seminal "A História das Escolas de samba", lançado inicialmente em 1974, revisto em 1997 e relançado agora em 2011, a Deixa Falar foi nomeada como "escola de samba" em analogia à Escola Normal (nome que se dava aos cursos de magistério), fundada em 1880. O nome "escola de samba" foi cunhado pelo próprio Ismael Silva, não porque ali se "ensinava as artes do samba", que nem havia essa preocupação na época, mas porque a "Deixa Falar' só congregava os "mestres do samba". Numa célebre entrevista ao Roda Vida (TV Cultura) em 1997, Sérgio Cabral falou em "papel didático" da escola de samba. Mas não no livro. Outras fontes que não Sérgio Cabral validam a história de que o termo "escola de samba" não tem nada de didático, e sim uma ironia, típica de Ismael Silva.
Ironia que o acompanhou a vida inteira. Chico Alves, num acordo espúrio, recebia direitos autorais das músicas de Ismael Silva e Nilton Bastos, sem jamais ter colaborado com único verso. Idoso, 1965, sem tostão para pagar o ingresso para ver os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Ismael escreveu ao editor do Correio da Manhã (acho que o Luiz Alberto Bahia, na época) pedindo publicamente para que o secretário de turismo do governo Carlos Lacerda lhe desse um ingresso para o grande desfile do IV Centenário. Não foi atendido. Desiludido e decepcionado, Ismael , escreve novamente para o "Correio" dizendo que "é injusto que a criação [escolhas de samba] receba auxílio do governo enquanto o criador cai no esquecimento". O grande Ismael.
Comentário de marcos gomes em 20 fevereiro 2012 às 10:15 trazer o malandro para a escola me parece muito autentico.mostrar sua autenticidade na escola me parece muito saudavel.Se existe uma forma d ser feliz ,está seria a de ser menos esquizofrenico possível.Infelizmente é isso que vemos hoje.Kd a histoia desse povo?Como a representa?Me parece que de forma muito timida e distorcida.
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