O pós modernismo nos deixou numa encruzilhada.
Se eles estão certos e tudo é discurso, o que fazemos é apenas literatura, pura ficção.
A maneira como escrevemos a história é apenas um olhar... mera construção.
Será?
O que vcs acham disso?

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Respostas a este tópico

Acredito que quando os pos modernistas se referem a ficção é no sentido de ser impossível você construir um conhecimento verdadeiro (entenda-se completo, total) pois como Veyne classificou o conhecimento histórico é como um "colcha de retalho" sendo cada caso um caso especifico. Por isso tendo como objetivo a construção de um historia verdadeira/total se torna uma ficção do ser humano (com sua ancia de conhecimento) o fazer da história. Isso é refletido quando vemos historiadores reduzirem cada vez mais o recorte temporal de suas pesquisas, dando mais ênfase nas micro - historiaS, nas bibliografias e historiaS profundamente especificadas.
Olá,

Denis, eu acho que essa sua resposta fala de coisas distintas, que não são exatamente coincidentes. A crítica à capacidade do historiador de produzir um discurso diferente do romancista, porque embasado numa suposta realidade, não direciona a redução do recorte necessariamente. Para ficar no exemplo mais conhecido, é só olhar para o caso de Ginzburg. Seu recorte micro-histórico nem de longe nega uma validade científica para a história.

História total é um coisa. História que busca a verdade é outra.

Agora, Sheila, quanto ao questionamento pós-moderno, é preciso lembrar que dizer que "tudo é discurso" e bem diferente de afirmar que a história é "apenas literatura". Ainda acho essa expressão duplamente redutora: de um lado, pressupõe que a literatura constitui uma forma de saber inferior ao discurso pretensamente científico; de outro, revela um temor que se manifesta mais no plano do estatuto da disciplina do que no exercício dela, especificamente. Como se isso diminuísse o papel do historiador ou da sua atividade.

Não entendo como ofensa apontar a incapacidade do pesquisador em construir algo para além de uma leitura possível de uma realidade passada. Acho que a resolução dessa "encruzilhada" está menos no debate da viabilidade da produção desse conhecimento histórico do que na atualização de conceitos como "verdade", "ciência", "realidade", e seus afins.

abs,
moreno
Me permita uma correção aqui, quando eu disse apenas literatura, não tive a intensão de diminuir a literatura... mas realmente foiisso o que pareceu com aquele "apenas" incauto e mal colocado.

Gostei muito dessa coisa da "atualização de conceitos como 'verdade', 'ciência', 'realidade'".
Caro Moreno,
Achei muito interessante seu comentario e acho que teremos muito o que discutir por aqui, achei tbm muito oportuna a sua posição de "nao desvalorização/hierarquização da literatura. Até pq tanto a literatura como a historia usam do real para fazer seu objeto de estudo.

Quando me refiro a incapacidade da busca pela verdade e relaciono com historia total uso como referencia o texto do Paul Veyne "tudo é historico, portanto historia nao existe". Nao sei se você jah teve a oportunidade de ler, pois nesse texto Veyne se refere a incapacidade do historiador em construir um conheciemnto verdadeiro devido aos multiplos infoques que vc pode dar nessa pesquisa e tbm pela propria natureza lacunar que os vestigios nos deixam (os quais nao sao uniformes) alem disso ele se refere como "nao-eventual" aqueles terrenos que os historiadores ainda nao estudaram porem sao passiveis de.

Contudo, quando me referi a historia total (e nao global como acho q vc entendeu) junto a capacidade de um conhecimento efetivo me referia aos multiplos enfoques, analises e escolhas que torna impossivel a busca dessa Verdade. Como pretendida


Agora um ponto do seu post que eu nao entendi (talvez por ignoancia) foi quando voce analisa Ginzburg. Me encontro agora termiando de ler "Queijos e Vermes" e desde o prefacio (italiano) vejo que ele foge e em muito da proposta de cientificidade dos Annales. Nao que a obra dele seja literatura ou anti-cientifica acho que a "escrita da historia" dele não se preocupa com esses parametros de cientificidade (a questao que vc colocou no seu ultimo paragrafo).

Quanto a questão do recorte cronologico vou colocar aqui alguns definiçoes com as quais Giovani Levi definiu a micro-historia italiana:
1-REDUÇÃO DA ESCALA
2-O Debate sobre a racionalidade
3-O pequeno indício como paradigma cientifico
4-a enfase no particular
5- a atenção a recepção(leitura) e a narração
6- a busca da definição dos contextos
7-a recusa ao relativismo

Espero podermos continuar esse debate.
Abraços, Denis
A história é uma ciência e não literatura. O discurso segundo o qual a história é literatura não se sustenta a não ser numa linha interpretativista e subjetivista. No plano social e histórico, a produção historiográfica foi e continua sendo, mesmo quando o discurso diz o contrário, ciência. Se é boa ou má, se é verdadeira ou falsa, se é isso ou aquilo, aí já é "outra história".
Sheila, no meu entendimento, é preciso compreender melhor o que se convencionou chamar de pós-modernismo e o que efetivamente pode ser subsumido a esta rubrica. Há muita confusão nisto. É necessário ver o que dizem os autores no debate sobre o pós-moderno e como os historiadores se posicionaram em relação a este debate. Em seguida ver se algum historiador disse que a história é apenas um discurso, literatura ou pura ficção, pois tal concepção pode ter sido erronea ou arbitrariamente atribuída a algum teórico da história, no caso, Hayden White. Penso que sua pergunta gira em torno da questão sobre a narrativa na História. Então eu recomendo a leitura, pra começar, da primeira parte de O aguarrás do tempo de Luiz Costa Lima e então partir para a recuperação de todo o debate, que aqui identifico apenas alguns intérpretes mais significativos como: Aristóteles e sua Poética, Luciano de Samósata, Fenelon, Voltaire, Schiller, Chladenius, Wilhelm von Humboldt, Droysen na sua Tópica, Gervinus e seu Grundzüge der Historik, Barthes, Lord Acton, Lawrence Stone, Hayden White, Paul Veyne, David Carr, Foucault, Isaiah Berlin, Arthur Danto, Hartog, Ricoeur e Certeau. A escrita da história contém uma dimensão discursiva, pois é também uma narrativa que lida com o que aconteceu, assim a discussão gira em torno desse ocorrido, de como refigurá-lo, de como se pensar, nas palavras de White, a forma do conteúdo. Toda obra de história se vale de procedimentos que aparecem em qualquer narrativa, como o recorte da ação e do tema, a urdidura do enredo, uma pragmática, etc. Ela é sim uma construção, mas que se refere a um vivido, não a um evento fictício. Não obstante a narrativa dos historiadores possui uma dimensão ficcional, um modus operandi - se assim podemos dizer - que lhes escapa muitas vezes. Os autores acima descritos fizeram proposições elucidativas a respeito, iluminando este problema. Até Fenelon a história era vista como um gênero literário, mas no século XIX ela se autonomiza face tanto à literatura, quanto à filosofia. Em seu discurso do método, J. G. Droysen faz observações a respeito, em sua Tópica, Gervinus também havia proposto uma divisão dos gêneros narrativos na História (genealogias, crônicas, anais, memórias, biografias, lendas e histórias - mas a rigor ele identifica dois tipos fundamentais de narrativas históricas: as cronológicas e as pragmáticas - seguindo uma divisão anterior de Chladenius -, que também é usada por E. Bernheim. Na trilha da teoria da história na Alemanha eu diria, com Ranke que a história se difere de todas as demais ciências porque é, também, uma arte. Do ponto de vista científico, seu método, a crítica histórica documental lhe confere o estatuto da cientificidade de pertença ao real, mas do ponto de vista literário, a exposição dos resultados da pesquisa é marcada pelo recurso à narrativa.
Olá a todos...

Não me interpretem mal, mas essa discussão, para mim, é besteira. François Dosse identifica bem o trabalho do historiador quando afirma que firmamos um "contrato da verdade": apesar de inúmeras interpretações que podemos fazer sobre o mesmo fenômeno, em todas elas há esse regime de verdade que orienta nosso trabalho.

Além disso, o objeto de conhecimento é externo ao trabalho do historiador - algo que aconteceu -, ao contrário da literatura, cujo objeto pode ser interno ao próprio discurso - um exemplo são as poesias que falam da própria poesia -, ou quando externo, representa aquilo que poderia ter acontecido (lembremos Aristóteles).

Enfim, a história não é Verdade, mas também não é ficção. As fontes garantem uma carga de veracidade ao que escrevemos. Quando José de Alencar escreve Iracema, ele não faz um trabalho exaustivo de coleta e crítica de fontes: elas não importam para seu intento ou para seu escrito. Agora, abra qualquer livro de um historiador e veja as fontes pesquisadas: páginas e páginas de documentos, escritos, fotos, entrevistas... Esses elementos singularizam o trabalho do historiador e garantem que ele faça o que alguém já chamou "uma ficção controlada". Mas reafirmo que para mim nosso trabalho pode ser caracterizado não como ficcional, mas como verossímel.

No mais, acredito que Durval Muniz de Albuquerque Júnior, "História: a arte de inventar o passado" pode auxiliar nessa discussão, bem como os nossos clássicos Marc Bloch, "Apologia da Históra" e Lucien Febvre, "Combates pela História".

Abraços

Concordo com o Martin. Não é desmerecer o tópico de fórum. Mas esta é uma pergunta que não tem mais espaço na discussão historiográfica. História e literatura são coisas bem diferentes. Também gosto de pensar no termo "contrato de verdade", embora isso não signifique o mesmo que nós, historiadores, escrevemos "A Verdade". abs a todos!

Olá!

Adorei a discussão.

Primeiro devo, infelizmente, discordar da opnião de Martin Kreuz, principalmente da questão do trabalho exaustivo com fontes. Um literato, um romancista, poeta, enfim um escritor, faz sim (e muita) pesquisa em fontes para a escrita de seu trabalho. Veja o trabalho do Acervo de Escritores Mineiros - http://www.ufmg.br/aem/inicial/inicial.htm, da faculdade de letras da UFMG. Quando você conhecer este acervo você ficará impressionado com a quantidade de materiais para a escrita de um livro. Os melhores escritores que conheço foram/são exímios pesquisadores, a riqueza de seu trabalho advem de sua capacidade de imaginar e traçar relações.

Então, para mim, isso não é o que diferencia o discurso ficcional do não-ficcional. O problema não esta necessariamente no discurso e sim no estatuto de cientificidade que a História, enquanto disciplina, quer afirmar.

Observe que Hayden White em Meta-História aponta para o caráter experimental da escrita da história, o historiador conhece seu objeto de estudos de forma mediada, através de suas fontes, que conseqüentemente são vestígios de uma representação do passado. Ou seja, o trabalho do historiador é uma representação do passado que se afirma a partir de outra representação do passado (as fontes). Dessa forma, o discurso não seria realista, a “realidade” não estaria nos eventos exaustivamente agrupados pelo historiador e sim na construção da linguagem e se o que os historiadores fazem é uma construção de versões, então a história estaria mais próxima da Arte do que da Ciência.

Já Jörn Rüsen em seu livro Razão Histórica procurou responder as provocações de Hayden White, Paul Veyne e Michael Foucault sobre a questão da narrativa no discurso do historiador e ao mesmo tempo ele procura pensar sobre o estatuto de cientificidade e da racionalidade no discurso histórico. Para Rüsen “Ciência é método” e a história é científica porque há uma metodologia envolvida durante a pesquisa, a procedimentos que o pesquisador deve exercer, há uma “matriz disciplinar”, composta de 5 elementos (idéias, métodos, formas, funções e interesses), na qual, o historiador articula suas reflexões e constrói sua racionalidade.

Nesse sentido, o problema da narratividade, da aproximação com a literatura, é diluído, porque para Rüsen “narrar é uma prática cultural de interpretação do tempo, antropologicamente universal” (2001: 149). O que se aproxima de Paul Ricoeur, em Tempo e Narrativa (tomo 3), para ele, a diferença entre Ficção e História está na forma em que a temporalidade é pensada e articulada. O problema passa então para uma questão metodologica e não de exposição.

Acredito que o que precisamos pensar é sobre o que esse discurso "intímo" representa para o historiador e como ele o ameniza e controla. Então não é uma questão de estar próximo ou não da literatura ou de uma escrita composta pela narrativa (se alguém conseguir escrever sem ela), não é, também, uma questão de expor mentiras ou verdades (história não é Quizz Show) e sim uma questão de metódo; e se tem metódo é ciência.

Sendo ciência ou não... há na história ocultação, escolha desse em detrimento daquele assunto ou fonte, manipulação, construção e representação baseada em poderes instituidos.

Diante disso o que fazer? Como é possível construir uma história desvinculada dos agentes do tempo em que se escreve essa história? Ou mesmo dos agentes que se opõem à ordem estabelecida nesse tempo?

 

E será que essa História desvinculada, além de utopia, não seria também, caso fosse possível, uma história pouco crítica... ou não?

 

Apenas botando lenha nessa fogueira.. que pode ser muito proveitosa na nossa reflexão.

Eu não vejo ocultação nenhuma na História, pois as fontes não se declaram historiográfica pelo fato desse conceito ser construído com a obervação de um historiador para o objeto o qual ele declara ser uma fonte. Logo, um historiador tenta enxergar o que ele quer problematizar e obviamente não saberá de tudo. Talvez ele possa saber apenas o que ele problematizou ou ainda possa não saber. Logo, para mim não há ocultação.

Quando digo ocultação, estou me referentindo à preterição de fontes e prol de uma interpretação.

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