Colegas

Li o projeto e espero que ele não se revele, se implementado, uma faca de dois gumes...

Muitas vezes as categorias clamam por regulamentação e quando ela chega não é nada daquilo que esperavam. As vezes trazem mais empecilhos que vantagens. É bom refletir sobre isso. Temo que uma regulamentação mal elaborada e delimitada possa se constituir em algo tipo o polêmico "ATO MÉDICO" (lembram???).

A possibilidade de um Conselho Regional ou Nacional de História, essa centralização de competências (atraente para vários de meus colegas), pode tornar-se um grande orgão supostamente "ISENTO" dizendo o que é e o que não é História ou quem é Historiador sério não me entusiasma muito. Pode ser um tiro no pé...

Sou a favor do reconhecimento e tipificação da profissão em carteira para fins trabalhistas, MAS nada além disso. A História precisa de liberdade e não de amarras. Todos devem poder escrever a História. Corremos o risco de, nos tornando o país dos Conselhos, legitimarmos sem nos darmos conta uma nova forma de censura.

Precisamos enxergar mais além da letra impressa...


- Fred Oliveira

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Respostas a este tópico

Salve, Fred.

Amanhã vou publicar algo sobre o tema no Café. Particularmente, tenho muita desconfiança desse tipo de projeto. No fundo, acho besteira. O profissional de história já é amplamente reconhecido. Isso está escancarado. Essa "profissionalização", ao meu ver, pode ser um grande fator excludente. E duvido muito que tenha grande importância para elevar salários ou aumentar benefícios. Enfim...mas vamos ver. 

Vejo muitos colegas se abraçando a esse projeto como se fosse a melhor coisa do mundo. Mas acho que na maior parte dos casos trata-se de uma avaliação meteórica, quase instantânea, do tipo: "reconhecer o historiador como profissão é bom porque reconhecimento é bom". Mas a reflexão não vai muito além desse ponto. Posso estar enganado (e torço para que eu esteja), mas só o tempo irá dizer. Ou não. (risos)

Estou com você, Bruno !

Também desconfio bastante desse aparente e excessivo otimismo salvacionista que a palavra "regulamentação" evoca ao ser vocalizada por alguns colegas. O caráter excludente de algumas regulamentações e as limitações impostas pelas mesmas não parecem ser muito debatidas quando o assunto entra em pauta. E como eu disse anteriormente, a possibilidade de criação de um orgão (dirigido por acadêmicos?) dizendo o que é e o que não é História ou quem é Historiador sério não me entusiasma muito. Acredito que possa vir a ser um tiro no pé...

Abraço

Não estou entusiasmado com o projeto

E tem me causado surpresa o maravilhamento de alguns colegas para com o citado. Maravilhamento combina mais com o filósofo do que com o historiador. Um historiador tem de ser radicalmente crítico, desconfiado, insatisfeito. Também tem me causado surpresa que alguns colegas tem elencado exemplos de outros campos disciplinares para justificarem sua defesa do projeto. Não é adequado. História é outra coisa. E isso é óbvio mesmo para o leigo.

Embora eu tenha lido aqui e acolá várias juras de amor a História, me parece que alguns colegas estão mais preocupados com o próprio emprego (o bolso) do que necessariamente com a disciplina História. Muitos dizem amar a história mas não parecem muito interessados em fazer o esforço de aprofundar a reflexão sobre os desdobramento do projeto em curso para com a prática do fazer histórico. Não é produtivo discutirmos em termos tão pouco nuançados. A história é uma disciplina muito peculiar. Não é uma graduação ou uma pós que faz um historiador. Sequer existe um entendimento unívoco sobre o assunto.

Mais que isso. É a prática quem faz o historiador... e não deliberações legislativas.

Bom dia Fred,

ainda não tenho uma posição crítica em relação ao projeto, mas embora concorde com algumas falas suas, não acredito que o projeto seja de todo o mal que se diz. Tenho o projeto em mãos e não consigo fazer uma leitura futura (como um oráculo) para dizer catgoricamente que vão vedar a escrita e impressão à "historiadores".

Mas minha resposta à esse comentário diz respeito à sua postura: historiador não deve ser "insatisfeito" com tudo; ou não há 'coisa' efetivamente boa, que transmita satisfação seja ela qual for? E por que critica tanto a criação de um órgao que regulará o que bem entender? Veja suas palavras: "Também tem me causado surpresa que alguns colegas tem elencado exemplos de outros campos disciplinares para justificarem sua defesa do projeto. Não é adequado. História é outra coisa." Nesse caso, você mesmo está dizendo "o que não é História". Não cabe ao historiador, ao meu ver, tal hipocrisia descarada.

Mas não é uma crítica tão pessoal como parece, estou disposto a entender seu ponto de vista sobre o projeto. Acho importante o debate.

Abraço!

Oi, Lucas

Tranquilo. Gostei de sua observações. Vamos ao que escrevi...

Para mim um historiador deve sim ser um permanente insatisfeito. Quando eu falo da inadequação de exemplos de outras disciplinas eu não o afirmo de forma peremptória. É uma perspectiva, claro. Mas convenhamos que a História conquanto seja, como eu disse, "outra coisa", essa mesma coisa, a História, depende em grande parte das contribuições teórico metodológicas de outras disciplinas. Nesse caso, muito mais do que outras disciplinas e campos. Quando eu me manifesto sobre esse assunto eu pretendo na verdade chamar a atenção para esse fenômeno que, segundo o meu entendimento, na História, é mais acentuado do que em outras disciplinas. Eu não quero delimitar "o que não é História". Para mim tudo pode vir a ser História ! Daí mesmo brota a dificuldade de delimitá-la...

Minha implicância com a regulamentação é que regulamentação é um saco de gatos. Com relação as minhas reservas quanto ao projeto, o leque é extenso e vem de problemas derivados de outras regulamentações (com suas especificidades, claro) e certos aspectos não contemplados quanto aos desdobramentos de tais iniciativas. Veja o tempo de decorrido e todo o rol de problemas setorias agenciados pelo processo regulamentar denominado Ato Médico, por exemplo. O processo legislativo é capcioso e eu sinceramente desconfio bastante das intenções reais da ANPUH ao encabeçar o movimento pela regulamentação da profissão de historiador. A movimentação da entidade, sua "mudança" de nome, sua estratégia quanto a questão, etc. 

A ANPUH tem interesse na aprovação do projeto mas, pergunto, será que o que é bom para a ANPUH é realmente interessante para todos os que trabalham com a história? O que pensam IHGB, ABPHE, SINPRO, ABHR, AFHIC, CRB, etc, sobre o assunto?

No estatuto da ANPUH, Art. 4°. lê-se "(...) e. A representação da comunidade dos profissionais de História perante instâncias administrativas, legislativas, órgãos financiadores e planejadores, entidades científicas ou acadêmicas."

Será que a ANPUH quer se tornar um tipo de OAB, a qual ou você paga ou não exerce a profissão?

Entendo que qualquer que seja a resposta, a questão merece uma reflexão mais apurada de cada um que se sinta tocado por ela.

Abração

Boa noite, Fred

Acho pertinente mesmo tal debate. Acerca da última questão posta por você, eu acredito que a ANPUH como tal não deve ser este órgão administrador que espera-se que surja em um dado momento. É exatamente por um problema muito simples, e que alguns devem negar, mas que fico ao seu lado: a ANPUH é um tanto tradicional no nosso meio, é, como você mesmo disse, a OAB para os advogados. Entendo ainda que qualquer instituição tenha suas diretrizes de trabalho. Mas acho que é algo pelo qual não devemos nos separar, é melhor o conjunto como um todo, mas é um tanto utópico (principalmente acerca da História, ainda nos falta união).

Sobre a delimitação da História, concordo plenamente. Mas voltando ao debate sobre o rumo que a ANPUH poderia tomar, não espero que seja algo muito além do que já conhecemos, afinal a História no Brasil sempre seguiu delimitações e influências externas. Outra coisa é que o "boicote" sobre quem produziria História, ou se dado material não é História, que alguns andam temendo é complicadíssimo de ocorrer; é realmente dar um tiro no pé, afinal de contas isso seria censura; mas é uma via de mão dupla, seria um tiro no pé de qualquer órgão que fizesse isso também.

Em suma, o "Projeto" em si, ainda é fraco. Porém é o que temos para lutar. Se formos permanentemente insatisfeitos, não devemos rejeitar as armas que recebemos. O projeto, caso seja aprovado, será um pequeno, mas não irrelevante passo no caso dos historiadores.


Abraço!

Valeu pela colaboração, Lucas!

A história é uma disciplina muito peculiar.

Definam de maneira unívoca a identidade disciplinar da História ! É uma tarefa difícil. E Por que? Porque a própria história faz uso, nas suas mais diversas dimensões e domínios das contribuições de outras disciplinas.

A partir dessa constatação pergunto...

Quando a obra sera considerada de história? Juristas, filósofos, sociólogos e tantos outros produzem textos e pesquisas cuja escrita e leitura tornam limítrofe a sua classificação.

Como definir o que é ou não história se e quando ocorrerem questionamentos na justiça sobre o assunto?

E se o historiador ultrapassar a área limítrofe ao seu nicho e for intimado por isso?

Quem definirá se ele ainda estaria fazendo história ou se a sua narrativa estaria numa numa região indefinivel entre os vários outros nichos das ciências sociais?

Como um historiador definiria e delimitaria a teoria/ metodologia pertinente a sua prática, sem, para tanto, se imiscuir no âmbito (conceitual e metodológico) de um outro campo de estudos? Ou seja, sem utilizar noções e conceitos como "cultura política", "poder", "imaginário" e tantos outros que originariamente pertencem a outras áreas...

Há muitas questões bem além das poucas linhas definidoras do projeto.

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