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O Exílio de Hitler

Foto: "Arbeit Macht Frei - O Trabalho Liberta". Inscrição no Portal de Entrada do Konzentrationslager Auschwitz-Birkenau.  Oświęcim, Polska.

Depois de assistir ao vídeo postado por nossa companheira Amanda Schmidt   -   onde se especula sobre a fuga de Hitler e Eva Braun para a Patagônia a bordo de um submarino numa operação ultrassecreta -  decidi pronunciar-me.

Nunca ouvi falar em Abel Basti, autor de "O Exílio de Hitler". Ignoro sua importância no cenário do jornalismo argentino. Também não tive acesso ao livro.
Quanto à sua argumentação em prol de uma conspiração do silêncio internacional para salvar a pele do Führer e de outros tantos - numa suposta e mirabolante fuga para a Argentina para serem usados como trunfos no combate ao comunismo - parece-me inverossímil.
Apesar da Argentina ter-se transformado no reduto de tantos nazistas do segundo escalão do III Reich, acolhidos por Juan Domingo Perón.
Pois bem, à falta de provas, vou atirar no escuro. Contudo, minha reflexão apóia-se em fatos históricos.

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O Exílio de Hitler

A União Soviética perdeu mais de 20 milhões de cidadãos - entre civis e militares - durante a “Grande Guerra Pátria”, como denominam a II Guerra Mundial. Existe farta documentação sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas depois da invasão da URSS pela Wehrmacht alemã.
A cifra de 20 milhões de mortos corresponde a perda superior às de todos os outros países conflagrados juntos, isto é, Inglaterra, França e EUA.
Por conseguinte, os povos soviéticos tinham razões de sobra para odiar os nazistas. Vide a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho. Não ficou pedra sobre pedra. Lembrem-se: a guerra já estava ganha. Idem para o bombardeio aliado à cidade de Dresden, uma das mais belas do mundo, capital da Saxônia. Arrasaram-na por puro ódio.
Felizmente, para nós, foi inteiramente recuperada em seus traços originais. Décadas de trabalho. A restauração da Catedral, por exemplo, só foi concluída depois de 65 anos do término da guerra.
Pergunto: seriam os soviéticos tão ingênuos e incapazes de perceber as articulações dos Serviços Secretos Aliados?
Graças ao heroísmo do Exército Soviético a guerra contra a Alemanha Hitlerista foi ganha.
Ora, é inadmissível que Joseph Goebbels, a figura mais importante do III Reich, depois do Führer, cometesse suicídio junto com a mulher Magda Goebbels - que ainda envenenou os seis filhos do casal - ficasse fora dos planos de resgate para a Argentina.
Todos os nazistas do primeiro escalão que não se suicidaram foram levados a julgamento em Nürnberg (Nurembergue), exceto Martin Bormann  que conseguiu fugir, e a quase totalidade condenada à morte, inclusive Borman, condenado à revelia. Segundo Doris Bulau, “foram eles: o ex-marechal Hermann Göring; o ex-ministro do Exterior Joachim von Ribbentrop; o chefe do Alto Comando das Forças Armadas (OKW), Wilhelm Keitel; o ex-chefe do Serviço Central de Segurança (RSHA), Ernst Kaltenbrunner; Alfred Rosenberg, teórico nazista e assessor direto de Hitler; Hans Frank, ex-administrador da Polônia ocupada; Willhem Frick, ex-ministro do Interior e ex-governador da Tcheco-Eslováquia ocupada; Julius Streicher, diretor do jornal nazista Der Stürmer; Fritz Sauckel, ex-chefe do recrutamento de trabalhadores nos territórios ocupados; Alfred Jodl, ex-chefe de operações do OKW; e Arthur Seyss-Inquart, ex-chefe dos serviços administrativos da Holanda ocupada.
Os demais acusados obtiveram penas de prisão perpétua (caso de Rudolf Hess) ou prisão por tempos variáveis. Três deles – Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzche – acabaram sendo absolvidos. Ao longo do processo, de 20 de novembro de 1945 a 1º de outubro de 1946, houve 403 sessões públicas
”.
A absolvição de Schacht, von Papen e Fritzche gerou fortes protestos dos membros soviéticos que compunham o Tribunal.
Além disso, a URSS fez grande pressão para condenar à prisão perpétua Rudolf Hess, vice-lider do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães e secretário particular do Führer.
Em 31.08.1946, ao ouvir a sentença que o condenava, Hess declarou:

Não me defendo de meus acusadores, aos quais nego o direito de me acusarem, a mim e aos meus compatriotas.
Não me defendo das acusações que competem aos assuntos internos da Alemanha, e que nada importam aos estrangeiros.
Não protesto contra as declarações que afetam a minha honra e a honra de todo povo alemão. Durante longos anos de minha vida me foi concedido viver ao lado do homem mais poderoso produzido por seu povo em sua história milenar. Mesmo se pudesse, não desejaria apagar esse tempo de minha existência.
Eu me sinto feliz por haver cumprido com o meu dever como alemão, como nacional-socialista e como fiel do Führer.
Não me arrependo de coisa alguma. Se tivesse de começar tudo de novo, trabalharia da mesma forma, mesmo sabendo que ao final me aguardaria uma fogueira para a minha morte. Pouco importa o que podem fazer os homens. Comparecerei diante do Todo-Poderoso. A Ele prestarei minhas contas, e sei que me absolverá
".

Figura proeminente na alta hierarquia do III Reich em discurso proferido durante o Congresso do Partido Nazista em Nürnberg, em 1934, disparou: “Deutschland ist Hitler; Hitler ist Deutschland – A Alemanha é Hitler; Hitler, a Alemanha”. Sem dúvida, a frase resume o espírito de uma época.

(Para os que desejam ter uma idéia daqueles tempos, recomendo o documentário de Leni Riefenstahl, “Triumph des Willens – O Triunfo da Vontade”. Ao lado de “Olympia: Fest der Völker – Olimpíadas: Festa dos Povos” e “Olympia: Fest der Schönheit – Olimpíadas: Festa da Beleza”, ambos da mesma cineasta, são considerados os melhores documentários de toda a História do Cinema pela crítica internacional especializada.Todos três encontram-se disponíveis em DVD).

A partir de 1966, Rudolf Hess tornou-se o único prisioneiro de Spandau, prisão administrada pelo Exército Soviético em West Berlin – Berlim Ocidental onde o dirigente nazista passou os últimos 41 anos de sua longa existência.
Sua morte em 1987, aos 93 anos, despertou controvérsias. As autoridades queriam sepultá-lo em local desconhecido. Um ano depois, seu filho Wolf Hess conseguiu enterrá-lo no cemitério da família, em Wunsiedel. A cidade transformou-se em lugar de peregrinação dos neo-nazistas, que promovem anualmente Marchas da Memória no dia 17 de agosto, data de sua morte. Os manifestantes sempre ostentam muitos cartazes com a foto de Hess e faixas onde se lê: “Märtyrer sterben nie! – Mártires jamais morrem!


Passemos, agora, ao caso Eichmann.
Adolf Eichmann, SS Obersturmbannführer – Tenente-Coronel das SS (Die Schutz-Staffel der Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - NSDAP ou Esquadrão de Defesa do NSDAP), cujo lema “Mein Ehre heißt Treue" - “Minha honra é a lealdade”, já diz a que veio.
No Campo de Concentração de Dachau distinguiu-se aos olhos de Reinhard Heydrich, SS Obergruppenführer – Coronel-General das SS, conhecido como “Carniceiro de Praga”, por sua extrema crueldade.
Em 1942, após a Conferência de Wansee, recebe a patente de Tenente-Coronel das SS e passa a chefiar o famigerado Departamento IV B 4 da Gestapo (Geheime Staatspolizei – Polícia Secreta do Estado), responsável pela logística e execução da Solução FinalEndlösung, isto é, a política de extermínio dos judeus.
Terminada a guerra, é capturado pelo exército norte-americano e confinado a um campo de prisioneiros de guerra do qual consegue escapar e obter passaporte da Cruz Vermelha Internacional, refugiando-se na Argentina, em 1950, onde adotou o nome de Ricardo Klement. Conseguiu, depois dessa proeza, mais uma: trazer a família para sua companhia.
Em 11 de maio de 1960, é espetacularmente sequestrado por agentes do Mossad – Serviço Secreto de Israel e levado a julgamento em Tel Aviv. O julgamento foi transmitido ao vivo para o mundo inteiro. Acusado de 15 crimes - incluídos crimes contra a Humanidade e o povo judeu - foi condenado a morrer na forca, em 1 de junho de 1962.

Já o médico Josef Mengele, “der Todesengel – O Anjo da Morte”, SS Hauptsturmführer – Capitão das SS, apesar de toda a carnificina que realizou com as próprias mãos em Auschwitz - em experiências pseudo-científicas, cujas principais vítimas eram crianças e gêmeos - só foi descoberto após a morte.
Causa estranheza o fato de nunca ter sido arrolado como criminoso de guerra em Nürnberg. Pouco antes do término da guerra, pressentiu que a Alemanha seria derrotada. Abandonou Auschwitz dez dias antes do exército norte-americano chegar e fugiu para a Argentina. Depois da prisão de Eichmann foi para o Paraguai, tendo como destino final o Brasil, onde viveu em diversas cidades e morreu afogado em Bertioga, no litoral paulista, em 1979.
Mais estranho ainda, o fato de nunca o Mossad - Serviço Secreto de Israel nem o Centro Simon Wiesentahl conseguirem localizá-lo, apesar do filho Rolf ter-se encontrado com ele pelo menos duas vezes e trocado correspondência com o pai.

Simon Wiesenthal (1908-2005), o “Caçador de Nazistas”, dedicou sua vida à perseguição de criminosos de guerra alemães.
Conseguiu localizar Eichmann na Argentina. Sabe-se hoje que trabalhou para o Mossad – Serviço Secreto de Israel.
Em seu livro de memórias, publicado em 1989, declarou: “os nazistas não escaparão sem punição pelo assassinato de milhões de seres humanos”.

Diante deste panorama, recuso-me a acreditar na veracidade do que afirma o jornalista argentino Abel Basti.
Seu depoimento parece voltado para a assim denominada “Teoria da Conspiração, tão a gosto de mentes imaginativas e/ou paranóicas.

Os episódios históricos arrolados dimensionam que a URSS e os demais protagonistas que viveram estes tempos jamais dariam cobertura à fuga do Führer. Por outro lado, capturá-los seria o maior prêmio que poderiam conquistar perante a opinião pública mundial.

A Guerra Fria foi a continuação da Guerra Quente. Para quem não sabe, os Acordos de Potsdam e de Yalta estabeleceram a divisão da Alemanha em quatro setores para serem administrados pelas potências vencedoras.
Coube à administração soviética a parte essencialmente agrária, a mais atrasada do país. E aos países ocidentais, a parte das indústrias do Ruhr. Segundo a Wikipédia, “o Vale do Ruhr (em alemão,Ruhrgebiet, coloquialmente, Ruhrpott) é a região metropolitana mais populosa da Alemanha e também a maior região industrial da Europa. Está situada no centro do estado da Renânia do Norte-Vestfália, ao longo do leito do rio Ruhr”.
A divisão de Berlim foi algo grotesco e dantesco. A viagem de trem que partia de Frankfurt am Main, na Alemanha Ocidental, para Berlim Ocidental, transitava o tempo todo pelo território da RDA, Alemanha Oriental. As pessoas desembarcavam em West Berlin – Berlim Ocidental e o trem seguia para a estação terminal, em Ost Berlin – Berlim Oriental, capital da República Democrática Alemã - Alemanha Oriental. Fiz este percurso. Somente eu e meu amigo brasileiro que foi estudar comigo na RDA permanecemos no trem. Os alemães ocidentais, reprimidíssimos, olhavam-nos de soslaio e não diziam nada.
A divisão da Alemanha nasceu aí, nos Acordos de Potsdam e de Yalta. Tal como fariam na Coréia e posteriormente no Viet-nam, dividindo-os, os norte-americanos - nesta oportunidade, com a ajuda dos exércitos aliados ingleses e franceses - criaram focos de tensão internacional permanente na Alemanha subjugada. Eis as raízes da assim denominada Guerra Fria.
Der Mauer, isto é, “O Muro”, só fez aprofundar a divisão do mundo em zonas de influência.

 

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Comentário de Bruno Leal em 8 março 2014 às 10:54

Wladimir. Acho que o excesso de texto acima pode prejudicar a localização dos fóruns na página. Sempre aconselho que se coloque a menor quantidade de texto possível. O que acha? abs!

Comentário de Wladimir Gomide em 27 fevereiro 2014 às 19:30

Meu caro.

Fico extremamente grato e gratificado  pela  tua disponibilidade.

Deixemos Hitler und Eva, mais Joseph und Magda Goebbels em seu exílio eterno, no coração da Terra. Em Berlin mesmo.

Conte comigo!

Comentário de Bruno Leal em 27 fevereiro 2014 às 10:54

Oi, Wladimir. Obrigado. :)

Assim que terminar, aviso. 

Comentário de Wladimir Gomide em 26 fevereiro 2014 às 11:34

Que interessante, Bruno. Perdoe-me a cara de pau, gostaria muito de ler tua tese. Desde  já me candidato.

Abração.

Comentário de Bruno Leal em 26 fevereiro 2014 às 9:30

Temi que fosse isso, Wladimir. O livro do Basti é uma comédia. Não pode ser lido para além disso. São teses antigas, muitas das quais com origens em campanhas de contra-informação dos aliados no final dos anos 1940 e 1950. Exploro isso no primeiro capítulo da minha tese. 

Comentário de Wladimir Gomide em 23 fevereiro 2014 às 21:23

Trata-se de tese levantada por diversos partidários da assim chamada Teoria da Conspiração. O jornalista argentino Abel Basti publicou um livro com esse título. Essa turma advoga que Hitler e Eva Braun conseguiram fugir para a Patagônia. Outros, inclusive brasileiros, que o casal teria vivido em nosso país. 

Contra isso me insurjo.

Comentário de Bruno Leal em 23 fevereiro 2014 às 17:13

O que você quer dizer com o "exílio de Hitler", Wladimir?

Comentário de Wladimir Gomide em 18 outubro 2013 às 2:02

Como dizia Nietzsche , "aquilo que as pessoas aprenderam a acreditar sem razões, quem as fará acreditar com razões"?

Neo-nazistas cultuam o ódio e a intolerância. 

Não podemos ser tolerantes com a intolerância.

Comentário de Dima Madureira em 8 julho 2013 às 18:00

Tem de se contar quem foi Hess e como ele foi parar e porque foi parar no Reino Unido. Leia em fpp.co.uk

Quanto ao exílio de Hitler eu não acredito. Hitler fou um soldado exemplar, humilde e nobre. Sempre deixou claro que o comndante que determina seus subordinados a defender até o fim com suas vidas a obrigação de morrer junto.

A literatura da segunda guerra está viciadamente comprometida com a versão dos vencedores do comflito, e ainda é pouco a quantidade de materiais sérios, independentes, objetivos e honestos.

Sites como o IHR.ORGFPP.CO.UKVHO.ORG estão dando os primeiros passos para a elucidação e a desmitificação da história.

Nota: Algumas pessoas usam de chamar malicioasamente esses historiadores indpendentes com nomes absurdos, tal como negacionistas, neo-nazistas,.. Cuidado, com essas pessoas pois elas usam da técnica de ataque ao autor com o fim de atingir o seu trabalho, nesse caso a saudável e necessária investigação e revisão histórica. Em geral esses difamadores mas não ofereçem uma simples prova do que afirmam e muito menos evidências dos fatos que defendem.

Comentário de Ingrid Schmidt em 13 abril 2013 às 8:15

Hitler não morreu! Era o amante de Evita Perón e Eva Braun era amante de Perón! kkk

antes ele deu uma passadinha no Rio Grande do Sul visitar seus compatriotas alemães...

 
 
 

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