9} Goethe {1749-1832}

Vemos no individualismo de Goethe o produto histórico de uma etapa do desenvolvimento espiritual da humanidade que já é, como sabemos, em última instância, a conseqüência de seu próprio desenvolvimento econômico. Goethe não foi somente Goethe. Goethe foi toda uma época movimentada e tempestuosa na qual se operaram, objetiva e subjetivamente, as mais radicais transformações. Ele mesmo dizia nos últimos anos de vida: “Minha obra é a de um ser coletivo que tem o nome de Goethe”.

Este “ser coletivo”, todavia, que viveu numa quadra revolucionária, assistindo de perto, no terreno social, ao processo dos “saltos”, isto é, da quantidade que se transforma em qualidade, foi, em virtude das próprias contradições de seu tempo, o grande intérprete do individualismo  (quer em sua fase inicial, quer em seu apogeu)  que deveria florescer e frutificar, universalmente, com a derrocada do feudalismo e o advento da burguesia.

Existe entre Goethe e Nietzsche um significativo paralelismo histórico-espiritual. Goethe representa o individualismo burguês em sua linha de ascensão. Nietzsche, este mesmo individualismo em sua linha de descenso. É, exatamente, o que sucede, já noutra esfera, com Beethoven e Wagner. Goethe e Beethoven estão no mesmo plano, apesar de ter sido Goethe um servidor dos poderosos e Beethoven um republicano audaz e desabusado, que retirou o seu apoio a Napoleão quando este se proclamou imperador. No mesmo plano também estão Nietzsche e Wagner, sem levar muito em conta as suas divergências pessoais. Enquanto Wagner despertava barulhentamente a atenção européia com suntuosos espetáculos, Nietzsche, solitário e esquecido, procurava na utopia o ambiente propício ao super-homem. Ambos representam, na Alemanha, o crepúsculo do individualismo, deste próprio individualismo do qual Beethoven e Goethe encarnaram o alvorecer.

Podemos dividir a vida mental de Goethe em três fases distintas. A primeira é quando nela se refletem as contradições do individualismo nascente, sem caráter definido, caótico, em pleno período de formação, sofrendo da moléstia infantil do crescimento. Goethe, nesta fase, não passa de um sentimental que vê o mundo e os homens pelo prisma afetivo. É a época de Werther, transbordante de energias não domadas, uma época anárquica e romântica de paixões excessivas, desordenadas e tumultuosas. Goethe entrega-se ao seu demônio interior, deixando-o expandir-se inteiramente sem freio e sem controle. Mefistóteles poderia dizer a seu respeito o que disse de Fausto: “até o diabo se sai mal quando se encarrega de um doido dessa espécie”.

Mas este período verdadeiramente curto não tarda em ser ultrapassado. A ele deveria suceder um novo estado de coisas que já tinha um caráter oposto, isto é, nitidamente “racionalista”. Goethe, então, procura disciplinar, com certa rigidez, os impulsos, as emoções, os sentimentos, chegando a ambicionar a situação de inteira intangibilidade afetiva. Aproximou-se da corte de Weimar, onde pretendia viver e atuar vigorosamente, desprezando, para isso, as advertências e a oposição de seu pai. O velho Goethe, descendente de um alfaiate, tendo, entretanto, conseguido enriquecer, conservava, como todo burguês, o ódio surdo aos altos meios da nobreza orgulhosa e dominadora.

Em Weimar, logo após a sua chegada, Goethe verificou que era hostilizado e combatido por grande parte da corte, incapaz de reconhecer o talento e o mérito de um neto de artesão. Apesar da grande estima e admiração que lhe dedicava o Duque Carlos Augusto, só depois de vencer uma poderosa resistência é que pôde ingressar em seu Conselho Secreto.

Goethe não se iludia. Esmagando as próprias tendências a fim de ter um comportamento absolutamente racional, embora servisse à aristocracia, curvando-se ante ela, não deixava, intimamente, de compreendê-la e desnudá-la, reconhecendo sua vulgaridade e estupidez de classe decrépita, já na última fase de decomposição social. Na verdade, amava e preferia a convivência dos simples, dos pequenos, da “gente do povo”. Este sentimento o acompanhou até o fim de sua vida. E exclamava: “Como se tem fortalecido o meu amor pelas classes mais baixas!... As chamadas classes inferiores são, aos olhos de Deus, as mais elevadas com certeza”. Depois dizia: “Ao povo e à sua formação intelectual dediquei a minha existência inteira”. Nas classes baixas, em Cristina Vulpius, e não nos salões da nobreza e dos homens de dinheiro, é que foi Goethe encontrar a companheira de muitos anos e, finalmente, a esposa. Esta união despertou, em quase todos os salões, a antipatia e mesmo o ódio contra ele. Wieland, desdenhosamente, ao se referir a Cristina, chamava-a de “criada”. O próprio Schiller, que passava por um espírito independente e revolucionário, condenou a escolha do poeta. A estreiteza mental e o filisteísmo jamais perdoaram a inteligência liberta dos preconceitos e em luta contra eles. Como nota Emil Ludwig, a longa ligação de Goethe com Cristina mostra uma extraordinária harmonia “que nem classe, nem sociedade, nem mexericos, nem ciúmes, nem amor livre, nem casamento, nem a glória, nem o espírito, nada podia destruir senão, finalmente, a morte”., isto é, quando Cristina Vulpius cessou de viver.

O interessante é que reconhecendo, em seu tempo, a necessidade de uma grande transformação social, Goethe dizia: “Tudo para o povo, mas nada por seu intermédio”. Chegou a propor, objetivamente, várias reformas de caráter social a fim de melhorar a situação dos trabalhadores da cidade e do campo, mas como simples medidas preventivas, partindo de “cima”. Isto alguns tempos antes de 89, vislumbrando, profeticamente, a tempestade que estava prestes a desencadear-se. Apesar de acentuar as origens francesas das idéias socialistas, Ferdinand Tonnies assinala que Goethe, nos Anos de Viagem de Wilhelm Meister, desenhou a sociedade ideal onde todos os seus membros são obreiros, cada um segundo sua capacidade, sua natureza e sua escolha.

A verdade é que para Goethe o socialismo era ainda uma perspectiva distante. Além disso, queria e procurava resolver os problemas sociais de seu tempo por intermédio da “razão”. Nada de violências nem de bruscas transformações. Devia encontrar para o mundo o mesmo equilíbrio racional que havia conseguido para sua própria pessoa. Goethe compreendera que chegara a hora decisiva da renovação econômica, social e política. Mas desejava que esta renovação se fizesse, organicamente, sem traumas, controlada por homens de bom senso. Quanto as tropas de Brunswick foram batidas na batalha de Valmy, em 1792, pelo exército da Revolução, Goethe declarou no acampamento dos vencidos onde, então, se encontrava: “Neste lugar e neste dia começou uma era nova na história do mundo. Os exércitos dos reis foram derrotados pelos exércitos do povo. E todos vós podeis dizer: assisti ao seu despontar”.

Goethe, porém, tentava, na Alemanha, harmonizar os interesses da burguesia com os interesses da nobreza, dando certas vantagens ao povo, mas temendo, por outro lado, que o mesmo despertasse. Dirigindo-se aos homens de governo, advertia: “O povo pode ser oprimido, mas não subjugado. Os levantes revolucionários das camadas inferiores não são mais do que uma conseqüência das injustiças das classes superiores”. E afirmava no final de Hermann e Dorotéia:  “Rendamos homenagem aos povos que se sublevam contra a tirania para defender suas leis, suas mulheres e seus filhos”. No meio de suas opiniões políticas, muitas delas avançadas para o seu tempo, há certa dose de evidente filisteísmo, pois Goethe, inúmeras vezes, procurou ajustá-las às suas conveniências pessoais.

Disso não teve o menor constrangimento. Considerava-se um vitorioso. Que mais poderia desejar? Havia conquistado não só o bem material, como também honraria, respeito, fama e glória. Seu nome era universalmente conhecido e consagrado no mundo das ciências e das letras. Embora de origem plebéia, conseguira participar da alta administração de Weimar como qualquer aristocrata, até mesmo com maior influência. Goethe, no fundo, encarnava, psicologicamente, o egoísmo vulgar do burguês vencedor, ou noutras expressões, da burguesia quando chega ao poder. Com muita razão dizia Engels:  “Goethe é, às vezes, um filisteu precavido, estreito e satisfeito”.

Era um filisteu, por exemplo, quando, por interesse, se curvava perante os homens de governo. Mas era colossal ao se colocar entre os adversários do nacionalismo vulgar. Goethe gostava de apresentar-se como um cidadão do mundo e para ele a pátria constituía-se de tudo que existe na terra de bom, de elevado, de belo, sem distinção de fronteiras ou de territórios. Compreendia, exatamente, a razão e o mecanismo das guerras. “Seria não ter o menor conhecimento... supor que não são inseparáveis a guerra, o comércio e a pirataria”. Sua grande aspiração filosófica era a de estabelecer a paz.

A segunda fase da vida de Goethe é toda diversa da primeira. Nesta, ele se entrega aos próprios impulsos numa grande desordem afetiva; na outra, torna-se escravo da razão, querendo enquadrar o mundo, formalmente, dentro das estreitas regras de uma lógica envelhecida e gasta.

Mas Goethe se rebela contra Goethe. Seu gênio consegue libertar-se do controle do cortesão. Desvenda-se diante de seus olhos uma outra paisagem. É a terceira e última fase de sua vida. Vê seu “racionalismo” superado por uma nova e radiosa visão do mundo e dos homens. Surge um novo Goethe que fala à maneira de Mefistófeles: “Cinza, caro amigo, é toda Teoria. E verde, a árvore dourada da Vida – Grau, teurer Freund, ist alle Theorie. Und grün des Lebens goldner Baum”.  {*}

Goethe não mais ostenta uma frieza marmórea. Abandona de todo suas atitudes aristocráticas, e muitos de seus sentimentos recalcados retornam a florescer. Há no Goethe da velhice um pouco do Goethe de Werther. A mesma chama que inspirou Werther inspira a Elegia de Marienbad. Ulrika é uma ressurreição de Charlotte von Stein. Extingue-se nele o homem supercontrolado que talvez tivesse existido a fim de combater o romântico que havia em latência no fundo de seu Eu. Na última fase do processo, apesar da serenidade aparente que sempre conservou, Goethe coloca-se fora de suas próprias conveniências e mesmo das conveniências daqueles aos quais sempre acompanhou e prestigiou. Entrega-se de corpo e alma ao seu gênio criador. É quando escreve o segundo Fausto. E, em rebeldia contra os preconceitos filosóficos, políticos e sociais, deixa de ser o intérprete da classe dominante para tornar-se a voz de sua época.

 

 

{*}  No texto acima, constava:  “A teoria é seca, mas a árvore da vida é sempre verde”.

Presumo que Edmundo tenha recorrido a alguma tradução francesa muito ruim, pois não dominava o Alemão.

Optamos pela tradução que costumo fazer do original alemão. "Cinza, caro amigo, é toda teoria. E verde, a árvore dourada da Vida".

 

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