4} Shakespeare {1564-1616} Parte 2

O Aspecto Filosófico


A obra de Shakespeare tem, por vezes, um caráter de antítese, ou melhor, as teses que nelas se encontram são de oposição às teses das classes dominantes. Shakespeare, porém, não chegou à síntese. Não podemos vê-lo como um pensador que arquitetou um sistema filosófico, uma doutrina política, uma ética própria. Sua filosofia é fragmentária, baseada no ser e na existência sem fugir à dialética da história. As contradições que nelas se encontram, harmonizam-se em conjunto com as contradições da sociedade em que viveu.
O importante é que Shakespeare supera todas as restrições. Não poderia cingir-se às regras e às leis de uma escola filosófica. É o oposto de Bacon. Sua visão da vida e da humanidade é mais estética do que ética. Mais intuitiva do que lógica. A ética de Shakespeare cede lugar à realidade psicológica e histórica. O homem refez a natureza, reconstruindo a sociedade e seu próprio destino. Recria o mundo de acordo com o progresso do trabalho, da técnica, da ciência e da produção. Ele tinha, espontaneamente, uma noção empírica da dialética da história. A imaginação do poeta evitou que sucumbisse diante da subjetividade dos preconceitos morais. O mundo era também, para Shakespeare, uma criação artística do próprio homem como conseqüência de seu enriquecimento material e psicológico.


O Dinheiro


Marx mostrou como Shakespeare compreendeu o papel desempenhado pelo dinheiro, que possui a qualidade de tudo comprar e de tudo se apropriar, sendo o intermediário entre a necessidade e o objeto, entre a vida do homem e os meios de subsistência.
Para demonstrar a intuição de Shakespeare em relação à onipotência do dinheiro, Marx recorda as palavras de “Tímon de Atenas” quando se refere ao ouro:
Ouro amarelo, brilhante, precioso... Ele transforma o branco em negro, o feio em belo, o vil em nobre, o falso em verdadeiro, o velho em jovem, o cobarde em valente. Suborna os sacerdotes e afasta os crentes dos altares... Tem o poder de fortalecer e dissolver as religiões, de fazer com que se bendiga os malditos... Leva os ladrões a sentarem-se entre os senadores, dando-lhes títulos, honrarias e louvores... Faz com que volte a casar-se a viúva envelhecida e aquela que, cheia de úlceras, retorna do hospital, fique outra vez perfumada e apetecida como um dia de abril”.
Shakespeare não só assinala o poder do dinheiro como também demonstra a tirania alienadora que ele exerce sobre os homens. Compreende a sua importância sem deixar de caracterizar o seu papel corruptor. Sabe que o dinheiro dirige o mundo, submetendo os pobres aos ricos, a grande maioria a um pequeno grupo de privilegiados. E é contra o poder do dinheiro, sustentáculo de todos os outros poderes, que Shakespeare se manifesta com a vigorosa limpidez de sua eloqüência poética.
Oh tu, doce regicida! - exclama Tímon de Atenas - amável agente de divórcio entre pai e filho! Brilhante corruptor dos mais puros leitos de HimeneuMarte valente! Galã sempre jovem, amado e delicado cujo esplendor derrete a neve sagrada que descansa no seio de Diana! Deus visível que une as coisas da natureza absolutamente contrárias e as obriga que se abracem, tu que sabes falar todas as línguas para todos os desígnios. Oh tu, pedra de toque dos corações! Trata os homens, teus escravos, como rebeldes e, pela virtude que em ti reside, faz que nasçam entre eles as discórdias devoradoras a fim de que as feras possam ter o domínio do mundo”.
O dinheiro, para Shakespeare, aliena o homem de sua própria finalidade. Tem o poder de corrompê-lo, de modificá-lo, tornando o instrumento de uma força viva que altera igualmente o sentimento e a razão. “É o pântano condenado, a prostituta comum a todo o gênero humano que semeia a desigualdade entre os homens e a dissenção entre as nações”.
Shakespeare viveu numa época de fermentação revolucionária em que a violência era empregada para evitar a renovação contra a intolerância e o obscurantismo, procurando reforçá-los em todos os aspectos.


A Rainha Elizabeth


Rainha Elizabeth distinguiu-se pela crueldade com que reinou na Inglaterra. Não poupou os adversários, nem mesmo os amigos mais íntimos quando perderam a sua graça, destruindo-os fisicamente com a implacabilidade que herdara de seu pai. Henrique VIII matara várias de suas mulheres, inclusive a própria mãe de Elizabeth. Por que Elizabeth deixaria de executar os homens que amara quando se julgava traída por eles? Daí a inclemência com que se vingou do conde de Essex, condenando-o à morte e expondo por um ano inteiro, na Torre de Londres, a sua cabeça decepada.
Sustentava Elizabeth o direito divino da monarquia. O poder deveria ser exercido com mãos de ferro. Atuava nas eleições do Parlamento para evitar a escolha de candidatos que fossem favoráveis à liberdade de palavra. Perseguia os parlamentares que se opunham aos seus projetos. Não admitia a oposição. Reprimia de maneira implacável qualquer movimento de descontentamento contra o governo. Justificava todas as violências cometidas pelos seus auxiliares. Exigia para os adversários as mais duras punições.
Sua biografia é um poço de crimes. Prendeu os desafetos sem causa declarada. Admitiu, nos cárceres, a tortura física para castigar os inimigos ou obter confissões. Suspendeu sem apelação o direito de habeas corpus e do julgamento pelo júri para os crimes políticos. Condenou à fogueira, à forca e ao cepo milhares de pessoas que discordavam de seu governo e de sua política religiosa.


A Luta Religiosa


As leis contra a heresia eram de quando em quando renovadas e postas em execução, atingindo igualmente os unitários e os anabatistas. Estabeleceu-se a pena de morte para quem chamasse a rainha de herege, cismática, usurpadora ou tirana. A pena alcançou também quem introduzia, na Inglaterra, uma bula do Papa ou convertia um protestante à Igreja Católica. A conversão ao catolicismo era punida como alta traição. Os sacerdotes católicos ficaram impedidos de dizerem missas. Tornou-se obrigatório assistir-se ao Ofício da Igreja Anglicana, sob pena de multa, prisão ou confisco de bens.
A luta religiosa estendia-se por todo o país, então agitado não só pelo conflito entre católicos e protestantes, como também pela dissidência entre os partidários da Reforma.
Esmagavam-se igualmente católicos e protestantes que não se submetiam às decisões da rainha. A política interna agravava a política externa, sobretudo depois da execução de Maria Stuart. O Papa examinou com simpatia a invasão da Inglaterra por três exércitos que partiriam da Irlanda, da França e da Espanha.
Tendo conhecimento deste plano, Elizabeth adotou novas medidas repressivas. Os sacerdotes que recusassem o voto de fidelidade ao Ato da Supremacia, que dava à rainha o comando da Igreja Anglicana, seriam obrigados a deixar o país dentro de quarenta dias sob pena de morte. 123 sacerdotes e leigos foram executados e 200 mais morreram na prisão. A severidade da legislação provocou o descontentamento entre os próprios protestantes. Alguns descontentes converteram-se ao catolicismo, fugindo para Roma. Entre estes, encontrava-se o neto de William Cecil, que foi, em todo o reinado de Elizabeth, o seu principal conselheiro.
Nada, entretanto, detinha as perseguições. Dos 438 sacerdotes que foram enviados à Inglaterra, 98 perderam a vida. Muitos dos condenados à morte eram arrancados do cadafalso e esquartejados de maneira brutal. Ainda vivos, cortavam-lhes as pernas e os braços para depois estripá-los.
A repressão aos católicos chegou a tal ponto que o jesuíta Robert Passons sustentou que a bula papal, negando a legitimidade de Elizabeth como rainha da Inglaterra, justificava o atentado de morte contra ela. Ptolomeu Gali, secretário de Estado de Gregório XIII, aprovou esta idéia que, decerto, não o faria se tivesse o repúdio do Papa.
Em 1581, o jesuíta Edmund Campion, que penetrara secretamente na Inglaterra, foi preso e conduzido à Torre de LondresElizabeth quis interrogá-lo pessoalmente. Campion disse-lhe que a considerava rainha legal, mas não se achava com autoridade devida para afirmar se o Papa tinha ou não o direito de excomungá-la. Procurava, desta forma, salvar a vida com uma resposta evasiva. Elizabeth mandou-o de volta à Torre, onde foi submetido à tortura para dizer quais eram seus companheiros de conspiração. Resistiu dois dias, mas terminou por capitular, mencionando alguns nomes, o que provocou novas prisões. Campion e 14 pessoas morreram enforcadas a 1 de dezembro de 1581.
Neste mesmo ano, Robert Browne, na Holanda, publicara dois opúsculos que defendiam uma constituição democrática para a cristandade. Qualquer grupo de cristãos teria o direito de organizar o seu próprio culto, baseado nas Escrituras Sagradas, de escolher o seu chefe, livre de interferências exteriores. Dois adeptos de Browne foram presos na Inglaterra e enforcados por desrespeito à rainha e à religião.
Na agradável Inglaterra da era de Elizabeth - diz um historiador - oitocentas pessoas em média eram anualmente enforcadas”. Puniam-se os pequenos crimes com o pelourinho, o tamborete, as chicotadas, o corte da língua, de orelhas ou de membros. John Stubbs, advogado puritano, teve a mão decepada por ordem de um magistrado, pelo crime de ter condenado o projetado casamento de Elizabeth com Alençon, filho de Henrique II e Catarina de Médicis, por considerar uma transigência com a Igreja Católica.
O curioso é que Elizabeth, apesar de todo o rigor de sua política religiosa, não tinha nenhuma reação emocional que pudesse colocá-la entre os fanáticos. Agia com equilibrada severidade, movida pela razão. Desprezava todo o dogmatismo teológico. O credo protestante, para ela, era tão verdadeiro como o católico. Quando declarou a um emissário espanhol que era insignificante a diferença entre as duas igrejas, ele concluiu que Elizabeth não acreditava em Deus. A religião não passava de simples instrumento que manejava para consolidação do seu poder pessoal. Sem o menor fanatismo, era friamente que enviava para a fogueira e para a forca os hereges, os católicos e os próprios protestantes que julgava incômodos à sua política religiosa.


O Comportamento de Shakespeare


Shakespeare
 distinguiu-se pelo seu comportamento pacato. Não lhe agradava a vida aventureira e turbulenta de seus contemporâneos. Era um homem de bom humor, compreensivo e pacífico. Ben Johnson bateu-se em duelos. Matou dois ou três homens. Marlowe morreu numa briga de taberna, talvez assassinado pelos espiões da rainha que não o perdoava pela linguagem irreverente e conduta provocadora e agressiva. Shakespeare não aceitava as violências da rainha, sobretudo, depois da execução de Maria Stuart e do Conde de Essex. Todavia, por temperamento, não a combatia frontalmente. Procurava ganhar tranqüilamente a sua vida, ajuntando dinheiro sem se envolver em aventuras perigosas.


Macbeth


Macbeth” é uma tragédia escrita contra Elizabeth, na qual Shakespeare manifesta a sua profunda aversão pela rainha. Ludwig Jekels, no estudo da técnica dramática de Shakespeare, julga que “ele divide freqüentemente um caráter entre dois personagens, cada um dos quais aparece assim de maneira imperfeita, só compreensível quando o reunimos com o outro numa unidade”.
Freud aceita esta hipótese, admitindo que é o caso de Macbeth e Lady Macbeth.
Foi Macbeth - diz Freud - quem teve antes do crime a alucinação do punhal, mas é ela, Lady Macbeth, quem sucumbe depois à demência. Após o crime, ouviu ele uma voz que gritava: Macbeth mata o sono e não mais dormirá. Mas depois não se diz que o rei Macbeth já não pode dormir e, em compensação, vemos a rainha erguer-se sonâmbula de seu leito e revelar sua culpa. Macbeth olhava perplexo para suas mãos ensangüentadas e se lamentava de que todo o oceano do grande Netuno não bastaria para lavar aquele sangue de suas mãos. Mas depois é Lady Macbeth quem esfrega incansavelmente as mãos sem vê-las limpas de sangue. Todos os perfumes da Arábia não desinfetariam esta mão. Deste modo, cumpre-se nela o que causava nele o temor do remorso. Lady Macbeth se converte no remorso após o crime e, Macbeth na obstinação desafiante, esgotando assim entre ambos as possibilidades do delito, como duas partes discordantes de uma única individualidade psíquica e talvez cópia de um único modelo”.
Temos, nesta tragédia de Shakespeare, o fenômeno psicogênico que poderíamos chamar do Complexo de Lady Macbeth, o complexo da esterilidade feminina, da falta de descendência. Tudo é inútil! Inúteis todos os crimes praticados por não ter um filho para herdar o trono!
Freud verifica que a tragédia dos Macbeths oferecia “singulares alusões à situação virginal de Elizabeth” que nunca pudera, conforme se murmurava, conceber filhos e que, ao receber a notícia do nascimento de Jacques I, tinha qualificado a si própria de “tronco seco”. Por sua esterilidade, vira-se obrigada a ter como sucessor o rei da Escócia, filho daquela mesma Maria Stuart que enviara ao cadafalso.
As duas personagens superpostas de Macbeth e Lady Macbeth, com suas mãos pingando de sangue, a consciência enegrecida pelos crimes cometidos, são a própria Elizabeth que se vê obrigada a passar o trono para as mãos do filho de sua grande rival, vítima de seu poder e de sua crueldade, a quem sempre devotara um ódio mortal.


A Virgindade


Shakespeare
 passava facilmente do drama à comédia e da comédia ao drama. Se em Macbeth apresenta de maneira trágica a esterilidade de Elizabeth, já em “All´s Well That Ends Well” zomba gostosamente de sua apregoada virgindade.
Na república da natureza - dizia Parolles a Helena - é impolítico conservar a virgindade. A perda de uma virgindade implica em proveito da nação. Toda virgindade que nasce procede de uma virgindade perdida. A tela de que é confeccionada é para receber novas virgens. De uma virgindade perdida nascem outras dez virgindades. Guardá-la sempre é anulá-la perpetuamente. É uma companheira glacial de que é bom separar-se”.
E como Helena se dispunha a morrer virgem, Parolles tornava-se mais incisivo em seu ponto de vista:
Essa disposição é contra a natureza. Ao fazeres o elogio da virgindade, acusas tua mãe, o que significa uma evidente falta de respeito. Morrer virgem é a mesma coisa do que enforcar-se. A virgem é uma suicida que deveria ser enterrada nas estradas públicas, longe de toda a terra sagrada, como culpada de um crime contra a natureza. A virgindade é fastidiosa, orgulhosa, desocupada, cheia de egoísmo que é o pecado mais proibido pelos mandamentos. A virgindade gera germes semelhantes aos do queijo. Consome-se por dentro, devorando as entranhas. Não a conserves porque não fazes outra coisa senão perder com isto. Fora com ela. Dentro de dez anos terás produzido dez outras virgindades, o que constitui um bonito rendimento sem que o capital sofra o menor prejuízo. Nada de virgindade”.
Esta dissertação contra a virgindade, encarando o lado político da mesma, pelo mal que trazia à nação, atingia indiretamente a rainha. Shakespeare não ousava atacá-la, de frente, o que julgava perigoso para ele. Aludia ironicamente ao seu estado virginal por meio do gracejo. Assim dava prova de sua independência em face da moral e da religião, preservando a liberdade espiritual dos homens do Renascimento que riam de um preconceito tão austeramente sustentado por católicos e protestantes.
Elizabeth sempre explorou a própria virgindade como instrumento político. Na Inglaterra puritana, a propalada pureza da rainha constituía uma força moral. De certa forma contribuía para diluir o escândalo em que se vira envolvida com Thomaz Seymour nos anos de adolescência. Seus casos de amor eram tidos como platônicos. Ben Johnson, repetindo o que ouvira na corte, dizia que Elizabeth “tinha uma membrana que a tornava incapaz para o homem, embora tentasse muitos para o seu prazer. Um cirurgião francês propôs cortá-la, mas o medo a impediu de aceitar a proposta”. Dizia-se também que Huic, médico da rainha, dissuadiu-a de casar-se em conseqüência de seu defeito físico.
A virgindade de Elizabeth, tão apregoada como a virgindade de Joana D´Arc, na França, concorria para favorecer o plano de William Cecil, que cogitava de um casamento para a rainha. Este casamento não só neutralizaria a influência política dos favoritos da rainha como poderia fortalecer a Inglaterra como uma aliança poderosa no continente. O rei da Dinamarca, o rei da França, o arquiduque da Áustria, o duque d´Anjou e o próprio Felipe II, entre vários outros, estiveram no rol dos pretendentes à sua mão. As negociações de um casamento que nunca realizar-se-ia criaram condições para manter por muitos anos a paz entre a Inglaterra e os estados europeus.


Elizabeth e Shakespeare


Os biógrafos de Shakespeare, que procuram apresentá-lo como partidário de Elizabeth, exploram o fato de algumas de suas peças terem sido representadas na corte, pela sua companhia, diante da rainha. Estas representações, evidentemente, não constituíam um compromisso político. Shakespeare agia profissionalmente, recebendo a sua recompensa em dinheiro. Isto não alterava de modo algum o juízo que formava de Elizabeth nem evitava de combatê-la indiretamente, usando temas históricos, já que não poderia fazê-lo de outra forma. Não existem dados históricos que possam confirmar que “The Merry Wives of Windsor” foram escritas a pedido da rainha. Os que falam nisto tentam apenas estabelecer um vínculo de relações entre Shakespeare e Elizabeth que jamais existiu.


O Governo de Elizabeth


Elizabeth
, apesar de toda sua crueldade, contribuiu para o engrandecimento da Inglaterra e a abertura de um novo ciclo na história do mundo.
Seu governo estimulou com diversas medidas o comércio e a indústria. Favoreceu as companhias comerciais, dando-lhes o direito ao monopólio em diferentes países. Assim puderam criar-se e desenvolver-se as companhias TurcaLevantina e Africana, a companhia para o comércio em MoscouPérsia e os países setentrionais, a companhia Ost-India, que obteve o monopólio comercial de todos os povos ao este do Cabo da Boa Esperança. Com a presença da rainha, foi inaugurada a Bolsa de Londres, construída pelo banqueiro Gresham, elevado por Elizabeth à dignidade de cavalheiro. Este empreendimento correspondia à crescente ampliação do comércio e da indústria na Inglaterra.
O êxito, nos mares, da Inglaterra tornou inevitável o seu conflito com a Espanha. Os navios ingleses saqueavam seu litoral, atacavam suas naves e devastavam suas colônias na América. Existiam, na Inglaterra, companhias exclusivas para o equipamento dos corsários com a participação secreta da rainha. O governo inglês ajudava abertamente os Países Baixos a se sublevarem contra a Espanha.
Em 1588, vendo que fracassaram todas as conspirações que organizara contra o trono e a vida da rainha, Felipe II se dispôs a invadir a Inglaterra. Mas a esquadra que ele considerava invencível, foi quase toda destruída pela tempestade e o que sobrou aniquilada pelos ingleses.
Inglaterra, desde então, tornou-se a maior potência marítima e comercial da Europa. Se por um lado o reinado de Elizabeth representava um progresso econômico em relação ao feudalismo, por outro lado procurava deter o processo da liberdade de pensamento que surgira com a Reforma.
Sombrios e melancólicos foram os últimos anos de Elizabeth. A política de proteção que havia favorecido um desenvolvimento rápido da indústria e do comércio já não correspondia às novas necessidades históricas. Em 1597, iniciava-se o conflito entre a rainha e o Parlamento burguês que lhe negava o direito de distribuir privilégios e monopólios aos nobres que a cercavam. O absolutismo inglês entrava em decadência.


O Humanista


Contra Elizabeth ergueu-se a voz de Shakespeare. Não só condenou os seus crimes como também defendeu a liberdade religiosa que era uma forma de defender a liberdade política e a liberdade de pensamento.
Manifestou-se Shakespeare contra a nobreza hereditária, o absolutismo monárquico, a intolerância religiosa, os preconceitos raciais ao mesmo tempo que aceitou uma série de princípios profundamente revolucionários para o seu tempo: a equivalência moral e intelectual do homem e da mulher, a rebelião da mocidade contra a tirania patriarcal, o direito de amar livremente, o sentimento de igualdade entre os homens e povos.
O que caracteriza o pensamento de Shakespeare é seu sentido profundamente humanista. O tema principal de suas obras era a decomposição do mundo feudal que ainda duraria por muito tempo. Ele viveu no limite de duas épocas, entre a Idade Média e o Renascimento, quando o feudalismo entrava em declínio e começava para o capitalismo a fase ascensional da acumulação primitiva.
O importante é que ele combatia igualmente o feudalismo envelhecido e o capitalismo nascente. E era isto que o conduzia, como se depreende de certos trechos da “Tempest”, para a utopia igualitária.
Apresenta-se Shakespeare como a grande voz de seu tempo, sem subserviência para com as escolas filosóficas e as crenças religiosas. Combateu o medievalismo da Igreja Católica assim como lutou contra a hipocrisia do puritanismo. Colocou o homem acima dos sistemas econômicos e dos regimes políticos, sem desconhecer a sua dependência histórica.
A vitalidade do pensamento de Shakespeare, amplo, pujante, contraditório, como o espírito tumultuoso de uma época agitada de transição social, está, em grande parte, no seu vigoroso humanismo cujo sentido revolucionário ainda permanece atual.
O objetivo espontâneo de sua obra é a desalienação do homem para a conquista de si próprio e do mundo em que vive, na busca permanente de sua libertação material e espiritual.

 

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Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

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