I - A História e a Tragédia
Qualquer das tragédias ou das comédias de Shakespeare bastava para imortalizá-lo, colocando-o entre os grandes poetas da humanidade. Mas nenhuma delas, isolada, poderia ser devidamente apreciada e compreendida. Temos de ver as obras de Shakespeare globalmente, pois elas formam um conjunto homogêneo e indivisível: certas particularidades, imprecisas e obscuras, à primeira vista, são explicadas pelo todo. Shakespeare é o criador de um mundo em miniatura com tudo que nele existe de variável e de surpreendente, de contraditório e de harmonioso, de abjeto e de sublime. Foi, na poesia, o espírito mais universal destes últimos séculos. O Homero dos tempos modernos.
É curiosa e bem expressiva a semelhança que existe entre Homero e Shakespeare. Ambos retrataram o mundo em que viveram com uma grandiosidade monumental. Ambos jogaram com todos os matizes da poesia. Os poemas de Homero, como em grande parte a obra de Shakespeare, foram inspirados nos temas populares. Ambos apreciavam o simples e o grandioso. Enxergavam o mundo, impessoalmente, pintando com vigor os aspectos dramáticos, mas também sabendo focalizar o ridículo e o pitoresco. Há, em Homero, como em Shakespeare, a mesma linguagem clara, espontânea, livre, exata e precisa, os mesmos horizontes de uma visão ilimitada. Tanto um como o outro colocaram-se muito além das convenções de seu tempo.
Podemos considerar Shakespeare como a ponte que liga duas épocas: o mundo clássico e o mundo contemporâneo. Shakespeare foi um renovador que alargou extraordinariamente a paisagem espiritual de sua época ao mesmo tempo que aproveitava o que havia no passado de precioso e de duradouro. Nele se encontram o desmesurado e o aterrorizador de Ésquilo, a serenidade harmoniosa de Sófocles, o objetivismo de Eurípedes, o fulminante sarcasmo de Aristófanes, a profundidade abismal de Lucrécio, a doçura bucólica de Virgílio, o gracejo irreverente de Plauto. Plutarco forneceu-lhe os elementos indispensáveis para alguns de seus dramas históricos. Mas a Shakespeare não bastavam os temas do mundo grego e romano. Buscou inspiração na própria história inglesa bem como nas lendas e narrativas européias (da Itália, França, Espanha, Dinamarca, etc.), contemplando a humanidade por um prisma essencialmente universalista. Sua obra épica e lírica, ao mesmo tempo, trágica e cômica, realista e fantástica, frívola e profunda, oscilava entre a suavidade idílica e a eloqüência tempestuosa. Era a síntese da cultura clássica e o descortinamento de novas e fulgurantes perspectivas. Shakespeare não só previu e concorreu para o movimento que se formava a fim de subverter, ideológica e politicamente, a ordem do velho mundo feudal, como foi também um precursor das correntes literárias que imperaram nestes últimos séculos. As escolas literárias, desde a romântica, passando pela realista, até as mais modernas, estão eivadas da influência shakespeareana. Depois de Shakespeare, não houve nenhum movimento intelectual em que ele, direta ou indiretamente, não tivesse contribuído para sua formação e seu desenvolvimento posterior.
Entretanto, temos de ver em Shakespeare o produto mais característico do panorama espiritual do Renascimento. Foi a voz da revolução que se vinha processando no continente europeu. “Sem a Reforma - dizia Trotsky - não seriam imagináveis as tragédias de Shakespeare”. Shakespeare, descrevendo a principal contradição de sua época, a luta de dois sistemas: o feudalismo e o capitalismo, representava o despontar de um período histórico que opunha a tolerância ao fanatismo, a ciência à religião, o progresso material ao obscurantismo anacrônico dos que reagiam contra a própria evolução econômica e social da humanidade.
Em face de sua obra, é justo que se pergunte: quais as idéias de Shakespeare? A não ser nos sonetos, aliás muito pouco, não têm suas peças teatrais um cunho autobiográfico, embora reflitam, indiretamente, certos aspectos de seu drama pessoal. Em nenhuma delas se encontra a profissão de fé do maravilhoso dramaturgo. Segundo Freud, em “Tímon de Atenas” e, sobretudo, em “Hamlet”, há muita coisa de Shakespeare. Mas não de sua vida consciente e sim, exclusivamente, de sua vida anímica. Pelo estudo dessas duas personagens, podemos compreender algumas das reações instintivas, afetivas e emocionais do poeta, sem, contudo, termos a visão de suas concepções filosóficas a respeito da sociedade e dos homens. Shakespeare não assume a responsabilidade das palavras nem dos atos dos personagens que põe em cena. Limita-se a apresentar perspectivas psicológicas e uma esplêndida galeria de tipos humanos. Ao movimentá-los, não manifesta simpatia nem antipatia por nenhum deles. São seres independentes que agem de acordo com seus próprios impulsos e interesse. Como um deus, ou como a natureza, Shakespeare desconhece o valor subjetivo do bem e do mal. Nele não há abstrações nem metafísica. Estas ficam por conta dos personagens. Tudo é ação.
There is nothing either good or bad, but thinking makes it so.
Os tipos criados por Shakespeare são produtos do meio em que vivem. Pensam, sentem e agem conforme as circunstâncias. Não tem a priori esta ou aquela qualidade. Seus impulsos, suas tendências, suas inclinações, advêm, logicamente, da marcha dos acontecimentos que, de modo positivo ou negativo, atuam sobre eles e vice-versa. Todo o raciocínio de Shakespeare tem a sua base na realidade viva. Por isso é que, nos seus dramas históricos, não existe a tendência para a apologia. Júlio César, Marco Antônio, Bruto, Cleópatra, por exemplo, não são apresentados como supercriaturas tais como os heróis legendários. Vemos neles as fraquezas e as virtudes inerentes a todos os indivíduos. Ora procedem com elevação e inteligência, ora, por egoísmo ou fraqueza, com sordidez, incompetência ou maldade. Shakespeare, humanizando-os, também os torna mais dignos da simpatia universal do que os panegíricos exagerados de alguns de seus famosos biógrafos. Estes biógrafos, desde que falseiam a natureza, pintam e movimentam as personalidades históricas como seres sobrenaturais e, portanto, fantásticos e inverossímeis.
Bernard Shaw, no prefácio da “Santa Joana”, assevera que Shakespeare detratou rudemente a donzela de Orleans, movido, decerto, pelo sentimento patriótico. Assimilara o rancoroso despeito que os ingleses, em seu tempo, devotavam à célebre guerreira. Max Beer também se mostra revoltado contra o “reacionarismo” de Shakespeare, assinalando a maneira desprezível pela qual apresentou a personalidade de Jack Cade. Nós, porém, julgamos que é preciso ver Shakespeare sem nenhum sectarismo ideológico. Se ele zomba gostosamente de Joana D´Arc e Jack Cade, por outro lado não é mais benigno e tolerante para com os heróis oficiais da Inglaterra.
As tragédias históricas de Shakespeare sobre as lutas políticas em seu país não são mais do que a revelação fria e audaciosa das misérias e dos crimes dos reis, da nobreza e do clero. Na disputa do trono e dos ducados, não há traição nem infâmia que não se cometam. Como sempre, pátria, moral, religião, família, não passam de palavras. A corrupção, o assassinato, a felonia, a crueldade são motivos de orgulho e de alarde. A necessidade do momento, bem como o sucesso, explicam e justificam tudo. Padres, bispos e cardeais, em nome de Deus, estão sempre envolvidos nas intrigas e nas contendas que ensangüentam a nobreza, pondo os proveitos terrenos acima das recompensas celestes. O punhal dos assassinos não respeita mulheres, velhos e crianças. Não recua ante o fratricídio. Os irmãos matam os irmãos, os tios os sobrinhos. As mulheres são falsas, duras e terríveis; verdadeiras fúrias às vezes, instigam conspiram, executam. Não existem laços de amizade nem compromissos que verdadeiramente mereçam confiança. O príncipe John de Lancaster, por ocasião da revolta dirigida por Richard Scroop, Arcebispo de York, Hasting e Mowbray, propõe um acordo aos rebeldes e, depois que os mesmos licenciam as suas tropas, manda prendê-los e executá-los como traidores. O Cardeal Beaufort participa na conjuração para estrangular, no presídio, o Duque de Glocester, seu sobrinho, porque tem a certeza de que o rei irá perdoá-lo. A Rainha Margarida de Anjou, nas barbas de seu marido, vive com o Duque de Suffolk, que é seu braço-direito numa série de crimes. Henrique VI consente que o Conde de Warwick organize, na França, com Luís XI, o exército que, derrotando as tropas inglesas, deve recolocá-lo no trono. Eduardo IV e o futuro Ricardo III mandam matar o Duque de Clarence, seu irmão, em quem viam um possível rival. Em seguida, Ricardo condena à morte os filhos de Eduardo quando se apodera do trono. Por ambição, Ana, nora de Henrique VI, casa-se com o duque corcunda que apunhalou mortalmente seu sogro e seu marido, e Elizabeth, mulher de Eduardo IV, se reconcilia com o assassino de seus dois filhos. Vê-se nesses dramas dos reis e dos nobres a epopéia do assassinato, do roubo e da traição. O corrompido e astuto Falstaff torna-se merecedor de compaixão, de simpatia e mesmo de estima ao ser comparado com Henrique V, que figura no primeiro plano dos heróis da Inglaterra.
Analisando bem, tudo nos leva a crer que Shakespeare não se volta contra Joana D´Arc em virtude de sua nacionalidade francesa. Se fosse este o motivo, teria engrandecido os ingleses que a combatiam. Não o fez, todavia. Também os detratou. Shakespeare, vindo das baixas camadas populares, sem falsas ilusões, esperto demais para se deixar enganar, liberto dos preconceitos religiosos, nacionalistas, raciais e de classe, zombava inteligente e racionalmente de Joana D´Arc por espírito crítico e amor ao gracejo. Foi o precursor de Voltaire.
Interessante! Shakespeare, apesar de seu ceticismo, não ficava impossibilitado de enxergar os rasgos característicos de uma forte personalidade mesmo quando focalizava seus erros e seus defeitos. Ridiculariza a santidade de Joana D´Arc, descrê da objetivação dos ideiais igualitaristas de Jack Cade, descreve os crimes e as misérias dos reis, dos nobres e dos padres, mas, apesar de tudo, reconhece e ressalta o que neles havia de heróico e admirável. Este amor à realidade, este senso psicológico, esta tendência a não fazer, romanticamente, do personagem um simples intérprete de suas idéias pessoais, eis o que levou Karl Marx a considerar Shakespeare o maior poeta dramático do mundo moderno.
Dizem os biógrafos de Marx que ele conhecia, sem exceção, todos os personagens de Shakespeare e que os havia estudado profundamente. Sabia de memória cenas e cenas de suas obras, e era com a música de seus versos que ninava as filhas pequeninas. Estas, por sua vez, aprenderam com o pai a admirar apaixonadamente o gênio de Shakespeare. Leonora, aos seis anos, já decorara os mais belos trechos do poeta. “A obra de Shakespeare - diz ela - era a Bíblia do nosso lar”.
Quando Lassalle publicou, em 1859, a tragédia histórica Frans von Sickingen, Marx, numa carta particular que lhe enviou, agradecendo o exemplar recebido, assinalou imparcialmente os defeitos e as qualidades da obra. Lassalle, para Marx, deveria ter shakespearizado a sua tragédia, pois o seu grande erro fora a schillerização, isto é, “a transformação dos personagens em simples porta-vozes do espírito da época”.
Marx compreendeu perfeitamente a principal diferença que há entre Schiller e Shakespeare. Em Shakespeare, espelha-se a própria humanidade; em Schiller, uma corrente filosófica. Para Shakespeare, o importante são os traços característicos dos personagens com toda a complexidade de suas reações psicológicas; para Schiller, o fundamental é o que os personagens subjetivamente representam. Ao reviver o passado, nos dramas históricos, Schiller não faz das figuras que revive senão arautos de uma idéia. Shakespeare, ao contrário, não se encarna em nenhum de seus heróis nem procura, desumanizando-os, reduzi-los a intérpretes de seus pontos de vista. Com efeito, os dramas de Schiller são veículos de propaganda doutrinária, já que os personagens refletem os próprios pensamentos do autor. O ideal sobrepõe-se ao real e o real é sacrificado pelo ideal. Shakespeare, porém, não se afasta da realidade, não tenta artificializá-la, forçando-a, para chegar transcendentalmente a determinadas conclusões de caráter filosófico e político.
Isto não quer dizer que se deve negar a literatura de tendência ou supor que Shakespeare tivesse permanecido indiferente aos acontecimentos sociais e políticos de sua época. “A tendência, como dizia Engels, deve surgir da própria situação e da própria ação, sem que seja explicitamente formulada”. Para o poeta, já é muito não se deixar iludir ou se corromper pela ideologia da classe dominante, sobretudo em seu período de decadência. Eis o suficiente para que ele possa refletir a sua época, valorizando as contradições internas da sociedade e as forças progressistas que atuam dinamicamente em seu desenvolvimento natural. Todo grande poeta (pelo menos tem sido até hoje) é essencialmente um poeta revolucionário por mais imparcial que ele seja em face dos conflitos históricos. Todo grande poeta é um poeta de tendência (no bom sentido do termo), e quanto mais imparcial mais tendencioso, porque retrata, sem artifícios, as incessantes transformações sociais, opondo-se ao espírito conservador e reacionário que, preso à tradição e tendo idealmente do mundo uma visão estática, supõe inabalável e duradouro o que não passa de efêmero, transitório e perecível.
É claro que não se pode tolerar uma literatura puramente subjetiva, vivendo nas esferas estelares, e entregue romanticamente às divagações transcendentais. Nada, porém, mais estúpido do que a tendência pela tendência, ou melhor, a literatura de propaganda, intencional, por encomenda, que inevitavelmente extrapola a realidade, caindo num artificialismo grosseiro e intolerável.
Shakespeare foi tipicamente um poeta revolucionário que ainda hoje pode servir de modelo. Que tenha procurado atuar sobre o seu tempo, não resta a menor dúvida. Mas, ao contrário de Schiller, sua atuação foi sobretudo por ter pintado fiel e impiedosamente a realidade, e não por intermédio das declamações de seus personagens. Em Shakespeare são os fatos, e não apenas as palavras, os argumentos que mais impressionam e convencem. Nisto, aliás, está a mais sábia lição que podemos aprender na obra do poeta que tão bem retratou o mundo e os homens e soube compreendê-los e interpretá-los.
II - Tróilo e Créssida
Pela representação e pela leitura de “Tróilo e Créssida”, pode-se examinar o pensamento de Shakespeare por muitos aspectos. Shakespeare coloca-se ao lado de Tróia, ou melhor, vê os troianos com maior simpatia do que os gregos. Tem uma atitude oposta a de Homero. E esta atitude de Shakespeare era, certamente, por motivos teóricos e políticos. Os gregos eram os invasores e os troianos as vítimas da agressão. E isto era motivo para ele mostrar a sua repulsa pelos agressores.
Vivendo numa época de guerra, Shakespeare manifestava-se contra a guerra. “Guerra e luxúria - exclama Térsites - só elas estão sempre na moda. Que um diabo flamejante as carregue”. Shakespeare não mostra o menor entusiasmo pelo heroísmo militar. É hostil a Agamenon, Ájax, Ulisses, Diômedes e Aquiles. Tem por todos eles um irônico desprezo.
Aquiles, na tragédia de Shakespeare, não mata Heitor em combate singular como na Ilíada. Aproveita um momento em que ele está desarmado para mandar assassiná-lo por seus mirmidões. Depois amarra em seu carro o corpo do guerreiro vencido e dá várias voltas pelas muralhas de Tróia. Não há neste ato o menor heroísmo.
Para Shakespeare, Heitor é um defensor prudente de Tróia. Pede ao Conselho da Cidade que entregue Helena aos gregos para evitar a guerra. É, pelo tempo em que viveu, um precursor de Hamlet quando diz: “A dúvida prudente chama-se o fanal dos sábios, a sonda que busca até o fundo o que se pode temer de pior”.
Tanto os gregos como os troianos, na tragédia de Shakespeare, sabem que a guerra por causa de Helena e Menelau não possui uma séria justificativa. Em ambos os campos, Helena é chamada de prostituta e Menelau de corno. Vejamos o diálogo de Diômedes e de Paris numa hora de trégua:
“Páris - Ai! Dizei-me, nobre Diômedes, dizei-me com toda a sinceridade, com toda a franqueza de uma boa camaradagem, quem, segundo vosso pensamento, é merecedor da bela Helena: eu ou Menelau?
Diômedes - Ambos igualmente. Menelau bem a merece. Vem procurá-la sem escrúpulos pelas máculas que a enodeiam através deste inferno de dores e deste mundo de provações. E vós mereceis ficar com ela, pois insensível à sua desonra sacrificais tanto sangue e tesouro para defendê-la. Menelau, como um cornudo lamentoso, deseja beber os resíduos deteriorados de uma bebida insípida e ordinária. Vós, como um libertino, achais que sois ditoso por gerar vossos herdeiros em flancos impuros. Vossos méritos, pesados numa balança, são iguais. Uns equilibram os outros. Mas quem ficar com ela terá um peso a mais: o da prostituta.
Páris - Sois amargo demais para uma compatriota vossa.
Diômedes - Mais amarga é ela com a própria pátria. Escutai-me, Páris, cada gota impura que existe nas veias desta prostituta já custou a vida de um grego. Para cada partícula que pesa em sua carcaça contaminada foi morto um troiano. Desde que começou a falar, não pronunciou tantas palavras quantos gregos e troianos foram mortos por ela”.
Embora Diômedes fale desta forma sobre Helena, cujo rapto não justificava a guerra, Shakespeare a vê com muita simpatia. “Ela é a Vênus imortal, sangue do coração da beleza, alma invisível do amor” - diz um dos personagens da obra. Por aí se vê que Shakespeare não era guiado pelos preconceitos de sua época, ou melhor, da ética feudal. O autor não procura esconder as suas simpatias por Helena e Créssida. A volubilidade de Créssida não lhe causa nenhum rancor. Acha natural que ela deixe Tróilo por Diômedes, seguindo os seus próprios impulsos. Não há na obra nenhuma tendência moralizante. Apenas revela certo ceticismo pela fidelidade feminina. Talvez pretendesse mostrar a insanidade de uma guerra por causa das mulheres. No fundo de todas as mulheres, há uma Helena e uma Créssida, mesmo que não se revelem o que existe em seu inconsciente.
“Tróilo e Créssida” é um libelo esmagador contra a guerra e o heroísmo militar. E como os guerreiros são reis ou pertencem à nobreza, o seu libelo estende-se à classe dominante de seu tempo.
Não há nenhuma diferença entre os guerreiros da época de Homero dos guerreiros da época de Shakespeare. Em sua maioria, são estúpidos, cruéis e desprezíveis. “Preferia ser um carrapato de camelo a ser um valente cão ignorante” - dizia Térsite, referindo-se a Aquiles.
“Tróilo e Créssida” é uma das obras mais atuais de Shakespeare. Nela encontra-se o problema da guerra, da corrupção, da psicologia dos chefes militares, da revolta que tudo isto produz.
O heroísmo de Aquiles desfaz-se num ato de covardia. E à covardia se junta a crueldade. O autor apresenta as peças do processo para que o espectador pronuncie o seu julgamento. Em “Tróilo e Créssida”, com extraordinária vivacidade, Shakespeare condena a guerra de agressão numa hora em que a Inglaterra se tornava a maior potência militar de seu tempo.
O fato de um personagem de “Tróilo e Créssida” citar Aristóteles, que viveu alguns séculos depois da guerra de Tróia, mostra que Shakespeare não estava interessado pela cronologia da história grega. Usava temas e personagens do mundo antigo para burlar a censura teatral. E o fazia com extraordinária habilidade. Encarnava nos governantes do passado os governantes de seu tempo. E podia, desta forma, pronunciar-se contra a guerra, o absolutismo monárquico, as desigualdades sociais, a moral e a religião, de maneira indireta mas com o êxito desejado.
A história era um escudo. O presente transformava-se no passado para ser o próprio presente. O passado revivia o presente por artifício do poeta. Assim Shakespeare poderia condenar a violência, a tirania, o militarismo, tomando como pretexto a guerra de Tróia - tema de “Tróilo e Créssida” - uma de suas obras mais importantes, que oscila entre o drama e a comédia, constituindo, ao mesmo tempo, uma tragédia e uma sátira.
III - Shakespeare e César
Não se pode compreender Shakespeare sem compreender o mundo em que ele viveu. Sua obra é o produto da revolução material e espiritual que se processava em seu meio. Nela se reflete a decadência final da Idade Média, bem como o advento de uma nova época que vinha modificar a vida econômica e social com o desmoronamento do feudalismo. Há, na obra de Shakespeare, toda a potencialidade do Renascimento, toda a força selvagem e criadora de uma fase histórica que destrói para reconstruir, toda a violência de uma luta de vida e de morte que se manifesta nas formas mais variadas dos sentimentos e das paixões individuais. Shakespeare é o poeta de uma sociedade em transformação que abre novos horizontes e novas perspectivas não só para a Inglaterra como também para a humanidade. Grande parte de sua grandeza está no fato de ter sido a voz mais vigorosa da revolução de seu tempo.
Na segunda metade do século XVI, as tendências filosóficas que refletiam o progresso das ciências naturais tomavam a sua forma definitiva em contraposição à escolástica medieval. A Inglaterra se convertera num dos centros principais do desenvolvimento da indústria, do comércio, da ciência e da cultura. Preservava ainda as tradições dos pensadores avançados do período feudal, entre os quais se destacavam Roger Bacon, Duns Scoto e William de Occam, cujas doutrinas já encerravam os elementos de uma concepção materialista do mundo.
A economia inglesa adquiria progressivamente um caráter capitalista. Desenvolvia-se a produção manufatureira em substituição à indústria artesanal. O comércio se ampliava com enorme rapidez, sobretudo em conseqüência das rotas marítimas que ultrapassaram o Mar Mediterrâneo. A Inglaterra se tornaria a senhora dos mares com o desmantelamento, numa tempestade, da esquadra espanhola antes da batalha definitiva.
Os antigos senhores feudais se tinham destruído mutuamente durante a Guerra das Rosas. Seus sucessores, embora descendentes das mesmas famílias, pertenciam a uma linha inteiramente diversa. Como dizia Engels, “seus hábitos e suas tendências tinham mais de burgueses do que de senhores feudais”. Conheciam exatamente o valor do dinheiro, que corroia por dentro o feudalismo, e dedicaram-se ao aumento das rendas de sua terra. Ocupavam o primeiro plano da vida econômica enquanto a velha aristocracia feudal entrava em decadência.
Centenas de arrendatários eram expulsos de suas terras e substituídos pelos rebanhos de ovelhas em virtude da lã cujo preço havia aumentado como resultado do crescimento da indústria têxtil flamenga. Surgia uma grande massa de camponeses sem terras. A acumulação primitiva do capital arruinava camponeses e artesãos que se viam jogados na miséria. Daí as várias insurreições contra os opressores, algumas delas que atingiram grandes proporções, mas que foram duramente esmagadas pelo governo.
A burguesia, que não era ainda suficientemente forte para tomar o poder político, apoiava a monarquia absolutista dos Tudors. Tanto a nobreza dominante como a nova burguesia em ascensão, necessitavam de uma forte centralização do poder. Poderiam, assim, combater o perigo social. Henrique VIII criou uma série de novos land-lords burgueses, que foram literalmente aquinhoados com os bens confiscados pela Igreja. Os confiscos, aliás, das grandes propriedades territoriais continuaram até o fim do século XVII. A nova nobreza, por motivos econômicos e políticos, se mostrava disposta a colaborar com os altos representantes da burguesia industrial e financeira. Proporcionava a mão-de-obra necessária à produção manufatureira e procurava desenvolver a agricultura em consonância com a indústria e o comércio. Em lugar de combater a indústria, procurava usufruir de seu desenvolvimento o maior proveito material.
O progresso da produção e da técnica exigia um rápido progresso da ciência. Apesar da intransigência da Igreja, das superstições, do obscurantismo em ação, verificaram-se várias descobertas científicas que revolucionavam o panorama cultural. A filosofia, as ciências e as letras atingiram o mais alto nível na Inglaterra. Basta citar Shakespeare e Bacon.
Sem a Reforma, Shakespeare, católico ou protestante, bem como Marlowe e Ben Johnson não teriam produzido as obras que deixaram. A rebelião contra a escolástica, contra o dogmatismo, irrompera em toda a Europa, mesmo nos países em que a Santa Inquisição atuava com extrema severidade. Já não era possível sufocar inteiramente o pensamento por meio da violência. A proscrição, o cárcere, a fogueira, por maior que fosse o número de vítimas, foram perdendo a eficiência diante da avalanche do inconformismo e da rebeldia. O debate em torno da fé, bem como dos problemas de consciência, quebraram as barreiras que, por vários séculos, eram julgadas intransponíveis. Shakespeare pode escrever o que escreveu, embora muitas vezes se visse obrigado a disfarçar o seu pensamento ou expressá-lo de maneira indireta, usando, para isto, os temas históricos.
Não passa de mero artifício querer apresentar Shakespeare como um poeta da Corte, um partidário da rainha Elizabeth. Esta tese não se apóia em nenhum documento histórico. Não há outra razão senão a de unir o nome de um grande poeta ao nome de uma grande rainha. Tentativa semelhante se fez em Portugal quando tornaram a Infanta D. Maria a musa de Camões. A amada de Camões não podia ser uma simples dama da Corte e sim uma princesa. Mas este ponto de vista, como o que ligava Shakespeare à corte da rainha Elizabeth, tem apenas o seu fundamento nos sentimentos patrióticos mas jamais na realidade histórica.
Tanto pela obra de Shakespeare como também por alguns fatos que conhecemos de sua vida, podemos acreditar que ele não tinha nenhum apreço pela rainha e que o teatro vivia em conflito com as autoridades reais. A proibição de tratar-se no teatro de matérias de religião e de Estado foi reiterada a 12 de novembro de 1589. As obras teatrais eram censuradas e proibidas de serem publicadas. Shakespeare, embora nada sofresse pessoalmente, não desconhecia, decerto, o complô do conde de Essex e do conde de Southhampton que pretendiam derrubar o governo de Burghley e apoderar-se da rainha. Os dois eram amigos e protetores de Shakespeare. Na véspera do levante, 7 de fevereiro de 1601, os conspiradores, por intermédio de Agustin Philips, contrataram os atores da companhia de Shakespeare para representarem o “Ricardo II”, peça que julgavam subversiva, capaz de contribuir para criar, no povo, uma atmosfera favorável ao golpe em preparação. Os artistas foram presos com o fracasso do movimento, mas soltos em seguida, porque ficou provado que representaram a peça sem saber as razões pelas quais o faziam. A prisão de Essex e de Southhampton deveria ter consternado Shakespeare. E mais ainda a execução de Essex. Estes acontecimentos contribuíram, decerto, para tornar impossível o apoio de Shakespeare à rainha Elizabeth.
Provavelmente, a prevenção do poeta contra a rainha advinha desde a execução de Maria Stuart. Isto é o que se depreende de várias passagens de sua obra. O rei João, ao ter conhecimento da morte do príncipe Artur, que mandara assassinar, exclama penosamente: “Arrependo-me. Não há fundamento sólido construído sobre o sangue, nem vida assegurada obtida pela morte de outros”.
Frases semelhantes, com o mesmo sentido, encontramos em outras obras de Shakespeare. Embora apresentando a violência em seus aspectos mais brutais, ele sempre a combateu e procurou mostrar a sua inutilidade. Muitos dos críticos de Shakespeare falam no ceticismo. Um ceticismo tão grande quanto a sua capacidade criadora. Isto tem dado motivo às mais ardentes controvérsias. Acreditamos, porém, que o ceticismo de Shakespeare não é em relação à humanidade e sim em relação ao mundo feudal e à nova sociedade que se formava sob o poder do dinheiro. Ele apreciava o ser humano com todas suas reservas de sentimentos e de paixões, com todas as suas possibilidades de agir. O que mais o interessava era a intensidade interior que poderia levar, conforme as circunstâncias, ao bem ou ao mal.
O importante em Shakespeare é que o inimigo da violência, da intolerância, da brutalidade, o homem que dizia, numa época de perseguições, que “herege não será o queimado, mas quem o manda queimar”, e que nunca justificou o sangue derramado pela ambição do poder ou do dinheiro, tem uma atitude inteiramente diversa quando trata de César e de Brutus.
“Júlio César”, para alguns autores, é de 1601 ou 1602. A data vulgarmente aceita é de 1607. Esta obra, porém, deve ter sido escrita ainda em vida da rainha Elizabeth, assim como Macbeth. Neste último drama ele alude à esterilidade de lady Macbeth e à inutilidade de seus crimes, pois o trono terminaria por cair no descendente de sua vítima, como foi o caso da rainha Elizabeth, sucedida por Jacques I. Admitindo a hipótese da obra ser posterior à morte da rainha, isto mostra o rancor que Shakespeare nutria contra ela.
Uma coisa é certa: no assassinato de César, Shakespeare defendeu o ato de Brutus, por quem nutria uma grande admiração. No ato de Brutus, ele via a defesa da República, da liberdade e o extermínio de um ditador. O drama termina com as seguintes frases de Marco Antônio: “Este era o mais nobre de todos os romanos... Ao unir-se aos conspiradores foi guiado por um honrado pensamento patriótico e em interesse do bem público! Sua vida foi pura e os elementos que a constituíram se combinaram de tal forma que a natureza se erguendo poderia dizer ao mundo inteiro: este era um homem”.
Shakespeare não poderia ter escrito o que escreveu com personagens de seu tempo. Daí o fato de ter recorrido às figuras históricas do mundo antigo. Em “Júlio César”, ele defende o regicídio com toda a grandeza e todo o esplendor de seu gênio.
Shakespeare era o oposto de César. César, para ele, simbolizava a opressão, a negação da liberdade. Durante muitos séculos, foi o tipo idealizado de todos os déspotas da Europa. Seus triunfos e suas glórias seriam para justificar as guerras e a opressão exercida sobre o povo. Shakespeare revoltou-se contra este modo de ver e de apresentar os fatos históricos. Daí o fato de ter engrandecido Brutus que apunhalou Júlio César. Era um ato de desespero porque o cesarismo estava vitorioso. Mas era o suficiente para salvar a dignidade intrínseca da consciência histórica do homem livre.
Em sua oposição a Júlio César, representa Shakespeare a humanidade na luta, como diria Hegel, pela autoconsciência e sua auto-emancipação.
Quatrocentos anos depois de Shakespeare, nós que vivemos também numa época de transição, verificamos que o mundo mais do que nunca necessita de liberdade. Da liberdade que Shakespeare tanto amou e tanto procurou defender.
IV - Shakespeare e a Rainha Elizabeth
Ninguém mais do que Shakespeare representa o espírito revolucionário do Renascimento. Sua obra é um protesto contra o absolutismo monárquico, os privilégios da nobreza e do clero, os preconceitos religiosos e morais, a intolerância ideológica, social e política. É, por essência, antifeudal e contra o feudalismo.
Uma das causas fundamentais da sobrevivência de Shakespeare está na independência que sempre manteve no campo das idéias. Jamais se comprometeu com o pensamento das classes dominantes. Jamais acreditou na imutabilidade das coisas. Sua tolerante compreensão para com as paixões e as fraquezas humanas, que conduzem ao erro e ao crime, é por julgá-las um produto das próprias contradições psicológicas e sociais de sua época.
Shakespeare não se julgava moralmente ligado aos acontecimentos que descrevia. Não criava um mundo ideal como desejava que fosse. Procurava reproduzir o mundo em que vivia e atuava. E foi o senso de realidade, o exame preciso dos impulsos e dos sentimentos humanos com tudo que neles existe de antagônico, de bom e de mal, que pôde realizar uma obra tão profunda que representa o resumo da humanidade.
Quando Shakespeare se comportava como juiz, de acordo com sua tolerância habitual, era para perdoar e absolver, a não ser quando se tratava da crueldade e da violência. A liberdade do homem ser como é, fiel a si próprio, sem constrangimento, sem opressão, ele a sustentou com inabalável segurança.
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A Memória que me contam - 2013
Entrou em cartaz o novo filme da diretora brasileira, Lúcia Murat, o drama "A Memória que me contam".
A ex-guerrilhera Ana (Simone Spoladore), ícone do movimento de esquerda, é o último elo entre um grupo de amigos que resistiu à ditadura militar no Brasil. Com a iminente morte da amiga, eles se reencontram na sala de espera de um hospital. Entre eles está Irene (Irene Ravache), uma diretora de cinema que sente-se perdida diante da iminente morte da amiga e que precisa ainda lidar com a inesperada prisão de Paolo (Franco Nero), seu marido, acusado de ter matado duas pessoas em um atentado terrorista ocorrido décadas atrás na Itália.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
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