Carlo Ginzburg ao publicar seu ensaio “Sinais, raízes de um paradigma indiciário” estava acrescentando e reafirmando o tipo de metodologia utilizado em seu livro "O queijo e os vermes", ou nasceria ali o que poderia ser chamado de História Indiciária?

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Minha pergunta se baseia na inquietação que nasceu após a leitura do ensaio “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” onde Carlo Ginzburg formula um saber indiciário com bases na observação minuciosa da psicanálise (Sigmund Freud), e do método que Morelli criou para identificar as pinturas falsas das originais. Este saber consiste na observação e na investigação dos detalhes, vestígios e rastros que geralmente são ignorados. Logo após ter lido “O queijo e os vermes” tive contato com outras obras do mesmo autor onde pude perceber que ele utilizava o mesmo método em temas totalmente diferentes do que ele fez em O queijo e os vermes.
Fiquei me perguntando se também seria micro-história a base metodológica destes trabalhos até ler o ensaio “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” em seu livro: “Mitos, emblemas, sinais”. Eis que surgiu uma luz no horizonte que pode clarear uma mente obnubilada pela inquietação. Esse ensaio respondeu uma pergunta e criou uma ainda maior: nasceria ali um método de pesquisa historiográfico que poderia ser chamado de História Indiciária? Ora, ao ler o livro “Visões da liberdade” do historiador Sidney Chalhoub vi claramente o mesmo método sendo utilizado. No prefácio Chalhoub faz referências ao “O queijo e os vermes”, mas deixa bem claro que bebeu nas fontes do ensaio “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”. Concluo que apesar de não existir, pelo o menos não fiquei sabendo, um método historiográfico chamado História Indiciária, ele vem sendo utilizado em pesquisas onde as fontes e documentos históricos criam lacunas e impossibilidades. Em seu livro “Encruzilhadas da liberdade” o historiador Walter Fraga lança mão de mesmo método de pesquisa para descrever a situação dos escravos após a abolição. Ginzburg conseguiu perceber que no oficio de historiador existe uma ligação tênue com o que é feito pelo detetive Sherlock Homes nos livros do escritor Arthur Conan Doyle, a investigação minuciosa das fontes, a incansável busca por detalhes que fazem emergir respostas onde as fontes muitas vezes se calam.
Edielson, o livro "O queijo e os vermes", do Ginzburg, tornou-se um marco da Nova História Cultural e da micro-história, pois mostrou como o historiador pode - e deve! - Captar nos minimos detalhes personagens e acontecimentos que outrora passariam despercebidos. E ao ler os livros do Carlo Ginzburg nos deparamos com essa clara idéia, de que é a analise minunciosa de cada detalhe que possibilita grandes descobertas.
Assim depois de apresentar sua brilhante obra O queijo os vermes, ele escreve este ensaio, mostrando que nos fatos mais despresados, muitas vezes negligenciados, é onde podemos encontrar respostas verdadeiramente abrangentes.
São os indicios que podem nos ajudar a decifrar um determinado fato. Ora, não foram sinais e indícios, de grande ajuda para os trabalhos de Freud, Morelli e Conan Doyle, como chama a atenção o próprio Ginzburg?
Porém, não acredito que com esse ensaio tenha nascido um novo paradigma na história, uma História indiciária. Mas que este veio reforçar e somar as contribuições e propostas apresentadas no livro sobre o Menochio, obra na qual ele desempenhou com maestria o papel de Sherlock Holmes.

Não, ele estava reafirmando o que ele fez em O queijo e os vermes.
O livro o queijo e os vermes data e 1976, mas o lançamento oficial da micro-história se dá em 1981, quando do lançamento da coleção chamada Microhistorie, ou seja, "micro-histórias", nos Quaderni Historici. Essa coleção lançou vários livros que são clássicos da metodologia da micro-história, mas antes disso já haviam outras obras, como O queijo e os vermes.
A coleção fez consolidar um movimento que se espalhava pela Itália, um pouco da Inglaterra e dos Estados Unidos.
Pra você entender melhor isso, vale a pena ler o texto "micro-história, duas ou três coisas que sei a respeito", no livro "O fio e os rastros", do Ginzburg
Já li rs, e olha, acredito que com o ensaio "sinais" ele começa a trilhar por caminhos pouco ortodoxos, sem linearidade, diria que além de afirmar o tipo de pesquisador que ele seria, também apontava para quais caminhos percorreria, infinitos.
Jaques Revel, um dos outros grandes estudiosos em micro-análise define a "História indiciárioa" como abordagem de pesquisa. Não é uma Escola Histórica, ou teorias historicas, ou método historiográfico. A micro-história é uma abordagem de pesquisa que utiliza da intensiva análise das fontes como substrato da sua análise social do passado.

"O carater extremamente empírico da abordagem explica que mal existia um texto fundador, um mapa teórico da micro-história. É que ela não constitui um corpo de proposições unificadas, nem uma escola, menos ainda uma disciplina autônoma, como muitas vezes se quis crer. Ela é inseparavel de uma prática de historiadores, dos obstáculos e das incertezas enfrentada ao longo de caminhos aliás muito diversos, em suma, de uma experiência de pesquisa." (Jaques Revel, "Jogos de Escalas", p. 16)
O "paradigma indiciário", é o modo que predomina na Micro-História de tratar as fontes, ou seja, o Historiador deve estar atento a tudo, sobretudo aos pequenos detalhes. O fragmento é o que se presta ao historiador para realizar a sua análise intensa das fontes... O Micro-Historiador trabalha muito com as contradições dos atores sociais a serem investigados, com os discursos subjetivos, falseados, dialógicos...Exemplo é quando um historiador investiga um inquérito policial, no qual, ver-se-à tentando a espiar por trás dos ombros do delegado, mas munido da consciência de que o próprio delegado é mais uma das vozes contraditórias que se juntam ao processo. Ou seja, a finalidade do método indiciário, não é descobrir o que se passou na história, mas sim descobrir as diferentes versões que se apresentam para cada caso, como um inquérito policial.
Quando temos contato com o livro "O Queijo e os Vermes", percebemos que Carlo Ginzburg mostra detalhes que passariam despercebidos na historiografia tradicional, ele utiliza-se de documentos do julgamento de um moleiro pela inquisição, na qual, o micro-historiador procura captar os mínimos detalhes dos personagens que compõem o livro, especialmente Menocchio, focalizando o indivíduo em sua trajetória individual, nos seus gestos cotidianos... Como Sherlock Holmes, que era capaz de descobrir o autor de um crime apenas com base em indícios imperceptíveis para a maioria, incluindo habilidades de interpretar pegadas na lama, as habilidades psicanalíticas de enxergar a alma humana através do corpo, ou seja o detetive inglês era capaz de identificar e de conectar indícios aparentemente isolados para elaborar deduções impressionantes.
Enfim, o Micro-historiador tem que ter um pouco de Sherlock Holmes, sendo capaz de interpretar os vestígios deixados pelos documentos históricos, além é claro de perceber as diferentes versões de um documento, as vozes, o historiador deve ler o indícios a apartirr do qual, busca-se a construir uma realidade historiográfica ou interpretá-la, isto que Ginzburg chama de "Paradigma indiciário".

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