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Inquisição em Portugal e seu Império

Informação

Inquisição em Portugal e seu Império

A ideia mestra do grupo é discutir a atuação da Inquisição em Portugal e seu império, assim como promover uma reflexão sobre o uso da documentação inquisitorial e sua historiografia

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apresentação

 

A

 Inquisição foi criada, na Idade Média, no afã do combate aos pensamentos e crenças dissonantes da regra da Igreja de Roma — as assim chamadas heresias. Atuando sobretudo na conjuntura do combate ao catarismo, difundida no sul da França, na segunda metade do século XII acabou por buscar uniformizar a fé na região, unificando-a com a crença ortodoxa parisiense e, ao mesmo tempo, dando unificação religiosa à França. Em 1179, o III concílio de Latrão facultara o recurso ao braço secular no combate aos hereges e em 1184, três anos após ter sido convocada a primeira cruzada contra os cátaros, a bula Ad Abolendam de Lúcio III regulamentava esta ação do braço secular, plenamente efetivada com a organização de um tribunal em Toulouse, sob o controle de Gregório IX (1231), logo após a Paz de Paris (1229), que marcou a derrota do catarismo na França. Baseada no comissionamento, por parte do Papa, de bispos e eclesiásticos como inquisidores, a Inquisição consistia, no fundo, em um tribunal híbrido, na medida em que misturava elementos da praxis judiciária episcopal com elementos da justiça comum. O Tribunal possuía como pontos que lhe caracterizavam a ação, a utilização do mais absoluto sigilo no desenrolar do processo, bem como a utilização da tortura como instrumento válido para obtenção de confissões, além do confisco dos bens dos condenados — características que serão posteriormente herdadas pela Inquisição moderna.

 

 Uma vez dizimada a heresia, através da eliminação física dos cátaros, a Inquisição medieval foi perdendo sua principal razão de existir, e sua atuação feneceu gradualmente, sem, contudo, ter sido extinta formalmente. Por falta de seu alvo principal, os trabalhos desta Inquisição foram aos poucos se restringindo às causas de faltas espirituais e morais pertinentes à justiça eclesiástica e também da alçada jurisdicional civil, tais como o adultério e a sodomia, até que foram se tornando mais e mais esporádicos, e deste modo cessaram, paulatinamente, sem que houvesse argumentação política ou jurídica para este fim.

 

Não existem notícias sobre qualquer difusão do catarismo em Portugal, e outras diversas heresias medievais lá não tiveram grande acolhida. Não existem, tampouco, dados sobre a atuação, em terras portuguesas, de um tribunal estruturado, como o que existiu na França, durante a Idade Média. Maria José Pimenta Ferro Tavares aponta que a repressão às heresias e blasfêmias era feita pelo juízo episcopal, constando a punição com a morte e o confisco de bens, conforme determinavam as ordenações de D. Afonso, as de D. Dinis e de D. João I[1]. Não havia, portanto, referência alguma a um tribunal inquisitorial plenamente montado e atuante no reino português. A inquirição das heresias consistia em tarefa desempenhada por poucos religiosos inquisidores, para isso autorizados pelo poder episcopal e pela Coroa, atuando de maneira combinada e não raras vezes subordinada à justiça episcopal, que através das visitas pastorais, recolhia culpas passíveis de punição pela Inquisição — tais quais blasfêmia, feitiçaria, apostasia, sodomia e bigamia, além de proposições heréticas —, posteriormente repassadas às instâncias julgadoras.

Devido à proximidade geográfica com os maiores focos de difusão do catarismo, inquisidores castelhanos tiveram alguma atuação na repressão a esta heresia. Comissionados pelo Papa, encontraram em solo castelhano marcas mais notáveis da heresia. Outra evidência da repressão castelhana ao catarismo está no fato de que tropas castelhanas ajuntaram-se a tropas francesas na cruzada que, convocada em 1209, tentou extinguir fisicamente o catarismo no sul da França a fio de espada, particularmente na batalha de Muret, em 1213.

 

A Inquisição, enquanto corpo funcional organizado e estruturado, irá ressurgir desta vez em Castela, em 1478. Mudados os tempos, novos também eram os motivos para a implantação desta Inquisição. Neste momento, os alvos principais do renovado Tribunal eram as práticas religiosas das minorias étnicas convertidas ao cristianismo, mormente os judeus, o que, segundo Henry Kamen, refletia de forma pungente a situação de desigualdade proporcionada pelos movimentos de reconquista na Península[2]. Pejorativamente chamados de marranos, o comportamento herético dos judeus cristãos-novos consistia na prática, às ocultas, de sua religião ancestral. Além dos cristãos-novos, também sofreram perseguições os mouriscos[3].

A subordinação do Tribunal às atitudes e vontades da monarquia centralizadora se torna patente, na medida em que, por ocasião do estabelecimento da Inquisição em Castela, cabia ao monarca a nomeação de um Inquisidor Geral, estando sua confirmação a cargo do Papa. Posteriormente, foram criados tribunais distritais, subordinados à sede, em Toledo. Esta Inquisição já nasceu submetida à Coroa e seus interesses, agindo em prol das vontades da monarquia, visto que ao rei cabia a nomeação, para posterior confirmação Papal, dos Inquisidores Gerais — os quais, por sua vez, nomeariam os inquisidores distritais e os demais altos cargos do tribunal. Esta Inquisição agia a favor dos interesses monárquicos ao perseguir também elementos das elites locais que porventura se opusessem à unificação das Coroas de Castela e Aragão, ou mesmo às ordens emitidas pelas Coroas unificadas, o que de imediato já lhes valia o status político de inimigos da Coroa de Espanha, que eficazmente controlava o Tribunal[4]. Os resultados primários e iniciais desta Inquisição consistiram em maciço êxodo, para Portugal, de grande número dos elementos cristãos-novos da população de Espanha. A atuação inquisitorial teve, neste reino, uma virulência avassaladora, que acompanhou a estruturação do seu corpo jurídico, funcional e administrativo, o que veio a coadunar perfeitamente com as demandas da monarquia centralizadora. Assim como novos eram os tempos, novos também seriam os réus e os propósitos da Inquisição.

 

Em Portugal, a Inquisição foi implantada cinquenta anos depois de sua congênere castelhana, e ainda por motivos similares. A princípio beneficiando-se da prévia experiência castelhana, a Inquisição lusitana apresentava um certo padrão de dependência face à Coroa. O Inquisidor Geral também era escolhido pelo monarca, e tinha sua nomeação confirmada pelo Papa. Marcante indício desta dependência foi a nomeação, para o cargo de primeiro Inquisidor Geral do reino, de D. Diogo da Silva, franciscano bispo de Ceuta, primaz da África, membro do Conselho de Estado e confessor do monarca. D. Diogo deveria agir, em princípio, de forma colegiada com mais três Inquisidores — tendo este recusado o cargo em pouco tempo, para depois reassumi-lo. Em Portugal, a Inquisição possuía nuances diferentes de ação e dependência face à Coroa, mas se beneficiou da experiência no reino vizinho também no que tange à sua estruturação jurídica e regulamentar.

Em Portugal, o problema também estava vinculado à persona jurídica dos judeus convertidos, aos cristãos-novos. Antes de mergulharmos nesta temática, devemos ter em mente alguns pontos a respeito da figura do judeu no imaginário cristão ocidental. O judeu era, na mentalidade coletiva, a alteridade negativa, demonizada e vista sob um prisma maléfico. Tais acusações e tal mentalidade foram sendo forjadas pelo pensamento eclesiástico, e acabaram sendo adotadas pela massa dos fiéis. O arquétipo do judeu foi aos poucos sendo construído, e as acusações que sobre ele pesavam eram as de deicídio, usura, exploração do dinheiro e trabalho dos fiéis cristãos, além de coisas mais tenebrosas como infanticídio. Mas a convivência dos judeus com os cristãos era permitida, na esperança de que tal convívio gerasse o bom exemplo e a conversão dos primeiros[5].


Em Portugal, a difícil convivência entre a maioria cristã e a minoria judaica se dava de um modo todo peculiar. Os judeus eram tolerados e aceitos no seio da sociedade, sendo que em alguns aspectos eram mesmo protegidos pela Coroa. Basta lembrarmos que D. Dinis chegou a ser admoestado pela Sé de Roma, no século XIV, porque não obrigava os judeus do reino a usar a estrela distintiva amarela pregada na roupa, conforme ordenara o Quarto concílio de Latrão, de 1215. A política da monarquia, então, era manter os dois setores da população apartados, sendo ordenado o recolhimento dos hebreus a bairros próprios e a proibição de casamentos inter-étnicos. Diferentemente de Castela, não existiram perseguições sistemáticas aos judeus em Portugal e o isolamento nas alfamas, até o século XV, garantia a relativa integridade da comunidade judaica[1]. Contudo, o germe do preconceito já se encontrava arraigado na sociedade medieval lusitana, mas a violência exacerbada viria a ocorrer mais tarde. Assim, a afirmação do arquétipo judaico demonizado ocorreu tardiamente em Portugal por motivos outros, tais como rivalidades econômicas e de poder, uma vez que os judeus possuíam o monopólio das operações financeiras do Reino, bem como da cobrança e manipulação das rendas do Estado, tornando-se então financistas indispensáveis à Coroa[2].

Em 1492, a expulsão dos judeus de Castela gerou um fator de desequilíbrio na questão judaica em Portugal. Os endinheirados judeus castelhanos foram recebidos abertamente no reino luso durante o reinado de D. Manuel, trazendo consigo seus cabedais e riquezas, sem contar o fato de que muitos destes judeus eram mão-de-obra bastante especializada e segmentada, tais como armeiros, latoeiros, médicos e matemáticos.

Todavia, ocorreram pressões castelhanas para a expulsão destes judeus, bem como para a instalação da Inquisição em Portugal, vinculadas às negociações e arranjos para o casamento do rei D. Manuel com Isabela, a filha dos Reis Católicos. Estes últimos insistiram na instalação da Inquisição em Portugal como condição sine qua non para a efetivação do enlace que, no futuro, garantiria a D. Manuel o controle das duas Coroas. A política judaica de D. Manuel, que até então vinha fazendo ouvidos de mercador às ingerências castelhanas, começa a tomar um novo rumo.

A convivência aparentemente pacífica perdurará até o final do século XV quando D. Manuel passa a ceder paulatinamente — e sem muita convicção, a princípio — às pressões da Coroa Castelhana, atendendo por outro lado, aos apelos da burguesia e dos setores artesanais cristãos-velhos, e também acompanhando uma vaga anti-judaica que grassava na Península Ibérica. A Coroa portuguesa, então, endurece sua posição face ao elemento judaico até decretar, em 1496, a expulsão de todos os judeus e muçulmanos do reino. As atitudes de intransigência da Coroa chegaram ao ponto de, em 1497, ordenar a retirada dos filhos menores de 14 anos de todas as famílias judaicas, sendo entregues a famílias cristãs para receberem educação dentro da ortodoxia da Igreja. Ainda neste mesmo ano, ocorre o batismo forçado da minoria judaica portuguesa, nascendo a figura do cristão-novo.

A conversão forçada não significou, contudo, a pacificação imediata do reino. Ainda durante o reinado de D. Manuel, e posteriormente no reinado de D. João III, que herdou, além da situação política do reino, todos os conflitos inerentes à questão judaica, as insistências a respeito da implantação de um tribunal inquisitorial no reino continuaram e se tornaram mais constantes, principalmente por parte de elementos do clero português e da Coroa castelhana. No campo do bem-estar social, as coisas iam aos poucos se deteriorando. Motins e pogroms contra os judeus e cristãos-novos, foram se intensificando e tornaram-se mais freqüentes no reinado de D. João III. A Coroa achava-se numa situação delicada, ao se ver pressionada pelas insistências da monarquia castelhana e do próprio clero português, pedindo pois a instalação de um tribunal da Inquisição em Portugal. Por outro lado, nas ruas das cidades do reino, os conflitos constituíam evidente espelho do descontentamento popular, insuflado por uma incipiente literatura anti-conversa e antijudaica que se tornava cada vez mais acirrada, sendo divulgada através dos sermões, constantemente pregados nas igrejas, durante as missas[3]. O baixo clero, principalmente, fazia importante papel divulgador da mentalidade antijudaica em Portugal, na medida em que ia açulando a população contra os judeus, levantando contra eles diversas acusações, muitas delas fruto da mentalidade antijudaica européia em geral. Os judeus eram vistos, grosso modo, como assassinos em potencial e malfeitores qualificados e contumazes, causadores de toda sorte de desordem social. Tais interpretações eram movidas pelo preconceito, o que gerava graves distorções a respeito da prática religiosa judaica. Esse desconhecimento seria substituído por uma exatidão maior a respeito destes aspectos religiosos na medida em que a repressão inquisitorial passou a atingir os cristãos-novos praticantes de sua religião ancestral, sem que os preconceitos, no entanto, desaparecessem.

Formando endinheirado setor da sociedade, era do interesse da Coroa a permanência dos cristãos-novos no Reino. Além de possuidores de vultosas fortunas, os cristãos-novos também eram profissionais absolutamente qualificados e, neste sentido, necessários à vida na corte, onde, conforme se apontou, exerciam funções de médicos, astrônomos e financistas. Por outro lado, os cristãos-novos eram o alvo dos defensores da implantação do Santo ofício em Portugal, sobretudo dos membros do baixo clero que viviam a espicaçar o povo contra eles, através de sermões e pregações constantes, que ateavam ainda mais a fogueira no sentido da implantação do Santo ofício em Portugal.

Possuidora de cabedais culturais e financeiros que estava no centro de pesado jogo de interesses entre a Coroa e os partidários da implantação da Inquisição — dentre os quais destacavam-se, conforme mencionamos, a burguesia e a classe artesanal cristã-velha—, a incipiente burguesia conversa foi um dos primeiros alvos para o qual o Tribunal direcionou seu poder de fogo. Por outro lado, desde a Baixa Idade Média, a já mencionada mentalidade antijudaica em Portugal manifestava-se de formas mais veementes nos momentos de crise, tomando forma de perseguições e pogroms. Esta mentalidade antijudaica e todo este affaire podem, por sua vez, ser inseridos numa perspectiva mais ampla, que permite que sejam enxergados como um reflexo, ainda que tardio, do processo de desestabilização étnico-religioso causado pelo desequilíbrio da retomada de terras aos mouros, na Península Ibérica durante a Baixa Idade Média[4]. Deste modo, uma questão já antiga — a da convivência pacífica entre judeus e cristãos na Península Ibérica — vai se modificando através de episódios que servem de indicadores para um aumento do anti-judaísmo luso, principalmente, levando a atos de violência que chegariam a um crescendo gerador de uma situação-limite.

 

As discussões a respeito do estabelecimento do Santo ofício em Portugal se prolongaram através de sucessivas representações e embaixadas ao Papa feitas pelos envolvidos na questão. Esta demandava uma Inquisição régia, estabelecida nos moldes da castelhana, na qual o rei teria o poder de nomear o Inquisidor, cabendo ao Papa a sua confirmação. Tal querela a respeito do estabelecimento da Inquisição em Portugal encontrava-se dividida entre quatro diferentes protagonistas: por um lado, eram os cristãos-novos e seus representantes em Roma, buscando bulas e editos de perdão e tolerância, que lhes garantissem a segurança face ao Tribunal que se encontrava em gestação. De outro, a Coroa castelhana, incansável em insistir, junto à monarquia portuguesa, na necessidade da expulsão dos cristãos-novos e da instalação, em Portugal, de um tribunal inquisitorial nos moldes do já existente em Castela. Em uma outra esfera do debate, encontrava-se a Sé de Roma, dividida entre os clamores e pedidos dos cristãos-novos e as sempre reiteradas demandas da Coroa portuguesa. Por fim, a Coroa lusitana que vinha, desde os tempos de D. Manuel, agindo dubiamente, fazendo ouvidos moucos às insistentes reivindicações da Coroa castelhana, oferecendo uma política de tolerância, o que mantinha ainda os ricos e profissionalmente qualificados cristãos-novos em Portugal.

A Coroa apresentava uma política antijudaica de fachada, com editos de expulsão acompanhados de indultos de perdão, ou mesmo adiando sua aplicação. A situação judaica mudou efetivamente no momento em que D. Manuel, visando ao casamento com a infanta Isabel, herdeira dos Reis Católicos, cedeu às pressões, ordenando a conversão em 1496, e iniciando uma progressiva campanha antijudaica. A partir da conversão forçada, segundo Antonio José Saraiva, deixava de existir em Portugal a figura legal do judeu, para surgir em seu lugar a figura do cristão-novo, a do judeu converso ao cristianismo.

 Durante o reinado de D. João III, as negociações entre a Coroa e Roma tiveram grande impulso porque a inequívoca mentalidade antijudaica em Portugal era cada vez mais fomentada pelas camadas menos prósperas da população e por elementos do baixo clero, o que levou os representantes do monarca a pedir em Roma, cada vez mais veementemente, uma Inquisição nos moldes da castelhana.

. A legislação segregadora antijudaica, por sua vez, levava este grupo a um isolamento mais intenso, com relação à sociedade portuguesa, o que aumentava ainda mais a já existente má vontade contra os judeus[5]. A escalada da animosidade por parte da Coroa e clero contra os judeus cresceu graças a alguns fatos pontuais, cuja importância não pode ser negada, como por exemplo o assassinato de Henrique Nunes, cristão novo conhecido como o “Firme Fé”. Nunes, devido à sua ascendência semítica, agia como um espião de D. João III, infiltrado no seio da comunidade cristã-nova. Assassinado em 1524 por cristãos-novos, sua morte aumentou a animosidade da Coroa contra os cristãos-novos.

Um outro fator, foi a chegada de David Rubeni a Portugal, em 1525. O judeu Rubeni, ao pregar e prever a próxima vinda do Messias — o qual exterminaria os cristãos e instalaria seu reino em Portugal —, colecionava antipatias do povo e especialmente do baixo clero. Este último pedia com mais veemência a instalação de um tribunal da Inquisição a fim de extirpar este tipo de heresia, quer por meio de uma ação direta junto aos elementos do alto clero, quer através da instigação da exaltação dos ânimos através da constante de pregação[6]. Por fim, uma das reivindicações mais recorrentes entre os cristãos dava-se justamente no sentido de apontar para o medo de que os cristãos-novos, devido às suas especializações profissionais a estarem imiscuídos na sociedade portuguesa, vinham retirando empregos e, conseqüentemente, renda, à fração de súditos que já havia nascido no grêmio da Igreja.

 

A análise das intrincadas lianas que existiam no período imediatamente anterior ao estabelecimento da Inquisição em Portugal, nos leva à conclusão de que o reino vivia um período conturbado, onde uma minoria convertida era perseguida pela esmagadora maioria cristã-velha, num processo diferente do que acontecia em Espanha, onde tal animosidade face aos judeus e mouriscos estava ligado, indissociavelmente, à desestabilização tática propiciada pelo processo de retomada das terras aos mouros. Motivada por disputas econômicas e políticas e devidamente instigada pelo baixo clero, a maioria cristã promovia, esporadicamente, diversas ondas de ataques contra os cristãos-novos, quebrando a relativa paz e estabilidade em várias cidades do reino. Cabia, então, à Monarquia centralizadora a manutenção da ordem e a imposição de seu poder. Uma saída para tal impasse foi a implantação do tribunal da Inquisição no reino.

 

 

Clemente VII, em 1531, expediu a bula Cum ad Nihil Magis, na qual finalmente cedia aos rogos da Coroa portuguesa. Esta bula que estabelecia a Inquisição em Portugal, atendia ainda aos interesses do poder episcopal, pois, segundo a bula, ao recém-estabelecido Tribunal eram impostas diversas limitações. Esta Inquisição, a princípio, seria regida colegiadamente por três bispos Inquisidores nomeados pelo Papa, que deveriam agir coordenadamente com a justiça eclesiástica, que entregaria ao Tribunal os réus de heresia. A estes três Inquisidores, o monarca, num forte indício da interferência direta da Coroa portuguesa no processo de implantação do Tribunal, acabou por acrescentar um quarto — D. Diogo da Silva —, que recebeu o cargo de Inquisidor Geral, obtendo supremacia e mando sobre os três colegas. Tal cooperação forçada, por outro lado, limitava também os poderes do Inquisidor Geral que, por sua vez, se via limitado pelos poderes da Santa Sé, não lhe cabendo, por exemplo, nem a imposição, nem a anulação de excomunhões — outra reivindicação antiga da Coroa. Ao agir desta forma, a Sé de Roma garantia, para si e seus legados, um poder que teimava em preservar, tendo em vista os avanços da monarquia centralizada no sentido de um maior controle da própria administração funcional da Igreja. O Inquisidor Geral nomeado por Clemente VII em 1531, o franciscano Diogo da Silva — que além de Bispo de Ceuta, primaz da África e membro do Conselho de Estado, era também confessor do monarca demitiu-se do cargo, descontente com as limitações impostas, o que deu novo fôlego às insistências da Coroa junto ao Papa, no sentido de obter uma Inquisição régia, nos moldes castelhanos.

 

Para o início efetivo das atividades do Tribunal em Portugal, foi necessária a expedição de uma nova bula, também iniciada por Cum Ad Nihil Magis, datada de 1536. Agora o Santo ofício estava pronto para desempenhar suas atividades de patrulhamento do respeito à ortodoxia, legislando sobre os pecados e delitos dos cristãos-novos e também dos cristãos que já haviam nascido no grêmio da Igreja, aspecto este que se mostrará com maior intensidade após a Reforma Católica, particularmente após o Concílio de Trento (1545-1563). A Inquisição também atuava como aparelho de censura, uma vez que tinha poder de confiscar e apreender livros cuja leitura fosse proibida, ou que constassem das diversas arrolações de obras do Index por conterem conhecimentos e tratarem de assuntos que fossem ofensivos para com a ortodoxia. Os livros vetados à população eram procurados nos portos de chegada a Portugal pelos Visitadores das naus e, quando encontrados, retirados para o secreto inquisitorial, onde eram examinados por uma equipe de qualificadores e, em se confirmando a censura, ficavam apreendidos, saindo apenas para serem queimados nos autos-de-fé.

Em Portugal e império, a atuação inquisitorial conheceu diversas nuances, dependendo da contextualização política e cultural de cada época produzindo, graças ao seu funcionamento e processos, um oceano documental que, após a extinção do tribunal em 1821, enfrentou um processo de transporte e catalogação até ficar permanentemente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. É a partir daí que nossa discussão começa



[1] António José Saraiva, Inquisição e Cristãos-novos, Lisboa, Estampa, 1985, pág. 27.

[2] Idem, pág. 28. Ver também Tavares, op. Cit., pág. 69.

[3] Devemos, aqui, lembrar que uma literatura anti-judaica mais acirrada, consistente e sistematizada foi tomando forma nos sermões da fé, pregados antes de cada auto-de-fé, onde eram enumeradas as culpas e os males crescentes e constantes do judaísmo, sob o prisma inquisitorial.

[4] Sobre este assunto, novamente remeto o leitor à obra de Henry Kamen, capítulos 1 e 2.

[5] Cf. Antonio José Saraiva, Inquisição e Cristãos-novos, Lisboa, Estampa, 1985, especialmente os capítulos 1 e 2.

[6] A problemática antijudaica em Portugal é estudada por Maria José Pimenta Ferro Tavares, em Inquisição: Antecedentes e Estabelecimento, in op. cit., pp. 105-146.


[1] A respeito desta primeva atuação com fins inquisitoriais em Portugal, ver Maria José Pimenta Ferro Tavares, Judaísmo e Inquisição, Lisboa, Presença, 1987, pag. 107.

[2] Henry Kamen, La Inquisición Española, trad. Esp., Barcelona, 1999, pp. 23-25.

[3] Para uma discussão sobre as razões do estabelecimento da Inquisição castelhana, ver Benzion Netanyahu, Motivos o Pretextos? La razón de la Inquisición in Ángel Alcalá (org.), Inquisición Española y Mentalidad Inquisitorial, Barcelona, Ariel, 1984, pp.23-43.

[4] Perry Anderson, Linhagens do Estado Absolutista, trad. Port., Porto, Afrontamento, 1982, pag. 253.

[5] Tavares, op. Cit., pág.69. Estudos sobre processos de criação de arquétipos sobre os infiéis também podem ser encontrados nos estudos de Carlo Gizburg, História Noturna, Tradução Portuguesa, Companhia das Letras, 1995, e Jean Delumeau, História do Medo no Ocidente, Tradução Portuguesa, Companhia das Letras, 1989. Finalmente, ver ainda Jeffrey Richards, Sexo, Desvio e Danação, trad. Port., Rio de Janeiro, Zahar, 1993.

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Tags: arquivos, historiografia, tombo, do, portugal

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Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:27

Processo do Santo Ofício de Manoel Paredes da Costa, meu 12º avô.

http://castrokk.blogspot.com.br/p/processos-do-santo-oficio-inquisi...

Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:24

Processo do Santo Ofício de Maria do Couto, minha 9ª avó

http://castrokk.blogspot.com.br/p/blog-page_15.html

Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:20

Diligências de habilitação para o cargo de familiar do Santo Ofício de Manuel do Vale Amado, casado com Maria Cordula de Oliveira Abreu e Melo (minha ascendente colateral)

http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=2340658

Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:19

Habilitações a cargos de familiares e outros:

http://genealogiafb.blogspot.com.br/2016/10/habilitacoes-cargos-do-...

Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:19

Habilitações a cargos de familiares e outros:

http://genealogiafb.blogspot.com.br/2016/10/habilitacoes-cargos-do-...

Comentário de Antonio Carlos de Castro em 22 janeiro 2017 às 17:15

Jacob Barú, meu ascendente, cristão novo é citado em http://arlindo-correia.com/101013.html

Comentário de pedro campos em 4 dezembro 2015 às 14:49

Depende do caso, Adriana. É mais que famoso que, na Idade Média, o processo contra os templários foi forjado exatamente para arranjar caixa, numa aliança entre Felipe, o Belo, rei de França, e o Vaticano. Não que, a posteriori, a Inquisição vivesse à procura de pessoas abonadas para processar, mas nesse ponto ela era "democrática": tanto ricos quanto pobres eram processados e, mal iniciava o processo e eles ingressavam no cárcere do tribunal, seus bens eram bloqueados para, em princípio, pagar as custas.

Comentário de pedro campos em 5 julho 2015 às 16:23

ainda com a paleografia, podemos ver a tipificação de confisco/bloqueio de bens já na hora da prisão, através dos mandatos expedidos pela Inquisição

http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=2299794

Comentário de pedro campos em 5 julho 2015 às 16:15

Adriana

A Inquisição, neste sentido, sempre teve uma posição ambígua, tripla; tanto interessava para aumento dos bens da Coroa, quanto os dela própria ou, ainda, a Roma - no caso da Inquisição papal contra os templários, o patrimônio da ordem foi dividido entre a coroa de França e o Vaticano. O que não impedia, também, que o erário da coroa se interessasse nas posses das pessoas mais abonadas. As fontes não mentem. A paleografia cansa, mas também não. As relações de bens confiscados estão aqui

http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=2299755

Comentário de Adriana de Andrade Silva em 5 julho 2015 às 15:22

Nossa, são muitas informações!  Gostei de conhecer um pouco dos percursos e nuances da Inquisição. Podemos ver claramente o fato de que a religião caminhava junto com a política. Na parte que fala da perda dos bens, seria possível um sujeito ser acusado de heresias pelo fato da Coroa estar interessada em seus bens?

 

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