Imaginação e Imaginário Social

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Espaço para debater as contribuições das noções de imaginação e de imaginário para a História. "Os estudos sobre o imaginário abriram uma janela para a recuperação das formas de ver, sentir e expressar o real dos tempos passados" (S. Pesavento)

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Última atividade: 20 Mar

Ficção e Realidade por Gustavo Bernardo

A distinção usual entre ficção e realidade é a de que o mundo da ficção contém muitas incertezas perigosas, enquanto o mundo da realidade contém as certezas de que precisamos para continuar vivendo. Entretanto, essa distinção talvez seja não apenas insuficiente, como inteiramente equivocada. Levanto a hipótese contrária à da distinção usual: o mundo da realidade é que conteria as incertezas mais perigosas, enquanto que o mundo da ficção conteria as certezas de que precisamos para sobreviver.

Para Umberto Eco, os textos ficcionais, à diferença do mundo e ainda quando ambíguos, explicitam uma margem muito clara de certeza, conduzindo-nos a um paradoxo interessante: a ficção desrealiza o real para criar um novo real mais seguro, portanto “mais real”, do que aquele que se encontrava no ponto de partida. Se prestarmos atenção na nossa vida cotidiana, tantas vezes a ficção se mostra mais real do que o real. Leio sobre a morte eterna de Antígona e me comovo por inteiro, como talvez não o faça quando morre uma pessoa da minha estima. Se morre alguém que existe de verdade e quero muito, demoro muito a realizar, isto é, a tornar real esta morte, quer porque preciso cuidar do velório e de outras pessoas que também estão sofrendo, quer porque ainda não suporto realizar a própria realidade. Se quem morre, todavia, é o personagem daquele livro em que embarquei suspendendo toda a descrença prévia, posso realizar a dor tão completamente que chego a fingir que é dor a dor que deveras sinto: vivo essa morte, se entendem o paradoxo, como se fosse mais real, ou seja, mais intensa, do que uma morte “real”.

Pode-se visualizar bem semelhante paradoxo no quadro de René Magritte, “A ponte de Heráclito”, pintado em 1935. Na imagem, a ponte supostamente real como que se interrompe no ar, ao tocar na névoa, não conduzindo quem a atravesse, ou quem esteja admirando o quadro, a lugar algum. O reflexo da ponte na água do rio, porém, mostra uma ponte completa, atravessando o rio. Temos certeza da imagem da ponte, mas não temos qualquer certeza da ponte ela mesma. Temos certeza do reflexo, do sintoma, da conseqüência, mas não podemos ter qualquer certeza da coisa que provoca o reflexo, da doença que gera o sintoma, da causa que produz a conseqüência. Como se trata da ponte de Heráclito, segundo o título que lhe deu o pintor, podemos ainda dizer que essa ponte incerta atravessa o rio que nos banhamos e no qual nunca somos os mesmos que fomos no primeiro banho, assim como o rio nunca é mais o mesmo, ou seja: trata-se de um rio que a rigor não existe, atravessado por uma ponte que a rigor também não existe, pintado por um pintor que a rigor não existiu e observado por espectadores que, a rigor e igualmente, não existem. Em palavras diretas: a rigor, não existimos.

BERNARDO, G. Literatura e Ceticismo. Ed. AnnaBlume, pp. 89-92.

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Iniciado por Diogo Nunes. Última resposta de Bruno Leal 18 Mar, 2012. 1 Resposta

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Comentário de Bruno Leal em 18 março 2012 às 10:14

Bom grupo!

Comentário de Diogo Nunes em 19 janeiro 2012 às 21:57

Nessa harmonização de conteúdos das diversas abordagens – das Letras, da Psicologia, da Filosofia, da Antropologia e das Artes –, a subjetividade aparece como ponto fundamental na exegese das formas de interpretar o mundo. Aqui  compreendemos que a separação dessas disciplinas em diferentes campos do saber é uma construção meramente acadêmica e, quando esses saberes são reunidos, conseguimos visualizar uma imagem muito mais abrangente da realidade.
Este livro trata da subjetividade, mas também trata de livros, de como os livros descrevem – ou interpretam – o que percebemos e sentimos. Nessa perspectiva, o conjunto também propõe uma excelência na forma: a organizadora fez questão de que as notas acompanhassem a linha do olhar, propiciando uma leitura mais prazerosa do texto. Um cuidado singelo, mas que transmite a determinação de trazer uma nova forma ao conteúdo dos textos, compartilhando com o leitor o prazer que tivemos de fazer este livro.

"Nesta obra reúnem-se 17 estudos que transitam entre História, Letra e Literatura, Antropologia e Sociologia, Psicologia e Psicanálise, Filosofia e Comunicação, traçando uma complexa e delicada trama que consolidará argumentos e temas de muito interesse para o leitor da atualidade. [...]

Como frisou Sérgio Buarque de Holanda, em um belíssimo texto intitulado Apologia da História, 'é que para o verdadeiro historiador há de importar primeiramente o esforço para a boa inteligência da hora presente, se quiser entender o passado. E, por outro lado, qualquer valorização sentimental do passado, valorização que só poderá ser fragmentada e caprichosa - nos levaria a vê-lo com as cores de nossa nostalgia'. 
Os textos presentes nesta coletânea rica em diversidade e conhecimentos representam certamente, parodiando Sérgio Buarque, o esforço para a boa inteligência da hora presente".

Tania Bessone

EWALD, Ariane P. [org.] Subjetividade e Literatura: harmonias e con...

Comentário de Leandro Santos em 25 novembro 2010 às 22:08
Olá a todos além do livro " Imaginação Social " sugerido pelo nosso amigo James Emanuel, alguém ai tem outras referências ...
Comentário de Wyra Dark Alves da Silva em 6 novembro 2010 às 10:33
a verdade é criação de seu povo e de seu tempo tudo é relativo na história e depende de quem e como se observa os fatos histórrico a história ds mentalidade parece ser um suporte também importante a esse grupo gostei bastante, sou professora de história e amo temáticas relacionadas ao imaginario social, história oral etc.............
Comentário de Diogo Nunes em 14 abril 2010 às 1:26
A polissemia é a condição natural das palavras, Geertz escreveu algo assim. É curioso como algumas pessoas - e penso especificamente em alguns historiadores - insistem que "algumas palavras", "conceitos" são polissêmicos. Você, Luciano, bem disse que "usual" e "senso comum" não têm o mesmo sentido, mas eu insisto - não condição de "defensor" do Bernardo, e repare que uso aspas novamente - que o "a definição usual" é sinônimo de "a opinião do senso comum", "a doxa..."... que, você poderia contra-argumentar dizendo - e bem dizendo -, ser uma redução homogeneizadora, reducionista, etc.. mas ainda acho que ela serve de boa "entrada" pro desenrolar do texto.
Que você me perdoe a falta de referências, mas vou defender o estatuto de "prática" - que sei, não é ato - ao sonho. Compreendo tua ideia, contudo.
Ficaremos uma vida inteira - digo, eu topo o desafio! - tecendo possibilidades conceituais para realidade, sonho, imaginação e ficção. Penso que desenrolar sobre qualquer uma das 3 últimas só pode se dar em conjunto à primeira.
Pois são muitas as possibilidades. Agora mesmo estava lendo sobre Vaihinger. Vaihinger sugere uma noção de ficção que me parece inédita e pouco explorada, muito próxima do que eu entenderia por arquétipo. Diz ele: "o imaginário justifica-se apesar de sua irrealidade. Sem esse imaginário, nem a ciência nem a vida são possíveis, na forma mais alta. A tragédia da vida está mesmo em que os conceitos mais valiosos, vistos sob o prisma da realidade, carecem de valor [...] Os ideais não são hipóteses, o seriam caso fossem realizáveis ou se tivessem sido realizados em alguma parte do mundo; ao contrário, são ficções". Noutra parte: "a ficção é um andaime do pensamento". Noutra parte: "as ficções são construções de representação que não só contradizem a realidade dada, dela se desviam, como se contradizem a si mesmas". Mas é preciso notar que para ele, as ficções "são uteis"; não as pretende rebaixar quando afirma que contradizem a realidade dada. Ele afirma que a ética kantiana se embasa em ficções, pressupostos universais sem conexão, portanto, com a realidade dada.
Realidade e ficção aqui estão bem próximas das definições que você sugeriu. Mas, embora me parece interessantíssimo - sou historiador, afinal - que esse tipo de abordagem ao imaginário tenha sido dado na virada para o século XX (ou seja, que imaginário e ficção apareçam à filosofia não como algo que deva se descartar), tenho eu uma posição bastante distinta desta.
Como não quero dar por parecer acabado o debate (lembrando que é e será assunto pra vida toda) e também que já não é mais hora para estar acordado (baguncei a coisa do pertinente e oportuno) começo dizendo que associar imaginação (bem como imaginário) e sonho à ficção é uma redução conceitual que acaba por desmerecer o poder e a capacidade dos primeiros. Numa breve introdução ao que quero dizer, os "fóruns" que colei:
A Realidade, segundo a Filosofia da Esperança
O Princípio Esperança
Marcuse: Teoria Crítica e a Força da Imaginação

Abçs

Diogo
Comentário de Luciano de Almeida Peruci em 13 abril 2010 às 20:19
Olá, Diogo!
Eu não entendi que o texto inteiramente era de Gustavo Bernardo. Me enganei considerando poder ainda se tratar de uma interpretação que objetivasse discutir, analisar, etc, os conceitos do autor de Literatura e Ceticismo.

Mas reitero que "usual" e "senso comum" não tem o mesmo sentido, coisa alguma! Exceto em um caso particular, convém considerar. Pois um conceito tem um significado usual em um universo e pode ter outro fora dele.

Em uma literatura técnica, isso se exemplifica talvez mais claramente, pois o nomós, se presume e se pretende, será decifrado por um público alvo.

Já ao senso comum não se pode pretender o mesmo. Eu concordaria com o emprego de "senso comum" e então, vou considerar sua citação de que se trata de um "ensaio", onde devo entender (é isso?) que houve uma imprecisão.

Também não é válido o argumento de pelo fato do autor não participar da rede e de você ter sido quem o "colou" por-se em defesa dele. Não há dependência entre premissa e consequência, não é?

Entendo que o faz por qualquer outro motivo; Por vontade, por concordância, por gosto, por liberdade ou seja o que for. Pois bem se entenderá que mesmo tendo colado o texto, você poderia em seguida, tecer críticas, refutá-lo parcial ou integralmente. Enfim...

A realidade é insatisfatória. Sim, eu escrevi isso. E não há contradição (ou ainda não entendi quando você assim o afirma) quando escrevo que "o sonho de voar nada tinha de realidade". Aliás, uma afirmação reforça a outra. É justamente o sonho que não é insatisfatório; Ele é POTÊNCIA!

Quando se transforma em ATO, deixa de ser sonho e outro se põe em seu lugar. A realidade humana é sempre insatisfação.

Por favor, trate quando lhe for pertinente e oportuno das ricas e complexas distinções de imaginação, ficção, sonho.

Divago: Imaginação: imagem; Sonho? Desejo? Bem, deseja-se imagem também... Tenho mais dificuldade de arriscar um palpite para ficção.

Aproveito para me reportar também a Sandra: Ver a "beleza e o impacto que causa a tela" é a proposta, grosso modo, de Merleau-Ponty. Sim, você está alinhada com esta proposta. Quem irá contra isso?

Eu apenas aproveito seu perspicaz apontamento de que "junto à qualquer ideia, é preciso técnica para conceber.E Magritte era, acima de tudo, um perfeccionista, como Dali, Picasso e tantos..."

Ele não se restringe a defender o pensamento de Heráclito e sem que ninguém aqui defendeu semelhante ideia. Afirmo que ele, ao elencar Heráclito, não o fez sob a proposta fenomenológica de Merleau.

Magritte não é um Cézanne. Antes, a crítica de Magritte é basicamente cética: nem bem a ciência (techne) sabe o que "É", nem bem o "mundo percebido".

E Heráclito, me perdoe escrever levianamente, parece servir ao tipo de provocação que marca a arte de Magritte; Geração e corrupção heraclitiana assim, torna-se um capítulo que Magritte lê com muito gosto.

Fora isso, somos todos livres para reinterpretarmos e errarmos como quisermos e pudermos. Claro, mesmo quando não queremos estamos sujeitos ao engano, ao erro e, até por isso essa troca de informações é apenas uma tentativa de evitar que os enganos sejam tantos e tão companheiros nossos.
Comentário de James Emanuel de Albuquerque em 12 abril 2010 às 14:02
Oportunidade:

“A Sabedoria dos Antigos”, de Francis Bacon, está disponível na internet!

BACON, Francis. A Sabedoria dos Antigos. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora UNESP, 2002. Disponível em:
http://blogdocafil.files.wordpress.com/2009/04/bacon-francis-a-sabe...


Um abraço.
Comentário de Diogo Nunes em 12 abril 2010 às 12:24
Salve, Luciano!

Suas colocações são deveras pertinentes, e é justamente por assim entendê-las, que aqui vão minhas contra-partes.

Primeiro, como o prof. Gustavo Bernardo não faz parte da nossa rede social-virtual, me ponho em sua “defesa”, uma vez que fui eu quem colou o comentado texto – e que o copyright não saiba!

Me parece que você mesmo se respondeu [à pergunta “eu gostaria de saber quem é o defensor do argumento”], já que não vejo diferença conceitual entre “distinção usual” e “senso comum”. Se trata de um ensaio; além do mais, penso que ninguém deixou de entender sua posição por ele anunciar seu raciocínio partindo deste ponto: a distinção usual, o senso comum assim entende, é esta a opinião da doxa.....

Penso que você se contradiz gravemente quando apresenta a realidade enleada à insatisfação e à transformação e afirma que “o sonho de voar nada tinha de realidade”. Penso, também, que você poderia gastar mais tempo na distinção entre noções tão complexas e ricas como “imaginação”, “sonho”, “ficção”,... Não são, em absoluto, sinônimos. Que se confunda “imaginação” e “fantasia”, “imaginação” e “sonho”, no variar da tua referência teórica, é compreensível, mas in-distinguir “imaginação” de “ficção” me parece grave, já que seria, no mínimo, uma homogenização deveras ingênua.

Sobre os perigos, penso que não me cabe nada dizer agora, posto que em absoluto desprezo posições que se utilizam da fórmula retórica “o autor quis dizer...”. Tratarei, com muito gosto, desta questão em outro momento, mas não agora, já que me cabe interpretar, e não afirmar “a real intenção do autor”, seja do prof. Gustavo Bernardo, seja do Margitte.

E, seguindo este raciocínio, sugiro que você leia Gadamer. Gadamer, como Nietzsche, pode ser um “libertador”. Não penso que seja possível saber “o que realmente Magritte objetivou”, e entendo, além, que a beleza, o colorido do mundo, está justamente também na capacidade que temos de “inventar interpretações”. Destaco um fragmento nietzschiano para 'adornar' o que acabei de dizer:


“Os filósofos costumam colocar-se diante da vida e da experiência como diante de uma pintura, que está desenrolada de uma vez por todas e como inalterável firmeza mostra o mesmo evento: esse evento, pensam eles, é preciso interpretá-lo corretamente, para com isso tirar uma conclusão sobre o ser que produziu a pintura: portanto, sobre a coisa em si, que sempre costuma ser considerada como razão suficiente do mundo do fenômeno. Em contrapartida, lógicos mais rigorosos (…) puseram em questão toda conexão entre o mundo metafísico e o mundo que nos é conhecido: de tal modo que no fenômeno, justamente, a coisa em si não aparece. De ambos os lados, porém, não é levada em conta a possibilidade de que essa pintura – aquilo que agora, para nós homens, se chama vida e experiência – pouco a pouco veio a ser e, aliás, está ainda em pleno vir-a-ser e por isso não deve ser considerada como grandeza firme. (…) É porque nós, desde milênios, temos olhado para o mundo com pretensões morais, estéticas, religiosas, com cega inclinação, paixão ou medo, e porque temos regalado nos maus hábitos do pensamento ilógico, que esse mundo pouco a pouco veio a ser tão maravilhosamente colorido, apavorante, profundo de significação, cheio de alma; ele adquiriu cores – mas somos nós os coloristas: o intelecto humano fez apenas aparecer o fenômeno e transpôs para as coisas suas concepções fundamentais errôneas”. Humano, Demasiado Humano. Cap. 1, §16.

Por fim, e acho que é essa uma reflexão que se deve fazer sempre, como provocação tanto ao racionalismo quanto ao idealismo, se imaginação e realidade são antagônicss,... como se dá o imaginar, sobre bases sobre-humanas, ou então mesmo, sub-humanas? Ou, a partir de quê, do não-existente? Ou, onde, no vazio?

No embalo da contribuição da Sandra, me ocorreu agora esta frase do Matisse [citado pelo Merleau-Ponty, em Conversações], não que ela possa ser universalizada, mas que possa abrir caminhos ao pensamento: “Não consigo distinguir o sentimento que tenho pela vida e minha forma de expressá-lo”.

Abçs

Diogo
Comentário de sandra c. em 6 abril 2010 às 5:11
Bem, Luciano, junto à qq idéia, é preciso técnica para conceber.E Magritte era, acima de tudo, um perfeccionista, como Dali, Picasso e tantos... Eu,pessoalmente, não consigo fazer essas associações 'comparativas'. Vejo a beleza e o impacto que causa a tela, por sinal um óleo, provavelmente. Mas Magritte trabalhava tbm muito bem com aquarela, desenho e até escultura em metal. Nesta tela a sua sugestão em pontilhismo e até do uso de espátula só reforçam a imagem de sua pintura 'surrealista' toda feita com técnica 'realista', que é o grande mérito de Magritte. Impactante sempre. Suas outras telas com
aqueles homenzinhos de chapéu-coco em profusão, por exemplo, provocariam aqui outra chuva de opiniões. Vale à pena! Saudações,Sandra C.
Comentário de Luciano de Almeida Peruci em 5 abril 2010 às 23:00
Uma segunda tentativa para quem não conseguiu entender a idéia de criação e corrupção:

http://spectv.files.wordpress.com/2009/10/magritte.jpg
 

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