As Invasões Bárbaras - Metáfora da Desumanização
Percebo "As Invasões Bárbaras" (2003) e "O Declínio do Império Americano" (1986), como cara e coroa da mesma moeda. Enquanto "O Declínio" representa a razão, "As Invasões" é a emoção dimensionada com uma delicadeza rara de ser vista no cinema. Tudo isso sem esquecer que o primeiro é premonitório. Em 86, Arcand foi o primeiro a empregar o termo "Império Americano", traçando o perfil de um momento muito rico da História recente e de seus desdobramentos. Filme profético, denso, brilhantemente inteligente, diálogos deslumbrantes (para platéias cultas). Uma análise rigorosa e vigorosa que sacudiu as abordagens cinematográficas superficiais e insípidas que inspiravam a reflexão sobre os anos 60 e 70 do século XX.
Na abertura de "O Declínio", enquanto os créditos se sucedem, a câmera aproxima-se lentamente de duas mulheres sentadas no final de um espaço imenso. São duas professoras universitárias, doutoras em História. Uma entrevista a outra a propósito do lançamento de seu livro. Aquele diálogo, aliás riquíssimo e de uma profundidade impressionante, oferece todos os instrumentos necessários para a crítica e a compreensão de nosso tempo. Eis a chave de tudo que virá depois. Assisti "O Declínio" dezenas de vezes no cinema. Outras tantas em vídeo. De uma ironia ferina, beirando o cinismo, Arcand promove discussões brilhantes sobre a realidade social e histórica, permitindo-se, ainda, fazê-lo do ponto de vista feminino e da ótica masculina. Um verdadeiro achado.
"As Invasões" é um filme comovente. Resgata valores fundamentais, cultivados por aquela geração que tanto amou a Revolução. Transformar o mundo era a sua missão. Isto parecia tão real e possível quanto transitar por todos aqueles ismos: Existencialismo, Marxismo, Anti-Colonialismo, Feminismo, Revolução Sexual, Desconstrucionismo, etc.
Exceto o Cretinismo. Que, aliás, caracteriza o atual momento histórico. Estamos cercados de indigentes mentais. Tudo está à venda. Tudo se compra. Até visitas a um paciente terminal, de acordo com o mesmo filme. No almoço de despedida a Rémy, um daqueles professores universitários sublinha que a inteligência desapareceu. Talvez por muito tempo.
Mergulhamos na barbárie. A indiferença, a estupidez arrogante e boçal, a valorização do ter e do parecer, a banalização da vida, entre outras pérolas, sustentam um mundo que esqueceu os valores humanísticos construídos ao longo de séculos e que serviram de arcabouço para o advento da civilização e nortearam a luta por uma sociedade mais justa.
Não sou um nostálgico romântico. Que falta nos faz (a todos) o exercício da amizade, da solidariedade, inclusive entre os povos, da capacidade de doação afetiva inteiramente desinteressada, etc.
Ser, simplesmente. O que é isto? Ninguém sabe. Importa ter. Importa parecer.
Francamente, nosso cineasta canadense, que também é doutor em História, acertou na mosca. O abismo que separa o ser do ter talvez encontre sua redenção através do afeto. Lembram-se do único diálogo entre o intelectual Rémy e seu filho, profissional sofisticado do mercado financeiro, que nunca leu um livro e só se relaciona com o mundo através do computador e do celular? Pouco antes de praticar a eutanásia, eles se aproximam através do afeto.
Talvez esta seja a saída ou uma delas para o reencontro do homem consigo próprio. Conseqüentemente, com seu semelhante. Isso porque aquele que ontem era nosso semelhante agora é percebido como inimigo. E, como tal, precisa ser aniquilado. O horror às diferenças, a intolerância, a xenofobia e o neo-nazismo são o desdobramento lógico de um mundo sem referências que se desumanizou e marcha inexoravelmente para a Barbárie, tal como assistimos de camarote. Ainda.
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