História Social do Rock and Roll

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História Social do Rock and Roll

Este grupo destina-se a pesquisa sobre o mais importante fenômeno cultural do sec. XX, suas, transformações consequencias e desdobramentos ao longo das ultimas cinco décadas.

Site: http://historiasocialdorockandroll
Membros: 600
Última atividade: 20 Dez, 2016

ROCK AND ROLL, UMA HISTÓRIA SOCIAL de Paul Friedlander, é definitivamente uma referência impar para os interessados na história e significado cultural do Rock no século XX e, de muitas formas, enquanto fenômeno sociológico e comportamental ainda contemporâneo. Professor da Universidade de Oregon de História do Rock e membro da Associação Internacional para o estudo da musica popular, o autor nos oferece um quadro realmente completo da evolução e impacto sócio cultural desta significativa vertente da musica popular contemporânea mediante uma cuidadosa analise de seus diversos estilos e variações simbólicas/identidárias.
Cabe frisar que Friedlander adota como referência o conceito de pop rock no estudo do tema. Opção terminológica que justifica da seguinte maneira:

“ Cada livro sobre rock vem com sua própria definição do termo. Alguns autores utilizam “rock and roll” para denotar a musica dos anos 50 e “rock” para representar todos os estilos subseqüentes. Nós utilizamos uma abordagem ligeiramente diferente. A musica compreendida neste livro é o “pop/rock”. Isto reflete uma natureza dupla: raízes musicais e líricas derivadas da era clássica do rock (rock) e seu status como uma mercadoria produzida sobre pressão para se ajustar a industria do disco (pop).
Os numerosos estilos criados durante os primeiros trinta anos do pop/rock receberam nomes específicos segundo suas raízes, características musicais, conteúdo das letras e a relação com o meio político e cultural que os circundavam. Assim, a musica de Chuck Berry, Elvis e outros artistas dos primórdios denomina-se de “rock clássico”, enquanto seus descendentes da Bay Área do final dos anos 60 são chamados de artistas de rock de “San Francisco”.

(Paul Friedlander. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006, p.12)

Um aspecto interessante de sua pesquisa é a proposta de uma experiência mais profunda deste gênero musical a partir de um método que, indo além da vivência direta e espontaria do ouvinte/ consumidor conduz a uma perspectiva analítica e a um nível diferente de audição. Nas palavras do autor:

“... Outro tratamento que se pode dar a esta musica é seguir uma abordagem conhecida como “analítica”. Para isto é necessário ouvir uma peça musical com o objetivo de coletar uma grande gama de informações sobre ela. O ouvinte, então, passa a ter condições de realizar julgamentos próprios sobre a natureza da musica, sua qualidade em relação a outras musicas e seu contexto social. Usando o exemplo anterior, o ouvinte pode imaginar por que esta versão de Respect é tão poderosa, escutando para ver quais instrumentos estão sendo tocados e que marcações são enfatizadas. Ele também pode refletir sobre a experiência gospel de Aretha para explicar a potência da sua voz. E pode pesquisar a história pessoal da artista ou seu atual estilo de vida para descobrir um fato-como um marido desrespeitoso- que explique a urgente necessidade de respeito que o artista pode estar sentindo.
Descobrir, organizar e raciocinar sobre o significado de uma extensa gama de informações relevantes enriquece nosso entendimento da obra musical.”

(Paul Friedlander. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006, p.13)

Tudo isso nos conduz aquilo que o autor chama de “janela do Rock”, em outras palavras, um modo de entender musica a partir da perspectiva analítica aqui sumariamente apresentada.
Em linhas gerais, portanto, o “usuário de rock” encontra nesta singular obra sugestões úteis para um aprofundamento de sua experiência sonora/existencial. Isto é, transcendendo o nível direto e emocional orientado pela mera intuição, o ouvinte e “participante” da magia do rock pode construir uma compreensão maior de suas opções mediante a reunião de um numero significativo de informações sobre uma determinada banda ou cantor a ponto de melhor avaliar sua simpatia e envolvimento pessoal com determinado estilo ou banda.
Se o rock and roll é mais do que um gênero musical e uma industria, se constitui um verdadeiro ethos social, a pesquisa de Friedlander certamente muito nos acrescenta a compreensão de sua contemporaneidade, significado cultural e vivências anônimas.

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Comentário de Aline Rochedo em 16 julho 2013 às 23:44
Comentário de Aline Rochedo em 16 julho 2013 às 23:43
Comentário de Henrique Oliveira em 21 abril 2013 às 20:43

Galera, um convite do grupo Historiadores Rockeiros!!!

Como somos um dos grupos mais populares do Café História, nada mais normal que cedermos à pressão e partirmos também para o Facebook!!! Entrem e adicionem a página e vamos curtir e compartilhar muito mais por lá!!!! Abraços!

http://www.facebook.com/historiadores.rockeiros

Comentário de Adriano Tardoque em 1 dezembro 2012 às 9:36

Outro artigo que gostaria que os colegas lessem é ROGER WATERS: O ROCK, A SOCIEDADE E A CAUSA PALESTINA, também no WHIPLASH:

http://whiplash.net/materias/biografias/168744-rogerwaters.html

Comentário de Adriano Tardoque em 1 dezembro 2012 às 9:32

Quero convidar a todos os colegas a leitura do artigo GRUNGE: UMA REFLEXÃO SOBRE O "ANTI-MOVIMENTO" que publiquei no site do WHIPLASH. Comentem!

http://whiplash.net/materias/biografias/168834-nirvana.html

Comentário de Christian David Machado em 25 novembro 2012 às 18:08
Comentário de carlos pereira jr em 30 maio 2012 às 21:48

adiantando alguma coisa, estou longe de uma imagem romantica do rock  em sua face "revolucionária". O que eu coloco em questão através do rock é a própria imagem de revolução. O que é uma problemática do surrealismo, segundo o W Benjamim...

Comentário de carlos pereira jr em 30 maio 2012 às 21:44

Meu caro luiz carlos,

acuso a ciência de seu preciso comentário e diálogo. Prometo responde-lo em breve. Te respeito como interlocutor e acho interessante e fecundas nossas leituras divergentes do rock and roll. As diferenças são fecundas e os bos debates são árduos. Volto em breve.

Comentário de Luiz Carlos Geremias Alves em 30 maio 2012 às 21:21
Caríssimo Carlos,


Sempre fico feliz por trocar ideias, ainda mais sobre temas como este, da contracultura, do rock, do underground ou, resumindo um pouco o tema, sobre a suposta “revolta juvenil”, tão cantada em prosa e verso há cinquenta anos e da qual fui testemunha participante.

Expresso a você meu afeto e minha admiração pelo diálogo que temos travado, de participações um pouco espaçadas, é certo, com certeza por conta do que temos tantas outras coisas a fazer. Eu, por exemplo, me encontro viajando há quase três semanas, não por lazer, e isso me afasta dos meus livros, do meu ambiente caseiro e familiar, me causando sentimentos de solidão por estar tanto tempo fora, em um quarto de hotel. De todo modo, aqui estou para continuar nossa conversa.

Com relação à questão das críticas, entendo que a comunicação só se dá por conflito, por divergência. Comunicação em que há consenso deixa de existir, é troca de informações e, em última instância, é algo improdutivo para o desenvolvimento de qualquer compreensão. Curiosamente, apesar de estarmos boa parte do tempo em busca de companheiros e companheiras que concordem conosco, que ratifiquem o que pensamos, é exatamente quando encontramos discordantes que nos tornamos produtivos, amadurecemos e crescemos.

Diálogo sem conflitos fica bem em botequim, depois de um monte de cervejas e aquela voz arrastada dizendo que todo mundo é legal, genial, viva a juventude e aumenta que isso aí é rock’n’roll. Fora isso, é preciso brigar, divergir, criticar. Só se cresce e só se aprende assim. Mas, a geração pós-rock geralmente não vê com bons olhos o verbo crescer: querem ser forever youngs. Com certeza não é o seu caso.

Acreditei no que você acredita quando era criança e adolescente e, mesmo depois de adulto, quando já não pensava muito sobre o tema, ainda tinha aquela sensação romântica de que nós, os jovens da metade do século, havíamos ajudado a mudar o mundo, a melhorá-lo. Bem, não vou jogar fora todas as boas intenções que tivemos, mas entendo bem, hoje, que a maior parte dessas boas intenções é composta por aquelas que, costuma-se dizer, povoam o inferno. Não mudamos nada, essa é a verdade, e não consigo engolir essa conversa. Olho a molecada, hoje, e tenho certeza disso. Fomos massa de manobra, como se costumava dizer no tempo em que participei do movimento estudantil.

Vou repetir o que já repeti muito: estou com Nelson Rodrigues, quando ele afirma que o jovem tem todos os defeitos do adulto, com o acréscimo de um, a inexperiência. Não houve qualquer revolta jovem com força suficiente para mudar costumes, isso é romantismo puro e digo mais: delírio. O engraçado é que, talvez por preguiça ou mesmo por conta de que todos repetem a mesma “verdade”, poucos têm se dedicado a pensar de forma crítica o recente fenômeno da tal revolta jovem e sua manifestação cultural, o rock.

De modo que lhe faço uma pergunta, que me parece básica para pensar o tema: como seria possível que os jovens se organizassem a tal ponto que conseguissem mudar a realidade, mudar a sociedade com seus costumes e valores, inaugurar um novo tempo, se impor como transformadores? Não lhe parece um tanto estranho, esquisito? A mim, parece, ainda mais que vivi aquele tempo, fui testemunha participante de toda essa história. Eu pergunto como ter sido isso vindo da “força jovem”, de meninos e meninas que não têm efetivamente experiência, não têm força política ou mesmo cultural, não têm poder suficiente para muitas vezes sequer mudar a sua própria vida ou seus hábitos básicos? Espero que você me responda, pois gosto de ser contrariado e sempre cresço e amadureço com isso. Não quero ser “forever young “.

Temos que pensar no contexto em que isso ocorreu para procurar entender o que efetivamente ocorreu e é útil tentar evitar a carona fácil na versão oficial dos fatos. E essa versão oficial aponta o tempo todo para um heroísmo jovem, inclusive e naturalmente produzindo ídolos, heróis da resistência à caretice. Bob Dylan é o maior exemplo, pois tinha uma verve rebelde admirável e tinha lá o seu conteúdo, mas há o ídolo Elvis, basicamente um moço que tinha um belo rosto e sabia rebolar muito bem – as TVs não podiam apresentá-lo do abdômen para baixo, pois o branquelo rebolava como um negro, diziam.

Há o poeta Morrison, do Doors, que tinha, assim como o nosso Cazuza, uma habilidade poética para expressar o que a rapaziada sentia, mas que, cá para nós, devia ser um mala daqueles, um sujeito egocêntrico e dependente de elogios, segundo informações que tive sobre o figura durante minha vida. Mas, tudo bem, ninguém é perfeito e isso não tira o valor da produção poética do moço. Hoje, moro em Curitiba e nessa cidade há um ídolo chamado Paulo Leminski, que também era um bom poeta, mas, indubitavelmente, mais um poeta formal do que de conteúdo, como Morrison e o Morrisey dos Smiths e, segundo me conta quem o conheceu, era, pessoalmente, um sujeito insuportável e arrogante, além de beber mais do que seria aconselhável, o que o levou à morte prematura. Mas, assim como Morrison, Leminski também é muito romantizado. E ambos são aquilo que se pode chamar de “malditos”, ídolos do mundo underground e os poemas do curitibano foram musicados por um grupo de rock local, chamado “Blindagem”, que não é conhecido fora da cidade, mas nela é referência cultural.

Repito a pergunta, já sugerindo que entendo que esse pessoal não teve e não teria força para mudar nada. Até que me provem o contrário, as mudanças foram parte de um grande contexto que inclui preferencialmente o poder do capital influenciando de forma decisiva a subjetividade. Já disse trinta e duas mil vezes e vou repetir: a melhor compreensão acerca do que ocorreu, a nível macro, principalmente na segunda metade do século XX, é dada por Negri e Hardt nos livros Império e Multidão (não li o terceiro livro, não sei se aprofundam essa noção): a multidão combateu o poder manifestamente discricionário e opressivo da modernidade e fomentou um poder muito mais discricionário e opressivo do que o anterior. Isso me parece indubitável e eles também afirmam, e concordo, que isso ocorreu porque o capital abraçou a causa e devolveu à multidão um projeto, o projeto do Império. Toda a mexida cultural dos meados do século, mas não só, pois há havia, desde o final do século XIX, uma movimentação de insatisfação.

No livro Demian, do Herman Hesse, há uma referência à revolta jovem, à uma cultura de frontal ataque ao estabelecido e, num diálogo entre dois personagens, chega-se a falar que a moda daquele momento – moda juvenil, marcada pela oposição rebelde ao poder estabelecido – é tatuar-se. O livro de John Savage não apenas fala o óbvio, que há um casamento com comunhão de bens entre mercado e cultura (que, aliás, é marcado pelo historiador Hobsbawn no seu livro sobre o breve século XX), mas que a sociedade industrial deixou a adolescência em uma lacuna de sentido, que foi preenchida pela tão cantada delinqüência juvenil. Ora, o adolescente não é criança, mas também não é adulto e mais: não existia, até a eclosão do movimento roqueiro, um rito de iniciação na sociedade ocidental. A partir da metade do século, esse rito foi estabelecido e tem sua raiz na contracultura e prepara os meninos e meninas para a sociedade de consumo. Na adolescência roqueira, que nasceu com a flor e o amor, o jovem aprende os princípios básicos que o nortearão posteriormente, na idade adulta.

O jovem aprende que tudo aquilo que ele pode fazer, ele DEVE fazer, que a repressão é um mal, que não se deve deixar para amanhã o prazer que se pode ter hoje, que não há desejos proibidos, que todos os desejos são permitidos, que, para obter prazer, você deve usar alguém, outras pessoas, que, momentaneamente, existem para que você as curta e que, depois, devem ser dispensadas, como o jornal de ontem.

Com Savage, podemos entender a relação entre esse espaço dedicado aos jovens, o preenchimento desse espaço a partir da metade do século com a cultura teenager e podemos vislumbrar que isso veio dar no que conhecemos, hoje, como uma sociedade de consumo, na qual a repressão é exercida com muita satisfação, com a sedução do ter, do gozar.

O Steiner, autor que você leu e gostou, lamenta, hoje, que a maior fonte de lucratividade no mundo é a droga e a pornografia. Ora, ele poderia ter pensado, quando escreveu os textos que compõem o Castelo do Barba Azul, que a tal metacultura roqueira estava compondo e preparando a realidade que, hoje, ele olha e, espantado, exclama: “Oh, meu Deus!”. Isso acontece quando resolvemos estudar e compreender os fatos da cultura sem considerar que sempre há um poder hegemônico e que é esse poder que dá as cartas e distribui os coringas. Mas Steiner, assim como outros, pareceu deslumbrado num determinado momento e escreveu textos que não analisam de forma profícua a realidade. Digo que ele ficou deslumbrado para ser simpático, mas quando li esse livro achei que estava lendo um teórico clara e manifestamente de direita, ou seja, daqueles que explica o enriquecimento como um processo natural dos mais capazes ou algo do gênero. Se bem me lembro, ele simplesmente ignora o poder do capital (entendendo capital como a força hegemônica que move o mundo capitalista, como o próprio nome sugere).

Temos que considerar que o “Barba Azul” foi escrito na década de 1970, no auge da efervescência. Isso o absolve em parte, pois você olha o que foi escrito sobre o tema naquela época e vê que havia, sem dúvida, ainda abordagens simplórias, superficiais, sem senso crítico. E, recentemente, o mesmo Steiner se mostra indignado com o rumo tomado pela sociedade ocidental. Ele diz que vivemos um período dos mais selvagens, ou o mais selvagem, da história e que as grandes fontes de lucratividade, citados acima, demonstram isso, além de outros fatores, como a tortura, a exploração sexual infantil etc. Isso, a princípio, parece ir de encontro à tese de Negri e Hardt. A coisa piorou e muito. Nunca talvez tenhamos vivido um momento histórico tão canalha como este.

E, o Steiner diz que a música substituiu a literatura, certo. E daí? Não só a música, mas o cinema, a narrativa televisiva etc. A imagem substituiu a palavra e há quem diga que uma imagem vale mais do que mil palavras. Tenho vontade de colocar uma sela e um arreio sobre quem diz isso, mas a quem suspeita dessas verdades enviesadas posso garantir que sem uma palavra, você pode ver um milhão de imagens que elas não vão significar nada.

Vou me remeter novamente a um autor que considero um pioneiro na crítica ao underground, à contracultura, á cultura roqueira, em suma, ao que o Lyotard batizou de “pós-modernidade”: a pós-modernidade é neutra e a neutralidade é sempre de direita. Falo novamente de um autor venezuelano chamado Luís Britto Garcia. Você precisa ler esse livro, que já nomeei em outros posts e em textos publicados no meu blog, luizgeremias.blogspot.com.

Todo o movimento jovem é de direita, infelizmente, e não é à toa que os líderes desse movimento, seus ícones, se tornaram milionários e não é à toa que alguns deles, como os de um grupo desses aí, parece que o Metálica, mas não tenho certeza, andaram denunciando os fãs que baixavam suas músicas na internet.

Aliás, tentei ler um livro que relaciona esse grupo (que não sei se foi o que denunciou os fãs, não tenho certeza) à filosofia. Meu Deus, que merda de livro... quem o escreveu deveria ter capacidade de dizer coisas diferentes a pelo menos dez ou quinze páginas, ou, quem sabe a cada trinta ou quarenta, mas não, o livro é um monólito, as mesmas ideias expressas de formas diferentes, incansavelmente. Mas, deixa para lá. Boa parte dos livros que tratam do tema rock caem nessa esparrela. Há exceções brilhantes, como o livro que dá origem a este fórum, do Friedlander, ou o do Roberto Mughiati. Mas, por exemplo, um livro sobre a contracultura através dos tempos, de dois autores que nem quero lembrar o nome, foi escrito provavelmente somente para faturar, pois é 90% ruim, com exceções aqui e ali, pois que nada neste mundo é ruim completamente.

Me desculpe, mas falar de “abismo de gerações” como algo fomentador de transformações específicas e definitivas não convence. Os filhos se opõem a seus pais, como forma de buscar uma identidade pela negação. Ora, negar não é mudar nada. E rebeldia é predicado do conservador. Erich Fromm, um filho da escola de Frankfurt, escreveu um belíssimo texto, lá pelos anos 1950, no qual diferencia o que ele chama de caráter rebelde e do caráter revolucionário. O rebelde é conservador, o revolucionário... bem o nome já diz, quer transformar, quer mudar. O texto é encontrado num livro fora de catálogo, mas que consegui na internet, pois o original no qual li esse escrito peguei, quando na faculdade de psicologia, a primeira que fiz, na biblioteca da universidade.

Tomando o velho Hegel, que teve defeitos idealistas, mas acertou na conceituação da dialética, podemos dizer que para haver mudança é preciso haver mais que a negação, muito mais, é preciso que se faça uma síntese, resultado da afirmação chocada com a negação. Se ficar na negação, como o tal movimento jovem, ficamos na mesma.

A sociedade estadunidense (pois americanos, estritamente falando, somos todos, estadunidenses, brasileiros, peruanos, canadenses, haitianos etc.) é uma sociedade que se caracteriza pelo conservadorismo e isso não parece ter mudado. Ford, aquele dos carros, tem um texto, esse bem difícil conseguir, mas que se encontra na internet, embora me digam que deturpado, tem um texto anti-judaico no qual ele acusa vagamente os judeus de terem sido os fomentadores do jazz como música popular estadunidense, com o objetivo de ganhar dinheiro e também de controlar as consciências. Fala de uma máquina do entretenimento, parece claro. Não vou assinar em baixo de sua crítica anti-judaica, pois me parece vaga e até mesmo preconceituosa, mas que ele pode estar certo quando se revolta contra a indústria do entretenimento. E me parece simplório analisar qualquer fenômeno do século XX sem levar em conta essa indústria. Há um livro, cujo autor não lembro, mas que tenho em minha biblioteca, que se chama “Vida, o filme”. Ele mostra como o entretenimento tomou a subjetividade no século passado, ilustra extremamente bem sua tese. Também vale a pena ler. E há, nesse mesmo rumo, o livro que já citei aqui, de Thomas Doherty, Teenagers e Teenpics, que fala especificamente da indústria cinematográfica nos Estados Unidos, focando os filmes “jovens”.

Em resumo, esses autores me parecem mais espertos do que quem acredita em papai noel e em “revolta jovem”. Eles apontam, com bons argumentos, o quanto a indústria fomentou e capturou a rebeldia, fazendo-a funcionar a seu favor. E há um texto, que consegui também na internet, no qual um cineasta acusa a família Rockfeller de ter capturado a revolta feminina e criado o feminismo, aquele de Beth Friedman, Germaine Greer e outras menos votadas, para conseguir incluir as mulheres diretamente na exploração capitalista, destruir a família e a criação familiar das crianças e jovens. Bem, há quem diga que isso é delírio persecutório, que é delírio conspiratório, mas acho bom dar alguma atenção a esses delírios, até porque as verdades revolucionárias muitas vezes, senão sempre, nos parecem delírios quando entramos em contato com elas. Não jogaria essa ideia fora sem análise mais acurada. Meu compromisso, acredite, é com a verdade, com o sentido, e tendo a levar em consideração tudo o que me pareça sensato. E a criação da revolta jovem, a liberalização sexual, a destruição da família tradicional, o ataque aos saberes tradicionais me parecem claramente ter beneficiado a eclosão de uma sociedade pautada pela consumo, pela hegemonia absoluta do capital, pela louvação ao tal mercado (que os liberais dizem, veja só, ser formado pelo conjunto de consumidores e que é esse conjunto que delibera o que vai acontecer no mundo financeiro e na história, se eu não conhecesse os liberais e suas mentiras, até acreditaria nisso, mas sei que o mercado é eminentemente controlado por pouquíssimas pessoas, as que detêm poder para influenciar os seus rumos).

Bem, já estou escrevendo demais. Vou, então, usar tópicos para comentar alguns dos pontos que você levanta no seu último post.

- Savage não fala de um jogo fácil entre mercado e cultura. Ele fala da criação social do teenager e se você não quiser considerar que há uma influência mercadológica na cultura roqueira, então não sei mais o que pensar. Não é um jogo fácil, mas ele ilustra eficientemente como os jovens vieram sempre ocupando o espaço de rebeldia que a sociedade industrial lhes ofereceu, mas já comentei isso antes.

- Interessante você achar a calça jeans revolucionária. Gostaria de entender como isso é possível. Levis Strauss, o homem da calça jeans nunca foi um revolucionário. Era um comerciante, um capitalista. E dizer que usar uma calça é revolucionário corresponde a dizer, como dizia uma propaganda da calça marca “US Top” nos anos 1970: “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada que você pode usar como quiser”. Putz, se você considera isso revolucionário, lhe peço que conceitue revolução. Aliás, lhe desafio, sempre no espírito de esperar que você me convença. Não comprei a verdade, não durmo com ela, apenas a procuro e você, se puder, pode me ajudar a desmentir compreensões que construí ao longo de minha vida. E quando conseguimos fazer isso, posso dizer que experimentamos algo muito semelhante ao orgasmo – e existe algo mais significativo da criatividade do que um orgasmo? É através dele que somos criados.

- Não subestimo as implicações culturais e a força do rock, somente lhe digo que sem a forcinha da indústria não vingaria como vingou. Acreditar de forma diferente me parece ignorar a força da mídia. Se os jovens alemães que curtiam jazz durante o nazismo tivessem a mídia do seu lado, se houvesse uma mídia forte como há hoje naquele tempo, certamente estaríamos falando da revolução do jazz nascida nos Estados Unidos e na Alemanha nazista, contra o nazismo, é claro. Não subestimar a força do rock não pode significar crer que ele mudou o mundo. Ele foi um instrumento de uma mudança que, creia, não acho tão libertária quanto você.

- Com relação ao rock, acho que você tem bom gosto. Você citou os Beatles, The Who, Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Butterfly, o Airplane que era Starship etc. Bons exemplares da música rock. Não compartilho de sua preferência pelo Metal. Acho, na verdade, um lixo isso. Metal, para mim, foram Led, Sabbath, Deep Purple, além de outros, como os punks Dead Kennedys e o primeiro disco dos publicitários Sex Pistols, por exemplo. O resto, bem, para mim o resto é o resto, mas há coisas boas no resto, tanto em forma de grupos como em forma de músicas de alguns grupos. Gosto de música, gosto de muita coisa no rock, até mesmo alguns metals, mas não consigo me convencer a escutar AC-DC, por exemplo, ou Iron Maiden, embora tenha assistido uma apresentação do grupo com dois guitarristas e achei que deu uma vida ao rock. Tinha um grupo chamado Jo Jo Gune que achava interessante, mas nunca mais consegui ouvir.

- A frase “tudo que é sólido desmancha no ar” é representativa da cultura burguesa e é bem característica de tudo o que estou falando. Como disse Eagleton, nenhum sistema é mais amante da transgressão e mais inimigo do materialismo que o capitalismo. Não foi à toa que gerou a cultura roqueira, transgressora como o capitalista gosta e tão pouco material quanto necessário para implementar a cultura do consumo. Se é assim, essa meninada vai ter que ser muito criativa, pois a mediocridade é a regra. E é preciso dizer, com Luís Britto Garcia, que as transgressões da cultura roqueira são todas desse tipo, simbólicas, nada concreto, não há real oposição a nada. E, novamente citando Baudrillard, só quem aceita e ama a regra pensa em transgredi-la.

- Quando digo político, não digo político partidário, mas relativo ao poder na polis, que é o ambiente humano essencial. A cultura é política, essencialmente, é campo de guerra e, assim, é preciso pensar no conceito de “arma silenciosa”, que é uma arma que se embrenha na cultura e nos atinge sem que saibamos de onde vem o golpe.

Abraços e lhe agradeço pela boa conversa.
Comentário de carlos pereira jr em 17 maio 2012 às 13:37

continuação

Mas você me colocou questões interessantes. Afinal, qual é a relação entre o rock e segunda guerra? Diria que não há uma relação direta. A geração que viveu os anos dourados do rock nasceu durante a guerra e cresceu sobre suas ruinas. Entretanto,  o rock surge nos USA, cujo território não foi palco de guerra, como você bem observou.  Mas quem disse que o advento do rock foi uma reação cultural direta ao trauma da guerra? Só indiretamente podemos relaciona-lo com ela. É obvio que as mudanças trazidas as relações societárias pelo esforço de guerra contribuíram, mesmo que indiretamente, para o advento do rock enquanto expressão juvenil. Basta lembrar, por exemplo, que as mulheres definitivamente ingressaram no mercado de trabalho com o esforço de guerra, mesmo nos USA, o que foi um duro impacto sobre as relações familiares tradicionais. 

De fato o rock é a confluência de varias vertentes da musica popular angro saxã. Só poderia ter surgido e vingado nos USA e na Inglaterra.  Além disso, dependia de uma base tecnológica para sua difusão que só a indústria do entretenimento angro saxã  à época possuía.   Creio que concordamos inteiramente quanto ao rock ser em si mesmo um modo de “interterterimento” . Mas acho que não se deve subestimar suas implicações culturais e sua força enquanto fonte geradora de padrões comportamentais e ethos. 

Bom, creio que ainda não respondi aqui todas as questões que você me colocou. Mas preferi não retardar podia retardar mais essa resposta. Posteriormente aprofundo a prosa.

Compartilhando com você um pouco da minha vivência pessoal do rock, gostaria de dizer que, apesar de curtir um bom rock clássico tipo Beatles, Who, Crean, Led , Sabbath, Iron Butterfly, Jefferson Airplane,etc. minha identidade musical passa radicalmente pelo Heavy Metal em suas variadas vertentes, incluindo o metal extremo do black e death metal.

Aliais, hoje, aos quarenta anos estou me aventurando a aprender guitarra e redefinir minha relação com a musica.  

Admito que, assim como você, também não ando muito satisfeito com o plural cenário do rock contemporâneo. Mas cada época tem o rock que merece,rs. Apesar disso, não deixo de apostar nessa geração mais recente da internet e tecnologias digitais. Ela cresce em um mundo onde, como nunca antes, tudo que é sólido se desmancha no ar. Ela pode ir muito mais longe do que a minha geração jamais sonhou na invenção de um admirável mundo novo de gramaticas de vida. Mas isso é só uma aposta.  Só sei que não serei parte da história deles. Estou demasiadamente preso a minha própria época.

Um detalhe interessante é que durante 10 anos da minha bem curtida juventude fui militante de esquerda no velho partidão. Hoje avalio que esta opção pela politica me afastou um pouco ou diluiu minha identidade com o rock na medida em que definiu outras prioridades. Em outros termos, pessoalmente acho que o rock me afasta de opções politicas, me  leva  a busca de individuação (Que não se confunde com o individualismo liberal).

Por enquanto é só. Desdobro a prosa em breve tentando dar conta dos questionamentos que vc anteriormente me colocou.

       

 

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