Neste grupo, fé e filosofia darão lugar às questões que remetem exclusivamente à História, em detrimento da sua utilização como um instrumento de favorecimento ideológico. Esse enfoque se justifica, inclusive, porque muitos historiadores se perguntaram sobre a impressionante vitória do cristianismo sobre as demais religiões. Uma questão interessante, mas estranha por ter partido de historiadores. Seria algo tão misterioso assim para quem se dedicou ao estudo dos fatos? Ora, o cristianismo não era uma religião, mas uma nova cultura que foi se impondo ao mundo antigo. Uma nova maneira de se pensar, sentir, interpretar e se conduzir a vida. Muito tempo depois do estabelecimento do cristianismo é que surgiram as religiões cristãs. Tratava-se apenas de uma política religiosa. Há algo de complicado nisso? Era só se verificar como, por que e por intermédio de quem isso se tornou possível.
No período do encontro das Eras, antiga e cristã, o único povo capaz de promover uma transformação mundial desse porte, com capacidade e categoria para criar uma nova cultura e dar prosseguimento a ela, era o povo heleno. Essa possibilidade vinha se desdobrando em episódios desde as conquistas de Alexandre Magno, até encontrar o momento propício para a sua eclosão. Não que houvesse um plano pré-estabelecido nos seus mínimos detalhes, naturalmente. O que havia era um ideal universalista e uma disputa pela manutenção da hegemonia cultural helênica, no caso helenística (uma mistura da cultura helênica com as culturas orientais, sob o aspecto religioso).
A cultura helenística, depositada sobre os sedimentos da cultura helênica, mandava no mundo daquela época. Fazia crer que todos viviam felizes naquele mundo à La grega. De fato, as classes médias viviam bem. Não sem motivos, os helenos sentiam-se capazes de liderar o progresso moral da Humanidade e dele não abriam mão. Moral significa costume e eram os costumes helênicos que deveriam prevalecer. Ser grego era chique. Eram imitados em tudo e por todos. Essa influência foi decisiva na vitória do cristianismo.
Pessoas, não ligadas diretamente ao estudo da História, também se perguntam pelo motivo da influência egípcia no cristianismo, quando os judeus detestavam as crenças egípcias. Essas lacunas, certamente, serão preenchidas com o esclarecimento da causa das omissões da História. Durante alguns anos pesquisei o assunto e o resultado da minha pesquisa está resumido num ebook, intitulado Jesus Cristo – um presente de gregos. Sugiro esta leitura apenas como um ponto de partida para o início dos nossos trabalhos. Dowload gratuito em http://www.ebooksbrasil.org/ A pesar de fascinante, religião ainda é um tabu e estou oferecendo outro ponto de vista para a mesma história livre de pressupostos filosóficos. Um presente para quem, como Demócrito, prefere descobrir a razão de ser de uma só coisa a possuir o reino dos Persas.
Quando a gente sabe o que procura, os livros acabam contando.
Mentir em nome de Deus?
Sim. A paixão pelo mítico Jesus Cristo, devida à ocultação do potencial interior do Homem, alertada ao Ocidente pelo gnosticismo pagão, no início da Era cristã, continua ganhando adeptos no Brasil com o movimento neopentecostal. Essa prática antiga prossegue contando também com aqueles que se esforçam para “substanciar” uma historicidade inexistente em defesa da ideologia da fé.
As “provas” clássicas para a existência histórica de Jesus Cristo, ou seja, argumentações mal interpretadas e tendenciosas do texto de Suetônio, adulteradas no de Tácito, Plínio (o moço) e ridiculamente falsificadas no de Flávio Josefo já foram devidamente apreciadas e esvaziadas da possibilidade de provarem alguma coisa. Ainda assim a polêmica continua.
O historiador Will Durant utiliza o termo “guerra” ao se referir à desconfiança quanto à existência do Jesus histórico por parte de alguns autores. No entanto, ao menos, admite a falsidade da mais remota citação não-cristã a Jesus como uma adulteração feita por cristãos, no texto das Antiguidades Judaicas, de Flávio Josefo. Fato notório e amplamente admitido por estudiosos do assunto. Em Contra Celso - obra do escritor cristão, o grego Orígenes (185-254) - Josefo teria sido criticado por nunca ter citado Jesus.
Na verdade nem precisamos de tanto, tais evidências históricas deveriam provir do judaísmo, pois a crônica era um hábito judeu. Fatos de menor importância extraídos do cotidiano eram narrados com freqüência. Ora, numa cidadezinha de poucos milhares de habitantes, como Jerusalém, com ruazinhas estreitas onde a privacidade praticamente inexistia, como é que os acontecimentos públicos citados nos Evangelhos teriam passado despercebidos pela pena dos cronistas da época? Pois é, o nome de Jesus só aparece no Talmude como um registro literário tardio contra a influência cristã, para proteger os judeus na Idade Média.
Mentir em nome de Deus é uma arte para poucos. O brilho intelectual do filósofo ofusca o juízo de terceiros com o prazer estético e sentimental, criando uma opção à percepção de uma realidade nada aprazível. Portanto, a omissão da História se explica pela ação da filosofia, porque a verdade histórica depende da filosofia do historiador. Há muito a filosofia está subordinada à religião e a preservação do mito Jesus Cristo (pilar que sustenta a posse do Antigo Testamento) é fundamental para se evitar um grande escândalo. Sabidamente, os pais da Igreja eram filósofos, e gregos.
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