Os detalhes do dia 31 de agosto e os movimentos diplomáticos durante este último momento de paz na turbulenta Europa de 1939.

Às 19:30h do dia 28 de agosto, realizou-se uma conferência na Chancelaria do Reich, com a presença de Hitler, Heinrich Himmler, Major-General SS Reinhard Heydrich, Joseph Paul Goebbels, Martin Bormann, Halder e outros nazistas graduados. No seu diário, Halder registrou sua impressão pessoal sobre Hitler: "mal dormido, intratável, insegurança na voz, preocupado...".

No dia 29 de agosto, enquanto os sinos dobravam por um Europa moribunda, Sir Neville Henderson - embaixador britânico em Berlim, desde 1937 - foi recebido por Ribbentrop e por Hitler, que exigiu a devolução de Dantzig e do Corredor, mas concordou em entabular conversações diretas com a Polônia. Todavia, o emissário polonês devia chegar a Berlim na quarta-feira, 30 de agosto, isto é, no dia seguinte: o que constituía uma impossibilidade física.

Henderson declarou que a limitação do tempo "hatte den Klang eines Ultimatums" (soava como um ultimato). Mais tarde, declarou: "Naquela noite, deixei a Chancelaria do Reich tomado pelos pressentimentos mais negros".

O último dia de paz - 31 de agosto de 1939

Berlim, 1 hora: Os "pressentimentos" de Henderson foram confirmados por volta da meia-noite de 30 para 31 de agosto, em uma audiência com Ribbentrop, "que me recebeu com uma hostilidade intensa e cuja violência aumentava cada vez que eu fazia uma comunicação".

"Ele não parava no lugar, em estado de grande excitação, cruzando os braços sobre o peito e perguntando se eu tinha mais alguma coisa a dizer. Depois que acabei de fazer todas as minhas comunicações, ele apanhou um documento extenso e começou a ler para mim em alemão, ou melhor, a engrolar com a maior rapidez possível, em um tom de supremo desprezo e contrariedade".

O documento continha as 16 exigências alemãs, ou condições de paz, mas conforme declarou Ribbentrop desdenhosamente, já era acadêmico, ou 'überholt' (obsoleto), uma vez que não chegara a Berlim qualquer emissário polonês. No dizer de Ribbentrop, as exigências alemãs já estavam ultrapassadas.

À 0:30h - meia hora depois da meia-noite - a Chancelaria do Reich transmitiu a palavra de código para a execução do "Caso Branco" - o ataque contra a Polônia.

Berlim, 2 horas: Sir Neville Henderson recebe o embaixador polonês na Alemanha, Josef Lipski, e comunica-lhe a essência de sua entrevista turbulenta com Ribbentrop.

Berlim, 6h30min: O Capitão Houser, de Cavalaria, ajudante de ordens do General Halder, Chefe do Estado-Maior do Exército, difunde as ordens recebidas da Chancelaria: o dia D será 1º de setembro, o dia seguinte; hora H, 4:45h. Halder procura alguns números e transcreve-os no seu diário: a Alemanha dispõe de 2.600.000 homens mobilizados (inclusive 155.000 operários militarizados, trabalhando na muralha ocidental). Deste total, um pouco mais de 1.000.000 de homens - cerca de 34 divisões, a maioria divisões de reserva - estão desdobrados no oeste; o restante - cerca de 1.500.000 homens, mais de 50 divisões (inclusive seis divisões Panzer) acham-se em posição diante da Polônia.

Londres, 7 horas: Sacos de areia são empilhados em torno da Câmara dos Comuns, "a mãe dos parlamentos", e as estações encontram-se entupidas de gente por causa do início da evacuação de 3.000.000 de pessoas, crianças, mulheres, inválidos e velhos, de Londres e de mais 28 cidades inglesas (foi um movimento de massas sem precedentes na história moderna). Já pairava sobre o mundo a sombra do poder aéreo e o medo das bombas.

Berlim, 9 horas: O embaixador italiano em Berlim, Bernardo Attolico, avisa a Roma que a situação é desesperadora: "haverá guerra dentro de poucas horas".

Roma, 11 horas: Palácio Venezia. Ciano e o Duce concordam que "a Itália pode interceder junto a Hitler só se Mussolini apresentar um bom prêmio ao ditador: Dantzig".Ciano dá ciência da conclusão a Lord Halifax.

Berlim, meio-dia: "um ambiente lúgubre... Todo mundo aturdido".

Oslo: Os representantes das potências escandinavas - Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia - expelem a "habitual" declaração de neutralidade.

Varsóvia: Charretes, carroças, trens e caminhões estão cheios de homens que já não são jovens, pois todas as classes de reserva foram convocadas para se juntarem aos mais jovens, já incorporados.

Mar do Norte: Três contratorpedeiros poloneses surgem do pequeno estreito entre o Báltico e o mar do Norte e tomam a rota das ilhas britânicas. Um pouco atrás, depois das sondagens indicarem águas profundas, submarinos alemães submergem.

Berlim, 12h30min: Hitler assina a diretriz número 1 para a conduta da guerra - "uma solução pela força". Mais tarde, Goering indagou: "O que é que eu faço com este troço? Eu sempre soube de tudo isso".

Nova York, 13 horas: A 7ª Brigada de Cavalaria Mecanizada - a única unidade blindada do exército dos Estados Unidos - desfilava pelas ruas da cidade, sob chuva e vento, a caminho de um local de acampamento, encharcado, no "Mundo de Amanhã", a feira mundial de Nova York. As 110 viaturas blindadas e os carros de combate - praticamente o total do poderio blindado do exército - simbolizavam mais o mundo em que vivíamos do que os sonhos cintilantes da feira.

Berlim, 17 horas: Realiza-se uma espécie de chá do "Chapeleiro Louco", tendo como personalidades principais o Marechal Goering e o embaixador Henderson, além de Birger Dahlerus, um negociante sueco que tentava atuar como mediador não-oficial, como intermediário. Goering fala durante quase duas horas sobre as iniqüidades dos poloneses, sobre Hitler e sobre seus próprios desejos de amizade com a Inglaterra.

Conforme observou Henderson, mais tarde, "era uma conversa que não conduzia a nada. Eu pensava no pior... dificilmente ele poderia ter escolhido uma tal ocasião para desperdiçar tempo em conversa, a não ser que tudo já estivesse pronto, até nos mínimos pormenores, para a ação".

Goering: "Se os poloneses não cederem, a Alemanha os esmagará como a piolhos e, se a Inglaterra decidir declarar guerra, isto me entristeceria muito, mas seria a maior imprudência que os britânicos poderiam cometer".

Berlim, 18h15min: Cumprindo ordens de Varsóvia, que, por sua vez, estava pressionada por Londres, o embaixador Lipski procura Ribbentrop. Trata-se de uma das mais curtas entrevistas já registradas. Lipski declara que o seu governo está considerando favoravelmente a proposta de negociações diretas, apresentada pelos ingleses, mas que ele próprio não tem autonomia alguma para negociar. Ribbentrop dispensa-o de volta à sua embaixada. Lipski descobre que foram cortadas as suas comunicações com Varsóvia.

Roma, 20h20min: A companhia telefônica avisa a Ciano que Londres cortou suas comunicações com a Itália. Diz o Duce: "Isto é a guerra, mas declararemos ao grande conselho, amanhã, que não vamos marchar".

Berlim, 21 horas: Por fim, a rádio de Berlim difunde o texto das 16 exigências de Hitler sobre a Polônia; poucos minutos depois Henderson recebe pela primeira vez uma cópia das propostas que Ribbentrop "engrolara" para ele na noite anterior. Era mais uma embromação; os Grupos de Exércitos Norte e Sul já se movimentavam. Mais tarde, Hitler confessou: "Eu precisava de um álibi, principalmente para o povo alemão, que mostrasse que eu havia feito tudo para preservar a paz. Isto explica a minha oferta generosa sobre uma solução para Dantzig e o Corredor".

Europa, meia-noite: O último dia de paz termina com a França mobilizada e a Europa em armas. Em Berlim, Varsóvia, Londres, Paris e Roma, as luzes apagam-se pela segunda vez em um quarto de século.

Às 4:40h do dia 1º de setembro, a Luftwaffe bombardeia os aeroportos poloneses no país inteiro; o velho encouraçado alemão Schleswig-Holstein, em visita "amistosa" ao porto de Dantzig, bombardeia a fortaleza polonesa de Westerplatte; os SS nazistas dominam Dantzig; pelo norte, pelo sul e pelo oeste, os carros de combate alemães atravessam a fronteira - nasce a Blitzkrieg.

Enquanto os cavalarianos poloneses carregavam contra os carros de combate alemães, às 10 horas do dia 1º Hitler justificava sua agressão perante o Reichstag. Caracterizou o assalto alemão como um "contra-ataque", e declarou: "Esta noite, pela primeira vez, tropas polonesas atiraram contra nosso território. A partir de agora, bombas serão respondidas com bombas".

Hitler declarou que não tinha qualquer desavença com a França e a Inglaterra; já no fim da manhã, porém, quando Goering e Dahlerus encontraram-no na Chancelaria, exclamou: "Se a Inglaterra quiser lutar durante um ano, lutarei durante um ano; se a Inglaterra quiser lutar durante dois anos, lutarei dois anos; se a Inglaterra quiser lutar durante três anos, lutarei três anos... Und wenn es erforderlich ist will ich zehn Jahre Kampfen (e se for necessário, lutarei dez anos)".

Em Roma, às 15 horas, o Duce discursou para o conselho de ministros e anunciou a "não-intervenção" italiana.

Dois de setembro foi um dia de expectativa. Os canhões, tanques e aviões alemães matavam os poloneses. O gabinete francês achava-se dividido e Georges Bonnet, Ministro do Exterior francês, agarrou-se à última tábua. A tábua era uma tentativa tardia de mediação apresentada por Mussolini. As capitais da Europa procuravam uma esperança. Em Roma, Berlim, Londres e Paris, os embaixadores iam e vinham; telegramas e respostas entravam e saíam dos ministérios de exterior europeus, mas tudo era em vão. Como condição para aceitar a oferta de Mussolini, o gabinete inglês insistia na retirada das tropas alemãs da Polônia. Ciano sabia que essa condição era inaceitável para Hitler.

Em Berlim, o dia 3 de setembro, domingo, foi "um dia agradável de verão". Foi também o fim de uma era.

Por volta das 9 horas, Sir Nevile Henderson entregou ao gabinete de Ribbentrop um comunicado de Lord Halifax: "Tenho a honra de informar-lhe", dizia na pomposa linguagem diplomática, que a partir das 11 horas (horário britânico de verão) "existirá um estado de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha".

Até às 17 horas, com o seu gabinete cercado pelas dúvidas, e seus líderes pela ansiedade, a França retardou a decisão que os ingleses haviam tomado. Naquele momento, o mundo ouviu um rei pesaroso - George VI - falar com voz vacilante ao seu povo, na Grã-Bretanha e no além-mar: "Pela segunda vez em nossas vidas estamos em guerra".

 

Fonte deste artigo: Batalhas ganhas e perdidas - Hanson W. Baldwin - Bibliex

http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=54

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