Todos registros fílmicos podem serem considerados 'documentos' para pesquisa histórica?

O termo documento do historiador foi ampliado com a Nova História, como nos afirma Le Goff, o filme deve deve ser considerado um documento válido para o historiador: "... há que tomar a palavra 'documento' no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, á imagem ou qualquer outra maneira". (Jacques Le goff em "Documento Monumento" 1984, vol 1, p. 98)
A questão é: Há vários tipos de registro fílmico, como a ficção, o documentário, a telenovela, o noticiário, e atulidades que podem serem vistos como meio de representação da história. Qual das categorias poderiam serem considerados "documentos" para o historiador? A qual dar mais créditos e a qual dar menos créditos como fontes de informações? Temos teoria o suficiente para respaldar tantas diversidades categóricas de documentos fílmicos?

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Respostas a este tópico

aos documentários sem dívida
CAro José Lattes,

segundo sua opinião somente os documentários deveriam serem encarados como "documentos" para a pesquisa do historiador? E as demais produções fílmicas? Não haveria nenhum valor histórico em sua produção e divulgação?
Acredito que todos os filmes, mesmo aqueles que não possuem cenário ou conotação histórica, estão inseridos num dado contexto histórico. Portanto, devem ser encarados como documentos. Creio que todos devem receber créditos como tal, sem distinção. Um abraço
Devemos ter em mente, que os filmes(ficção neste caso) são carregados do contexto, do momento histórico em que são realizados. Mesmo aqueles que não tem como pano-de-fundo algum fato histórico, podem sim estar cheios do momento histórico, dos conceitos, dos valores da sociedade naquele dado momento, daquele lugar específico.
Na minha opinião, todos os registros fílmicos - documentários, filmes, telenovelas, noticiários - podem ser lidos em seu contexto histórico. Isto enriquece a análise historiográfica. Um abraço
Sim, são sim. São documentos para compreender, especialmente, o período em que foram produzidos. E se tratam de outro momento, para compreender o olhar que tinham sobre essse outro momento.
Por exemplo, um filme da década de 60 sobre o século XIX, nos ajuda a entender a leitura que a primeira faz do segundo, assim como nos traz novas concepções sobre o próprio século XIX.
Concordo! Como a maioria dos roteiros se adequam a público dentro do seu tempo, filmes podem apoiar na pesquisa no contexto em que foram produzidos. Não acredito que possam ser usados como documentos de pesquisa histórica.
Olá Fabio. Grato pela participação. Mas não compreendi. Afinal, você é a favor ou contra a ultilização de filmes de ficção como documentação histórica?
Antes da revolução causada pelos historiadores participantes da francesa Escola dos Annales,
a ciência histórica utilizava como fonte de estudo e pesquisa apenas os documentos históricos
escritos. Nada mais era considerado para análise dos acontecimentos e sobre o surgimento da
própria História se não fosse os documentos escritos e, de preferência, oficiais, onde o
historiador pautava toda sua pesquisa em direção ao que acontecera de fato, considerando esta
como a ”verdadeira história”.

A “História Nova”, como ficou conhecida, foi um movimento surgido inicialmente entre os
membros da Revista Annales d’histoire economique sociale fundada em 1929 por Lucien
Febvre e Marc Bloch e que, a partir de 1946 passa a se chamar Annales, Economies, Socités,
Civilizations, que se direcionava a novas abordagens para uma melhor compreensão da
história e para isso estava buscando meios de utilizar outros métodos e conceitos de outras
ciências humanas como, por exemplo, a Sociologia, a Psicanálise e também a Antropologia,
em busca de uma história universal. (BURKE, 1997)

É nesse momento de assimilação dos novos métodos e novos objetos que surge o trabalho do
francês Marc Ferro em 1971 no artigo “O filme: uma contra-análise da sociedade?” publicado
no livro História: novos objetos, de Jacques Le Goff e Pierre Nora.

Em sua obra Cinema e História, Marc Ferro estabelece contatos iniciais para apropriação do
cinema como um documento histórico, apontando alguns caminhos sobre a utilização do
cinema como também um documento e que infelizmente alguns historiadores mais
tradicionais não se dão conta da contribuição que o cinema traz, alegando que a imagem não
tem identidade e, dessa forma, não poderiam considerá-la, vendo com desconfiança e
descrédito as interferências referentes à montagem e os possíveis truques (trucagens),
desconsiderando o filme como documento. (1992, p. 83)

Ferro aponta para uma crítica: tendo os historiadores tal preconceito em relação ao filme não
seria viável questionar o documento escrito já que esse também sofre interferências, um
recorte, uma montagem, e que passam por um tipo de “verniz de seriedade” que o atesta como
histórico e verídico? (Ibidem: 84) O autor aponta a seguinte observação sobre a análise do
filme histórico em sua obra:
Ele está sendo observado não como uma obra de arte, mas sim como um produto, uma imagem-objeto,
cujas significações não são somente cinematográficas. Ele não vale somente por aquilo que testemunha,
mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza. (Ibidem: 83)


Em outras palavras, ele reconhece a película como um testemunho e está ciente das
intervenções, dos recortes e aponta para o que está explícito e implícito, diferenciando o que
não é filme, e reconhecendo ali autoria, produção, público e a sociedade que ele (o filme)
representa e sua ideologias. Assim, as imagens em movimento trazem constatações e, analisar
e ter como fonte um único documento, de forma alguma contribui para a construção do saber
histórico.

Para uma análise mais efetiva do cinema como um documento histórico é necessário que se
perceba e reconheça o caráter hipnótico que a grande tela exerce nos espectadores,
respondendo anseios afetivos e perceptivos. Daí uma necessidade de se distanciar do filme
como entretenimento:
Diante do filme o pesquisador não mais “olha” com recolhimento, nem mesmo com distração,
aborda-o na posição de um observador atento às associações de imagens e sons, a cada
vestígio de significação como se caçasse um tesouro perdido em meio à experiência perceptiva
do cinema. (TOMAIM: 2004)


Entendemos que ao historiador não cabe a função de contemplação às imagens, mas sim de
adentrar os limites que a obra revela, ir à gênese do fato, tentando, de alguma forma, resgatar
o que de fato é histórico.

Em seu artigo “O Cinema o e conhecimento da História”, Cristiane Nova (2007) aponta que o
pesquisador deve dissecar os significados ocultos, isto é, ir além das imagens, buscar
elementos da realidade histórica através da ficção, indo além do que está sendo apresentado e,
assim, compreender as entrelinhas.

É possível perceber que a sociedade exerce influência quando tratamos da produção de um
filme e que o efeito causado nos espectadores é inquestionável. Porém, muitas vezes a
produção cinematográfica não aborda o contexto histórico em si, apenas fazendo uma alusão
em cima de um fato histórico, criando outra história, essa mais comercial e mais atrativa para
o grande público. Assim, podemos reconhecer que “o filme não pode ser visto como uma
reprodução fiel da realidade” (KORNIS, 1992), e quando acontece esse tipo de intervenção
cabe ao pesquisador detectar e diferenciar tais elementos, levando o espectador a um
questionamento, uma reflexão sobre as alterações no filme e o que os documentos escritos nos
apontam.




Espero ter ajudado.
Forte abraço;
Rodrigo Lorenzo.
Como já mencionado, filmes não podem ser considerados documentos, nem mesmo documentários. São pertencentes à uma determinada época e contexto, além de ser produzido segundo a visão de uma pessoa ou um grupo delas. Podemos usar os filmes pra ilustrar ou criar uma visão geral sobre determinado assunto, mas usá-lo como fonte histórica é vago.
Em sua obra Cinema e História, Marc Ferro estabelece contatos iniciais para apropriação do
cinema como um documento histórico, apontando alguns caminhos sobre a utilização do
cinema como também um documento e que infelizmente alguns historiadores mais
tradicionais não se dão conta da contribuição que o cinema traz, alegando que a imagem não
tem identidade e, dessa forma, não poderiam considerá-la, vendo com desconfiança e
descrédito as interferências referentes à montagem e os possíveis truques (trucagens),
desconsiderando o filme como documento.

Ferro aponta para uma crítica: tendo os historiadores tal preconceito em relação ao filme não
seria viável questionar o documento escrito já que esse também sofre interferências, um
recorte, uma montagem, e que passam por um tipo de “verniz de seriedade” que o atesta como
histórico e verídico? (Ibidem: 84) O autor aponta a seguinte observação sobre a análise do
filme histórico em sua obra:
Ele está sendo observado não como uma obra de arte, mas sim como um produto, uma imagem-objeto,
cujas significações não são somente cinematográficas. Ele não vale somente por aquilo que testemunha,
mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza.
Todos podem e devem ser usados. Basta fazer uma contextualização do assunto. Deve-se tomar os mesmos cuidados básicos que devemos tomar com todas as demais fontes historiográficas e históricas.

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