História das Sensibilidades

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"A História das Sensibilidades diz respeito a zonas ainda pouco estudadas (...) Interessa-se pelo indivíduo, suas reações íntimas, suas contradições abertas ou encobertas". (Serge Gruzinski)

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Última atividade: 8 Abr

Como Medir o Imensurável?

(por Sandra J. Pesavento)

Como Medir o Imensurável?... Como recuperar as sensibilidades dos homens do passado?

Eis o grande desafio, poderíamos dizer, sobretudo para aqueles historiadores empenhados em resgatar o sistema de representações que compõem o imaginário social, ou seja, esta capacidade humana e histórica de criar um mundo paralelo de sinais que se coloca no lugar da realidade. Ora, no âmbito da História Cultural, um conceito se impõe, dizendo respeito a algo que se encontra no cerne daquilo que o historiador pretende atingir: as sensibilidades de um outro tempo e de um outro no tempo, fazendo o passado existir no presente. Logo, medir o imensurável não é apenas um problema de fonte, mas sobretudo de uma concepção epistemológica para a compreensão da história. E esta, no caso, insere o conceito das sensibilidades sob o signo da alteridade e da diferença no tempo, sem o que não é possível a configuração do passado, como assinala Ricoeur.



Às sensibilidades compete esta espécie de assalto ao mundo cognitivo, pois lidam com as sensações, com o emocional, com a subjetividade, com os valores e os sentimentos, que obedecem a outras lógicas e princípios que não os racionais.

As sensibilidades são uma forma do ser no mundo e de estar no mundo, indo da percepção individual à sensibilidade partilhada. A rigor, a preocupação com as sensibilidades da História Cultural trouxe para os domínios de Clio a emergência da subjetividade nas preocupações do historiador. É a partir da experiência histórica pessoal que se resgatam emoções, sentimentos, idéias, temores ou desejos, o que não implica abandonar a perspectiva de que esta tradução sensível da realidade seja historicizada e socializada para os homens de uma determinada época. Os homens aprendem a sentir e a pensar, ou seja, a traduzir o mundo em razões e sentimentos.

As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de representação da realidade através das emoções e dos sentidos. Nesta medida, as sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a ser capturado no passado, ou seja, a própria energia da vida, a enargheia, de que nos fala Carlo Ginzburg.

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Trabalhar com as expressões – ou mesmo, as impressões ou marcas deixadas pela vida, com o psicologismo de uma época, com as sensibilidades - múltiplas, cambiantes, instáveis, variadas – dos homens de um outro tempo poderia vir a se constituir em um obstáculo, mas também em uma grande atração. A atitude da hermenêutica é justamente esta que, partindo do estranhamento proporcionado pelo passado, parte em busca dos sentidos ocultos no tempo.

Toda a experiência sensível do mundo, partilhada ou não, que exprima uma subjetividade ou uma sensibilidade partilhada, coletiva, deve se oferecer à leitura enquanto fonte, deve se objetivar em um registro que permita a apreensão dos seus significados. O historiador precisa, pois, encontrar a tradução das subjetividades e dos sentimentos em materialidades, objetividades palpáveis, que operem como a manifestação exterior de uma experiência íntima, individual ou coletiva.

Tais marcas de historicidade - imagens, palavras, textos, sons, práticas - seriam o que talvez seja possível nomear como evidências do sensível. Mas, para encontrá-las, é preciso uma re-educação do olhar. O olhar-detetive do historiador da cultura interpretará tais sinais, estabelecendo nexos e relações para tentar chegar ao tal mundo do passado onde os homens, falavam, amavam e morriam por outras razões e sentimentos.

Ora, sensibilidades se exprimem em atos, em ritos, em palavras e imagens, em objetos da vida material, em materialidades do espaço construído. Falam, por sua vez, do real e do nãoreal, do sabido e do desconhecido, do intuído, do pressentido ou do inventado. Sensibilidades remetem ao mundo do imaginário, da cultura e seu conjunto de significações construído sobre o mundo. Mesmo que tais representações sensíveis se refiram a algo que não tenha existência real ou comprovada, o que se coloca na pauta de análise é a realidade do sentimento, a experiência sensível de viver e enfrentar aquela representação. Sonhos e medos, por exemplo, são realidades enquanto sentimento, mesmo que suas razões ou motivações, no caso, não tenham consistência real.



Recuperar sensibilidades não é sentir da mesma forma, é tentar explicar como poderia ter sido a experiência sensível de um outro tempo pelos rastros que deixou. O passado encerra uma experiência singular de percepção e representação do mundo, mas os registros que ficaram, e que é preciso saber ler, nos permitem ir além da lacuna, do vazio, do silêncio. Desta maneira, quantificar é um problema que se põe a um campo que pretende orientar-se pelo qualitativo. Talvez mesmo escape realmente ao historiador – e não só o da cultura e do sensível - a medida do mundo, a mensurabilidade da vida e do tempo que já se escoou.

O mundo do sensível é difícil de ser quantificado, mas é fundamental que seja buscado e avaliado pela História Cultural. Ele incide justo sobre as formas de valorizar, de classificar o mundo, ou de reagir diante de determinadas situações e personagens sociais. Em suma, as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos.

Pensar nas sensibilidades é, pois, não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade, das trajetórias de vida, enfim. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos.

Enfim, se estudar sensibilidades é um desafio, é um ir além, talvez resida nisto o charme que se encontra presente em toda aventura do conhecimento....
Porque não aceitar o desafio?

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Sensibilidades no Tempo, Tempo das Sensibilidades.
Disponível em: http://nuevomundo.revues.org/index229.html

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Comentário de Ariane Rebouças Araujo em 13 maio 2012 às 10:29

o que difere sensibilidade e imaginário já que ambos estão nesse complexo de subjetividade e irracionalidade dos modos de pensar e sentir dos homens ao longo do tempo? 

Comentário de Haroldo Gomes em 25 janeiro 2011 às 19:50
Clio:diálogo entre a história e a alma pagã, Charles  Pèguy. Vale a pena ler.
Comentário de Aloisio Menezes de Cantuaria em 9 agosto 2010 às 12:36
Achei muito interessante o texto de Sandra Pesavento. Talvez encontre nessa temática explicações convincentes para o comportamento de população rejeitando decisões unilaterais de autoridades. Estou me referindo à atitude da população de Mazagão Velho, na Amazônia Colonial, ante ao seu remanejamento forçado no século XVIII da possessão homônima lusitana no norte da África. Preparei um pequeno texto sobre o assunto e gostaria de postá-lo para apreciação pelo grupo e indicação de fontes. Sou graduando do curso de História na Universidade Federal do Pará.
Comentário de Elisabete Thaumaturgo em 12 maio 2010 às 17:02
Estou feliz em fazer parte desse grupo, e aprender com vocês..
Comentário de Romário Oliveira Santos em 30 agosto 2009 às 17:33
Este é um ótimo grupo de debates, um vez que este campo da história ainda não foi muito explorado. As sensibilidades estão presentes em todos os tempo históricos, em todos os recortes possíveis. Desta forma, o estudo das sensibilidades configura vários aspectos de pesquisa. Parabéns pelo grupo!
Abraços...
 

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