Segundo a Constituição Apostólica Fidei Depositum, para a publicação do Catecismo da Igreja Católica redigido depois do Concílio Vaticano II, João Paulo II, Bispo Servo dos Servos de Deus para a perpétua memória, nos diz:

"Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos".

 

 

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Em nosso caminho pela História da Igreja Católica, como nos diz Pe. Luiz Cechinatto: "encontraremos o belo testemunho dos mártires e de outros santos que se doaram totalmente ao serviço do reino dos céus. Mas, encontraremos também períodos sombrios em que homens da Igreja deram mau exemplo.
Diante das manchas do passado, não se abale sua fé, pois a fraqueza dos homens vem provar que a Igreja é divina. Nessa hora, lembre-se daquele sábio conselho de Gamaliel. Quando os membros do Sinédrio queriam matar os apóstolos porque estes anunciavam Cristo ressuscitado, Gamaliel deu-lhes este parecer: Não ponhais a mão nesses homens. Deixai-os. Se a doutrina deles vem dos homens, ela se acabará por si mesma; mas, ao invés, se verdadeiramente vem de Deus, não conseguireis destruí-la. (cfe. At, 5,34-39a).
Pois bem, aí está a Igreja. Ela atravessou vinte séculos. Passou por muitas perseguições, ciladas, privilégios, períodos de paz e de glória. Padres, bispos, papas e cristãos leigos foram mortos ao longo dessa trajetória de vinte séculos. Em dados momentos da história, parecia que a Igreja iria se acabar. No entanto ela está aí, pronta para anunciar Jesus Cristo no terceiro milênio, tendo à sua frente o "Pedro" número 265, que se chama Bento XVI.
Infelizmente a Igreja traz em sua face as rugas de nossos pecados, mas será sempre sustentada pelo poder de Deus, pois Jesus Cristo, que a fez, disse a seus Apóstolos: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,20b)".
Daniel-Rops, no primeiro volume de sua História da Igreja de Cristo: A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, nos apresenta no primeiro capítulo:
A Salvação vem dos Judeus.
"Nos últimos anos do reinado de Tibério, isto é, por volta do ano 36 ou 37 do nosso calendário, espalhou-se entre as colônias judaicas dispersas pelo Império um rumor que logo suscitou o mais vivo interesse.
Tudo estava em calma neste mundo mediterrâneo, que em três séculos Roma refundira segundo os seus princípios; tudo neste imenso Império dava uma impressão de ordem e estabilidade. É verdade que, tendo-se retirado voluntariamente para os rochedos de Capri, onde se tinham edificado doze luxuosas casas de campo destinadas exclusivamente aos seus prazeres, o já mais que septuagenário Imperador despendia o que lhe restava de vida entregue à devassidão e aos mais cruéis divertimentos, enquanto a aristocracia senatorial, já farta de vilezas e delações, olhava ansiosamnete para aquela ilha donde não lhe chegavam senão sentenças de morte. Mas as fantasias sangrentas do velho misantropo não punham em risco o equilíbrio do Estado; a capital continuava calma, as províncias mantinham-se perfeitamente submissas, e tanto em terra como no mar o comércio prosperava maravilhosamente.
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Também na Palestina, a menor das regiões do Império, não parecia acontecer nada de excepcional. Reinava a ordem em Jerusalém, sob a utoridade desconfiada e às vezes brutal do procurador Pôncio Pilatos. A comunidade judaica, tendo aceitado voluntariamente ou pela força a tutela romana, levava, como vinha fazendo havia cinco séculos, a mesma vida minuciosa de ritos e observâncias conformes aos preceitos rígidos da Torah, sob a vigilância atenta do Sinédrio. Quem poderia, pois, imaginar que uma obscura notícia, contestada com a mesma rapidez com que fora conhecida, e que a "asa do pássaro" levava aos quatro cantos do mundo, havia de abalar violentamente esse mesmo mundo? E que, em menos de quatrocentos anos, surgiria aos olhos de todo o Império como a revelação da Verdade?
Essa extraordinária mensagem provinha de um pequeno grupo de judeus de Jerusalém. Quem os encontrasse nos átrios sagrados ou pelas tortuosas ruelas da Cidade Santa, nada notaria neles que os distinguisse dos demais fiéis. Dotados de uma fé viva e exemplar, eram vistos freqüentando assiduamente o Templo, geralmente reunidos sob o Pórtico de Salomão (cfe. At 5, 12 e 3, 11; Jo 10, 23), ou recitando todos os dias as piedosas ladainhas das Dezoito Bênçãos, ao nascer do sol e à hora nona, guardando o sábado (Lê-se em São Mateus 24, 20: "Orai para que a vossa fuga não tenha lugar no inverno ou em dia de sábado". É uma prova clara de que, na época em que o Evangelho foi escrito, a comunidade cristã observava o rigoroso descanso sabático), e todas as prescrições rituais, e jejuando até duas vezes por semana (Enquanto Jesus vivia, os seus discípulos foram censurados por não jejuarem, ao que o Mestre respondeu: "Acaso os companheiros de bodas podem jejuar enquanto está com eles o esposo? Dias virão, porém, em que lhes será arrebatado o esposo, e então eles jejuarão" (Mc 2, 19-20). A Igreja primitiva manteve o costume do jejum bissemanal, que fora introduzido pela seita dos fariseus, como se vê pelo monólogo da fariseu no Templo, na famos parábola do fariseu e do publicano, cfe. Lc 18, 12), segundo o costume ancestral dos fariseus.
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Não pertenciam às classes dirigentes, aos "príncipes dos sacerdotes" ou aos "anciãos do povo". Apenas algumas poucas personalidades de destaque, como Nicodemos, mantinham com eles relações de amizade. Na sua maior parte, eram gente humilde, saída da plebe, ou seja am-ha-arez, daqueles que os escribas instruídos e os ricos saduceus olhavam com suspeita e desprezo. Muitos deles eram de origem galiléia, o que logo se notava pelo sotaque. Mas vinham também de outras regiões da Palestina, assim como das mais longínquas colônias judaicas em terras de infiéis, do Ponto, do Egito, da Líbia e da Capadócia (cf. At 2, 9); encontravam-se até entre eles romano e árabes: uma curiosa amálgama.
Ea comum reunirem-se à parte para realizar certas cerimônias que, embora ainda judaicas na aparência, tinham para eles um novo significado; assim, por exemplo, as refeições tomadas em comum, no decorrer das quais os ritos antigos eram interpretados de forma estranha. Ao mesmo tempo, reinava entre eles uma grande harmonia. Inicialmente, haviam-se denominados discípulos, porque tinham tido um Mestre, um Fundador; mas depois pareceu-lhes que era mais conveniente outra expressão para designarem a misteriosa comunhão que selava o seu acordo mútuo, e daí em diante passaram a charmar-se irmãos.
Mas não formavam uma seita como tantas outras que se conhecem em Israel. Não exibiam a austeridade exterior dos fariseus - que se mostravam constantemente com os filcatérios na fronte, vestidos de luto e com o andar conscienciosamente grave -, nem passavam o tempo discutindo sobre os mil e um preceitos que regulamentavam o descanso do sábado. Também não fugiam do mundo, como esses agrupamentos de essênios que, nas solidões do Mar Morto, tinham instalado verdadeiras formações conventuais, multiplicavam os jejuns, renunciavam às mulheres e, vestidos de linho branco, se tornavam vegetarianos.
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Por outro lado, não tinham constituído qualquer sinagoga independente, ou kénéseth, como a Lei autorizava, desde que houvesse um mínimo de dez fiéis; assim o tinham feito muitos núcleos judaicos vindos das colônias longínquas, os quais, à exceção das cerimônias coletivas do Templo, gostavam de orar a Deus junto com os seus compatriotas. Não eram gente que procurasse isolar-se ou recluir-se; pelo contrário, mostravam-se acessíveis a todos, e os seus líderes convidavam incessantemente as almas piedosas a unir-se ao seu pequeno grupo.
Se se quisesse enquadrar esses homens numa das correntes religiosas estabelecidas, a única que, a largos traços, lhes conviria seria a dos "pobres de Israel", os anawim (chegou-se a pensar que existiria uma espécie de comunidade organizada que se teria chamado "pobres de Israel". Mas esta tese já não é aceita hoje, e no movimento dos anawim reconhece-se antes uma atitude geral do judaísmo mais tradicional, uma corrente de pensamento vinda das profundezas da consciência judaica, humilde e totalmente fiel, que se exprimiu em muitos salmos do Antigo Testamento, bem como em textos não canônicos, tais como os Salmos de Salomão e o Testamento dos XII Patriarcas.), que, escandalizados com o luxo da casta sacerdotal e demasiado iletrados para se alinharem ao lado dos fariseus, reagiam com humilde zelo contra tudo o que lhes parecia mau no povo eleito, e que não tinham outra regra de vida senão aquela cuja fórmula perfeita lhes fora dada pelo salmo: "Feliz aquele que teme Javé e que segue as suas pisadas" (Sl 128, 1).
Que laço unia então os fiéis desta comunidade tão pouco definida? Que laço tão forte era esse que, para manter coeso este grupo, não necessitava de nenhuma barreira exterior? E por que ficavam agrupados em Jerusalém, como se nesse palco tradicional da ação divina estivesse a ponto de ocorrer algum acontecimento cujo segredo sõ eles possuíam?

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A resposta resumia-se numa breve frase, em que se condensava toda a fé daqueles homens: "O Messias veio para o meio de nós". O mundo deixou que esta fórmula se desgastasse, e ela perdeu o seu sentido de revelação misteriosa e a sua revolucionária novidade. Para avaliar o peso que possuía então, seria preciso ir ao encontro das raízes vivas da tradição judaica e sentir no mais profundo do ser aquela plenitude de amor e aquele terror augusto que uma alma fiel experimentava à simples evocação dessa vinda.
A corrente messiânica tinha a sua origem no âmago da história de Israel. Estivera ligada inicialmente ao dogma nacional da eleição divina, e entroncava através dos séculos com a fé na antiga promessa feita ao patriarca Abraão por Javé e depois reafirmada muitas vezes: a Jacó no sonho de Betel, a Moisés no Sinai fumegante, aos Reis na glória da sua capital.
Mesmo quando a desgraça fez soprar o seu vento de morte sobre o povo eleito, nada conseguiu fazer secar essa água viva. Pelo contrário: mais poderosa, mais precisa, a certeza ancestral convertera-se em esperança e consolação. Os grandes Profetas tinham-se referido a ela sem cessar. Isaías, num capítulo admirável - o décimo primeiro -, evocara detalhadamente os dias em que a raiz de Jessé seria "como um estandarte desfraldado por sobre os povos". Ezequiel vira os mortos ressuscitarem e a Jerusalém futura renascer das cinzas da antiga. O livro de Daniel, abrangendo toda a história no seu conjunto, designara-lhe o fim providencial: a instalação do Reino de Deus sobre a terra pela restauração gloriosa de Israel e pelo estabalecimento de um povo de santos.
Foi principalmente após a volta do Exílio que esta grandiosa imagem se individualizou. A realização da antiga promessa havia de ser levada a cabo por Deus, evidentemente, mas não de um modo direto. O Altíssimo havia de servir-se de um intermediário sagrado para lhe dar cumprimento, de um Ungido, de um Messias, de um Cristo. Essa tendência profunda que jaz no coração de cada homem, de encarnar os seus sonhos mais caros em seres que ele possa amar, coincidia com o dogma nacional da eleição divina. Confusa, contraditória, mas singularmente presente nas consciências, tinha-se imposto cada vez mais a imagem de um personagem sobrenatural que viria restituir Israel a si mesmo e levar a cabo a obra de Javé.
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Não se pode pôr em dúvida que, no começo do primeiro século da nossa era, a corrente messiânica irrigava tudo o que havia de melhor na consciência judaica. As esperanças temporais, neste período, pareciam definitivamente caducas; os descendentes dos Macabeus haviam-se afundado em sangue e os pequenos príncipes da linhagem de Herodes bem como os funcionários de Roma, repartiam entre si a Terra Prometida. Mas não havia judeu algum que pensasse em entregar-se ao desespero. Ao contrário, basta abrir os Evangelhos para logo se perceber o frêmito de esperança que percorria aquela raça santa. Quando João Batista pregava nas margens do Jordão, os sacerdotes e os levitas foram perguntar-lhe se era ele o Messias. André, correndo ao encontro de Simão, grita-lhe: "Encontramos o Messias". E a mulher samaritana, na sua humilde fé, confessa ao seu interlocutor diante do poço de Jacó: "Eu sei que o Messias está para vir. Quando ele vier, far-nos-á saber todas as coisas" (Jo 4, 25).
É verdade que, nos diversos setores da sociedade judaica, esta imagem era interpretada de maneiras muito diferentes. Cada um compreendia o messianismo conforme o seu temperamento e a sua cultura. Um nacionalista fanático via o Salvador como uma espécie de Judas Macabeu, impiedoso para com os inimigos; um fariseu representava-o como um Mestre eminentemente virtuoso, a encarnação viva da Lei santa; o povo humilde, sempre ávido do maravilhoso, rodeava-o do sobrenatural e ilusório. Às vezes, aproveitando-se da violência desta esperança, surgiram aventureiros que arrastavam os seguidores para a realização imediata dessa promessa; chamavam-se Judas, Simão, Atronge ..., mas todos, um após outro, depois de algumas semanas de agitação, eram metidos na ordem pela autoridade, sem que esse fato, no entanto, servisse de lição a novos pretendentes.
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Um gênero literário extremamente difundido entre o segundo século antes de Cristo e o primeiro da nossa era explorava incansavelmente este filão: o gênero apocalíptico, cujo ponto de partida se pode descobrir no livro bíblico de Daniel, e cujo remate se há de encontrar no Apocalipse de São João. Essa literatura estava permeada de uma estranha poesia, atulhada de dissertações semi-sublimes, semi-absurdas, em que o sonho inflamado de uma nação angustiada se misturava com as especulações de intelectuais peritos nas disciplinas do mistério. A esperança messiânica mais concreta e mais temporal servia de base a doutrinas escatológicas que pretendiam revelar os últimos fins do homem e o sentido último dos dramas cósmicos.
Estes livros, que a Igreja excluiu do cânon do Antigo Testamento, constituem um conjunto compacto e estranho, que teve como prolongamento a Cabala e o Zohar. O Livro de Enoch, o Livro dos Jubileus, o Testamento dos XII Patriarcas, a Ascensão de Moisés e, um pouco à margem, os Salmos de Salomão - onde a intenção piedosa é mais patente -, bem como mais tarde o Apocalipse de Esdras, todos esses apócrifos exerciam certamente uma profunda influência sobre a alma judaica da época.
São obras que mostram até que ponto a vinda do Messias era esperança no Israel de então como uma revelação fulminante, que se faria acompanhar de súbita comoção. Cantava-se: "Felizes aqueles que viverem nos dias do Messias, porque verão a felicidade de Israel e todas as tribos reunidas". Mas também se repetia de boca em boca que a vinda do Ungido seria marcada por sinais atrozes: "A madeira sangrará, as pedras falarão e em muitos lugares do mundo se abrirá o abismo". A alegria da expectativa estava, pois permeada de pavor.
É todo este conjunto psicológico, composto de uma fé simples, de uma piedade viva, de um desejo de vingança, de um terror secreto, do gosto popular pelo fantástico, em suma, é todo este estranho eretismo espiritual que seria necessário tentar apreender para se abarcar o que poderia significar a espera do Messias numa alma israelita dos anos 30 d.C., bem como os sentimentos de assombro e angústia que a dominariam quando lhe afirmassem que tinha chegado a hora.
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"Fazei soar em Sião a trombeta das festas! Gritai em Jerusalém o grito do mensageiro da alegria! Dizei que Javé, na sua misericórdia, visitou Israel! De pé, Jerusalém, ao alto os corações! Olha os teus filhos do nascente e do poente reunidos pelo Senhor! A sua alegria em Deus vem também do norte, e o seu agrupamento das ilhas mais longínquas. Os montes nivelaram-se, as colinas esfumaram-se e as florestas projetaram a sua sombra sobre os caminhos por onde eles haviam de passar. Para que estivessem preparados para a festa do Senhor, os bosques deram-lhes toda a espécie de madeiras aromáticas. Jerusalém, cobre-te com as tuas vestes de glória, limpa a tua túnica de santificação. Porque Deus prometeu a felicidade a teu povo, no século presente e na sequência dos séculos. Que venha, que se realize a promessa de Deus feita outrora a nossos pais e que, pelo seu santo nome, Jerusalém seja para sempre exaltada!" (Salmos de Salomão, 11).
Tal era a oração do judeu crente. E os membros da comunidade dos "irmãos" respondiam a esses anseios tão íntimamente enraizados que todas essas coisas já se tinham reralizado e que o "grito do mensageiro da alegria" já retinira pelas colinas. Um deles, Simão, cognominado Pedro, que se comportava como seu chefe, falando um dia perante um numeroso auditório, fez estas afirmações, ainda mais difíceis de admitir: "Varões israelitas, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, varão provado entre nós com milagres, prodígios e sinais que Deus fez por seu intermédio no meio de vós, como vós sabeis, foi entregue segundo os desígnios da presciência de Deus, e vós o crucificastes e o matastes por mão de iníquos [...] Este Jesus, Deus o ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas [...] Tenha, pois, por certo a casa de Israel que Deus fez Senhor e Cristo a Jesus, que vós crucificastes" (At 2, 22-23.32.36).

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A fé em Jesus e os penhores espirituais.
Donde tiravam estes homens a convicção que proclamavam tão alto? Jesus de Nazaré, cujo destino humano e cuja missão divina Pedro resumira perfeitamente em tão poucas palavras, proclamara-se o Messias. Numa hora decisiva, ao ser levado à presença do Sumo Sacerdote, tivera de formular uma resposta em que arriscava a própria vida, e não hesitara em reivindicar o título de Salvador. "És tu o Cristo, o filho de Deus bendito? Jesus disse: Eu sou, e vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso e vir sobre as nuvens do céu" (Mc 14, 61-62).
Esta mesma frase, considerada blasfema, levara os chefes de Israel a usar de todo o rigor contra Ele e a condená-lo à morte. Um testemunho selado com sangue podia ser de extremo valor; mas quantos aventureiros não conheceu a história que estiveram prontos a sacrificar tudo, inclusive a própria vida, no encalço de uma quimera?
Enquanto Jesus fora vivo, ainda se podia compreender esta fé. As testemunhas afirmavam que dEle emanava um poder singular, feito de resplendor espiritual e de ternura, uma força inexplicável que dominava as inteligências, enchia de amor os corações e, derramando-se nas almas, as elevava ao ápice. Tinham sido inúmeros os exemplos de homens e mulheres que, já no primeiro contato, se tinham sentido ligados a Ele como se ele os estivesse esperando desde toda a eternidade e os tivesse chamado pelo nome. E desde então, para segui-lo, todos eles se tinham disposto de bom grado a renunciar à sua antiga vida e a realizar em si mesmos uma transformação total.
Depois de morto, porém, como pudera manter-se a convicção de que o Crucificado do Calvário era realmente o Vencedor do Tempo? O mistério da fé em Jesus, simultaneamente razão e graça, existia já nessas longínquas origens; e explodirá em toda a sua evidência nas horas dramáticas em que milhares de seres humanos a anteporão a tudo, mesmo à própria vida, perante os carrascos de Roma; assim como explodirá mais tarde no silêncio dos Carmelos ou das Cartuxas, bem como no obscuro sacrifício das missões ou dos asilos, prolongando-se através dos séculos.

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Os homens que tinham seguido Jesus enquanto estava vivo não eram senão homens, e por isso não estavam isentos das fraquezas que conhecemos. Quando o Sinédrio decidira pôr fim ao movimento do Galileu, parecera ter sido bem sucedido. O terror tinha dispersado o pequeno grupo, e o primeiro dos discípulos chegara a renegar o Mestre. Ao pé da Cruz via-se apenas um punhado de teimosos, sobretudo umas mulheres; os outros tinham fugido para se esconderem, conforme se dizia, em alguns dos túmulos helenísticos que se erguiam lá no fundo dos barrancos. Por que seria então que uns judeus piedosos, bons cidadãos da Cidade Santa, se mantinha fiéis à memória desse agitador vencido, que deveria parecer-lhes alguém justamente punido pelas autoridades?
A semelhantes perguntas, os membros da comunidade dos "irmãso" davam uma resposta situada no plano das realidades sobrenaturais que deviam manifestar a era messiânica. Sim, eles acreditavam em Jesus-Messias apesar de tudo, apesar do atroz desfecho do seu destino terreno, não por um simples apego sentimental, mas porque estavam na posse de provas flagrantes do seu caráter providencial. Essas garantias sobrenaturais eram três, e todos os livros escritos pela primeira geração cristã - os Evangelhos, os Atos e as Epístolas - sublinham a sua importãncia e mostram que sobre elas que repousava a fé.
A primeira fora dada pelo próprio Jesus, na véspera de sua morte, na noite de quinta-feira. Partilhando com os seus a sua última Ceia Pascal, partira o pão, tomara uma taça de vinho e dera graças, dizendo: "Este é o meu corpo, que é entregue por vós[...]. Este cálice é o novo testamento em meu sangue, que é derramado por vós" (Cfe. Lc 22, 19-20). O gesto sintetizava numa fórmula sacramental um ensinamento sobre o qual Ele insistira muitas vezes. Quatro vezes, pelo menos, advertia os seus do drama que havia de pôr fim à sua missão sobre a terra, frisando a necessidade inelutável da sua morte e o sentido sacrificial que comportava. Em Cafarnaum, no admirável discurso sobre o Pão da Vida, tinha precisado antecipadamente esta doutrina: "Eu sou o Pão vivo descido do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo" (Jo 6,51)

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No entanto, Jesus não fora compreendido naquela ocasião. Cegados pela imagem, muito difundida em Israel, de um Messias glorioso e predestinado à vitória, os discípulos e até o próprio Pedro haviam-se recusado a acreditar na necessidade desse sacrifício. Mas, ao se deterem nos fatos, e uma vez transposto o momento bem compreensível da perturbação emocional, a morte do Mestre tinha assumido uma importância decisiva para a fé dos seus. Em primeiro lugar, essa morte provara de forma evidente os seus dons proféticos. Além disso, estabelecera entre Ele e os seus discípulos um laço que nada poderia quebrar, uma vez que era o laço de uma participação na sua vida divina, conforme a sua própria promessa. Por fim, como Ele também dissera, era o sinal de uma "nova aliança". Para os judeus crentes, familiarizados com os textos sagrados, era manifesto que o mistério da Aliança, desde o sacrifício de Abraão até o do Cordeiro pascal, sempre estivera ligado à necessidade do sacrifício; os discípulos puderam compreender, assim, o verdadeiro alcance da imolação do Calvário.
Da mesma forma como Israel, no decorrer dos séculos, tinha ido buscar a sua força na convicção inquebrantável da Antiga Aliança com Deus, assim os fiéis de Jesus iriam enfrentar a história apoiados na certeza de que a morte do Mestre era, para eles, o penhor de uma Nova Aliança.
Por outro lado, o caráter sobrenatural do destino de Cristo tinha sido confirmado, com todo o esplendor, pelo mais admirável dos milagres: a Ressurreição. Quando, na manhã daquele domingo de Páscoa, as santas mulheres tinham chegado ao túmulo, encontrando-o vazio, haviam corrido a levar a notícia aos discípulos aterrados, e jorrara sobre eles uma torrente de luz. Mas este efeito não era imediato; o fato parecia tão inacreditável que houve certa hesitação em admiti-lo. Desconfiara-se daquelas "história de mulheres". O próprio Tomé quis ver antes de acreditar. Mas, confirmada por numerosas testemunhas, a Ressurreição passou a ocupar um lugar central na nova fé; tornou-se o fecho da abóbada do edifício doutrinal.
Foi assim que Pedro o proclamou solenemente como uma certeza. Quando se fez necessário substituir um dos membros, no colégio que dirigia a pequena comunidade - Judas enforcara-se, desesperado pela sua traição -, insistiu-se expressamente em que o substituto devia ser "uma testemunha da Ressurreição" (cf. At 1, 22). Mais tarde, o maior mensageiro da nova fé, São Paulo, escrevendo a um grupo de fiéis, havia de exclamar: "Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé" (1Cor 15,14).

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Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

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