Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se segue à época neotestamentária e chega até ao início da Escolástica, isto é, os séculos II-VIII da era vulgar. Chama-se Patrística, porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja, os mestres da doutrina cristã. Dada a culminante grandeza de Agostinho, a Patrística divide-se em três períodos: antes de Agostinho, Agostinho, depois de Agostinho.

Obra consultada: História da Filosofia, de Umberto Padovani (da Universidade de Pádua) e Luís Castagnola (da Universidade Federal do Paraná), Melhoramentos,  em 15 edição, março de 1990.

Tags: Cristianismo, Filosofia, Igreja, Padres, Patrística, Religião

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  1. 1.            A Patrística Pré-Agostiniana

O II século: os apologistas e os contraversistas

A Patrística do segundo século é caracterizada pela defesa patrística do cristianismo perante o paganismo, o hebraísmo e a heresia. Os Padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados apostólicos, os apologistas e os contraversistas. Interessam-nos em especial os segundos – por exemplo, São Justino Mártir – pela defesa racional do cristianismo perante o paganismo, ao passo que os primeiros e os últimos têm sua importância religiosa, dogmática, no seio do próprio cristianismo.

O III século: os alexandrinos e os africanos

O pensamento cristão já se vai firmando também no mundo cultural da época – III século d.C. – particularmente em Alexandria do Egito. É este o centro da cultura helenista-romana. E afirma-se especialmente no didascaléion, escola catequética, teológica, cujos máximos expoentes são: Clemente – pedagogista – e, Orígenes – filósofo. É própria dos padres alexandrinos a distinção dos crentes, cristãos, em simples fiéis, que tudo creem sem saber, e em gnósticos ortodoxos, que acreditam no que sede acreditar, e sabem o que deve ser conhecido.

Enquanto os padres alexandrinos têm grande estima pelo pensamento helênico e procuram assimilá-lo com o cristianismo, em harmonia com a índole especulativa dos gregos, os padres africanos – latinos – olham-no com suspeita, em harmonia com a índole prática do gênio latino. O maior dos africanos é Tertuliano, defensor do cristianismo no campo jurídico.

O IV século: os luminares de Capadócia

O século quarto representa a época área da Patrística. Basta mencionar, para a igreja oriental grega, Atanásio, o malho do arianismo, os luminares de Capadócia – Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa e João Crisóstomo, o mais ilustre representante da escola antioquena: para a igreja ocidental latina, Ambrósio e Jerônimo. A grandeza da Patrística do IV século não é tanto científica, filosófica, quanto dogmática, teológica. As grandes heresias da época obrigaram os pensadores católicos a se dedicarem sobretudo à defesa do dogma e, por consequência, à teologia. A divisão da Patrística em oriental, grega, e ocidental, latina - já iniciada no século precedente com os alexandrinos e os africanos  - torna-se definitiva no século IV. Os padres gregos dedicar-se-ão especialmente às questões especulativas, teológicas, em harmonia com as tendências aristocrático-culturais helênicas, ao passo que os padres latinos se dedicarão de preferência aos problemas práticos, morais, disciplinares, políticos – liberdade, predestinação, graça – de mais comum e imediato interesse. Tal divisão da Patrística em grega e latina, será favorecida e acentuada pela separação do império romano em oriental e ocidental. O quarto século viu, enfim, constituir-se o monaquismo oriental, concretização dos conselhos evangélicos. O monaquismo oriental é contemplativo e individualista, o monaquismo ocidental será ativo e social.

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  1. 1.            Aurélio Agostinho

      A vida e as obras

      Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, na Numídia, em 354, filho de Patrício, pagão, e de Mônica, cristã. Estudou em Tagasta e Cartago, onde se desviou moral e intelectualmente (dualismo maniqueu). Acabados os estudos superiores, foi para Milão como mestre de retórica; entretanto, bem cedo, afastou-se do ensino e, convertido ao cristianismo, voltou para a África. Essas as vicissitudes exteriores da vida de Agostinho. As vicissitudes espirituais são, depois de uma fase cética, a neoplatônica e, finalmente a cristã. Chegará ao cristianismo, antes por via do intelecto do que por via da vontade. Depois da conversão, Agostinho voltou para a África, distribuiu todos os haveres aos pobres; ordenado padre é, em seguida, consagrado bispo de Hipona, onde faleceu em 430. Agostinho escreveu muitas obras de interesse religioso e teológico; algumas também de interesse filosófico, em especial os diálogos e os escritos contra os maniqueus. Todas as obras de Agostinho, porém, têm um interesse filosófico, tratando de problemas filosófico teológicos, devido à sua característica filosófico teológica.

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   O pensamento: a gnosiologia

    Agostinho sente praticamente e platonicamente a filosofia como solucionadora do problema da vida, a que unicamente o cristianismo pode proporcionar uma solução integral. O problema gnosiológico foi profundamente sentido por Agostinho na fase cético-acadêmica do seu pensamento. Embora desvalorizado, platonicamente, o conhecimento sensível com respeito ao conhecimento intelectual, admite ele que os sentidos, bem como o intelecto, são fontes de conhecimento. E admite ele que os sentidos, bem como o intelecto, são fontes de conhecimento. E como pra a visão sensível, além dos olhos e a coisa, é mister a luz física, assim, para o conhecimento intelectual seria necessário, segundo ele, um lume espiritual, que vem de Deus, o Verbo de Deus, para o qual são transferidas as ideias platônicas.

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A metafísica

Em relação com esta gnosiologia, e em dependência dela, a existência de Deus é provada, fundamentalmente, a priori, enquanto no espírito humano haveria uma particular presença de Deus. Segundo Agostinho esta presença, se comprendia na Verdade de Deus, no Verbo de Deus, que ilumina e torna verdadeiros os nossos conhecimentos. Quanto à natureza de Deus, Agostinho tem uma idéia perfeitamente exata: Deus é poder racional infinito, eterno, imutável, espírito, pessoa. Sendo, pois, Deus também a Trindade do Padre, Verbo e Espírito Santo, esforça-se Agostinho por descobrir filosoficamente as imagens da Trindade em todo o mundo; toda criatura seria, essencialmente, ser, saber, vontade.
Também a psicologia agostiniana está em harmonia com o seu platonismo cristão. Certamente o corpo não é essencialmente mal, visto que é uma criatura de Deus, que fez boas todas as coisas. Mas a união da alma com o corpo é, de certo modo, extrínseca, acidental. A alma e o corpo não formam a unidade metafísica, substancial, como na concepção aritotélico-tomista, graças à doutrina da forma e da matéria. Entre as faculdades da alma, a vontade tem a primazia e não o intelecto.
Quanto à cosmologia, mencionamos a famosa doutrina agostiniana das rationes seminales - germes racionais. Segundo esta doutrina, Deus na criação originária e simultânea das coisas, teria criado algumas completamente realizadas; de outras coisas teria criado apenas as causas necessárias para produzi-las, predispondo estas causas de maneira que dessem origem, mais tarde, desenvolvendo-se, às coisas.

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A moral

Naturalmente a moral agostiniana é teísta e cristã e, portanto, transcendente e ascética. Agostinho até acentua estes caracteres, devido ao seu rigorismo e a sua concepção do pecado original. Nota característica da sua moral é o voluntarismo, quer dizer, o primado da ação, do prático - próprio do pensamento latino -, contrariamente ao pensamento grego, que reconhece o primado do teorético, do conhecimento. A virtude essencial é o amor de Deus; as outras virtudes são especificações deste amor de Deus. A vontade humana é, entretanto, livre e pode fazer o mal, porquanto é vontade de um ser limitado. Em tal caso, a vontade é má; não é, porém, causa eficiente, e sim deficiente, da ação viciosa, visto que o mal não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem: com efeito, não podendo a criatura lesar a Deus, prejudica-se a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza.

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