Como homem, Jesus foi marcado pela geografia, pela história e cultura de seu país. Sofreu as condições sociais e econômicas, teve que tomar partido nos conflitos políticos.

Trataremos aqui do ambiente sociopolítico e econômico do tempo de Jesus, mostrando a ingerência do império romano e da situação econômica da Palestina no primeiro século de nossa era. Trataremos também das instituições religiosas, da estrutura da sociedade judaica, dos grupos político-religiosos e da resistência judaica que  terminou com a tomada de Jerusalém no ano 70 e com sua ruína no ano 135.

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São numerosos os estudos sobre esse assunto e de variado valor. Vou apresentar o mesmo através da obra: A Palestina no tempo de Jesus, dos autores Christiane Saulnier, licenciada em teologia, professora-assistente de história na Universidade de Paris I (Sorbonne) e Bernard Rolland, exegeta de Nancy, publicado pelas Edições Paulinas.

"A história da Palestina está estreitamente ligada à de Roma a partir do séc. I a.C. Para melhor compreendê-la, é portanto necessário apresentar rapidamente esse pano de fundo constituído pelo Império Romano, descrevendo a situação política, geográfica, social e econômica.
"No século I a.C., Roma, senhora da maior parte do mundo mediterrâneo, passa por uma profunda evolução. Desprovida da necessária infra-estrutura administrativa, a velha Cidade-Estado, que é Roma, assume com dificuldade a direção daquele imenso império. Os governadores que ela nomeia nem sempre são aqueles tipos gananciosos denunciados pela imaginação tradicional, mas é certo que as províncias estão muitas vezes sujeitas a uma gestão egoísta, por falta duma verdadeira política de fusão. Essa ruptura entre Roma e seu império territorial reforça o poderio dos chefes militares, de sorte que o Senado não controla senão muito imperfeitamente a política externa, pela qual teoricamente ele é responsável. Ao mesmo tempo ao nível interno, as instituições tradicionais parecem incapazes de resolver os conflitos entre os homens e as facções. As guerras civis, que irrompem em 49 a.C. e que dilaceram o conjunto do mundo romano durante mais de quinze anos, são o resultado desta violência endêmica".
Apresento aqui um resumo cronológico.
Antes de Cristo
49 César entra na Itália com seu exército; começo das guerras civis. Ditadura de César.
48 Pompeu é vencido na batalha de Farsala.
44 Assassinato de César.
43 Triunvirato: Marco Antônio, Otávio e Lépido.
42 Os "Republicanos" são derrotados em Filipos.
31 Batalha de Actium: derrota de Marco Antônio e Cleópatra.
27 Otávio recebe o título de Augusto. O Senado lhe confirma seu poder tribunício e lhe reconhece o dominio procunsular sobre as províncias imperiais.
12 Augusto toma o título de Pontífice máximo.
2 Augusto é proclamado Pai da Pátria.

Depois de Cristo
14 morte de Augusto.
14-37 Tibério.
37-41 Calígula. dinastia dos Júlio-Cláudios
41-54 Cláudio
54-68 Nero
68-69 reinados efêmeros de Galba, Otão, vitélio.
69-79 Vespasiano
79-81 Tito dinastia dos Flávios
81-96 Domiciano
96-98 Nerva
98-117 Trajano
117-138 Adriano
138-161 Antonio, o Pio dinastia dos Antoninos
161-180 Marco Aurélio
180-192 Cômodo"
Continua ....
Continuação ...
"Com o reinado de Augusto, a paz - a pax romana - estende-se sobre o mundo e os poetas veem neste período o retorno da "idade áurea".
Uma inscrição achada em Priene (perto de Mileto, na Ásia Menor) e que data do ano 9 a.C., exprime bem o sentimento da época. Tratava-se de modificar a denominação dos meses e de fazer o calendário começar no dia do aniversário do nascimento de Augusto, deus que se manifestou, prometendo ao mundo uma era de felicidade.
(Poder-se-ia comparar este texto com Lc 2,10-11).
Cada pessoa pode considerar com razão esse acontecimento como a origem da sua vida e da sua existência, como o tempo a partir do qual não se deve lastimar ter nascido ... A providência suscitou e ornou maravilhosamente a vida humana dando-nos Augusto, repleto de virtudes, para fazer dele o benfeitor dos homens, nosso salvador para nós e para os que virão depois de nós, a fim de fazer cessar a guerra e estabelecer por toda a parte a ordem. O dia do nascimento do deus foi para o mundo o começo das boas novas recebidas graças a ele".
"Quando morre Augusto, o império romano quase atingiu sua maior extensão. Compreende, no extremo oeste, as duas províncias de Espanha às quais se soma a Lusitânia (substancialmente, o Portugal atual); os romanos chegaram à península ibérica na época da guerra de Anibal (218-2101 a.C.) e conquistaram-na progressivamente; a pacificação, às vezes bastante difícil, não ficou concluída senão no começo do reinado de Augusto.
Quando atingiu sua maior extensão, o império romano era um imenso território, protegido por um exército relativamente pouco importante: umas trinta legiões, outras tropas auxiliares, ou seja 350 a 400 mil homens.
A população é calculada em cerca de cinquenta milhões de habitantes. As cidades mais populosas são Roma (700 mil a um milhão de habitantes), Alexandria (cerca de 700 mil) e Antioquia (300 mil). A unidade que existe ao nível do poder central, da política externa e de certo número de valores culturais não elimina contudo os particularismos. O império não é um bloco monolítico, pois limites territoriais e direito dos povos geralmente não coincidem. Com efeito, os súditos do imperador pertencem a etnias ou cidades diferentes; além disso, os habitantes duma mesma cidade ou duma mesma região podem ser de "direito" diferente: assim, entre homens livres, distinguem-se os cidadãos romanos e as pessoas de direito peregrino. Os primeiros gozam de certo número de privilégios judicários, fiscais e políticos; a noção de peregrino abrange todos os outros, quer dizer "os estrangeiros" em relação à cidade romana, no sentido jurídico do termo; dependem então do direito da sua cidade ou da sua etnia de origem. Em geral, o governo imperial soube deixar uma autonomia bastante ampla às comunidades locais, reservando-se o direito de supervisionar as fiscalização, o direito penal e a política externa".
Aos poucos podemos verificar que o modo de Roma governar o seu imenso império, determinará as condições que é apresentada na Bíblia, quanto à postura das autoridades perante o julgamento de Jesus Cristo e sobre as atividades de Paulo.
Continua ....
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– A Palestina no tempo de Jesus Cristo
A Palestina, na época de Cristo, faz parte do império romano. Vamos ver como os romanos conseguiram se implantar lá, por que meios Herodes chegou a tornar-se rei e qual a situação política no momento em que pregava Jesus.

a) Origem dos interesses romanos na Palestina.
Os primeiros contatos entre Roma e os judeus ocorrem não antes da metade do século II a.C. São consequência de um jogo político complexo no qual a República romana se imiscuiu progressivamente, a partir de 200 a.C. mais ou menos.
Nesta época, o Mediterrâneo oriental está dividido entre as diferentes monarquias originadas da conquista de Alexandre: os Lágidas reinam no Egito; os Selêucidas dominam um império que se estende teoricamente da Ásia Menor até o Indo, mas que, com o passar do tempo se encolhe como um couro curtido: é amputado a oeste pelas usurpações, a leste pela independência de fato dos soberanos e pela expansão dos partas. A Macedônia é dirigida pelos Antigônidas que, com desigual sucesso, tentam dominar as cidades da Grécia e as ilhas do Egeu. O pequeno reino de Pérgamo, no extremo oeste da Ásia Menor, é governado pelos Atálidas.
Todos esses reinos formam um mundo dinâmico que espalha por todo o Oriente os valores culturais gregos, dando assim origem à chamada civilização helenística. Se a unidade artística e lingüística é real, embora muitas vezes superficial, esse universo permanece, por outro lado, um conjunto politicamente instável, dilacerado pelas guerras e as disputas dinásticas, onde a imagem do soberano é inseparável da do chefe guerreiro, com tudo o que isto supõe de coragem física, de aptidão para comandar e, portanto, de gosto pela guerra. Nesse contexto agitado, a Palestina tem um lugar privilegiado. Constituindo uma parte daquela que então se chamava a Celessíria (quer dizer a Síria profunda em oposição aos planaltos do norte e às cadeias do Líbano e do Antilíbano), é objeto de permanentes cobiças e motivo de conflitos que opõem Lágidas e Selêucidas. Outrora parte integrante da quinta satrapia persa (a Transeufratena), caiu em poder dos Lágidas após a conquista de Alexandre. Os judeus parece que se acomodaram bem com esta hegemonia afinal pouco importuna. Mas em 200 (ou 198) a.C. Ptolomeu V é vencido por Antíoco III na batalha de Panion: a Palestina passa então para o domínio soberano selêucida. O novo senhor dos judeus usa de diplomacia para com eles; Antíoco III aliás tem outras preocupações: está em guerra com Roma. Derrotado em 189, deve, conforme os termos do tratado de Apaméia, pagar uma indenização muito pesada que vai sobrecarregar por muito tempo as finanças do reino. Seu sucessor, Antíoco IV Epífanes, desejoso de lutar contra as forças centrífugas que miram seu império e de reatar os laços com as tradições dos fundadores da dinastia, inicia uma política de helenização autoritária, à qual a Palestina não escapa. Esta tentativa age como um revelador, cindindo os judeus em duas tendências: os filo-helenistas (ou pró-gregos) e os ortodoxos; daí nasce a revolta dos Macabeus.
Por esta época, Roma acaba de conquistar a Macedônia (167) e põe em ação uma diplomacia que consiste em sustentar os estados mais fracos, por seu tamanho, ou pela mediocridade dos seus soberanos, contra as tentativas imperialistas dos Selêucidas. Com esse objetivo, ela impede Antíoco IV de prosseguir seus avanços no Egito. Por volta de 160, Roma teria até mesmo recebido favoravelmente uma delegação judaica enviada por Judas Macabeu (1Mc 8). A autenticidade do relato tem sido contestada; no entanto, se os senadores receberam tal delegação, eles não chegaram a prometer-lhe qualquer ajuda material, mas contentaram-se com vagas palavras, próprias para entreter as cizânias que os favoreciam.
Roma não recomeça a intervenção direta no Oriente senão no século I a.C. Serviu de pretexto a política expansionista de Mitrídates Eupator, rei do Ponto (na costa norte da Ásia Menor) que se arvora em campeão da liberdade das cidades gregas contra a expansão romana.
As dissensões surgidas entre os príncipes da dinastia asmonéia (os descendentes dos Macabeus) fornecem a Roma, sob o comando de Pompeu, um pretexto para intervir na Palestina. Em 64 a.C., enquanto ele submete a Síria, Hircano II e seu irmão Aristóbulo, filhos de Alexandre Janeu, disputam entre si o poder. Pompeu envia um dos seus legados para colher informações no local e, na primavera de 63, recebe três delegações: uma de Aristóbulo, outra de Hircano e a terceira do povo judeu. Avança então sobre Jerusalém, que Aristóbulo prometera entregar-lhe; um partido de resistência se entrincheira no Templo. Após três meses de assédio, Pompeu se apodera da cidade: os responsáveis são decapitados; um tributo é imposto a Jerusalém e a seus arredores; a faixa costeira e certas cidades são colocadas sob a autoridade do governador da Síria. Hircano não conserva senão Jerusalém e a Judéia; Aristóbulo e os seus dois filhos, Alexandre e Antígono, são levados cativos para Roma.
A estratégia é simples: para proteger suas possessões da Ásia Menor e da Síria contra os partas, Roma submete à vassalagem mais ou menos diretamente as regiões periféricas, o que inclui o reino judeu. Esse projeto explica igualmente que Roma tenha dado decretos em favor dos judeus; para garantir a fidelidade de seus novos súditos teve que aceitar reconhecer seus particularismos.
Nas suas Antiguidades Judaicas, o historiador judeu Flavio Josefo nos oferece o texto das disposições tomadas no mundo antigo em favor dos judeus. Trata-se de uns vinte decretos ou parágrafos de decretos promulgados no decurso das guerras civis e mais tarde por Augusto ou seus lugares-tenentes.
De acordo com os costumes legislativos do tempo, tais decretos são circunstanciais e refletem os problemas que se apresentaram, em determinado momento, nesta ou naquela cidade. Esse aspecto particular, porém, não nos deve enganar: esses decretos constituíram as bases do estatuto especial de que se beneficiaram os judeus a partir da sua integração no mundo romano.

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b)O regime herodiano.
As guerras civis, sobretudo entre César e Pompeu, vão acarretar novas mudanças na Palestina, favorecendo o desparecimento da monarquia asmonéia (descendentes dos Macabeus) e a ascensão política de Herodes.
Herodes, filho de Antípater, nomeado por César procurador dos judeus é, junto de seu irmão Fasael, nomeado estratego, Fasael de Jerusalém e Herodes da Galiléia. Após a morte de César, Herodes é nomeado estratego da Celessíria.
Após a derrota dos Republicanos em Filipos em 42 a.C., Marco Antônio vem à Ásia Menor para tentar normalizar a situação do Oriente; recebe sucessivamente uma delegação dos judeus, depois uma de Hircano e enfim Herodes que vem pessoalmente. Fasael e Herodes são nomeados tetrarcas do território judeu.
No momento da derrota de Antônio em Actium, em 31 a.C., Herodes não hesita em ir ao encontro de Otávio para lhe exprimir sua submissão, de um modo muito hábil, se dermos crédito a Flavio Josefo: dá a entender que foi fiel a Antônio até o último momento e agora que o Triúnviro perdeu seus poderes, ele, Herodes, não hesita em passar para o lado do vencedor, não para mudar de partido, mas para respeitar o ideal de suas ligações com Roma.
Príncipe de tipo helenístico, mas de origem árabe, sem parentesco com a família dos Asmoneus, Herodes jamais conseguiu conquistar a simpatia dos judeus piedosos. Seu amor pela civilização grega se percebe no gosto que tem pelas grandes obras, pelos jogos e pelos espetáculos. Extraordinária figura de aventureiro, deve seu êxito ao seu senso do possível: sabendo que não era bastante poderoso para sacudir o jugo romano e, ao mesmo tempo, que não era bastante popular para dispensar seu apoio, sempre quis, prioritariamente, agradar a Roma. Isto é suficiente para tornar compreensível todo o seu governo.
É um soberano construtor, faz numerosas construções em honra de Augusto, institui jogos quadrienais em honra de Augusto, em Cesaréia e até mesmo em Jerusalém.
Para satisfazer aos judeus, incrementa a reconstrução do Templo e o faz embelezar; por esta ocasião, teve de mandar ensinar o ofício de pedreiro a mil levitas, para evitar que simples operários profanassem os locais reservados aos sacerdotes.
No tocante aos fariseus, sua política é geralmente dura. Aliás, ele trata mal também aos saduceus, por causa da ligação deles com os Asmoneus. Em 25 a.C., uma primeira conspiração de fariseus é cruelmente reprimida. E, embora nem sempre se deva tomar Josefo ao pé da letra, parece que, com o passar dos anos, seu poder se tornou cada vez mais despótico.
Do ponto de vista econômico, seu reinado foi até benéfico.
Em geral, gozou da confiança de Augusto e jamais deixou passar uma oportunidade de lhe agradar e lhe testemunhar sua solicitude e sua fidelidade.
O fim da sua vida foi obscurecido pelas disputas dinásticas. A oposição vem dos dois filhos nascidos da sua união com Mariana: Alexandre e Aristóbulo, que após o julgamento de um tribunal composto de romanos e judeus, foram condenados e executados junto a outros 300 por cumplicidade, no ano 7 a.C. Depois foi Antípater, filho de Mariana II, que, nomeado herdeiro do pai, trama contra ele. Antípater é enviado preso para Roma.
Doente e próximo do fim, Herodes ainda manda para a fogueira dois fariseus que haviam conspirado contra ele. Morre em Jericó em 4 a.C., não sem ter tido tempo de mandar matar, com a permissão imperial seu filho Antípater. Flávio Josefo acrescenta que ele havia ordenado a execução de nobres judeus, encerrados no hipódromo, dizendo que assim haveria choro no momento de sua morte.....
Pouco antes da morte, Herodes determinara como seria sua sucessão: Arquelau, filho de Maltace, uma samaritana, herdaria o título de rei; Herodes Antipas se tornaria tetrarca da Galiléia e da Peréia; Herodes Filipe, filho de Cleópatra, seria o tetrarca da Gaulanítide, da Traconítide, da Batanéia e de Pânias.
Desde o início do seu reinado, Arquelau teve que reprimir uma revolta fomentada pelos fariseus; ao mesmo tempo, seu título lhe era contestado por Herodes Antipas, que antes havia sido designado por Herodes para lhe suceder. Diversas delegações chegam a Roma para apresentar suas reivindicações; mas, após refletir, Augusto confirma quase exatamente os termos do testamento de Herodes: Arquelau conservava a Judéia, a Iduméia e a Samaria, mas deveria contentar-se com o título de etnarca; Antipas era tetrarca da Batanéia, da Auranítide e da Traconítide. No entanto, esta disposição não foi duradoura. Arquelau causou escândalo ao desposar uma princesa da Capadócia, casada anteriormente com Alexandre (filho de Mariana I) e com Juba da Mauritânia. Além disso, considerado cruel e brutal, foi causado perante Augusto por uma delegação de judeus e de samaritanos. No ano 6 d.C., o imperador depôs Arquelau e o exilou para a Gália; daí em diante, a etnarquia da Judéia, Iduméia, Samaria, será confiada a um procurador.
c)O regime dos procuradores.
O procurador é um funcionário, que depende diretamente do imperador, é recrutado entre os membros da ordem eqüestre e portanto remunerado. Ele depende do governador da província da Síria, que dispõe de três legiões aquarteladas no nordeste do país, atrás do Eufrates; essas legiões são reforçadas por tropas auxiliares, de sorte que o total dos efetivos atinge cerca de 36 mil homens. Uma frota está ancorada em Selêucia de Piéria, porto de Antioquia. O procurador só dispõe de tropas auxiliares, que de certa forma são forças policiais. Pode sempre pedir ajuda ao legado da Síria e este último tem a faculdade de intervir quando julgar oportuno.
O procurador, como todo governador provincial é um representante direto do imperador e reúne portanto em suas mãos os poderes civis, militares e judiciários. A esse respeito, muito se tem discutido para saber se só o procurador tinha o direito de condenar à morte, ou se os judeus também tinham essa possibilidade: Vê-se, com efeito, que os judeus pedem a Pilatos a condenação de Jesus, argumentando sobre a interdição que lhes é feita de pronunciar sentença de morte; mas em 36 apedrejam Estevão sem recorrer à autorização do ocupante. Há dois modos de explicar esses testemunhos aparentemente contraditórios: ou em 36 os poderes do procurador tinham sido momentaneamente reduzidos, ou – o que é mais verossímil – trata-se aí de um acerto de contas sem verdadeiro processo, ao qual as autoridades romanas não quiseram ou não puderam se opor.
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d)A economia da Palestina no século I.
A terra pertence a Deus: esse é um dogma essencial da fé de Israel. Deus lhe deu o país de Canaã – que se chama Palestina ou País dos filisteus desde a época helenística. Israel vai, pois, valorizar esta terra e nós vamos estudar a economia da Palestina no século I da nossa era; mas diversas festas e a instituição religiosa lhe recordarão que é Deus quem permanece seu dono.
1 – Panorama geográfico.
A economia de um país depende muito da sua geografia.
O país tem a forma de um trapézio, cujas bases medem 50 e 100 quilômetros, para um altura de 220 quilômetros. O Mediterrâneo o limita a oeste e o vale do Jordão, muito apertado, a leste; esse rio, cujo nome significa sem dúvida o descente, tem suas fontes nas faldas do Hermon; no lago Hulé, está a 68 m acima do nível do mar, uns quinze quilômetros abaixo, no lago de Tiberíades, já está a 212 abaixo do nível do mar e se lança no mar Morto a 392 m abaixo do nível do mar. Entre o Mediterrâneo e o Jordão, uma cadeia de montanhas forma espinha dorsal do país: com 600 m de altitude em média, ela tem seus pontos mais altos na Alta Galiléia e em Hebron (1000 m) e apresenta uma depressão na fértil planície de Jezrael, a Meguido do AT (50 m). A leste do Jordão, sobe-se mui rapidamente para o planalto da Transjordânia ( a Peréia), que se eleva entre 900 e 1200 m: a diferença de nível entre o Jordão e esse planalto é comparável à que existe entre o Dedo de Deus (1.320 m) e a cidade do Rio de Janeiro.
O relevo, muito acidentado, é fator decisivo no regime das chuvas: a Galiléia, encostada aos 2.800 m do Monte Hermon, recebe muita água. A planície do Saron (abaixo do Carmelo), a região montanhosa da Palestina central e a Transjordânia, são também regadas por muita chuva. Ao contrário, a depressão do Jordão não recebe praticamente nada, tanto assim que na metade do seu comprimento ela é desértica, exceto alguns oásis como Jericó e os espessos bosques dos meandros dos rios.
Os produtos naturais do país são árvores de folhagem persistente que crescem sobretudo no inverno, ou plantas da estepe que secam no verão. Mas o trabalho humano e a irrigação podem mudar muitas coisas neste país de clima relativamente temperado; no tempo de Jesus, conseguiu-se aclimatar espécies normalmente incompatíveis: a maçã que gosta de clima fresco e a palmeira que exige o calor!
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2 – A agricultura.
O trigo constitui a base da alimentação e é cultivado um pouco por toda parte, embora cresça sobretudo na Galiléia; esta produz bem mais do que consome; armazena grandes quantidades precavendo-se contra a fome e ao mesmo tempo abastece a Judéia e Jerusalém, cujas necessidades são enormes por causa do afluxo dos peregrinos durante as festas. Só mesmo numa grande seca é que a Palestina se vê obrigada a importar trigo. Josefo menciona uma penúria desse tipo em 21 a.C, e em 49 d.C.
A cevada, segunda cultura no processo de rotação, tem a mesma repartição que o trigo. Em caso de carestia, sua farinha substitui a do trigo para a população; habitualmente é a farinha dos mais pobres e serve para fazer ração para o gado e as aves.
As figueiras são essências para a alimentação; durante a fome de 49 d.C., importam-se figos de Chipre, ao passo que normalmente produzem-se bastantes figos para exportar para Roma.
A oliveira é muito encontrada em toda a Palestina; diz um ditado que é mais fácil cultivar miríades de oliveiras na Galiléia do que educar um filho na terra de Israel. A Judéia, com o monte das Oliveiras não é menos rica. A produção de óleo é aliás largamente superavitária e exporta-se óleo para o Egito e para a Síria.
A vinha brota por toda parte na Judéia e deve ser de boa qualidade pois o Templo não tem problema de abastecimento: lá o vinho serve para as libações (mas os sacerdotes não devem beber na hora do serviço); ele é indispensável para a festa da Páscoa, na qual quatro taças circulam durante a refeição (o vinho é cedido gratuitamente aos que não teriam recursos para comprá-lo); por todo o lado, o vinho é a bebida costumeira de todo o Israel e certas marcas são exportadas para longe.
Entre as outras frutas ou legumes, citam-se sobretudo lentilhas, ervilhas, alface, chicória, agrião; há tal abundância de frutas e de legumes de toda a espécie, que se costuma dizer que o peregrino tem certeza de encontrar tudo que precisa em Jerusalém. Plutarco afirma que todo dia chegam produtos da Palestina à mesa do imperador; entre eles, há certamente romãs e tâmaras de Jericó ou da Galiléia, produtos célebres no mundo inteiro. Há ainda as maçãs da Galiléia e as nozes, os bombons da antiguidade.
Tudo isso dá a impressão de um país rico em árvores, entre as quais encontram-se também outras espécies como o salgueiro, a acácia, o loureiro, o cipreste, o pinheiro. A Palestina do século I é uma região coberta com bastante matas (enquanto as cabras e os turcos não a depredaram). Antes de começar o assédio a Jerusalém, Vespasiano teve que desmatar as cercanias da cidade para poder enxergá-la bem.
Encontram-se também algumas culturas mais especiais. Embora os jardins sejam proibidos em Jerusalém, há entretanto um roseiral de onde se extrai para venda o óleo ou essência das rosas. Plínio, o Velho, que escreve por volta de 75 d.C., menciona as trufas da Judéia: os romanos as apreciam tanto, que acabaram por aclimatá-las na Itália.
A pecuária é certamente o setor mais deficitário da Palestina. Josefo fala sem dúvida do leite muito abundante da Judéia-Samaria, o que supõe animais, mas de fato a estepe não produz senão pouca forragem, Na criação dos rebanhos, numerosos na Judéia, o interesse está somente nas ovelhas (para a reprodução) e nos cordeiros (necessários para o culto); prefere-se importar de Moab os carneiros, que comem sem produzir. Quanto aos bovinos, criados na planície de Saron, a política é a mesma: matam-se os vitelos machos e importam-se bois da Transjordânia. Se não houvesse a Samaria para atravessar, a Galiléia poderia também fornecer bovinos para o Templo.
É o Templo o principal consumidor de carne, bem como as camadas abastadas da população: parece que o povo miúdo só come carne na Páscoa ou por ocasião dos sacrifícios de comunhão. Outro elemento importante para o culto (já que muito pobres não podem oferecer senão isto em sacrifício) são as pombas: são pegas na rede nas árvores e culturas da montanha da Judéia.
Em resumo, a palestina do século I é um país bastante rico no setor agrícola, satisfazendo amplamente às suas necessidades, não obstante possuir uma população relativamente densa a época: 600 mil habitantes em 20 mil km2.

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3-A indústria.
Em primeiro lugar vem a pesca, por causa de seu papel na alimentação de cada dia. É intensa na costa mediterrânea, no Jordão e sobretudo no lago de Tiberíades; há importantes estabelecimentos de preparo e conserva: a cidade de Mágdala foi apelidada Tariches, palavra grega que significa salga alusão ao ofício de seus 40 mil habitantes (conforme Josefo que sempre aumenta as cifras!). O peixe, salgado ou defumado é depois comercializado em todo o país.
Quem fala em salga pensa em sal; ora as fontes antigas nada dizem da sua produção. Pode-se no entanto ter por certo que ele era extraído do mar Morto, chamado então mar do Sal, e do lago de Tiberíades.
A construção está em plena atividade. A ampliação do Templo depois seu arranjo e embelezamento duram de 20 a.C., até 64 de.C.; no fim dos trabalhos, para não deixar no desemprego os 18 mil operários da obra, com seu trabalho são calçadas as ruas de Jerusalém.
Por volta de 20 d.C., Herodes Antipas constrói a cidade de Tiberíades e fortifica Séforis e Júlias. Jerusalém cresce de tal modo que se estende além das muralhas construídas por Herodes Magno: em 41 d.C. Agripa vai proteger o novo bairro, ao norte, por um muro de 3500 metros de comprimento e de 5,25 de espessura.
É preciso ainda continuar, manter e embelezar as numerosas construções de Herodes Magno: Pilatos acrescenta um novo aqueduto a Jerusalém; a rainha de Adiabene manda construir para si um magnífico túmulo ao norte da cidade santa. Foram encontrados em Jerusalém esgotos, que têm certas instalações notáveis (2 m de altura, 80 cm de largura).
Fiação e tecelagem ocupam uma mão-de-obra sobretudo feminina, mas também homens, os tecelões, que são desprezados (porque são mentirosos ou porque executam um trabalho feminino?:). A Judéia trabalha sobretudo com a lã (aí os carneiros são numerosos), enquanto que a Galiléia, atravessada por uma das rotas da Índia, especializou-se na seda proveniente da China e no linho (produzido no local?). Cobertores, tapetes e outros produtos são abundantes e se exportam para Roma. Tintura e pisoamento (para impermeabilizar os tecidos) são muito bem representados em Jerusalém, e os historiadores nos dizem que esta é a grande especialidade da Síria-Palestina antiga. A tintura de púrpura, especialidade da cidade de Tiro, é realizada a partir de um crustáceo, o múrice, que se pesca na costa mediterrânea de Tiro a Jope: os judeus participam desta pesca.
A indústria do couro, alimentada sobretudo pelas peles das vítimas oferecidas no Templo, é florescente: 18.000 cordeiros só para o rito pascal, dezenas de milhares de sacrifícios de comunhão em cada festa, os sacrifícios de expiação particulares (centenas por dia). A isso se acrescenta a pele dos animais abatidos para o açougue. As peles são curtidas e depois transformadas e exportadas.
A cerâmica, importante em todos os tempos para o vasilhame e para guardar alimentos ou objetos preciosos (os rolos de Qumran, por exemplo), é próspera neste primeiro século. Duas cidades da Galiléia, Kefar Hanania e Kefar Shilim, têm o monopólio da cerâmica impermeável ao ar, ideal para conservar o óleo.
O betume, “substância viscosa e colante que, em certa época do ano bóia sobre as águas de um lago da Judéia chamado Asfáltico” (Plínio, His. Nat. VII 13, 3) é cuidadosamente recolhido e exportado sobretudo para o Egito onde “é utilizado não só para a calafetagem dos navios, mas também como remédio: entra na composição de muitos produtos farmacêuticos” (Josefo, Guerra judaica IV, 481).
Em Jerusalém concentra-se todo um artesanato de luxo, quer para o Templo (perfumes), quer para os peregrinos que já naquele tempo apreciavam os bibelôs-lembranças da Cidade Santa!
Como centro de peregrinação, Jerusalém conhece ainda outros ofícios que são mais raros em outros lugares: padeiros, carregadores de água, barbeiros e até mesmo um serviço de limpeza urbana, para manter a pureza nas vizinhanças do templo.
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4-O comércio.
O comércio é sobretudo centrado no Templo que tem necessidades enormes e recursos maiores ainda, graças à Didracma, o imposto cobrado de todos os judeus, mesmo dos que moram fora da Palestina. Mas também os diversos Herodes bem como seus procuradores têm suas cortes faustosas e as classes abastadas de Israel não fazem economia.
O comércio interno entre particulares é muito reduzido: a ele se prefere a troca no interior da aldeia, o que evita deslocamentos e portanto taxas. Mas todos os excedentes da produção vão para as cidades, sobretudo Jerusalém, cuja população supera os 50 mil habitantes em tempo ordinário e chega a 180 mil na ocasião das grandes peregrinações. As mercadorias são transportadas em animais de carga, pois as estradas não permitem, senão excepcionalmente, a passagem de carros. Para os longos deslocamentos prefere-se o camelo, cuja carga útil é maior. Tem-se todo interesse em não viajar sozinho, mas em se agrupar em caravanas, que oferecem melhores garantias contra as agressões de bandidos de toda espécie. Existem sem dúvida verdadeiras sociedades de transportes; isto é atestado no setor dos transportes marítimos e fluviais em todo o império e em Palmira, onde uma sociedade tinha escritórios em Babilônia.
O comércios externo é mais conhecido.
As importações se referem todas a produtos de luxo: em primeiro lugar, os cedros do Líbano, por causa da nobreza da madeira e do comprimento das traves que deles se pode tirar para o madeiramento dos palácios. No Templo utiliza-se o cedro, a figueira, a nogueira e o pinheiro como combustível para os sacrifícios; a oliveira é banal demais para ser digna desse serviço.
O Templo exige também incenso, que vem da Arábia, e parece ser muito caro. É também da Arábia que se compram muitos aromas que servem aos perfumistas, pedras preciosas, ouro ou mais simplesmente ferro, cobre (as minas do rei Salomão, perto de Áqaba ficam longe).
Esse comércio está nas mãos de grandes negociantes que têm escritórios e depósitos em todo o império e que são um pouco de todas as nacionalidades. É certo que entre eles há judeus que fazem questão, na velhice, de se instalarem em Jerusalém, perto do Templo e do Céu, mas também da Corte e dos seus prazeres. Esses negociantes são verdadeiros banqueiros, que conhecem os cheques e os títulos ao portador e ao mesmo tempo são especuladores: conhece-se um que compra a plantação ainda verde de um camponês endividado.
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d- As instituições religiosas.
É difícil apresentar, em si mesmas, as instituições religiosas de Israel, pois é toda a existência judaica, econômica, social, política, que é marcada pela religião. Veremos então alguns dados conhecidos sobre o Templo, a sinagoga e as festas.
1-O Templo
O Templo é sob todos os pontos de vista o centro de Israel. O primeiro edifício foi construído por Salomão e destruído quando Jerusalém foi conquistada em 587 a.C., por Nabucodonosor. O segundo Templo, reconstruído após a volta do Exílio e inaugurado em 515 a.C., era mais modesto. Foi reedificado por Herodes em bases completamente novas. Ás vezes se designa a história judaica entre 538 a.C e 70 d.C, pelo nome de período do segundo Templo.
O edifício do Templo dá uma impressão de magnificência segundo todas as testemunhas oculares. É verdade que o contemporâneo de Jesus devia ficar estupefato quando, ao chegar ao topo de uma colina, descobria a cidade, que tinha no meio uma torre se 50 m de altura (o equivalente a um prédio de quinze andares), plantada num imenso terreno de 480m de comprimento por 300m de largura, que domina boa parte da cidade e é rodeado por um muro que constitui uma verdadeira muralha.
Certo número de edifícios estão pegados à parede do Templo: sala do Sinédrio, depósitos de lenha, de vinho, de óleo destinados ao culto, sala do Tesouro.
2-O culto
O culto está diretamente ligado ao altar do Templo. Este altar nada tem a ver com os altares das nossas igrejas. Era um altar quadrado, com 25m de lado e 7,50 m de altura ao qual se tem acesso por uma escada, parece-se mais com um incinerador ou um forno crematório sem sistema de recuperação e de filtragem da fumaça, pois o essencial do culto consiste em queimar animais inteiros (holocausto) ou ao menos as vísceras e a gordura (sacrifícios pelo pecado e sacrifícios de comunhão). Somente as peles não são queimadas, mas tornam-se propriedade dos sacerdotes. Para o fogo utiliza-se madeira relativamente preciosa, associada a incenso cujo perfume deve atenuar o odor de carne carbonizada.
Todo dia imolam-se como sacrifício perpétuo de Israel a seu Deus dois cordeiros de um ano: um de manhã e um à tarde. O imperador romano também manda sacrificar (pagando ele próprio?) dois animais – quais não sabemos – um por ele, o outro pelo império. Note-se de passagem uma diferença enorme: ao passo que todos os outros povos do império devem imolar ao imperador, aqui oferece-se por ele a Deus! Ignoramos o ritual exato desses sacrifícios oficiais: se um só sacerdote, designado pela sorte, oficia, é provável que os outros sacerdotes que estejam em serviço o assistam e que os levitas músicos tenham que intervir.
Durante o resto do dia, sucedem-se os sacrifícios privados; aqui também o número é desconhecido, mas devem ser numerosos, sobretudo no período festivo (época das viagens) e principalmente no momento das grandes romarias.
O israelita que quer oferecer um sacrifício começa, entrando no Templo, por comprar o animal ou os animais que quer oferecer, bem como a farinha e o óleo necessários para praticamente todas as ofertas. Depois penetra no segundo recinto e vai ao pátio de Israel. Apresenta-se a um sacerdote, reconhecível por seu traje especial (vestes de linho branco). Este o conduz então, através do pátio dos sacerdotes, que, nesta circunstância, um leigo pode atravessar, até ao pé do altar. Se, no AT, era o próprio oferente que matava a vítima, parece que no século I da nossa era essa função está entregue ao sacerdote, exceto no rito do cordeiro pascal, imolado pelo chefe de família, pois é o povo todo que, segundo Fílon, é elevado naquela tarde à dignidade sacerdotal. Depois o animal é esfolado, retalhado e os pedaços são utilizados segundo as prescrições da lei. Orações ou bênçãos acompanham esses ritos, mas elas nos são desconhecidas. Uma mulher ou um incircunciso podem mandar oferecer sacrifício, mas é-lhes proibido entrar no coração do templo: não podem acompanhar nem ajudar o sacerdote.
3-Os círculos de santidade.
Até aqui falamos de locais bem determinados, de pátios (das mulheres, dos israelitas ....) ou de limites definidos. Essas delimitações se baseiam, mais profundamente, na concepção judaica da santidade. Caricaturando um pouco, poder-se-ia dizer que, para Israel, só Deus é o Santo, o Puro, o Separado, o Perfeito: por natureza, o homem e a criação em geral são o profano, o impuro, o banal, o imperfeito. Por simples proximidade ou contato, cada um é capaz de comunicar uma parte do que ele é; assim é que a pessoa pode comunicar sua impureza a seu semelhante, mas não sua santidade. Deus, ao contrário, comunica sua santidade a tudo que dele se aproxima, uma santidade cada vez mais difusa e fraca, quanto mais se se afasta dele.
No centro está o lugar sagrado por excelência, o lugar onde Deus fez repousar sua glória: o Santo dos santos. Vem depois o Santo: os sacerdotes aí podem entrar. Em seguida, há o altar sobre o qual todos os sacrifícios são oferecidos e o espaço entre o altar e o Santo, estritamente reservado aos sacerdotes, depois o pátio dos sacerdotes, ao qual mesmo os sacerdotes inaptos para o culto (os deficientes de todo o tipo) têm acesso. Em quinto e sexto lugar, vêm os homens adultos de Israel e depois as mulheres. Por fim há os pagãos. Esses círculos também se inscrevem num contexto mais amplo: ao redor do Templo, o espaço sagrado por excelência, há a cidade de Jerusalém, depois o país de Israel e enfim o resto do universo.
Conforme seu estado, circunciso ou não, puro ou impuro, o ser humano pode subir mais ou menos nestes degraus de santidade: enquanto ele ficar nos limites que lhe são atribuídos, não há problema algum; mas se ele os ultrapassa, sua impureza profana o lugar no qual ele entrou indevidamente e rompe o equilíbrio desejado pelo Senhor. Assim também, quando Jesus toca num leproso para o curar, pretende purificá-lo, dar-lhe santidade, ao passo que para os judeus, não faz senão receber a impureza dele!
4-Prosélitos e tementes a Deus.
Entre os judeus e os pagãos existe uma espécie de classe intermediária: pagãos que se ligam, mais ou menos estreitamente, ao judaísmo.
Os prosélitos (o nome deriva de um termo grego que significa aproximar-se) são pagãos que se converteram à fé judaica e aceitam todas as práticas, sobretudo a circuncisão. Não são considerados como plenamente judeus, mas são obrigados a observar o conjunto da Lei. Eram bastante numerosos na Diáspora e certos rabinos, na época de Mateus, parecem demonstrar muito zelo para fazer conversões; um dos Sete, me Jerusalém, era prosélito.
Os tementes a Deus são também pagãos atraídos pela religião judaica, mas recusam algumas de suas práticas, sobretudo a circuncisão. Portanto, permanecem, legalmente, pagãos.
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5-A sinagoga.
O templo é o lugar que polariza toda a vida religiosa, política e econômica de Israel. Mas no quotidiano da vida, uma outra instituição – a sinagoga – reveste-se de uma grande importância. Não há senão um só Templo aonde se sobe em certas ocasiões (ao menos uma vez na vida quando se mora longe da Palestina), mas até a menor aldeia tem sua sinagoga: é aqui, afinal, que se forjam a mentalidade e a piedade israelita.
Como o termo igreja, o termo sinagoga parece abranger duas realidades: a reunião para a oração dos crentes e o edifício material onde ela se realiza.
A reunião.
As origens desse tipo de reunião só nos são conhecidas por fontes literárias especialmente obscuras neste ponto. Parece certo que se deve buscar sua origem no tempo do Exílio em Babilônia (587 a 538 a.C.). Esse desastre nacional foi uma provação muito dolorosa para a fé de Israel, provocando até mesmo a apostasia de certo número: a destruição do Templo e a cessação do culto lhes pareciam a prova de que os deuses babilônios eram mais fortes que o Deus de Israel. Mas outros judeus, preparados pela pregação de Jeremias e sobretudo de Ezequiel que vive com eles no exílio, descobrem um sentido para aquilo que estão vivendo: Deus não abandona seu povo, quer purificá-lo. Se o culto oficial está suspenso, a meditação sobre os fatos passados e presentes e a oração continuam possíveis. Os fiéis começam então a se reunir como podem, para reavivar mutuamente sua fé. Nisso certamente os sacerdotes têm papel importante e, em troca, todo esse esforço de reflexão contribui amplamente para a formação da tradição sacerdotal e para a intensa atividade literária da época. Acontece que o povo se reúne, para esta reflexão, perto da cidade onde está deportado, numa praia à beira do rio (Sl 137, 1).
O roteiro do culto está centrado na oração e na meditação das Escrituras. Começa-se pela recitação do Shemá, o Credo do povo de Israel, composto de três passagens bíblicas: Dt 6, 4 – 9; 11, 13 – 21; Nm 15, 37 – 41. Afirma-se assim globalmente a unicidade de Deus e o vínculo muito forte que o une a seu povo. Vem depois certo número de orações, proclamadas pelo responsável pelo ofício, e às quais se associa o grupo dos participantes por meio de Améns. Elas se referem ao mesmo tempo às necessidades da vida cotidiana e ao grande desejo do povo: a instauração da era messiânica.
A seguir faz-se a leitura da palavra de Deus. É sempre um trecho da Torá (o nosso Pentateuco). Não se trata de recitar o texto de cor (por receio de se esquecer uma palavra do texto sagrado!): deve-se lê-lo, no texto hebraico. Mas muitos judeus há não sabem mais esta língua: então o leitor pára depois de cada versículo e um outro membro da comunidade o traduz para o aramaico. Essa tradução é às vezes literal, mas muitas vezes também é uma paráfrase que faz a ligação com outras passagens bíblicas ou que introduz toda uma teologia: é o targum. Todo varão judeu adulto, isto é, com mais de doze anos, pode ler a Torá. Sem dúvida, goza-se de certa liberdade na escolha da passagem a ser lida, embora ao aproximarem-se as festas, procuram-se textos que falem desta solenidade. A lista das perícopes para cada sábado só será fixada bem mais tarde.
Vem depois a leitura duma passagem dos profetas, segundo os mesmos princípios, mas com uma oração mais ampla. Muitas vezes o texto profético é escolhido em função da leitura da Torá, mas a codificação será mais lenta ainda a se estabelecer. Antes ou depois desta leitura intervém a pregação que todo judeu adulto pode fazer. Esses comentários são ao mesmo tempo uma exaltação e uma glorificação do Altíssimo, uma formulação teológica dada a todo o povo e um convite a viver segundo a Lei. Depois disso, o ofício está terminado.
Já que esta ação litúrgica não comporta nenhum elemento sacrifical, nela o sacerdote não tem nenhum papel determinado; apenas intervém para dar uma bênção que tem lugar no fim da primeira parte e que normalmente lhe é reservada. Se não há sacerdote, o presidente da assembléia o substitui.
Qualquer judeu pode ler e fazer o comentário, mas nem todos o fazem. Assim é que, na prática, são os escribas e os fariseus que animam tais reuniões de oração. Isto lhes faculta propagar suas idéias e aumentar sua influência sobre o povo. Sem a sinagoga, jamais teriam o papel e o prestígio de que desfrutam.
Para celebrar a prece comum, é preciso haver ao menos um total de dez homens adultos livres, senão ela não é celebrada. Aconteceu até que essa prescrição valeu a libertação antecipada de um escravo judeu: sem ela não se teria atingido o número mínimo!
Os edifícios.
A sinagoga é geralmente um edifício retangular orientado para o Templo. O essencial da mobília se compõe de um armário, no qual são cuidadosamente conservados os rolos da Torá e dos profetas. Algumas sinagogas têm banco de pedra ao longo0 das pareces; parece que o povo senta no chão ou fica em pé. As mulheres e as crianças ficam separadas dos homens por simples balaustrada de madeira; em certo casos constrói-se uma tribuna para as mulheres.
Esse edifício é utilizado o mais possível e não só para o ofício do sábado; torna-se bem depressa o lugar da educação das crianças e dos jovens: em muitas aldeias, é aí que funciona a escola; nos centros mais importantes, constroem-se salas de aula em torno da sala central. Em Jerusalém, foram encontradas as ruínas da sinagoga dos alexandrinos, que servia para acolher os peregrinos vindos a Jerusalém e incluía para tal finalidade uma hospedaria e uma instalação de banhos. Mas ela é sempre a casa do ensino.

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