Vaidade das vaidades, tudo são vaidades. Não há nada de novo debaixo do sol. Com estas palavras o livro atribuído a Salomão começa uma série de provérbios fazendo com que quem o lê tenha a impressão de que a vida não tem nenhum sentido. Por outro lado, encontramos nele uma forte aversão ao materialismo embora em nenhum momento se encontre alguma referência à vida após a morte. Que mensagem afinal traz o Qohelet, denominação hebraica do Eclesiastes?
Tags: Bíblia, Eclesiastes, sentido
Livro do Eclesiastes (Coélet)
Este pequeno livro se intitula “Palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém”. A palavra Coélet, não é um nome próprio, e sim um substantivo comum usado às vezes com artigo; embora feminino em sua forma, constrói-se com o masculino. Conforme a explicação mais verossímil é um nome de ofício e designa aquele que fala na assembléia (qahal, em grego ekklesia; daí os títulos latino e português, transcritos da Bíblia grega), numa palavra, “o Pregador”. É chamado “filho de Davi e rei em Jerusalém”, embora o nome não seja mencionado, ele é certamente identificado com Salomão, ao qual o texto com certeza faz alusão. Mas essa atribuição não passa de mera ficção literária do autor, que põe suas reflexões sob o patrocínio do mais ilustre dos sábios de Israel.
Este livro apresenta-se como uma série de meditações sobre a instabilidade da vida humana, entrecortadas várias vezes por uma sorte de estribilho que indica a linha diretriz que o autor tinha em mente: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.
Para o autor, como para seus contemporâneos, todos os homens vão, depois da morte, para um único e mesmo lugar, o xeol, ou região dos mortos. A existência nesse lugar é descrita como uma existência sem consolações, nas trevas, sem felicidade alguma, onde nenhuma relação mais se tem com o que aconteceu na terra. Essas idéias sombrias a respeito da vida e da morte formam a base do pessimismo que se depreende desse escrito. Compreende-se a conclusão que ele tira desse seu modo de ver: se a perspectiva do céu é tão duvidosa, se a experiência da vida aponta tantas preocupações e desilusões, nada melhor se pode aconselhar do que fruir dos bens que Deus nos dá nesta vida e agradecer-lhe por tudo isso. Mas mesmo assim as alegrias terrenas aparecem como incapazes de estancar a sede de felicidade de que sofre o coração do homem.
Entretanto, o autor alia a este pessimismo um espírito de profunda religiosidade. Ele insiste na disposição sempre sábia, embora impenetrável, da Providência divina. Tudo o que há de bom na vida, é dom de Deus. Um dia, o homem deverá prestar contas ao seu Criador de todos os atos praticados na terra. Essas considerações conservam seu valor para todos os tempos. A piedade é o principal meio de alcançarmos nosso destino. Toda a moral do livro resume-se nos seus últimos versículos: “Como conclusão geral, teme a Deus e observa os seus preceitos; eis aí o homem todo”.
O Eclesiastes é considerado por muitos o livro mais condenável da Bíblia e, contudo, o mais satisfatório para os que aprenderam a viver comodamente com a dúvida. Parece óbvio que ele seja condenável; tem sido denunciado muitas vezes como desdenhoso, pessimista, mundano e francamente herético. De qualquer modo, também é fato que está na Bíblia e proporciona grande consolo aos que se dispõem a enfrentar a vida com honestidade. O Eclesiastes destrói a maioria dos lugares-comuns à custa dos quais vivem os superficialmente devotos.
O Livro do Eclesiastes é dividido em quatro partes, a primeira parte (1, 1 – 3,15), com uma série razoavelmente bem organizada de reflexões sobre a vida como busca de objetivos que sempre acabam sendo insatisfatórios, uma parte central (3, 16 – 11,8), parece ser uma miscelânea de observações casuais sobre diversos temas, que o autor achava particularmente enigmáticos, uma última parte (11, 9 – 12,8), que dá um tom diferente, como se o autor estivesse cônscio de talvez deixar os leitores com uma nota dissonante repercutindo nos ouvidos. Assim, retoma sua função de dar esperança aos jovens. Viva a vida em plenitude, ele aconselha. A velhice chega depressa demais. Mas para onde caminhamos? Para a escuridão de uma aldeia deserta? Para a sepultura? Existimos só para o pó. E o sopro da vida? Para onde Vai? E finalmente o epílogo do redator (12, 9 -14). Não é o epílogo convencional da sobrecapa dos livros. Este redator nos conta que o autor do Eclesiástico ensinou ao povo provérbios e ditos verdadeiros com clareza. Contudo, mesmo aqui ele reconhece que “aumentar os livros é empenho sem fim”.
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 13 dezembro 2010 at 12:26
Caro Leonardo
Seus comentários como sempre são irrepreensíveis. Alguns estudiosos duvidam que este livro tenha sido escrito por Salomão. Haveria alguma chance desse livro ter sido escrito na época dos Macabeus depois da invasão de Alexandre na Grécia? É que o povo grego exerceu um grande fascínio sobre o povo judeu onde aqueles menos ortodoxos deixaram as tradições judaicas aderindo ao ginásio ao invés do templo. Por essa época viveram os epicuristas que rejeitavam toda essa miscelânea de povos e costumes misturados. Tanto Epicuro quanto o autor de Eclesiastes parecem profundamente decepcionados com a época em que vivem, em bora os primeiros sejam conhecidos pelo otimismo quase hedonista da vida. Ouvistes alguma coisa a esse respeito?
Cara Silvaniza.
Como estudo a muitos anos a Bíblia e tenho cursos presenciais que ministro, já possuo um grande "arquivo", onde tenho informações que coleto da boa bibliografia que possuo.
E, como sempre, tu nos instigas e apresentas questões de relevância, com profundidade e ternura.
Tem sentido em parte, o que apresentas em teu comentários, visto que, conforme as notas introdutórias da Bíblia de Jerusalém temos: "Coélet era um judeu da Palestina, provavelmente de Jerusalém. Escreve num hebraico tardio, repleto de aramaísmos e emprega dois termos persas. Isso supõe uma data bastante posterior ao Exílio, mas anterior ao começo do século II a.C., quando Ben Sirac se serviu deste livrinho; com efeito, a paleografia situa pelo ano 150 a.C. certos fragmentos de Ecl encontrados nas grutas de Qumrã. O século III é, pois, a data de composição mais verossímel. É o período em que a Palestina, submetida aos Ptolomeus, é atingida pela corrente humanista, sem conhecer ainda o despertar da fé e da esperança que ocorreu no tempo dos Macabeus".
O Primeiro livro dos Macabeus, deve ter sido escrito depois do ano de 134, mas antes da tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C.
Quanto a questão relacionada aos epicuristas, temos, agora nas notas de rodapé da Bíblia do Peregrino: "[...]
Trabalhar e não desfrutar, trabalhar para outros, é uma das maldições clássicas da lei e dos profetas (por exemplo, Lv 26, 16; Dt 28, 30-33). E há homens - pensa Coélet - que se condenam a semelhante maldição. Porque ocupados no esforço de acumular, não têm tempo para desfrutar. Não é o 'carpe diem' do epicurista, a despreocupação forçada de quem deseja vingar-se com tal grito (Is 22, 13). O que dá sentdio à vida é a volta aos bens simples, ao ritmo equilibrado do trabalho e do desfrute (Lv 26, 10; Dt 28, 8-11; Is 62, 8-9). Para alcançá-lo, é preciso vencer dupla ambição: a posse sem limites e a descoberta do último sentido de tudo.
[...]"
Olá Silvaniza.
Tens acompanhado todos os tópicos do grupo sobre a História da Bíblia?
Tem um tópico meu: A Bíblia e seus leitores, que creio seja interessante para os teus estudos. Penso que para os nossos amigos que buscam o conhecimento da Bíblia através das idéias fundamentalistas, pode ser que não seja interessante, mas tu gostas de "estudar" maneiras diferentes e, através destes novos conceitos, chegar a um maior aprofundamento em teus estudos bíblicos.
Também já postei dois comentários sobre a questão dos números na Bíblia ......, ainda não cheguei nas partes mais "interessantes", mas isto é de propósito, para dar maior suspense.
Espero poder postar todos os dias (pelo menos da semana) um pequeno texto.
Um abraço.
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 3 fevereiro 2011 at 16:15
Caríssimo Leonardo
Sim, tenho acompanhado sempre. Aprendo muito com tuas postagens. Onde postastes os comentários sobre os números bíblicos?
Criei um tópico no grupo sobre a História da Bíblia: Que significado tê os números na Bíblia?
Que bom que acompanhas e, por gentileza gostaria dos teus comentários, pois eles sempre são muito pertinentes.
Abraços
Olá Austri.
Este tópico é da nossa amiga e irmã Silvaniza.
Concordo com o teu comentário sobre o livro do Eclesiastes.
Quanto ao teu parágrafo em que não arriscas dizer que este livro seja a Palavra de Deus, sem dúvida é uma questão bem pessoal.
Eu considero a Bíblia completa como sendo a Palavra de Deus, que nos foi dirigida através dos tempos na história do povo hebreu e depois, com o Novo Testamento, a Palavra viva que é Jesus Cristo.
Mas, também entendo que esta palavra deva ser analizada em seu contexto histórico e através dos estudos da exegese e hermenêutica, ser interpretada à luz de nossa realidade. A Palavra de Deus não é estanque, não é parada no tempo, ela é Luz para o caminho.
Eu, agora já nos inícios do outono de minha vida, consigo ler e entender esta mensagem do livro e, com a experiência que adquiri, olhar a minha caminhada e ver as oportunidades em que a luta por um lugar ao sol, pela conquista de estabilidade e outras decisões de minha vida, vejo esta questão de que tudo é vaidade, tudo é correr atrás do vento e sei que há um tempo para tudo...
Também não o considero um livro pessimista, mas sim de reflexão profunda no sentido da vida.
Um abraço.
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 1 março 2011 at 19:01
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 28 março 2011 at 20:19
Olá Silvaniza e amigos do grupo.
Fazendo meus estudos bíblicos este ano de 2012 com a Bíblia Ave Maria - Edição de estudos, deparei-me na introdução ao Livro do Eclesiástes, com este belo comentário:
"O Livro do Eclesiastes é certamente um dos mais chocantes de toda a Bíblia. A primeira impressão é de que se trata de um autor pessimista. No entanto, estamos diante de um mestre da espiritualidade existencial. Não adianta tentar explicar toda a vida, pois ela é em si dramática. Resta-nos acolher o pouco que temos: as alegrias pequenas do dia a dia.
Não existe céu, na sua concepção, mas isso não é motivo para bebermos e comermos e fazer orgias. A dignidade humana vale por si. Ele nunca prega o hedonismo ou a devassidão. Os princípios morais estão todos lá. A motivação é que muda. em Eclesiastes o pecado dever ser evitado por ferir a dignidade e não porque nos leva para o inferno. O homem faz o bem não por interesse no céu, mas sim porque o bem é bom!.
Abraços.
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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