Uma Questão para a História Cultural? - Compartilhamento de conhecimento na Net X Pirataria

Bom dia a todos.

Sou formado em história e, como inúmeros estudantes, de graduações e pós-graduações, sinto a necessidade constante (o que não deixa de ser um prazer) de comprar mais e mais livros. Entretanto, a satisfação dessa necessidade e prazer se torna difícil, haja vista que possuo (como muitos) uma situação financeira não tão satisfatória, o que me impede de adquirir todos os livros que preciso. Há alguns meses atrás, por volta de setembro do ano passado, encontrei uma verdadeira mina de outro: o blog a target="_blank" rel="me nofollow" href="http://letrasuspdownload.wordpress.com/">http://letrasuspdownload.wordpress.com/>, que até mais ou menos um mês atrás contava com aproximadamente 2.496 títulos scaneados de livros essenciais à uma vasta gama de cursos (indo da história, passando pela filosofia, letras, psicologia, economia, sociologia, etc, etc.).

O blog havia sido idealizado, a princípio, por estudantes da USP, que passaram a disponibilizar na net scans dos textos que necessitariam durante o curso. Com o aumento do blog (que somava mais de 10.000 acessos diários), pessoas de todo o país passaram a ajudar e scaneavam livros que achavam importantes, enviando para o moderador do blog disponibilizá-los (eu mesmo, como forma de retribuir os livros a que tive acesso, mandei alguns, procurando ajudar algúem, da mesma forma como fui ajudado). Dessas contribuições, o blog passou a contar com o acervo acima citado.

Contudo, há mais ou menos um mês, o blog passou a ser alvo de autores/editoras que mandavam retirar os livros disponibilizados da net, porque aos seus olhos isso se configuraria como "pirataria". Disto resultou que o blog, procurando se manter no ar, modificou seu nome para "livrosdehumanas.wordpress.com". Mesmo assim, o blog terminou sendo tirado do Ar. Isso levantou uma forte polêmica, mobilizando os aqueles que se sentiam prejudicados: por exemplo, nós, professores/estudantes e, na contra-mão, alguns autores e editoras. Por exemplo, conforme foi postado no a target="_blank" href="http://twitter.com/#!/Livrosdehumanas">Twitter do blog>, Ivan Pinheiro Machado, da renomada editora L&PM afirmou que quem posta livros scaneados parcial/totalmente na net seriam "ladrões fascistas disfarçados de libertários".

A polêmica não parou por aí, e um dos defensores da exclusão do blog, que correu em "defesa dos direitos autorais", foi o professor, jornalista, doutor em sociologia e professor da PUC-RS, Jumerir Machado. Este, também via twitter, respondeu a vários "twiteiros" defensores do blog e de sua volta. A polêmica se estedeu, ainda, para além dos 140 caracteres do twitter, tornando-se, inclusive pauta de algumas matérias de jornais e de blogs. Para verificar isso, basta jogar no google as key-words "livros de humanas; blog; saiu do ar;"

Por fim, antes de concluir esse post, deixo o link de algumas dessas discussões, para que o leitor se intere dos termos da discussão: primeiro, segue o link dos argumentos de Juremir Machado, ambos publicados na página online do jornal O Correio do Povo, no qual o autor colabora:

1º a target="_blank" href="http://www.correiodopovo.com.br/Opiniao/?Blog=Juremir%20Machado%20da%20Silva&Post=286314">Primeiro texto do Juremir>

2º a target="_blank" href="http://www.correiodopovo.com.br/Opiniao/?Blog=Juremir%20Machado%20da%20Silva&Post=286313">Segundo texto do Juremir

Agora, segue o link de um entrevista via e-mail do moderador/idealizador do blog publicada na página online do jornal O Globo:

Link matéria jornal o globo

Aqui, mais um post de um "blogueiro" repercutindo a polêmica com Juremir Machado

link a target="_blank" href="http://baixacultura.org/2011/05/02/juremir-machado-e-os-finados-direitos-autorais-na-internet/">Repercutindo a Polêmica com Juremir Machado>

Enfim, acredito que essa questão deve ser objeto de reflexão de nós, historiadores, sobretudo dos historiadores culturais, pois esse fenômeno parece estar essencialmente ligado a esse campo. Lembremos que foi a cópia de livros, através da criação de uma nova forma de impressão (vide o esforço de Gutenberg) que contribuíram para uma ampla difusão da cultura escrita, que revolucionou a dimensão cultural de toda uma época.

Se vivemos em um momento histórico que possibilita a difusão ampla de informação/conhecimento, devemos adotar posturas reacionárias, limitando a capacidade de consumo dos indivíduos por sua capacidade financeira de consumo, ou seja, fazendo valer a idéia de que "só compra livro quem pode"? É justo classificar a difusão de livros scaneados pela internet, tal qual fazia o referido blog, sem nenhum fim lucrativo, como pirataria pura e simples?

Acredito que somente deve ser classificado como "pirataria" a venda indevida de produtos que são feitos à semelhança de outros. Compartilhar um produto cultural sem fins lucrativos, na minha ótica, apenas difunde cultura, e isto não me impede de comprar o referido produto em outro momento. Afinal, ninguém deixa de comprar livros pelo fato de que muitos estão disponibilizados livremente em bibliotecas. Logicamente, a questão da propriedade intelectual está em jogo, mas criminalizar pessoas que disponibilizam livros ou outros tipo de produto cultural não parece ser a saída. Se eu empresto um livro, cd, jogo, DVD, etc., para alguém, e essa pessoa copia, há crime? Ou é uma questão quantitativa, pois na net inúmeras pessoas podem adquirir o produto disponibilizado e o crime se configuraria pela quantidade de pessoas que tem acesso?

Qual a sua opinião?

Tags: autorais, compartilhamento, direitos, livros, pirataria, scaneados

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Respostas a este tópico

Com toda certeza Danilo, este é um assunto de extrema importância e que deve ser discutido por todos nós!

Quem não precisou de um livro e não teve como comprá-lo? Muitas vezes não é nem por questões financeiras. Tenho muitas dificuldades de comprar exemplares de diversas áreas da História, os quais não estão disponíveis em nenhum site de compra online e, como moro numa cidade dita pequena, não os encontro aqui.

Outra certeza, é que ninguem vai deichar de comprar um livro, caso tenha condições de fazê-lo, por tê-lo disponível em PDF. Nada substiitui o prazer de ler o livro. Como falaste, é questão de prazer também.

Acredito que deveríamos pensar numa mobilização via Café História para reforçar todo esse movimento.

Estou, assim como você, disposta a brigar pela causa.

Muito obrigada por divulgar esta questão.

Elisana Reis

Olá Elisana.

Concordo plenamente contigo. Acredito que não é porque um livro é postado parcial o integralmente na internet que você vai deixar de comprá-lo. Se cada livro disponibilizado gratuitamente abalasse de tal modo o mercado editorial e os "lucros/rendimentos" dos autores/editoras, as bibliotecas municipais ou mesmo das universidades, já teriam feito esse "abalo". O que me espanta é a criminalização com a qual se rotula uma atividade que, em si mesma, não gera lucros financeiros para ninguém. O moderador do blog retirado do ar (livros de humanas) organizava um acervo com quase 3 mil exemplares e não tinha nenhum lucro com isso. Acho que a criminalização residiria se, por outro lado, ele ou todos os que colaboravam com o blog estivessem "vendendo" esses scans. ai, realmente, a coisa mudava de figura. Sei que existe a questão dos direitos autorais e tudo. Mas o fenômeno da internet, a disponibilização desses arquivos gratuitamente, como uma verdadeira biblioteca virtual, com acesso livre e gratutio, não deve deixar de ser objeto de reflexão (histórica, para nós historiadores) em nome da suposta defesa dos direitos autorais e comerciais das editoras. Eu também moro numa cidade muito pequena (interior do ceará) e o blog em questão havia se tornando uma ótima ferramenta, pois eu tinha acesso, no caso de meu campo, a história), a obras essenciais ao meu curso. Há que se considerar também que nem sempre o estudante/professor que acessava o conteúdo desse blog saía imprimindo todos os livros que baixava, pois, o custo da impressão pode ser, em alguns casos, igual o maior do que o do próprio livro. O acesso livre a esses livros funcionava mais, aos meus olhos, como uma forma de se entrar em contato com algo que, no momento, não se tem condições financeiras para adquirir. irei postar alguns textos que estão na net relativos a essa polêmica aqui no café.

Hasta!

Danilo Linard.

Bom, esta questão Danilo é sem dúvida, muito polêmica, e, não haveria de mostrar-se senão, latente. De qualquer forma, esta briga entre o monopolio da circulação dos livros através das editoras e assim consequentemente de um saber, e, de outro lado a democratização através desse canal mundial chamado internet, ainda terá sem duvida muitos capitulos a serem escritos. Mas, neste "cabo de guerra" travado entre ambos, a vitória ainda é incerta. Sem dúvida, o que vemos perante esse fenomeno da internet, é senão um recrudecimento desse mesmo monopolio em prol segundo uma estrutura industrial literária, na qual o seus maiores prejudicados (segundo eles) seriam os autores - isto sem contar as editoras.

No entanto, uma questão que sem duvida merece ser destacada dentro desta discussão,e, esta ligada diretamente a este fenomeno, são os preços dos livros (ao meu ver) caros. Caso os livros tivessem preços mais acessiveis não haveria de existir a "pirataria". As editoras deveriam pensar que seu público, é em suma maioria formado de estudantes universitários, e, enquanto estudantes não possuem renda formal. Obrigando assim, os estudos a criar novos canais para driblar esta barreira monetária. Contudo, esta polêmica tem raizes mais complexas do simplesmente um embate pseudo-maniqueista, entre os que defende a democratização dos livros x editoras e autores. Alguns dos responsaveis está na discrepancia social existente nas camadas sociais, o que dificultaria a aquisição do saber literario, por outro lado, vemos os altos impostos cobrados pelo Estado sobre as editoras, que inviabilizaria a diminuição dos livros, enfim, o que vemos na realidade é somente a ponta de iceberg. Acredito que deveriamos encontrar uma solução "juntos", e, não ficarmos em lados opostos. Pois, as editoras estão no final de contas, brigando com seus proprios clientes. O que pela uma lógica do mercado um paradoxo.

 

De fato, essa tensão entre Produtores/Editores e consumidores (os leitores) é por demais paradoxal. Para resguardar os rendimentos dos primeiros, os livros possuem, muitas vezes, um custo que está distante da realidade de muitos, tanto dos que estão na graduação, quanto nas pós...Por outro lado, o leitor tem a necessidade de adquiri-los, além, tmb, de para muitos a leitura constituir-se como verdadeiro prazer. Todavia, o acesso a este ou aquele conteúdo/livro, termina sendo limitado pela condição financeira de cada um: isto significa que há, ainda, uma limitação do "conhecer" pelo "Ter". sinceramente, sou a favor dessas táticas "subversivas" de transmissão e compartilhamento de conhecimento, desde que ele não entre nessa lógica de mercado, ou seja, que esse ditos livros "piratas" sejam disponibilizados na net para que sejam vendidos. Eu pesquiso as relações entre história e literatura, e um campo que tem me chamado muito a atenção são as histórias em quadrinho adultas "Graphic Novels" (inclusive há um grupo sobre essa temática aqui no café que é bem interessante). Pois bem, tanto quanto outros livros, há grupos de que traduzem, scaneiam e disponibilizam gratuitamente os scans de HQ's renomadíssimas, quando em certas livrarias, algumas edições dessas HQ's giram em torno de 50,00R$ a 100,00R$, senão mais. Creio que essa discrapância social, termina sendo combatida com essas praticas, também de uma forma paradoxal, pois o acesso ao conhecimento não é limitado pela condição sócio-econômica das pessoas.

Em suma, essa é uma questão de nosso tempo presente, e não devemos nos furtar em debatê-la, nem em chegar a conclusões apressadas. Fico contente de saber que há pessoas que não fecham os olhos a essa problemática.

Hasta

Danilo

Notícia sobre a suspensão do blog Livros de Humanas na página online de "O Globo"

"Suspensão de blog com livros piratas cria discussão na web

Uma mensagem de violação dos termos de uso anunciou semana passada aos milhares de visitantes diários do blog Livros de Humanas a suspensão da página, que era hospedada pelo Wordpress. Criado em 2009 por um aluno da USP, o blog formou em pouco mais de dois anos uma biblioteca maior do que a de muitas faculdades brasileiras. Até sair do ar, reunia 2.496 títulos, entre livros e artigos, de filosofia, antropologia, teoria literária, ciências sociais, história etc. Um acervo amplo, de qualidade, que podia ser baixado imediatamente e de graça.

Muitas pessoas, é claro, adoravam a página. Entre elas, no entanto, não estavam os editores dos livros reunidos ali. A biblioteca do Livros de Humanas era toda formada sem qualquer autorização.

- É óbvio que o blog desrespeita a legislação vigente - diz o criador da página, que mantém anonimato, numa entrevista por e-mail. - Mas não porque somos bandidos, mas porque a legislação é um entrave para o desenvolvimento do pensamento e da cultura no país.

O mesmo argumento foi defendido nos últimos dias no Twitter por intelectuais como o crítico literário Idelber Avelar, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a escritora Verônica Stigger e o poeta Eduardo Sterzi. Do outro lado da discussão, críticas à pirataria. A Editora Sulina, que vinha pedindo a remoção da página, falou em "apropriação indevida" e o escritor Juremir Machado escreveu: "Quem chama pirataria de universalização da cultura é babaca q ñ vende livro, mas quer q alguém pague a conta. Livro tem de ser barato e pago".

O caso chama atenção para a ampliação da circulação de arquivos digitais de livros na internet, uma prática que dá novo sentido e escala à discussão sobre a circulação de cópias xerocadas no meio acadêmico.

Leia abaixo entrevista feita por email com o criador do Livros de Humanas.

Por que você criou o blog e como ele funcionava?

O blog nasceu no começo de 2009 (e saiu do ar na sexta-feira passada) para ser uma alternativa dos estudantes de letras da USP à copiadora que existe no prédio do curso e que tinha aumentado arbitrariamente em 50% (de 10 pra 15 centavos) o valor da cópia (o contrato de cessão de espaço com o Centro Acadêmico estabelece que a decisão deve ser conjunta). No começo havia a ideia de colocar apenas os textos das disciplinas de cada semestre. Esta iniciativa surgiu sem vínculo algum com o CA, que nunca se manifestou sobre o blog. No começo recebi de alguns colegas os programas das disciplinas e procurava na net se já existia cópia digital dos livros no 4shared ou similares. Se eu não encontrava, mas tinha o texto, escaneava. Por isso, no começo o blog era mais próximo dos meus interesses acadêmicos (mais crítica literária do que linguística, p. ex.) Também recebia textos de outros colegas e assim criamos o blog. No primeiro mês tínhamos menos de cem textos. Com o crescimento deste número e das visitas o blog deixou de ser apenas algo relacionado ao curso de Letras da USP (apesar de ter mantido o nome por mais um ano) e se tornou um depositário de textos da área de humanidades. O blogue saiu do ar com exatos 2.496 arquivos – não necessariamente livros, porque colocávamos também capítulos de livros, alguns de livros que surgiram inteiros no blogue tempos depois.

Com isso meu critério passou a ser o seguinte: se alguém enviava o arquivo eu publicava, independente do ano de publicação e seu estado no mercado (se era lançamento ou texto fora de catálogo). Porém eu só escaneio obra esgotada e que seja difícil de encontrar.

O perfil de seleção era bem básico: textos da área de humanidades ou correlatos. Tínhamos de obras do Will Eisner a livros sobre lógica. De autores brasileiros contemporâneos a material de ensino de língua estrangeira. De Sociologia a Ecologia. Majoritariamente entravam livros em português, mas tínhamos muitas obras em espanhol, inglês, italiano, alemão e francês.

Quantos usuários o blog tinha e qual o perfil deles?

No começo o público era quase que inteiramente uspiano. Nos últimos tempos era majoritariamente universitário, com visitas de todas as partes do globo. De estudantes de Nova Orleans ('terra' de um grande entusiasta do blogue, o professor Idelber Avelar) a visitantes dos PALOP (Países Africanos de Língua Portuguesa). Pelos e-mails de pedidos que eu recebia dava para traçar um perfil mínimo: são estudantes de universidades brasileiras com péssimas bibliotecas. É comum eu receber pedidos do tipo "preciso do livro tal para minha iniciação científica mas não o temos aqui e vi no dedalus (sistema de consulta da USP) que a biblioteca da FFLCH tem". Não consigo – pelos dados informados pelo Wordpress – determinar quantos visitantes únicos o blog recebia diariamente. Nos últimos meses a média de pageviews/dia passava de 10 mil. Em um ano no Wordpress (antes o blogue estava abrigado no blogspot) passamos dos 1,8 milhões de pageviwes, uma média de quase 5 mil/dia.

Antes desse episódio recente você já havia tido algum outro problema?

Sim. Desde o começo links são retirados do ar. E logo depois, claro, eu colocava de volta. Ficamos - eu e ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) - neste gato e rato até o fim. Quando o blog ainda estava no Blogspot recebi do Google um aviso sobre infração às leis americanas de Direito Autoral. Daí mudei pro Wordpress que é (ou achei que era) mais flexível. Algumas editoras me davam mais trabalho, como a Jorge Zahar e os livros do Zygmunt Bauman ("capitalismo parasitário" era o que tinha mais links retirados) mas nunca passou disso. Denúncia para os sites de hospedagem dos textos e livros. E é preciso dizer, apesar de óbvio, que não fui o responsável pela primeira disponibilização de quase todo o conteúdo do blogue. Mais procurei, editei e organizei num único centro os textos do que outra coisa.

Por que o blog saiu do ar?

Fora os e-mails da ABDR, nunca recebi nada de mais substancial. Nos últimos dias a Editora Sulina (inexpressiva, de quase 3 mil livros que tenho em casa apenas 3 são editados por ela) – seja por seu perfil ou de seu editor no Twitter – reclamou muito do blog e disse que tomaria medidas contra. E dias depois, sem aviso prévio, o Wordpress retirou o blog do ar. E, se não me engano, temos 3, no máximo 5 livros dela. Honestamente, não sei apontar (até porque alguns – como os livros do Maffesoli, hoje editado pela Sulina – são de edições anteriores, como as da Brasiliense) quais são os livros reclamados. Editoras como a Companhia das Letras, que tem cópias de milhares de livros rodando na internet, nunca se manifestaram.

Algumas pessoas defenderam o blog dizendo que ele era como uma biblioteca pública. Concorda com a comparação?

Acredito que a comparação é ruim – posto que o blog é apenas um paliativo que nasceu das péssimas condições das bibliotecas públicas do país – porém não de todo despropositada. O blog era gratuito (tempos atrás fizemos um rateio com doações diversas para a compra de um hd para becape dos arquivos) e acessível para todos. Como uma biblioteca.

E o que você acha da crítica de que o blog desrespeita a legislação vigente? 

Bem, é óbvio que o blog desrespeita a legislação vigente. Mas não porque somos bandidos, mas porque a legislação é um entrave para o desenvolvimento do pensamento e da cultura no país. O blog é tão ilegal quanto a cópia xerox nas universidades os sebos de livros antigos. E sem sebo e xerox uma universidade não funciona. Das bibliotecas universitárias a Florestan Fernandes (biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) deve ser uma das 3 ou 4 mais completas do país. E mesmo contando com determinada obra, o número de volumes é insuficiente.

Um exemplo prático: O livro "O demônio da teoria" ficou por anos esgotado (foi reeditado no ano passado – e eu comprei o meu exemplar!) e possuía 3 exemplares na Florestan. Emprestei o livro, escaneei e hoje milhares de outros estudantes tiveram acesso a um texto fundamental para o estudo da teoria literária. A revisão da lei é uma necessidade de nossos tempos. Acreditava muito em avanços durante a gestão Gil/Juca no MEC. Mas o retrocesso defendido por este ministério novo é assustador.

Sem uma revisão da Lei de Direito Autoral que tente equilibrar estas duas demandas teremos mais problemas como este. As editoras de livros preferem seguir o estúpido caminho das gravadoras. E, se não acordarem logo, terão o mesmo destino.

Como possível futuro autor de obras acadêmicas, você consideraria normal que seus livros fossem distribuídos de graça?

Claro! Ainda mais se eu estiver vinculado a alguma universidade pública. A questão não deve ser essa. É óbvio que o autor deve ter remuneração por sua produção. Mas não podemos aceitar como normal que o critério para acesso a um texto (que é produto de sua época e dialoga com toda uma tradição intelectual – seja de domínio público ou não) seja o econômico. Um estudante sem dinheiro para pagar R$ 100 numa obra deve ser desprezado? Acredito que o direito ao acesso e a difusão do conhecimento se sobreponha ao do autor de receber dinheiro por sua obra.

Outro exemplo prático: quando ingressamos na Letras-USP usamos em elementos de linguística o livro "Introdução à linguística" (volumes I e II) editado pela Contexto. O livro é organizado por um professor da USP e os autores dos capítulos são também professores da casa, todos contratados em regime de dedicação exclusiva, além de contar com verba da órgãos públicos (Capes, CNPq, fapesp) de fomento. É justo que este profissional exija de 850 ingressantes (isso só na USP, o livro é usado em outras Instituições de Ensino Superior também) a compra dos dois volumes? E, principalmente, quem recebe este dinheiro? Porque os autores (são mais de dez por livro) recebem centavos de cada edição vendida por quase R$ 40 nas livrarias. Outra situação comum (desculpe se me concentro muito na USP, mas é de onde sou e de onde vejo tudo): livro escrito por pesquisador da USP, editado pela EDUSP ou pela Humanitas (editora da FFLCH) e sem exemplar nas bibliotecas da USP. Se não há cópia nas bibliotecas, por qual motivo não devemos copiá-los?

Por último, duas considerações. A primeira pessoal: Sem a contribuição de centenas de outras pessoas – sejam estudantes universitários ou não – o blog jamais existiria. Sou apenas quem procura na net, organiza os arquivos e escaneia dois ou três livros por mês. E, ao contrário do que acreditam editores como este da Sulina, sou do tipo que não possui e-reader, só usa xerox quando não tem jeito e ainda gasta meio salário mínimo por mês em livros físicos. O livro pirata não tira público do livro "oficial". Não acho que a cópia pirata seja a responsável pelo número cada vez menor nas tiragens das editoras. Acredito no que disse o Gaiman quando veio pra Flip: "O inimigo não é a ideia de que as pessoas estão lendo livros de graça ou lendo na internet de graça. Da minha perspectiva o inimigo é as pessoas não lerem."

A outra é de apoio político. Desde intelectuais do porte de Eduardo Viveiros de Castro e Idelber Avelar a novos pensadores e escritores como Eduardo Sterzi, Veronica Stigger e outros tantos (muitos deles seguidores do perfil do blog no Twitter) apoiam o blog. Todos os que citei aqui possuem obras no blog e deixaram de ganhar (segundo o cego argumento de alguns editores do país) algumas dezenas, talvez centenas, de reais. E não ficam bravos com isto. Pelo contrário, como certa vez tuitou o professor Avelar: "Piratearam meu 1º livro! Tá na net pra baixar. E eu, como autor, gosto disso: http://bit.ly/ikvMaR #PegaECAD"

link para o texto abaixo

"

Moção de apoio ao blog “Livros de Humanas”

Nos últimos dias, divulgou-se a notícia de que um blog feito por um estudante de Letras foi removido do ar devido à pressão de editoras que, baseadas na atual legislação brasileira, defendem que a publicação de livros gratuitamente na internet não deve ser permitida. O blog Livros de Humanas publica desde 2009 textos e livros necessários a qualquer estudante de Ciências Humanas.

O CAELL entende que qualquer ação no sentido de universalizar a cultura e derrubar fatores socioeconômicos como base do direito pela cultura e conhecimento deve ser apoiada e aplaudida. Hoje, o estudo acadêmico e a possibilidade de uma formação universitária são cada vez mais hierarquizados pelo poder aquisitivo do estudante. Nosso curso, grande como é, dispõe de uma base social das mais variadas, que acaba por mesclar estudantes de diferentes origens sociais. Não obstante, a estrutura da Letras é extremamente deficitária para o número de estudantes que circulam pelo curso, o que se reflete em diversos fatores como salas lotadas, o ranqueamento – um efeito da falta de professores, problemas nas grades curriculares até o problema que toca a questão do blog: nossa deficiente biblioteca.

Apesar de ser uma das mais completas bibliotecas de humanas do país – o que demonstra os problemas passados por outras universidades menos privilegiadas Brasil afora – a biblioteca Florestan Fernandes não tem o número de títulos e exemplares suficientes para os mais de cinco mil alunos da Letras. Muito menos para todos da FFLCH. A situação se mostra mais grave nas disciplinas do ciclo básico, como Introdução aos Elementos da Linguística em que todos os calouros estudam a partir de um mesmo livro e nossa biblioteca não disponibiliza número suficiente de exemplares do mesmo.

Os estudantes, reféns da falta de estrutura do curso, veem-se obrigados a recorrer à Xerox e à compra de livros, mas nem todos têm condições. É nesse ponto que a iniciativa do blog é fundamental e trabalha diretamente para a permanência e a formação acadêmica de muitos estudantes.

Além disso, a discussão estende-se para nossa legislação de direitos autorais e como se dá o processo de mercantilização da cultura no Brasil. O conhecimento deve ser entendido como algo a que todos devem ter direito, umas das ações que atua nesse sentido é a disponibilização de material acadêmico online e gratuitamente. A publicação destes textos não deve ser entendida como uma violação aos direitos autorais e sim como uma valorização da obra. A Literatura deve ser de livre acesso e disponível para todos e não somente para aqueles que podem consumi-la.

Por esses motivos, o CAELL, gestão Uma Flor Nasceu na Rua!, entende que é de fundamental importância que o blog volte ao ar e mantenha o excelente trabalho de disponibilizar gratuitamente textos e livros para toda e qualquer pessoa que tenha interesse. Colocamo-nos ao lado da causa do blog Livros de Humanas e de toda e qualquer iniciativa que avance na democratização do conhecimento e da cultura dentro e fora da universidade.

CAELL – Centro Acadêmico de Estudos Literários e Linguísticos “Oswald de Andrade”.

Gestão Uma Flor Nasceu na Rua! – Um CAELL de portas abertas.

Polêmico mesmo esse tema. O problema de compartilhar um produto sem fins lucrativos é que se isso ocorre, o financiador do produto não recebe, acaba trabalhando de graça e, no futuro, não investirá mais. Da mesma forma, o criador do produto não poderá viver de seu trabalho. Acredito que precisamos encontrar uma saída que seja justa para todas as partes envolvidas na cadeia produtiva e de consumo. Ter um rigor maior nos preços e taxas em produtos culturais pode ser uma boa. O que acha?

Com certeza Bruno, é muito polêmico. Acredito que colocar o tema em discussão é mais do que premente. Esse lado do financiamento e do ganho realmente deve ser levado em consideração, assim como o custo desses mesmos produtos. Além do que, em nossa vida acadêmica, muitas das pesquisas que utilizamos em nossas próprias pesquisas e estudos, em maior ou menor grau, podem ter sido financiadas com dinheiro público (no caso, as bolsas de estudo e pesquisa). Todavia, pode ocorrer que, com o alto custo do livro, p.ex., posso não ter acesso a algo financiado inicialmente com dinheiro público. Creio que deveria se pensar em uma forma de incentivar/compensar um autor que disponibilizasse seus livros na net e que isto fosse visto como um tipo de biblioteca virtual. Acredito que a disponibilização não abala tanto assim o mercado editorial. Outra coisa a se pensar, tmb, é a criminalização dessa prática. se vc me emprestasse um livro e eu o xerocasse, isso seria pirataria? O que a configura? é a quantidade de pessoas "beneficiadas"? Acredito que só deveria criminalizar a disponibilização de livros caso estes estivessem sendo vendidos, tal como na pirataria "normal" (dvds de filme, cd's, roupas, perfumes). Enfim, são questões que nós historiadores devemos refletir, sobretudo em nosso atual momento: há toda uma discussão para se descriminalizar o consumo de maconha, e, no entanto, a disponibilização de livros gratuitamente (tal como nas bibliotecas "reais") não recebe a mesma atenção.

Abraços e Parabéns pela Iniciativa em Criar o Café História!

Danilo Linard

Danilo, o tema é importante. E está no plano da cultura.

Por outro lado, me parece claro que isso não é história.

Abraço!

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Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

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