Bem, no momento estou fazendo minha monografia sobre carnaval, e venho
levantando questões relacionadas a identidade nacional, nacionalismo, e
cultura popular. Deparando com alguns autores que tratam do tema percebo
a utilização do conceito de cultura popular e seus entendimentos sobre
tal. Alguns autores não gostam de aderir o conceito de cultura popular
por aceitar de forma implicita a divisão entre cultura popular e cultura
erudita, mas ao mesmo tempo acreditam que deve-se saber da existência
das duas, pois senão assim não haveria a circulariade cultural, por ai!

Minha pergunta é o que vocês entendem por cultura popular e quais os autores que vocês acham que definem bem este conceito?

Tags: cultura, popular

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Respostas a este tópico

Os colegas podem dar outras sugestões mas eu começaria com "Integrados e Apocalípticos" de Umberto Eco...
Olá Taty.
Penso que geralmente o tratamento da cultura popular é permeado de entrelinhas. Também não sou especialista no assunto, mas talvez possa te indicar duas obras fundamentais:

BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais. - Essa obra talvez seja bem mais específica, inclusive, ao lidar sobre a representação da circularidade de cultura, inclusive que recai sobre a representação de determinados elementos, a forma de pesquisa, enfim. Ele, para o seu tema, é eu diria obrigatório. Já li. Além de vislumbrar o percurso metodológico primoroso que ele faz, o conteúdo acerca da circularidade da cultura é muito interessante.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermos - Porque ele trata sobre a questão de circularidade da cultura, para além do habitual tratamento dicotômico entre a cultura popular e a cultura erudita (Ele tem como referencia a obra do Bakhtin). O exemplo dele, micro-história, do moleiro traz uma discussão bem bacana a respeito do que se entende de transmissão de cultura (oral para a escrita), apropriação da cultura erudita de diferentes formas e como elas se deram. Acho que essa obra pode te abrir a mente.

Agora (cuidado para a amplitude do tema com o tempo que você tem para desenvolver a pesquisa: IC, Mestrado, Doutorado), se a idéia é também observar a relação entre o carnaval/cult. popular com o nacionalismo e identidade nacional, sugerido duas obras:

HOBSBAWM, Eric J. e RANGER, Terence O. A Invençao Das Tradiçoes - Esse livro, li alguns capítulos e logo mais vou lê-lo na integra, então, se quiser conversar depois... aborda a questão da invenção das tradições como forma de criar a identidade nacional e o sentimento nacionalista no período de formação e consolidação dos EStados-Nações. Então, também diria que seria uma bibliografia básica e imprescindível.

HOBSBAWM, Eric. J. Nações e Nacionalismo desde 1780 Esse já trata especificamente sobre as questões da formação dos Estados-Nações, discussão o conceito e a representação de nação.

Bom. Fico por aqui. Talvez por meio dessas duas referencias (e das outras sugestões que o pessoal fizer) você encontrará outras.

Abraços,
obrigada merilin. Eh o Hobsbawm eo Bakhtin jah estão na minha lista!!!
Te mando também a bibliografia, garota.
CEVASCO, Maria E. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo: Boitempo, 2003.

CHARTIER, Roger. A História Cultural. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: DIFEL, 1990. (Coleção: Memória e Sociedade).

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário do Aurélio. Disponível em: . Acessado em: 25 abril 2010.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. A crise da Memória, História e Documentos: reflexões para um tempo de transformações. In: SILVA, Zélia Lopes da. (Orgs.). Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: UNESP: FAPESP, 1999 – (Seminários e Debates).

MENEZES, Eduardo Diatahy B. de. A Cultura Brasileira “descobre” o Brasil, ou ‘Que País é este?!’ – Uma pergunta à cata de resposta. São Paulo: Revista USP, nº. 12, Dez-Jan-Fev, 1991-2.
Werneck. Síntese de História da Cultura Brasileira. 17. ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.
THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
______. A miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
______. Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Cia. das Letras, 1998
______. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Ed. Unicamp, 2001.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
Um livro bem interessante, revelador (e fininho) é "Cultura Popular na Antiguidade Clássica", de Pedro Paulo Funari.
Nele, o autor apresenta alguns conceitos de Cultura, inclusive o latino, que diz + ou - que é toda a elaboração humana, tudo que é feito/construído pelo conjunto da Humanidade.
Também nos mostra, através das inscrições parietais de Pompeia (dezenas, centenas de milhares), o alto desenvolvimento intelectual/artístico de pessoas do povo -- inclusive catalogando por categorias --, que faziam uma arte mesclando literatura e desenho, p. ex.
Pra certos vanguardeiros se tocarem de que não estão reinventando a roda.
Saudações Poéticas!
P. S.: Concordando com o conceito latino de Cultura, a Arte é a mais alta elaboração humana.
Arguta Taty; como sei que vc utilizará o método dedutivo dialético estou te enviando uma boa contribuição começando por definição do que é cultura, ok?
O termo cultura remete a muitas interpretações. O conhecido e reconhecido dicionário Aurélio define o termo cultura assim:

s.f. Ação ou maneira de cultivar a terra ou as plantas; cultivo: a cultura das flores. / Desenvolvimento de certas espécies microbianas: caldo de cultura. / Terreno cultivado: a extensão das culturas. / Categoria de vegetais cultivados: culturas forrageiras. / Arte de utilizar certas produções naturais: a cultura do algodão. / Criação de certos animais: a cultura de abelhas. / Fig. Conjunto dos conhecimentos adquiridos; a instrução, o saber: uma sólida cultura. / Sociologia Conjunto das estruturas sociais, religiosas etc., das manifestações intelectuais, artísticas etc., que caracteriza uma sociedade: a cultura inca; a cultura helenística. / Aplicação do espírito a uma coisa: a cultura das ciências. / Desenvolvimento das faculdades naturais: a cultura do espírito. / Apuro, elegância: a cultura do estilo. // Cultura de massa, conjunto dos fatos ideológicos comuns a um grupo de pessoas consideradas fora das distinções de estrutura social, e difundidos em seu seio por meio de técnicas industriais. // Cultura física, desenvolvimento racional do corpo por exercícios apropriados.
No Dicionário Filosófico Abreviado, de M. Rosental e P. Iudin apud Sodré (1994, p. 3), o termo cultura significa:
Conjunto dos valores criados pela humanidade, no curso de sua história. A cultura é um fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determinada etapa histórica: progresso, técnica, experiência de produção e de trabalho, instrução, educação, ciência, literatura, arte e instituições que lhes correspondem. Em um sentido mais restrito, compreende-se, sob o termo de cultura, o conjunto de formas da vida espiritual da sociedade, que nascem e se desenvolvem à base do modo de produção dos bens materiais historicamente determinado. Assim, entende-se por cultura o nível de desenvolvimento alcançado pela sociedade na instrução, na ciência, na literatura, na arte, na filosofia, na moral, etc., e as instituições correspondentes. Entre os índices mais importantes do nível cultural, em determinados aperfeiçoamentos técnicos e dos desenvolvimentos científicos na produção social, o nível cultural e técnico dos produtores dos bens materiais, assim como o grau de difusão da instrução, da literatura e das artes entre a população. (Grifo do autor).
Em Clifford Geertz (1978, p. 103),

[...] o conceito de cultura ao qual eu me atenho não possui referentes múltiplos nem qualquer ambigüidade fora do comum, segundo me parece: ele denota um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida

Para Manfredo Araújo (2000, p. 129),

A cultura revelou-se a nós como o conjunto de sentidos e valores que informam toda a ação do homem no mundo essa totalidade pragmático-simbólica é vivida e compartilhada pelo grupo humano como expressão de sua própria realidade humana, mesmo que, no mais das vezes, as pessoas não tenham consciência explícita de seus componentes. É a partir daqui que se formam as tradições que, diferentemente dos processos naturais, são algo “entregue” às novas gerações, isto é, algo assimilado por meio de um processo permanente de reinterpretação e atualização nas novas circunstâncias históricas. (Grifo do autor).

Como podemos notar o termo cultura abarca uma gama de significados que podem ser usados indistintamente. Todavia, para o historiador o termo cultura não deve ser usado aleatoriamente já que a escolha de um ou outro, ou de um e de outro significado remeterá a tomada de uma posição acadêmico-política. Desse modo, o conceito de cultura a ser adotado pelo historiador deverá estar contextualizado histórico-socialmente.
Em Cevasco (2003) e Willians (1979), encontramos a idéia de que o termo cultura até o século XVIII estava vinculado ao cultivo de produtos agrícolas ou de animais. Todavia, para esses autores a partir do final do século XVIII e do apogeu das idéias iluministas, sobretudo na França o termo cultura foi redimensionado e passou a ser utilizado significando civilização proveniente do civitas (educado, padronizado) em oposição ao estado natural da selvageria e da barbári. Neste sentido, cultura e civilização estavam imbricados. Porém, foi nessa mesma França que o imbricamento entre cultura e civilização, supostas pilastras da razão e da consolidação capitalistas sofreria contestação a partir do pensamento rousseauniano. Em seguida a definição de cultura correlacionada com civilização em termos universais proposta pelos franceses seria atacada por intelectuais alemãs que priorizavam a cultura nacional germânica e não a idéia universalizante de uma única cultura.
No século XIX, o termo cultura passou a ser adotado ligado ao processo geral de desenvolvimento interno em contraste com o externo. Com efeito, nesse contexto, cultura está relacionada com as instituições, artes, religião, práticas e valores peculiares a um povo, coletividade, comunidade. Essa concepção de cultura foi aliada também a noção de que cultura pertence ao erudito. Essas concepções resistiram até meados do século XX que após a segunda grande Guerra Mundial e o advento da expansão dos meios de comunicação essa boba ilusão de uma cultura universal e uversalizante caiu por terra. A partir de então passou a se falar de culturas (no plural) e não de Cultura (no singular).
É racional ressaltar que grande contribuição para a mudança de concepção acerca de cultura, nesse contexto, deve-se a um grupo de intelectuais britânicos marxista, sobretudo os da chamada “Nova Esquerda” que fundaram uma nova disciplina denominada de “estudos culturais”.
Sem perder de vista o ideário marxista esses intelectuais (Raymond Williams, Edward Palmer Thompson e Richard Hoggart) ampliaram noção de cultura e transformação social posicionando-se contra o elitismo, o dogmatismo, o reducionismo stalinista e o conservadorismo da direita. Preocupados com a cultura popular ou cultura dos “de baixo”, passaram a publicar e a divulgar a cultura operária na revista The New Reasoner na qual muitos pensadores marxistas escreviam. Dentre muitos estudos destacaram-se a obra “Marxismo e Literatura” (1979), de Raymond Williams, e as obras de Edward P. Thompson, entre elas: “A formação da classe operária inglesa” (1987); “A miséria da teoria” (1981); “Costumes em comum” (1998); e, “A peculiaridade dos ingleses e outros artigos” (2001).
Influenciado pelas idéias de Mikhail Bakhtin, Bertold Brecht e George Lukács, Williams repensou sua noção de cultura, no sentido da elaboração de uma teoria materialista da cultura, superando as concepções marxistas reducionistas que colocavam a cultura como superestrutura determinada pela infra-estrutura. Williams questiona a concepção idealista que previa a separação entre cultura e vida material criticando o pensamento materialista mecanicista levantando as idéias de língua, literatura e ideologia.

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