Decidi inaugurar este tópico porque há pouco tempo surgiu uma certa curiosidade ao meu redor que é que ultimamente os quadrinhos independentes veem conquistando o espaço editorial, isso me faz refletir sobre o sucesso dos quadrinhos. Hoje em dia as grandes editoras como DC COMICS E MARVEL COMICS dão o sinal de que estão caindo em relação à baixa procura dos leitores. Ao invés destas duas editoras conhecidas, a maioria dos quadrinhos independentes como O FOTÓGRAFO e O UMBIGO SEM FUNDO desperta a atenção dos leitores novatos e veteranos. Eu os visto como uma restauração cultural porque antigamente os independentes eram ignorados devido à falta de entendimento cultural amplamente aberto.

Acho que nós apreciadores de quadrinhos podemos trocar ideias a respeito.

Forte abraço,
Diogo Madeira.

Tags: editorial, independentes, mudança, política, quadrinhos

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Respostas a este tópico

Olá, Diogo!
É realmente fascinante ver que existe um apogeu de uma vertente independente de revistas no mercado periódico brasileiro. Acredito que o amadurecimento desse mercado é o fator principal para a expansão e boa receptividade do público consumidor. Entretanto o que vem acontecendo é a formação de uma cultura "Cult" de valorização de certas edições e publicações como as que citou acima, bem como de material estrangeiro fora do eixo Marvel-DC e do gênero dos Super-heróis.
Porém vou discordar de duas coisas (sem o intuito, claro, de depreciar sua reflexão). A primeira delas é a frase "Hoje em dia as grandes editoras como DC COMICS E MARVEL COMICS dão o sinal de que estão caindo em relação à baixa procura dos leitores." O que se percebe neste amadurecimento de público é a mudança diante do formato de publicação, abrindo espaço maior às publicações especiais, encadernações e etc. As duas grandes editoras não estão sofrendo (pelo menos não agora) queda diante de seu público alvo. Primeiro por que resolveram crises nos ultimos anos e estão sendo alimentadas pela força do cinema, também re-alimentado. Mesmo se nos limitarmos ao consumo dentro do mercado nacional, vamos perceber que a quantidade de publicações direcionadas ao público de livraria aumentou consideravelmente e uma boa parcela dessa "natureza cult" se percebe também nesse consumo.
A outra frase que vou discorda amistosamente é a "Eu os visto como uma restauração cultural porque antigamente os independentes eram ignorados devido à falta de entendimento cultural amplamente aberto." Há um amadurecimento explícito do público consumidor mas isso não chega a se configurar "restauração cultural", pois não houve uma ruptura no mercado com a introdução de quadrinhos "alternativos", underground, ou seus derivados. Esse amadurecimento vem acompanhado de uma valorização de certas obras, por isso prefiro compreender como "naturez cult". Os quadrinhos independentes (eu estou compreendendo sua posição diante do afastamento do mercado tradicional e não de realmente terem independência ideológica) tinham pouco espaço no mercado por que sua procura era de um público específico, mas a História dessas publicações (fora e dentro do Brasil) nos permite refletir sobre seu consumo não como "falta de entendimento cultural", mas como exigências de mercado limitadas por crises ou riscos de publicações. O risco, sempre, é a "natureza cult" que valoriza certos produtos não por sua qualidade mas pela pretensão de serem produtos para um núcleo de alta relfexão, intelectual ou mesmo segregacionado do consumidor comum.
Oi, Sávio!

Desculpa a demora pra dar meu retorno à sua reflexão a respeito da ascensão de quadrinhos independentes. É que eu estava numa correria danada e acabei não conseguindo acompanhar o Café História.

Fico feliz em saber que você havia discordado de minhas duas coisas, isso é o que importa porque significa que me dê motivação a continuar esta discussão.

As suas colocações, realmente, me fizeram repensar a questão da atual mercadoria em relação aos quadrinhos, e você já pensou se o padrão estilo (manter os traços, cito o exemplo dos quadrinhos do Tex) fosse mantido, hoje em dia a situação estaria diferente? Veja bem, no caso Batman, os recentes quadrinhos do Cavaleiro das Trevas me dão nojo, digo, praticamente inúteis para os fãs do clássico Batman remodelado por Frank Miller. Os do Superman também. E ainda mais que as grandes editoras como Marvel e DC não parem de inventar histórias bobas e ressuscitar super-heróis. Assim enfraquecem o interesse dos leitores, ou seja, afastem os consumistas dos atuais gibis.

No meu entender, atualmente essas grandes editoras fazem uma péssima administração e ainda deixam os produtores criarem o que quiserem ao produzir histórias. É o que eu lhes chamo de traço livre. Sou contra traço livre. Eu não compro gibis produzidos pelas essas editoras desde a entrada do 2000. Em sebos procuro gibis clássicos devido ao traço e ao bom roteiro; uma organização idealmente impressionante.

Por que as grandes editoras não fazem o que a editora que publica histórias do Tex (por sinal está fazendo muito sucesso) faz? Se fizessem eu teria um monte de gibis por aqui...

Já que eu estou consciente de que a arte é uma expressão livre (me refiro ao traço livre), no entanto, percebi que os desenhistas e roteiristas passaram dos limites, ou seja, deixaram a padronização de lado. É o que me deixou intrigado.

Forte abraço,
Diogo Madeira.
Olá, Diogo!

Acho que realmente é isso que temos que fazer por aqui. Não só na comunidade de quadrinhos, claro, mas em todas: dar vida as discussões, reflexões, etc. Que isso nunca acabe! Até por que, se acabar... Como diria Peter Burke(ou melhor, relembraria)... "As ciências Socias estariam em crise!"

Eu faço mesmo a minha função social, de professor de História(e professor de quadrinhos aqui em minha cidade) e historiador dos quadrinhos(com toda dificuldade que temos, fundamentalmente com esse objeto tão desprezado pelo tradicionalismo metodológico), é exatamente trazer esse mercado e esse produto cultural para o olhar atento da historiografia.

E é exatamente o foco de nosso pensar aqui: é um produto que ao mesmo tempo é mercadoria midiática de consumo(se é que podemos chamar assim, numa rápida classificação) e produto cultural. Então ele vem estabelecendo regras diante de sua experiência enquanto objeto. A história das editoras mostra o tempo todo que os modos tiveram que mudar para antender seus clientes e conseguir conquistar novos, e é isso que eles devem fazer, como disse Stan Lee no documentário para a BBC: Se o público quer uma coisa, nós fazemos. Quando esse público muda de interesse, nós mudamos o que fazemos para atender essas exigências de mercado/consumo.

E na verdade não falamos de um mercado, nem mesmo de um mercado sem interferências. Se compreendermos as mudanças de reflexão feitas sobre a literatura na França do Antigo Regime, por exemplo, entre a produção de textos, sua dispersão e leitura, somando-se a isso a leitura, vamos perceber como a coisa é mais complexa. Roger Chartier é o marco na reflexão sobre Leitura e Representação, e é isso que teremos dentro de cada mercado separadamente, e como essa funcionalidade ora derrapa em erros ou tropeça em acertos. E como a relação "leitura" - "leitor" é periódica, seja mensal, semanal ou anual, o seu resignificado se compreende da mesma forma, ou seja, o mercado muda lento em alguns momentos e rápido em outros com o claro objetivo de resignificar-se enquanto produto(óbvio) e enquanto formato(seja na arte ou na forma de escrever). Aí entram eu e você.

Somos leitores de períodos anteriores ao atual momento, e, claro, concordamos que muitas obras de um passado recente(acredito que sua escolha para Batman e Super-homem, por exemplo, da mesma editora, tem claro objetivo de relacionar aos produtos dos anos 80) estão acima, em qualidade gráfica ou textual, das recentes. Para nosso ponto de vista isso é válido. Mas um leitor atual, bombardeado de outras mídias, televisivas, etc, ou até mesmo com modelos arquetípicos diferenciados de outras leituras(personagens de mangá, personagens de filmes de ação, etc) que estimulam em acordo com um público diferente. Por isso que nós, "leitores tradicionais", muitas vezes nos chocamos com atitudes ou falas de personagens de nossa "tradição" nos filmes atuais.

Eu concordava com esse ponto de vista de compreender essas editoras como "erradas" em levar certas maneiras de produzir, mas os números de publicações(algumas explosões em períodos, como é o caso da revitalização da mitologia do Lanterna Verde) e a apropriação dessas mitologias super-heróicas(e algumas não) para o cinema me fazem refletir um pouco diferente. Um exemplo disso é a liberdade de material que não segue cronologias e que estão claramente separadas da mitologia básica: Vide Batman e Super-homem em "Grandes Astros". Entretanto, esses dois exemplos nos mostram uma coisa: Onde um é sucesso, o outro é fracasso. Onde um faz belas referências ao passado(Super-homem) o outro chacota com as tendências violentas e agressivas(Batman)... Mas ambos os produtos fizeram relativo sucesso para sua editora. A série do Super tornou-se um clássico contemporâneo, já faz parte das "mais belas". A série do Batman, ainda parada, é um desastre enquanto literatura mas foi um sucesso enquanto produto inicial(por que as pessoas caçam os nomes... Jim Lee e Frank Miller). Somente uma pesquisa mais aprofundada, com dados práticos e relfexão apurada, pode dizer como esse mercado tem optado pelas mudanças.

Mas tentando responder ao seu questionamento, eu diria que as editoras não fazem como a editora de Tex, pelo seu exemplo, pelo simples fato de serem mercados diferentes para públicos diferentes. Não entrando em merecimentos e nem qualidades de texto e imagem, mas Tex tem um público alvo maduro e com expectativas preenchidas pelos seus produtores. Mas para as grandes empresas marvel e DC, esse pequeno e específico mercado é pouco: Seus objetivos são de um mercado mais plural, com públicos diferenciados, produtos diversos e, claro, vendagens. Pode ter certeza que, se estão vendendo, eles apostam, seja na péssima qualidade ou no produto mais requintado ou feito ao público maduro intelectualmente. Mas cuidado! Tendências imutáveis nem sempre são sinais de qualidade! E muitos produtos só ganham teor de "cult" quando assim rotulados, o que nem sempre revela mesmo uma qualidade textual ou de arte.

As editoras precisam ampliar seus padrões, para claramente conquistar públicos que estão com expectativas FORA desse padrão(seja de acerto ou não). Por isso é ideal, para o mercado, que inovações seduzam novos públicos e tendências artísticas e literárias sejam assumidas para antender clientes de outros mercados bem sucedidos. O tempo que isso dura? O tempo exato das exigências de seu público consumidor. O que podemos compreender é que, com alguns insucessos na área da produção madura, aquilo que você sente falta, o público consumidor decepcionado vai buscar em outros produtos as suas expectativas atendidas. Por isso que outros espaços, muitas vezes dentro de um universo definido "cult", veem ganhando espaço, mas pode ter certeza que são mercados pequenos demais para serem compreendidos como sucessos diante do mercado das "duas grandes". O que antes era do poder das "duas grandes", como por exemplo as linhas Vertigo e Graphic Novels, hoje são produtos de outras editoras.

Eu tive uma experiência sobre julgamento muito interessante, certa vez. Eu escrevia um blog(não o meu atual www.escoteiroedetetive.blogspot.com) onde eu me posicionava sobre quadrinhos, etc. Passei um período assistindo séries antigas e me deparei com a do Batman e Robin dos anos 60. Escrevi um pequeno artigo falando o quanto que essa série, anterior aos meus anos 80(e as reformulações 70-80), prejudicou a imagem do personagem e que ainda refletia uma "idiotização" dos anos 50. Eu acreditei que minha resposta ácida e de repúdio ao produto estava corretíssima. Eu me contemplava com aquilo.

Aí recebi um e-mail. De um senhor, muitíssimo educado, que me relatou ter ficado triste com minha agressividade tanto para com a série, que lhe foi saudosa, quanto do período dos quadrinhos que marcou a infância dele. Ele relatou, então, que o período que eu vivi de quadrinhos deve ser inovador para ele, mas que em valores deveria ser o mesmo que o período dele lhe valia. Não tardei a escrever depois um texto mais dedicado fazendo um verdadeiro MEA CULPA diante do que havia lido. Hoje, nas minhas aulas de quadrinhos, alguns alunos ficam inconformados com elementos dos períodos em que EU era o jovem leitor e compreendi ainda mais o sentimento do senhor que me mandou a mensagem.

Isso é o mercado, isso são os públicos diferenciados... Isso é cultura.

Ah! E eu adoro procurar coisa antiga, também!

Até breve!
Ah, desculpem a todos que se sentiram "não representados".
Por uma questão de ponto de vista facilitador, eu e o Diogo falamos de mercados específicos e tipos específicos.
Quem puder trazer ainda mais, ficamos gratos!
Olá!

Gostei muito do debate de vocês e me fez repensar algumas coisas... leio comics há mais ou meno 5 anos e quando leio algo anterior a esse tempo, percebo caracteristicas fortes nos traços destas épocas, arrisco a dizer que olhando alguns desenhos pode-se dizer até de que época são. Não sou tão especialista assim em quadrinhos, mas são coisas que percebi. Outra coisa que vi, foi os ideáis políticos nas história. Pelo pouco que conheço a Marvel, pelo que percebi eles eram mais "rebeldes" por assim dizer, com os X-Men sempre sendo perseguidos, lutando contra o governo...enquanto na DC, por exemplo na Crise nas infinitas terras, via um patriotismo muito forte. Hoje vejo uma inversão dos papéis vide Guerra Civíl da Marvel e na DC, por exemplo o Batman contra o Anarquia...bom talvez eu esteja falando beisteiras, mas foi o que percebi hehe


Abraços!
E percebeu de forma excelente, Daniel! É exatamente esse dialogo que existe entre os personagens e seu público consumidor e entre as eras, seja negando algo de um passado recente ou enaltecendo o passado anterior! Exatamente como acontece na história da literatura convencional, onde uma "coqueluche" vem para enaltecer uma mais antiga e desmerecer a que existe entre ambas. Por isso que o Diogo encontrou nos quadrinhos "cults" uma possivel resposta aos valores hoje apontados pelas duas grandes editoras aqui expostas.
Para nós é fácil idealizar rebeldias quando estas estão contra o governo, mas essas "rebeldias" que falou não fogem, em muitos casos, à um patriotismo ou uma valorização da contemporaneidade. O Capitão América, em Guerra Civil, foi contra o governo mas não deixou de ser patriota. O mais ideal nesse caso, como tenho num artigo publicado de nome "Super-heróis e Bandeiras" é entender o posicionamento político da editora e seus autores, que num dado momento podem justificar um governo republicano ou se posicionar enquanto oposição democrata.

Obs: Vou abrir um tópico, depois, sobre política. Para pensar a relação de posição no caso como ocorre com o Anarquia.

Abraços!
Bom, um quadrinho que gosto muito é Sandman, que trata de uma forma mto boa as mudanças no tempo e história!

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Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

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