Itens a serem discutidos neste trabalho:

01 - A situação da música no fim do mundo antigo

02 - Canto litúrgico e canto secular na Idade Média

03 - Os primórdios da polifonia e a música do século XIII

04 - Música francesa e italiana do século XIV

05 - Da Idade Média ao Renascimento: música da Inglaterra e do ducado da
Borgonha no século XV

06 - A era renascentista: de Ockeghem a Josquin

07 - Novas correntes no século XVI

08 - Música sacra no Renascimento tardio

09 - Música do primeiro período barroco

10 - Ópera e música vocal na segunda metade do século XVI

11 - Música instrumental no barroco tardio

12 - A primeira metade do século XVIII

13 - Origens do estilo clássico: a sonata, a sinfonia e a ópera no século XVIII

14 - O final do século XVIII

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I - A situação da Música no fim do mundo antigo

Quem vivesse numa província do Império Romano no século V da era cristã poderia ver estradas por onde as pessoas outrora haviam viajado e agora já não viajavam, templos e arenas construídos para multidões agora votados ao abandono e à ruina, e a vida, geração após geração, um pouco por toda a parte, tornando-se cada vez mais pobre, mais insegura e mais difícil. Roma, no tempo da sua grandeza, fizera reinar a paz em quase toda a Europa ocidental, bem como em muitas zonas da África e da Ásia, mas, entretanto, enfraquecera e já não tinha capacidade para se defender. Os bárbaros iam chegando do Norte e do Leste, e a civilização comum à toda a Europa desagregava-se em fragmentos que só muitos séculos mais tarde começariam gradualmente a fundir-se de novo, dando origem às nações modernas.
O declínio e a queda de Roma marcaram tão profundamente a história européia que ainda hoje temos dificuldade em nos apercebermos de que, paralelamente ao processo de destruição, se iniciava então, paulatinamente, um processo inverso de criação, centrado na igreja cristã.
Até o século X foi esta instituição o principal, e muitas vezes o único, laço unificador e canal de cultura da Europa. As primeiras comunidades cristãs, não obstante terem sofrido durante trezentos anos perseguições mais ou menos esporádicas, cresceram regularmente e disseminaram-se por todas as regiões do império. O imperador Constantino adotou uma política de tolerância após a sua conversão, em 312, e fez do cristianismo a religião da família imperial. Em 395 a unidade política do mundo antigo foi formalmente desfeita, com a divisão em Império do Oriente e Império do Ocidente, tendo por capitais Bizâncio e Roma. Quando, após um século terrível de guerras e invasões, o último imperador do Ocidente foi, finalmente, deposto do seu trono, em 476, os alicerces do poder papal estavam já tão firmemente estabelecidos que a Igreja se encontrava em condições de assumir a missão civilizadora e unificadora de Roma.
A história da música ocidental, em sentido estrito, começa com a música da igreja cristã. Todavia, ao longo de toda a Idade Média, e mesmo nos dias de hoje, artistas e intelectuais têm ido continuamente a Grécia e a Roma à procura de ensinamentos, correções e inspiração nos mais diversos campos de atividades. Isto também é válido para a música, embora com algumas diferenças importantes em relação às outras artes. A literatura romana, por exemplo, nunca deixou de exercer a sua influência ao longo da Idade Média. Virgílio, Ovídio, Horácio e Cícero continuaram sempre a ser estudados e lidos. Esta influência tornou-se bem mais importante nos séculos XIV e XV, à medida que foram sendo conhecidas mais obras romanas; ao mesmo tempo ia sendo gradualmente recuperado aquilo que sobrevivera da literatura grega. Contudo, no domínio da literatura, bem como em vários outros campos (nomeadamente no da escultura), os artistas medievais e renascentistas tinham a vantagem de poderem estudar e, se assim o desejassem, imitar os modelos da antiguidade. Tinham diante dos olhos os poemas ou as estátuas autênticos. Já com a música não acontecia o mesmo. Os músicos da Idade Média não conheciam um exemplo sequer da música grega ou romana, alguns hinos vieram a ser identificados apenas no Renascimento. Atualmente estamos numa situação bastante melhor, pois, entretanto, foram reconstituídas cerca de quarenta peças ou fragmentos de peças musicais gregas, a maioria das quais de épocas relativamente tardias, mas cobrindo um período de cerca de sete séculos. Embora não haja vestígios autênticos da música da antiga Roma, sabemos, por relatos verbais, baixos-relevos, mosaicos, frescos e esculturas, que a música desempenhava um papel importante na vida militar, no teatro, na religião e nos rituais de Roma.
Houve uma razão importante para o desaparecimento das tradições da prática musical romana no início da Idade Média: a maior parte desta música estava associada a práticas sociais que a igreja primitiva via com horror ou a rituais pagãos que julgava deverem ser eliminados. Por conseguinte, foram feitos todos os esforços não apenas para afastar da Igreja essa música, que traria tais abominações ao espírito dos fiéis, como, se possível, para apagar por completo a memória dela.
Houve, no entanto, alguns elementos da prática musical antiga que sobreviveram durante a Idade Média, que mais não fosse porque seria quase impossível aboli-los sem abolir a própria música; além disso, as teorias musicais estiveram na base das teorias medievais e foram integradas na maior parte dos sistemas filosóficos. Por isso, se queremos compreender a música medieval, temos de saber alguma coisa acerca da música dos povos da antiguidade, em particular da teoria e da prática musicais dos Gregos.
A música na vida e no pensamento da Grécia antiga
A mitologia grega atribuía à música origem divina e designava como seus inventores e primeiros intérpretes deuses e semideuses, como Apolo, Anfião e Orfeu. Neste obscuro mundo pré-histórico a música tinha poderes mágicos: as pessoas pensavam que era capaz de curar doenças, purificar o corpo e o espírito e operar milagres no reino da Natureza. Também no Antigo Testamento se atribuíam à música idênticos poderes: basta lembrar o episódio em que Davi cura a loucura de Saul tocando harpa (Samuel, 16, 14-23) ou o soar das trombetas e a vozearia que derrubaram as muralhas de Jericó (Josué, 6, 12-20). Na época homérica os bardos cantavam poemas heróicos durante os banquetes (Odisseia, 8, 62-82).
Desde os tempos mais remotos a música foi um elemento indissociável das cerimônias religiosas. No culto de Apolo era a lira o instrumento característico, enquanto no de Dioniso era o aulo. Ambos os instrumentos foram, provavelmente, trazidos para a Grécia da Ásia menor. A lira e a sua variante de maiores dimensões, a cítara, eram instrumentos de cinco e sete cordas (número que mais tarde chegou a elevar-se até onze); ambas eram tocadas, quer a solo, quer acompanhando o canto ou a recitação de poemas épicos. O aulo, um instrumento de palheta simples ou dupla (não era uma flauta), muitas vezes com dois tubos, tinha um timbre estridente, penetrante, associava-se ao canto de um certo tipo de poema (o ditirambo) no culto de Dioniso, culto que se crê estar na origem do teatro grego. Consequentemente, nas grandes tragédias da época clássica; obras de Ésquilo, Sófocles, Eurípides; os coros e outras partes musicais eram acompanhados pelo som do aulo ou alternavam com ele.
Pelo menos desde o século VI a. C. tanto a lira como o aulo eram tocados como instrumentos independentes, a solo. Conhece-se um relato de um festival ou concurso de música realizado por ocasião dos Jogos Píticos em 586 a. C. em que Sacadas tocou uma composição para aulo, ilustrando o nomo pítico as diversas fases do combate entre Apolo e o dragão Píton. Os concursos de tocadores de cítara e aulo, bem como os festivais de música instrumental e vocal, tornaram-se cada vez mais populares a partir do século V a. Cristo. É medida que a música se tornava mais independente, multiplicava-se o número de virtuosos; ao mesmo tempo, a música em si tornava-se cada vez mais complexa em todos os aspectos. Alarmado com a proliferação da arte musical, Aristóteles, no século IV, manifestava-se contra o excesso de treino profissional na educação musical do homem comum:
"Alcançar-se-á a medida exata se os estudantes de música se abstiverem das artes que são praticadas nos concursos para profissionais e não procurarem dominar esses fantásticos prodígios de execução que estão agora em voga em tais concursos e que daí passaram para o ensino. Deixem que os jovens pratiquem a música conforme prescrevemos, apenas até serem capazes de se deleitarem com melodias e ritmos nobres e não meramente nessa parte comum da música que até a qualquer escravo, ou criança, ou mesmo a alguns animais, consegue dar prazer".
Algum tempo após a época clássica (entre 450 e 325 a. C., aproximadamente) deu-se uma reação contra o excesso de complexidade técnica, e no início da era cristã a teoria musical grega, e provavelmente também a prática, estava muito simplificada. A maior parte dos exemplos de música grega que chegaram até nós provém de períodos relativamente tardios. Os mais importantes de entre eles são um fragmento de um coro do Orestes de Eurípides (VV. 338-344), de um papiro datado de cerca do ano 200 a. C., sendo a música, possivelmente, do próprio Eurípides (NAWM 1), um fragmento da Ifigénia em Aulide de Eurípides (VV. 783-793), dois hinos délficos a Apolo, praticamente completos, datando o segundo de 128-127 a. C., um escólio, ou canção de bebida, que serve de epitáfio a uma sepultura, também do século I, ou pouco posterior (NAWM 2), e Hino a Nêmesis, Hino ao Sol e Hino à Musa Calíope de Mesomedes de Creta, do século II.
A música grega assemelhava-se à da igreja primitiva em muitos aspectos fundamentais. Era, em primeiro lugar, monofônica, ou seja, uma melodia sem harmonia ou contraponto. Muitas vezes, porém, vários instrumentos embelezavam a melodia em simultâneo com a sua interpretação por um conjunto de cantores, assim criando uma heterofonia. Mas nem a heterofonia nem o inevitável canto em oitavas, quando homens e rapazes cantam em conjunto, constituem uma verdadeira polifonia. A música grega, além disso, era quase inteiramente improvisada. Mais ainda: na sua forma mais perfeita (teleion melos), estava sempre associada a palavra, a dança ou a ambas; a sua melodia e o seu ritmo ligavam-se intimamente à melodia e ao ritmo da poesia, e a música dos cultos religiosos, do teatro e dos grandes concursos públicos era interpretada por cantores que acompanhavam a melodia com movimentos de dança pré-determinados.
Música e filosofia na Grécia
Dizer que a música da igreja primitiva tinha em comum com a grega o fato de ser monofônica, improvisada e inseparável de um texto não é postular uma continuidade histórica entre ambas. Foi a teoria, e não a prática, dos Gregos que afetou a música da Europa ocidental na Idade Média. Temos muito mais informação acerca das teorias musiciais gregas do que acerca da música em si. Essas teorias eram de dois tipos: (1) doutrinas sobre a natureza da música, o seu lugar no cosmos, os seus efeitos e a forma conveniente de a usar na sociedade humana, e (2) descrições sistemáticas dos modelos e materiais da composição musical. Tanto na filosofia como na ciência da música os Gregos tiveram intuições e formularam princípios que em muitos casos ainda hoje não estão ultrapassados. É evidente que o pensamento grego no domínio da música não permaneceu estático de Pitágoras (cerca de 500 a. C.), o seu célebre fundador, a Aristides Quintiliano (século IV a. C.), último autor grego de relevo neste campo.

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