Debruçar-se sobre a denominada "Guerra de Memória", instalada no cenário latinoamericano já no período das ditaduras, é uma tarefa bastante complicada. Nesse sentido: em que medida devemos considerar, no período referido, as diferentes versões sobre uma mesma memória? E, como lidar com as dificuldades de trabalhar as justificativas dos militares, acessíveis - no caso brasileiro, por exemplo - nos projetos de História Oral desenvolvido pelas Forças Armadas? Além disso, estudando a memória dos perpretadores, devemos realizar uma análise macro [Forças Armadas] ou uma análise pontuada [Exército, Aeronáutica, Marinha]?

Tags: Ditaduras

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Respostas a este tópico

Acredito que as fontes orais não podem e não devem ser consideradas como a última palavra sobre qualquer assunto. No Direito é comum dizermos que o testemunho é a" prostituta" das provas, significando dizer que é menos confiável e que a sentença deve ser pautada em provas reais e não testemunhais apenas. Podemos fazer uma analogia com a memória utilizada como fonte histórica. Esta nunca deve ser levada em consideração sem ser confrontada com dados materiais, com um contexto histórico e com a parcialidade do autor dessas memórias. Fatos mencionados devem ser investigados em outras fontes. A memória da ditadura é por demais controvertida tanto por parte dos ditadores quanto por parte dos que sofreram sua influência e é necessário um olhar que não esteja envolvido nem com um lado nem com o outro para escrever sobre ela com imparcialidade.

Primeiramente é bom procurar explicitar como você vai adentrar no saara do conceito de memória (psicologia, neurologia, antropologia ou, como acredito ser o caso dentro dessa comunidade, história). Se percorrer o viés histórico, a questão contextual será porta de entrada e saída para o termo  memória - não como um dado, mas como uma construção de metanarrativas próprias da modernidade (como ideologia, cultura e outros termos). Assim, alguns autores (como Joel Candau) indicam que não existe uma "memória", mas uma representação dela, ou uma metamemória, idéia que fazemos dela. Então, não existem várias versões sobre uma mesma memória, mas a tentativa de tornar uma versão hegemônica sinônimo de memória a partir de sua institucionalização. Em outro ponto, vale a pena ler Michel Polak, sobre a idéia de silêncio...Tampouco há uma "guerra", mas sim disputa, como há disputa em todos os campos da representação (história dita científica, arqueologia, museus, memoriais...).

 

Começa desnaturalizando esse tema da memória e, principalmente, separando-a do termo história (ver tb Le Goff).

Bom trabalho!

Entendo perfeitamente as tuas colocações e concordo com absolutamente todas elas.

Quanto ao termo "guerra" refere-se mesmo a uma "disputa". Expressei-me mal.

Sobretudo, achei interessante a ideia de uma metamemória, apresentada por Joel Candau, uma literatura que ainda não havia me aproximado. Estou envolvido, sobretudo, com as leituras de Ricouer, Sarlo, Jelin, Selligmann-Silva e Winter. LeGoff é uma leitura obrigatória que já realizei.

Minha pergunta é mais no tocante de reconhecermos a necessidade, justamente, de não tomarmos a memória como uma construção "sem possibilidade de crítica" ou "imaculada". A contextualização também é elemento chave para compreendermos não só a construção, mas o respaldo das narrativas. Realmente, se pensarmos no sentido de uma disputa, o que há é justamente uma disputa por uma representação, e não por uma memória - tendo em vista que nenhuma memória é total, como já escrevi em outro tópico deste fórum. Além disso, como o próprio LeGoff e, mais explicitamente, Albert Jacquard diriam, não existe uma verdade, mas sim diversas versões destas - expressada, mais especificamente, na origem da palavra verdade, que significa coerência.

Grato pelas indicações!

Aconselho também a você ler um livro de Ecléa Bosi sobre a memória dos velhos. A parte teórica do livro é muito rica na análise da memória.

Como assim "Guerra de Memórias". Fiquei confuso, Marcus.

O termo "guerra" refere-se a disputa por uma memória hegemônica, uma vez que os discursos se posicionam de forma dicotômica e antagônica. Por isso, "guerra". O conflito - memória conflitiva, como dirá Beatriz Sarlo - encontra-se nas diferentes versões que se dá a um mesmo acontecimento, justificativa, evento, etc. Os dois grupos - ou mais - tentam, através dessa batalha, eliminar o discurso alheio.

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