O uso da ferramenta da história oral, que compreender a lembrança falada e transcrita como documento histórico de quem viveu ou fez parte do objeto de estudo, nos revela inúmeras surpresas. Não basta somente a coleta de dados, mas assim como nas fontes documentais impressas, importa perceber as lacunas como sintomas de uma história não escrita. Da mesma forma, na história oral, o entrevistado diz algo mais que as palavras, expressas nos movimentos corporais de angústia, ansiedade, devaneio, etc. O silêncio seria uma dessas leituras não ditas mas pressentidas que denota algo mais que as palavras. Como então, diferenciar o mero esquecimento de um silêncio premeditado?
Tags: esquecimento, memória, silêncio
Permalink Responder até Bruno Leal em 25 agosto 2010 at 9:50
Permalink Responder até Jefferson Ramos da Silva em 7 outubro 2010 at 20:35
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 8 outubro 2010 at 20:54
Permalink Responder até Jefferson Ramos da Silva em 9 outubro 2010 at 7:43
Compartilho das tuas ideias, mas discordo em um ponto.
As implicações para o silência são as mais diversas. Além do medo, temos as políticas - como ressalta Ricouer - de esquecimento oficial, que pretendem exercer uma conciliação entre as populações atingidas por polaridades. Além disso, temos a própria autocensura - como tu mesmo discorres - e o esquecimento "natural".
O que não podemos esquecer, nas discussões sobre memória, é que nenhuma lembrança - assim como a História - é total. Nenhuma cumpre a função de trazer à tona, na integra, a VERDADE, OS FATOS VERDADEIROS. Antes de tudo, por mais que nos seja complicado, devemos a aplicar - parafraseando Beatriz Sarlo - uma crítica dos testemunhos. Não concordo com algumas das posições da própria autora - como uma opção pela literatura para atingir um grau de "legitimidade" das narrativas testemunhas. Todavia, Tiempo Passado é uma leitura "obrigatória" para as discussões sobre a utilização da memória e suas expressões. Jay Winter é outro autor bastante importate, que discute a lógica da memória e sua legitimidade em monumentos - ele está estudando, dentre outras coisas, a memória do Holocausto e a Shoah. Outra leitura interessante, de provável conhecimento de muitos, é a de Márcio Seligmann-Silva. Indicaria, como estudo introdutório de Beatriz Sarlo, os textos desenvolvidos pelo meu orientador de Iniciação Científica, Cláudio Pereira Elmir (PPGH UNISINOS). Assim que os mesmos estiverem disponíveis para o domínio público, publico as referências aqui.
Permalink Responder até Bruno Leal em 23 março 2012 at 10:15
Boa contribuição, Marcus.
Questão muito bem colocada; todavia, bastante difícil de responder.
Se pensarmos através da lógica de Ricouer, o esquecimento tem diversos matizes. Como alguns colegas já salientaram anteriormente, o trauma pode ser um dos motivos para o silêncio. Ricouer reflete sobre o processo de anistia, ainda, e o seu caráter de esquecimento oficial.
Todavia, ao nos depararmos com uma questão de diferenciação entre silêncio e esquecimento, caimos sempre na interpealação da subjetividade dos dois conceitos; em certa medida, principalmente em narrativas orais, a composição de um silêncio pode ser praticamente indissociável do esquecimento. A tua pergunta vem de encontro a discussões sobre a utilização das memórias - relatos testemunhais, testimonios, literatura de testemunho, biografias e autobiografias - e o caráter "legítimo" de tais narrativas. Como lidar com a subjetividade dos relatos? Perguntas que Beatriz Sarlo se faz em Tiempo Passado (2005, Siglo XXI, Argentina).
O esquecimento, sobretudo - e no meu entendimento - é uma forma de silêncio. Entretanto, captar as nuances de um esquecimento proposital ou psicológico é bastante difícil. Não esqueçamos, ainda, que a dimensão psicológica - no sentido epistemológico da palavra - muitas vezes escapa dos historiadores. O díalogo com a dimensão "científica" do campo da psicologia e da neurologia, na análise da memória, raras excessos, não é contemplado em nossos estudos.
A história oral, como bem sabemos, ainda sofre críticas das mais diversas. Contudo, admiro os historiadores que enfrentam esse desafio que, antes de se exteriorizar, realiza-se no campo mais interior do pesquisador.
Não sei se contribui para uma discussão da questão, mas tentei delimitar um campo historiográfico do campo da memória, onde o esquecimento está mais relacionado.
Permalink Responder até Silvaniza Maria Vieira Ferrer em 28 abril 2011 at 10:53
Permalink Responder até Rafael Freitas em 13 fevereiro 2013 at 5:29
Dificilmente se saberá se o entrevistado se esqueceu, propositalmente omitiu informações, ou se os movimentos corporais de angústia ou de ansiedade se referem ao momento da entrevista ou então por algo alheio a toda a conversa, como problemas outros que não entraram no âmbito da entrevista! Já fiz um fórum sobre esta questão (eu não tinha visto este!), e muitas vezes me pergunto se a memória seria um elemento a-científico em uma pesquisa histórica?
Permalink Responder até Rafael Freitas em 13 fevereiro 2013 at 6:15
Em sala de aula também há esquecimentos propositais de professores de história, são os que negam os podres ds URSS, do PT, entre outros!
Permalink Responder até Jefferson Ramos da Silva em 13 fevereiro 2013 at 14:07
Na verdade o parecer que temos sobre o passado cria uma fragmentação sobre a realidade documentada via textos, objetos e monumentos. Ter memória é o recurso poderoso de existência. Apagar alguém dando o vazio como lugar não impede que os traços do comprovante da falta esteja presente. Assassinos da direita ou esquerda, vitórias e derrotas são construções que inventam o imaginário de uma nação ou farsas de ódios e amores. Perder-se para encontrar que o fracasso maior pode dar a melhor das comemorações. Haja visto na história do Brasil, a "Revolução de 32", quem perdeu comemora; já para quem venceu não possui importância. Como fazer algo ganhar consistência e esmaecer depende dos recursos do poder midiático. Que atualmente estão em redes sociais produzindo, divulgando e criando nas formas de estabelecer memória sem vínculo, ou seja, uma vaga lembrança (lembrar com esperança) cria um sentido de escolha e ação fugaz.
Assim, silencia toda a verdade em nome das intenções. Porque somos o que acreditamos social e emocionalmente. As imagens e suas representações remetem a idealização da vontade de pertencimento de um local, ideia ou fato. Sempre em algum canto o registro está; nada desaparece ou fica plenamente. Somos húmus - daí a origem da palavra humanidade transformando a matéria em algo que na essência é o que fazemos sempre. Lembrando para esquecer. Em algum momento fazer de novo o ressentir de velhas histórias e narrativas cheias de meias verdades e grandes e belas mentiras feitas da cegueira das paixões.
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A Memória que me contam - 2013
Entrou em cartaz o novo filme da diretora brasileira, Lúcia Murat, o drama "A Memória que me contam".
A ex-guerrilhera Ana (Simone Spoladore), ícone do movimento de esquerda, é o último elo entre um grupo de amigos que resistiu à ditadura militar no Brasil. Com a iminente morte da amiga, eles se reencontram na sala de espera de um hospital. Entre eles está Irene (Irene Ravache), uma diretora de cinema que sente-se perdida diante da iminente morte da amiga e que precisa ainda lidar com a inesperada prisão de Paolo (Franco Nero), seu marido, acusado de ter matado duas pessoas em um atentado terrorista ocorrido décadas atrás na Itália.
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