Como diferenciar na historia oral o esquecimento do silêncio na tessitura da rede de memória?

O uso da ferramenta da história oral, que compreender a lembrança falada e transcrita como documento histórico de quem viveu ou fez parte do objeto de estudo, nos revela inúmeras surpresas. Não basta somente a coleta de dados, mas assim como nas fontes documentais impressas, importa perceber as lacunas como sintomas de uma história não escrita. Da mesma forma, na história oral, o entrevistado diz algo mais que as palavras, expressas nos movimentos corporais de angústia, ansiedade, devaneio, etc. O silêncio seria uma dessas leituras não ditas mas pressentidas que denota algo mais que as palavras. Como então, diferenciar o mero esquecimento de um silêncio premeditado?

Tags: esquecimento, memória, silêncio

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Respostas a este tópico

Acredito que não existe um metódo, do tipo receita, que nos ajude a diferenciar isso, mas sim a percepção do historiador a partir das expressões e das reticências que o entrevistado deixar, além do confronte dos depoimentos com outras fontes, afinal a memória é construída e só lembramos do que queremos lembrar. Quem aguentaria lembrar das coisas exatamente como ocorreu? Somos seletivos na nossa memória. A construímos a partir de nossa vivência social, memória coletiva, mas também de nossas vivências e percepções individuais, que são as nossas reflexões a cerca da vivência social. Assim acredito.
Silvaniza, essa é uma questão complexa e muito importante. Tanto o esquecimento quanto o silêncio são marcados por uma ausência. No entanto, alguns sinais nos ajudam a identificar quando estamos lidando com um e quando estamos lidando com outro. Por exemplo: o silêncio é uma recusa, um escomoteamento, uma camuflagem. Isso pode ser rastreado em relatos de terceiros, no código linguístico de quem silencia, no contexto político do objeto. O esquecimento, por sua vez, é ainda mais difícil, pois ele pode estar lá mesmo quando o discurso está presente. A obra de Pierre Nora (e também Eni Orlandi) é super indicada para quem estuda esses temas. Nora, por exemplo, afirma que falamos tanto de memória hoje porque hjá não temos mais memória. É como se o lembrar fosse um ritual cotidiano, não precisando assim de estátuas, datas comemorativas, celebrações no calendário, pois quando isso acontece é que temos esquecimento e não mais lembrança. Enfim....um tema para idas e vindas...asb1
As diferenças entre o silêncio e o esquecimento estão na capacidade de construir uma identidade a partir do não dito. As lacunas, os enredos fantásticos sobre os fatos são uma tentativa de desmonte da relação entre a função e forma no entendimento do acontecimento. Assim o silêncio é sempre uma lacuna do erro, do não heróico, daquilo que no vazio entre uma lembrança e outra estabeleça um que de mistério ou falha... Já o esquecimento é um ato deliberado para que o não existir das versões possa ter um apagão de atitude frente aos fatos. O ficar calado é escolha para auto-censura delimitando as construções de processo histórico diante do medo, vergonha, timidez ou indiferença. Vamos esquecer para ter na tessitura da rede um ponto de convergência para lembrar que dá o vazio um sentido. Usando a métafora da rede de dormir. Os pontos que assentam são o silêncio que é o não falar sobre o ponto fraco da trama que faz o tecido esgarçar. Já o esquecimento é sempre um possibilidade de retirar dos protagonistas sua força e atos buscando o enaltecimento de si. Na fala sempre o humano constrói uma linha direta com uma memória evocada dos vestígios que ação resistiu ante ao tempo. Quando me calo o pensamento oculta a real intenção. Quando esqueço as importância estão nas falhas da narrativa desconstruindo o silêncio.
Achei muito interessante suas colocações Jefferson mas devo lhe lembrar de um silêncio e esquecimento que podem ter a mesma causa: o medo da dor e o medo da retaliação. É a lembrança do torturado que o trai e o medo da punição que se reveste de silêncio. Reviver dores pode bloquear mentes. E então, ao invés da história nós teríamos que recorrer à psicologia, ao estudo da mente para analisar um objeto de estudo.
Brilhante análise a mente possui recursos do auto-engano. Estratégias de defesa, sublimação, transferência, projeção que impedem o livre trânsito da consciência no trato com as informações vivenciadas. Ou implantadas pelo medos e receios que constroém uma auto-censura. A verdade como diria Caetano: é seu dom de iludir. As memórias podem ser transferidas, transformadas por os mais diversos recursos. Fixamos informações que nos arrancam do cotidiano. Sendo o marcador a emoção que determina por vezes ou silêncio e esquecimento. Os fatos estão sempre a procura de significados determinando uma possibilidade de avanço ou retrocesso na construção da memória. Nunca somos um inteiro nos dados que buscamos estamos em parte vivendo um passado repleto de pontes entre o presente reinserindo um futuro de tentativas pré-cognitivas de existência histórica.

Compartilho das tuas ideias, mas discordo em um ponto.

As implicações para o silência são as mais diversas. Além do medo, temos as políticas - como ressalta Ricouer - de esquecimento oficial, que pretendem exercer uma conciliação entre as populações atingidas por polaridades. Além disso, temos a própria autocensura - como tu mesmo discorres - e o esquecimento "natural".

O que não podemos esquecer, nas discussões sobre memória, é que nenhuma lembrança - assim como a História - é total. Nenhuma cumpre a função de trazer à tona, na integra, a VERDADE, OS FATOS VERDADEIROS. Antes de tudo, por mais que nos seja complicado, devemos a aplicar - parafraseando Beatriz Sarlo - uma crítica dos testemunhos. Não concordo com algumas das posições da própria autora - como uma opção pela literatura para atingir um grau de "legitimidade" das narrativas testemunhas. Todavia, Tiempo Passado é uma leitura "obrigatória" para as discussões sobre a utilização da memória e suas expressões. Jay Winter é outro autor bastante importate, que discute a lógica da memória e sua legitimidade em monumentos - ele está estudando, dentre outras coisas, a memória do Holocausto e a Shoah. Outra leitura interessante, de provável conhecimento de muitos, é a de Márcio Seligmann-Silva. Indicaria, como estudo introdutório de Beatriz Sarlo, os textos desenvolvidos pelo meu orientador de Iniciação Científica, Cláudio Pereira Elmir (PPGH UNISINOS). Assim que os mesmos estiverem disponíveis para o domínio público, publico as referências aqui.

Boa contribuição, Marcus.

Questão muito bem colocada; todavia, bastante difícil de responder.

Se pensarmos através da lógica de Ricouer, o esquecimento tem diversos matizes. Como alguns colegas já salientaram anteriormente, o trauma pode ser um dos motivos para o silêncio. Ricouer reflete sobre o processo de anistia, ainda, e o seu caráter de esquecimento oficial.

Todavia, ao nos depararmos com uma questão de diferenciação entre silêncio e esquecimento, caimos sempre na interpealação da subjetividade dos dois conceitos; em certa medida, principalmente em narrativas orais, a composição de um silêncio pode ser praticamente indissociável do esquecimento. A tua pergunta vem de encontro a discussões sobre a utilização das memórias - relatos testemunhais, testimonios, literatura de testemunho, biografias e autobiografias - e o caráter "legítimo" de tais narrativas. Como lidar com a subjetividade dos relatos? Perguntas que Beatriz Sarlo se faz em Tiempo Passado (2005, Siglo XXI, Argentina).

O esquecimento, sobretudo - e no meu entendimento - é uma forma de silêncio. Entretanto, captar as nuances de um esquecimento proposital ou psicológico é bastante difícil. Não esqueçamos, ainda, que a dimensão psicológica - no sentido epistemológico da palavra - muitas vezes escapa dos historiadores. O díalogo com a dimensão "científica" do campo da psicologia e da neurologia, na análise da memória, raras excessos, não é contemplado em nossos estudos.

A história oral, como bem sabemos, ainda sofre críticas das mais diversas. Contudo, admiro os historiadores que enfrentam esse desafio que, antes de se exteriorizar, realiza-se no campo mais interior do pesquisador.

Não sei se contribui para uma discussão da questão, mas tentei delimitar um campo historiográfico do campo da memória, onde o esquecimento está mais relacionado.

Claro que contribuiu. Realmente você tocou num ponto importante que é o uso da psicologia e da neurologia na análise da memória. Nesse ponto, acredito que temos que lançar mão destes profissionais e não de uma leitura de seus estudos pois o historiador não pode abarcar tal amplitude de conhecimentos.

Dificilmente se saberá se o entrevistado se esqueceu, propositalmente omitiu informações, ou se os movimentos corporais de angústia ou de ansiedade se referem ao momento da entrevista ou então por algo alheio a toda a conversa, como problemas outros que não entraram no âmbito da entrevista! Já fiz um fórum sobre esta questão (eu  não tinha visto este!), e muitas vezes me pergunto se a memória seria um elemento a-científico em uma pesquisa histórica?

Em sala de aula também há esquecimentos propositais de professores de história, são os que negam os podres ds URSS, do PT, entre outros!

     Na verdade o parecer que temos sobre o passado cria uma fragmentação sobre a realidade documentada via textos, objetos e monumentos. Ter memória é o recurso poderoso de existência. Apagar alguém dando o vazio como lugar não impede que os traços do comprovante da falta esteja presente. Assassinos da direita ou esquerda, vitórias e derrotas são construções que inventam o imaginário de uma nação ou farsas de ódios e amores. Perder-se para encontrar que o fracasso maior pode dar a melhor das comemorações. Haja visto na história do Brasil, a "Revolução de 32", quem perdeu comemora; já para quem venceu não possui importância. Como fazer algo ganhar consistência e esmaecer depende dos recursos do poder midiático. Que atualmente estão em redes sociais produzindo, divulgando e criando nas formas de estabelecer memória sem vínculo, ou seja, uma vaga lembrança (lembrar com esperança) cria um sentido de escolha e ação fugaz.

     Assim,  silencia toda a verdade em nome das intenções. Porque somos o que acreditamos social e emocionalmente. As imagens e suas representações remetem a idealização da vontade de pertencimento de um local, ideia ou  fato. Sempre em algum canto o registro está; nada desaparece ou fica plenamente. Somos húmus - daí a origem da palavra humanidade transformando a matéria em algo que na essência é o que fazemos sempre. Lembrando para esquecer. Em algum momento fazer de novo o ressentir de velhas histórias e narrativas cheias de meias verdades e grandes e belas mentiras feitas da cegueira das paixões. 

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