Por Elizabeth Lev

ROMA, domingo, 23 de agosto de 2009 (ZENIT.org) .- Em 1480, a Itália celebrava a festa da Assunção com liturgias espetaculares, procissões e, claro, banquetes. Com a exceção de Otranto, uma pequena cidade na costa do Adriático, onde 800 homens ofereceram suas vidas a Cristo. Eles foram os Mártires de Otranto.o.

Poucas semanas antes, a frota turca atracara em Otranto. Sua chegada era temida há muitos anos. Desde a queda de Constantinopla, em 1454, era apenas uma questão de tempo até que os turcos otomanos invadissem a Europa.

Otranto está mais próxima do lado leste do Adriático controlado pelos otomanos. São Francisco de Paula reconheceu o perigo iminente para a cidade e seus cidadãos cristãos e pediu reforços para proteger Otranto. Ele predisse: “Ó, cidadãos infelizes, quantos cadáveres vejo cobrindo as ruas? Quanto sangue cristão vejo entre vocês?”

A 28 de julho de 1480, 18.000 soldados turcos invadiram o porto de Otranto. Eles ofereceram condições de rendição aos cidadãos, na esperança de ganhar sem resistência este primeiro ponto de apoio na Itália e completar a conquista da costa adriática. O sultão Mehmed II havia dito ao Papa Sisto IV que levaria seu cavalo para comer sobre o túmulo de São Pedro.

O Papa Sisto, reconhecendo a gravidade da ameaça, exclamou: “pessoas da Itália, se quiserem continuar se chamando de cristãos, defendam-se!”

Apesar de suas advertências terem-se esquecido nos ouvidos da maioria das cabeças coroadas da península –estavam muito ocupadas brigando entre si– o povo de Otranto escutou.

Pescadores, não soldados; eles não tinham artilharia. Eram menos de 15 mil, incluindo mulheres, crianças e idosos. Mas, por comum acordo, eles decidiram guardar a cidade, lançando-se ao combate das forças turcas.

A sofisticada artilharia turca danificava as muralhas de defesa, mas os cidadãos consertavam rapidamente os estragos. Detrás dos muros, os turcos encontraram cidadãos impávidos, determinados a defender as muralhas com óleo fervendo, sem armas, e às vezes usando as próprias mãos.

Os cidadãos de Otranto frustraram o plano do Sultão de um ataque surpresa e deram à Itália duas semanas de tempo precioso para organizar e preparar suas defesas para repelir os invasores. Mas a 11 de agosto os turcos venceram os muros e açoitaram a cidade.

O exército turco foi de casa em casa, promovendo saques, pilhagens e, em seguida, ateando fogo. Os poucos sobreviventes refugiaram-se na catedral. O arcebispo Stefano, heroicamente calmo, distribuiu a Eucaristia e sentou-se entre as mulheres e crianças de Otranto, enquanto um frade dominicano conduzia os fiéis em oração.

O exército de invasores arrombou a porta da catedral e a posterior violência contra mulheres, crianças e o arcebispo –que foi decapitado no altar– chocou a península italiana.

Os turcos tinham tomado a cidade, destruído casas, escravizado o povo e transformado a catedral em mesquita. Cerca de 14.000 pessoas morreram na tomada de Otranto, na maior parte seus próprios cidadãos, mas um pequeno grupo de 800 sobrevivera, então os turcos tentaram o domínio completo, forçando a conversão.

A opção era o Islã ou a morte. Oito centenas de homens, acorrentados, sem casa e família, pareciam totalmente subjugados aos turcos vitoriosos.

Um dos 800, um trabalhador têxtil chamado Antonio Primaldo Pezzula, passou de artesão humilde a líder heróico nesse dia. Antonio voltou-se para seus companheiros de Otranto e declarou: “Vocês ouviram o que vai custar salvar o que resta de nossas vidas! Meus irmãos, lutamos para salvar nossa cidade, agora é tempo de lutar por nossas almas!”

Os 800 homens com idades acima dos 15, de forma unânime, decidiram seguir o exemplo de Antonio e ofereceram suas vidas a Cristo.

Os turcos, que esperavam por um momento de propaganda triunfante, tentaram evitar o massacre. Eles ofereceram o retorno das mulheres e crianças que estavam prestes a ser vendidas como escravos, em troca da conversão dos homens, e eles ameaçaram com a decapitação em massa se isso não fosse aceito. Antonio recusou, seguido pelo resto dos homens.

Na vigília da Assunção, os 800 foram levados para fora da cidade e decapitados. A tradição conta que Antonio Pezzula foi decapitado em primeiro lugar, mas seu corpo sem cabeça permaneceu de pé até que o último otrantino estivesse morto.

Um dos carrascos, um turco chamado Barlabei, ficou tão impressionado com esse prodígio que se converteu ao cristianismo, e também foi martirizado.

Os restos foram cuidadosamente recolhidos, e são mantidos até hoje na Catedral de Otranto. No aniversário de 500 anos de sacrifício dos otrantinos, o Papa João Paulo II visitou a cidade e prestou homenagem aos mártires.

Bento XVI reconheceu oficialmente o martírio em 2007, trazendo Antonio Pezzula e seus companheiros um passo mais perto da canonização.

Esta “hora dos leigos” em Otranto, separados de nós por meio milênio, ainda ressoa como exemplo de testemunho do amor a Cristo. Poucos de nós serão chamados ao mesmo sacrifício de Antonio Pezzuli e seus companheiros, mas como poderíamos responder a sua exortação: “Permanecei fortes e constantes na fé: com esta morte temporal nós ganharemos a vida eterna”.

* * *

Elizabeth Lev ensina arte e arquitetura cristã no campus italiano da Universidade de Duquesne e na Universidade São Tomás.

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Respostas a este tópico

Bom dia Rogério .

Artigo interessante que conta uma história dramática da vida cristá e uma parte do lado mau do islao .

Ainda bem que hoje nao é assim e hoje todos podem viver com relativa paz mesmo com fé diferente .

Houve um Papa da altura que disse que quem fosse para as Cruzadas teria a vida eterna .

Isso nao é verdade .

Nao é por se matar pessoas de uma fé diferente que se ganha a vida eterna ,mas pelas boas acoes ,pela fé correta e pela feitura das ordenancas possiveis .

Nao quero dizer que os cristaos se deviam deixar matar ,mas nao é assim que se ganha a vida eterna .

Cumprimentos

Me desculpe Joaquim

 

 Mas nos países islãmicos ainda matam cristãos: o crime de apostasia, ou seja, abandona a fé mulçumana é punido, pelo Estado, com a morte na Arábia Saudita, Irã, Afeganistão (lei da blasfêmia que é usada contra cristãos), nos dias de hoje. Nos outros países de maioria islãmica os cristãos cidadãos de segunda classe. Você fala da sua experiência na Alemanha, país "cristão" tolerante e ocidental. No século na última década, 800 mil cristãos iraquianos tiveram que fugir do Iraque, depois da invasão americana, perseguidos pelos fundamentalistas.

 

Quanto ao martírio que Bíblia vc lê? Em Apocalipse capítulo 6  fala dos martires que intercedem pelos vivos. e pelo texto que apresentei  falar não em deixar morrer mas se sacrificar pela fé, martírio é palvra grega que significa testemunho.

Bom dia Rogério .

Sim ,ainda existe muita intolerancia religiosa .

Em Israel nao matam ,mas privam de direitos a quem mudar de religiao ,ou nao for dos talmudistas (judeus ortodoxos )

Esperemos que num futuro próximo todos possam ter a religiao que pretendem .

Eu leio todas as Bíblias ,mas sigo.me pela traducao do Rei Tiago .

Um abraco

Olá pessoal,

 

Talvez o maior desafio para nós cristãos seja permanecer fiel a Cristo e cumprir com o

propósito de levar o evangelho a todos, isso torna-se algo desafiador a partir do momento

em que temos que confrontar com culturas bastante diferentes da nossa, no entanto, somente

aquele que persevera alcança vitórias!!

Existem vários mártires  cristãos anônimos, e a única arma usada por eles foi a Palavra de Deus!!!

O Evangelho é algo oferecido e não imposto pela força; fala de amor, e fala contra a guerra; fala

de harmonia entre os povos e do amor de Deus pela humanidade!!

Enfim, cristãos autênticos são capazes de conviver com todos, mas nem todos querem conviver

com cristãos!!

 

Que Deus tenha misericórdia de nós!!

 

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