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Adorei o que li da monografia do ROGÉRIO TORRES.
Que tal colocar no 4shared e enviar o link para todos. Gostaria muito de ler inteira, a monografia.
Reinaldo
Olá Julio Cesar,
Vc conhece a ABEC(Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais)?
Eles sempre têm novidades por lá...um abraço e bem-vindo ao grupo!
Carla Nagel.
Comentário de Julio Cesar Pereira da Silva em 28 abril 2012 às 11:26 Bom dia a tod@s!
Sou novo por aqui, logo, peço desculpas caso esteja postado em local errado.
Pessoal, gostaria de saber de vocês, tanatólogos, o que há de novo, no Brasil, sobre História da Morte. Peço isso, pois estou fazendo um levantamento bibliográfico.
Cordialmente,
Julio Cesar.
FUNDAÇÃO EDUCACIONAL UNIFICADA CAMPOGRANDENSE - FEUC
COORDENADORIA DE EXTENSÃO, PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA - CEPOPE
CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL E CULTURAL DO BRASIL
ROGÉRIO TORRES MEDEIROS
A MORTE NO RIO DE JANEIRO
ROGÉRIO TORRES MEDEIROS
A MORTE NO RIO DE JANEIRO
NO INICIO DO SECULO XIX
Monografia submetida ao corpo docente do curso de Pós História Social e Cultural do Brasil das Faculdades Integradas Campo-Grandenses (FIC), mantidas pela Fundação Educacional Unificada Campograndense (FEUC), como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Pós-graduado
Orientadora
Professora Mestre Vivian Zampa
Resumo
No decorrer da história do cristianismo, a igreja católica exerceu grande controle no trato com a morte, retirando do meio familiar e tornando público os ritos fúnebres, a igreja impôs suas doutrinas e influenciou nos preparativos e costumes diante da morte, o momento da morte passa ser importante, cada pessoa se prepara com antecedência e os manuais do bem morrer auxiliam nesses preparativos, se torna comum o convívio entre os vivos e os mortos, a igreja passa a receber os corpos dos seus fieis em seus templos, as missas são realizadas sobres as sepulturas, e somente no final do século XVIII e no decorrer do século XIX, devido as epidemias de Febre Amarela que assolaram a cidade do Rio de Janeiro, a ideia de saúde publica e higienização começam a afastar os mortos do meio dos vivos, o medo pela contaminação através dos miasmas, incentiva a criação de cemitérios “extramuros”, ou seja fora dos limites da cidade, mudando as formas de relacionamento com a morte.
Palavras chave: Morte, Enterramentos, Miasmas.
SUMARIO
Introdução ________________________________________________________________5
Capítulo 1 – A Morte através dos tempos ______________________________________7
Capítulo 2 – As atitudes diante da morte ______________________________________10
Capítulo 3 – A Hora da Morte ______________________________________________16
Capítulo 4 – Lugares dos mortos ____________________________________________20
Conclusão _______________________________________________________________26
Bibliografia ______________________________________________________________27
INTRODUÇÃO
O tema História da Morte, a primeira vista, apresenta algumas dificuldades em relação à pesquisa, devido ao acesso à documentação e a pequena bibliografia. O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, tem em seu acervo uma quantidade reduzida de documentação referente a morte e enterramentos do inicio do século XIX. Já o Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, apesar ser o maior do município, párea este tema, funciona em horário reduzido, o que também dificulta esta abordagem em termos de fontes.
Desta forma, procurarei explicar, nas linhas que se seguem, a trajetória da morte através dos tempos até meados do século XIX, período em que uma forte epidemia de febre amarela, ceifou milhares de vidas, mudando o curso dos costumes e práticas até então realizadas pela população da cidade do Rio de Janeiro. Para tal, tracei, de forma reduzida, a trajetória do tema, por todo o período de desenvolvimento do cristianismo, aonde encontrei justificativas para os costumes fúnebres realizados até o século XIX.
Falar da morte é falar da influência que a Igreja Católica exerceu durante séculos no imaginário da população. Vários temas foram impostos e mudanças foram realizadas no seio da sociedade, tendo como pano de fundo os interesses desta instituição. Desta forma, a morte foi uma ferramenta bastante explorada pela Igreja.
Também podemos observar nesta pesquisa, como o medo, associado à morte, esteve presente na população, seja em epidemias, no dia-a-dia no leito de morte, vinculando-se ao próprio indivíduo ou a algum parente ou amigo. Esta morte tão evitada, mas também na mesma proporção inevitável, para ser esperada da melhor forma possível contava com os preparativos do bem morrer.
Uma outra questão a ser analisada é a modificação em relação à disposição das sepulturas, que voltam-se para fora da cidade no século XIX. A epidemia de febre amarela impulsionou a tomada de providências definitivas quanto ao afastamento do morto do meio dos vivos. Não se suportava mais a convivência, dentro das igrejas e das casas, com corpos exalando vapores da decomposição, o que causava doenças e só fazia proliferar epidemias. Desta forma, a monografia apresentada divide-se em 4 capítulos: no capitulo 1, “A morte através dos tempos”, é abordado de forma resumida a trajetória do trato com a morte desde o inicio da humanidade até os tempos modernos, já no segundo capitulo “ As atitudes diante da morte”, são apresentados os rituais funerários realizados pelas famílias dos mortos antes da intervenção da Igreja Católica e como esses rituais foram controlados e passaram a acontecer da forma desejada pela Igreja e por suas irmandades, iniciando o processo de clericalização do culto aos mortos. No capitulo 3 “ A hora da morte”, são mostrados os preparativos para a hora do falecimento, como a pessoa que está prestes a morrer encara a sua partida para o que se acreditava ser a passagem para uma vida eterna, conforme a Igreja pregava, nesse momento de passagem estão envolvidos os parentes do moribundo, os amigos e os membros das irmandades religiosas e da Igreja Católica, dentro da sua esfera de atuação em cada local.
O ultimo capitulo “Lugares dos mortos” é o mais importante neste trabalho pois trata do fim dos enterramentos dos mortos dentro das igrejas e o inicio da criação de cemitérios fora dos muros da cidade do Rio de Janeiro no inicio do século XIX, devido uma necessidade de higienização e saúde publica, tendo em vista o contato da população com os mortos vitimas da epidemia de febre amarela ocorrida neste período na cidade.
CAPITULO 1 - A MORTE ATRAVÉS DOS TEMPOS
Ao ver seu semelhante caído no chão, sem se mover, sem esboçar nenhum tipo de reação, mortalmente ferido, ao lutar com sua caça, o homem primitivo seguiu seu destino, sem se preocupar com o cadáver. Assim, nossos mais distantes antepassados tratavam a morte, abandonando seus corpos.
As primeiras sepulturas encontradas datam de 35 mil anos antes de cristo. O homo sapiens, nesse período, enterrava seus mortos sentados com os braços em volta dos joelhos. Segundo Júlio Chiavenato, em A morte uma abordagem sociocultural, esses são os primeiros relatos de cuidados com os mortos. (CHIAVENATO, 1998, p. 12).
Desde que começamos a cuidar de nossos mortos, estão registrados basicamente quatro processos funerários: o da pedra tumular, o do enterro, o do dessecamento e o da cremação. Esses processos, entretanto, foram assumindo outras formas através dos tempos.
O ser humano mostrou, através dos tempos, que a atenção que os cadáveres recebiam revelava os conceitos e a cultura de cada povo. Tais cuidados deixavam claro os medos, as preocupações sanitárias e as incertezas diante de uma novidade o “homem morto”.
Quando surgiu a ideia de que o homem era composto de corpo e alma, as covas começaram a ficar mais profundas, para que não saíssem da sepultura. A expressão “sete palmos” surgiu, segundo Júlio Chiavenato, neste contexto, aonde se diria que o defunto estava seguro debaixo de sete palmos. (CHIAVENATO, 1998, p. 13).
Devemos ter a consciência de que os homens desse período queriam se sentir seguros aprisionando o morto, desta forma, ele não voltaria à vida. Tal pensamento se dava pela falta de conhecimento sobre a morte.
O homem primitivo queria distância do defunto. Com o aparecimento das religiões, todavia, a morte ganhou outro sentido. Em determinadas crenças, preparava-se o caminho do morto de volta à vida ou para lugares especiais, de acordo com os seus respectivos conceitos formulados.
È importante notar que o homem primitivo desconhecia as causas da morte natural e a conhecia, na maior parte das vezes, veiculadas a acidente. A morte, desta forma, era sempre provocada por alguém ou alguma coisa.
Neste período, também surgiu a ideia de imortalidade, que, a partir de então, foi assimilada por várias religiões. Os egípcios, por, exemplo, em seus relatos mais antigos negavam a existência da morte. Acreditava-se que o espírito migrava, reencarnava ou descansava aguardando uma outra vida.
Tanto no passado quanto no presente, o sentimento do medo associou-se à morte, refletindo o relacionamento da vida com a ela. Da mesma forma que o homem primitivo ou o selvagem temiam os castigos dos deuses – fome, seca, enchentes e tempestades – também temiam uma punição considerada maior, a morte.
Séculos depois, o homem da cidade também não foi diferente do primitivo. Mesmo quando não era religioso, ele adotava costumes e formas de lidar com situações cotidianas parecidas com a de seus antepassados. O que mudou foi a situação atual de espaço e tempo. Portanto, da mesma forma que o homem primitivo tinha suas superstições e explicava diferentes fatos por suas impressões – se chove é por que o “céu chora”, se há enchentes é por que os deuses estão zangados – o homem moderno também o faz dentro de sua realidade.
A modernidade também teme a morte e grande parte das pessoas acreditam nela como fim de uma dádiva de Deus, a vida, ou o inicio de uma outra. Várias são as religiões e as interpretações sobre a morte. O destino, no além-túmulo, varia em cada crença, mas uma ideia é bastante defendida, de acordo com Jose Chiavenato, sem “quanto menos voltado para a religião, menor é o medo do homem pela morte”. (CHIAVENATO, 1998, p. 16).
Aparentemente, os gregos antigos não temiam a morte. Os cadáveres não mereciam tratos especiais, tendo em vista uma outra vida, quase sempre eram cremados como medida de higiene. A maioria dos gregos acreditava que os mortos iam para o “ Hades”, uma região sem luz, debaixo da terra em nada parecida com a ideia de céu e de inferno das religiões modernas. De acordo com Jose Chiavenato, alguns pesquisadores chegaram a conclusão, ao analisarem certos povos primitivos, que aonde não há nenhum tipo de religião não existe o medo da morte. Esse temor é natural em sociedades totalmente ligadas à religião, aonde o conceito de imortalidade difundido, é, portanto, o desejo de ser imortal. (CHIAVENATO, 1998, p. 16).
Apesar da familiaridade com a morte, os antigos a temiam e a principal função dos ritos funerários era manter os seus mortos longe dos vivos, impedindo que eles voltassem. Já na Roma antiga, existiam leis que proibiam enterros dentro das cidades, primeiro pelo temor da proximidade dos defuntos e depois pela questão da sanidade urbana.
Além do mistério da morte, para as pessoas que se viam diante de um corpo em putrefação era preciso se livrar do problema; a primeira impressão era de que este corpo não estava morto devido ao processo de decomposição, viam-se gases saindo, bichos se mexendo, unhas e cabelos caindo. Sem explicações para tais fenômenos, era necessário se livrar da ameaça. Assim, sugiram superstições que ocuparam o imaginário de nossos antepassados e fizeram parte das religiões. Portanto, o que se fazia com o corpo nada tinha haver com o morto, mas com as crenças que historicamente foram se formando sobre a morte.
Dentro deste contexto, do trato com o corpo, no próximo capitulo serão abordada as atitudes diante da morte. A religião abraça a responsabilidade do cuidado com o cadáver, e a igreja passa a receber e administrar os enterros e seus preparativos.
CAPITULO 2 - AS ATITUDES DIANTE DA MORTE
Cada família tinha o seu túmulo, em que todos os membros deveriam ser enterrados. Ali eram celebradas as cerimônias e festejavam-se os aniversários, os antepassados eram vistos como sagrados e cultuados em cerimônias domesticas no seio da família, que somente os parentes podiam realizar e nas quais só eles eram admitidos. (RODRIGUES, 2005, p. 41)
O trecho acima, da historiadora Claudia Rodrigues, em seu premiado livro Nas Fronteias do Além, relata a forma como eram tratados os enterros antes da intervenção da Igreja Católica. Podemos perceber neste relato, que o enterro ficava no seio da família; não havia a presença marcante de um membro da igreja. Na cultura greco-romana da Antiguidade, o culto dos mortos era familiar e doméstico e as sepulturas e sepultamentos assuntos de parentes.
De acordo com Claudia Rodrigues, dois fatores foram fundamentais no controle que a igreja passou a exercer sobre as atitudes dos fieis diante da morte: o primeiro foi a substituição do gerenciamento familiar e doméstico do culto dos mortos, pelo gerenciamento público e administrado pelo clero; o segundo ponto foi a interlocução privilegiada entre os vivos e os mortos, através da realização de missas em intenções desses. (RODRIGUES, 2005, p. 40)
Já para o direito romano, as tumbas eram lugares privados. O próprio calendário romano dedicava duas festas aos mortos: as parentalia, que se destinavam a apaziguar os mortos por meios de banquetes e oferendas e as lamuria, realizadas para exortar as almas a deixarem os vivos em paz. Pretendia-se, ao mesmo tempo, apaziguar e conjurar a alma na intenção de que ela partisse para o seu repouso. Acreditava-se, assim, que se os ritos não fossem cumpridos, as almas não seriam aceitas em seu destino e voltariam à terra em forma de espíritos perigosos. (RODRIGUES, 2005, p. 41).
Neste período, os cultos e ritos tinham a função de impedir que as almas perturbassem os vivos, e não tinham que cumprir, necessariamente, o preceito de uma religião, mesmo porque eram as famílias que os geriam. Com o processo de oficialização do cristianismo, este se tornou religião lícita. Ao adquirir força e poder, a igreja procuraria estender sua tutela sobre a sociedade, controlando as atitudes diante da morte e do morrer e interferindo sobre os costumes fúnebres.
A igreja começou suas intervenções agindo nas práticas de banquetes realizados junto aos túmulos dos mártires e santos. Essas atuações apareciam para a igreja como uma forma de paganismo, pois nesses ritos havia o ato de se comer, beber, dançar e cantar junto às sepulturas. Para a igreja, estas práticas eram pagãs, pois as sepulturas eram lugares sagrados. Aos poucos, a igreja foi substituindo esses fazeres por atos litúrgicos, aonde havia a sua presença e controle. A igreja implantou o culto familiar e privado dos mortos a partir dos séculos IV e V, em um longo trabalho de clericalização. Sua intenção, com este empreendimento, era dar um caráter público e cristão aos ritos fúnebres, de forma diferente do que se praticava.
Esta nova prática substituía os costumes familiares, voltados para o lado carnal. Dando um sentido espiritual aos ritos, a igreja justificava sua atuação a partir da ideia de que se ocupava com a parte da alma e não do corpo e que a salvação não era só uma questão do lidar com a sepultura. Desta forma, tal instituição foi se responsabilizando pelas comemorações aos mortos, oferecendo eucaristia às almas e esmolas aos pobres.
Neste contexto, os bispos da igreja, levaram os corpos dos mártires e santos para dentro das basílicas, como forma de ter um controle mais serrado sobre os cultos aos mortos. As tumbas passaram a ser propriedade pública, fomentando à igreja o total controle dos sepultamentos, em um processo gradativo de retirada dos costumes domésticos das mãos das famílias, para ter sob seu domínio direto e simbólico tais rituais. Desta forma, a igreja conseguiu, diferentemente dos costumes greco-romanos, trazer os mortos para dentro das cidades: primeiro foram utilizadas as basílicas, depois as catedrais, e por ultimo às igrejas. (RODRIGUES, 2005, p. 42).
Com a prática dos sepultamentos dos mártires e santos dentro das basílicas, a igreja tinha como argumentação sua justificativa de que, desta forma, dentro dos templos, os corpos estariam protegidos de profanadores de sepulturas. Igualmente, inseriu a ideia de que os santos ali enterrados trariam a salvação e perdão dos pecados aos mortos comuns. Também ali enterrados, apesar das críticas de alguns membros da igreja, que faziam resistência aos sepultamentos dentro dos templos, justificaram com a ideia de que haveria a necessidade de mistura entre o culto aos mortos e o culto ao divino. Assim, a igreja prosseguiu com o controle dos sepultamentos, alegando que “a sepultura eclesiástica seria uma das condições básicas para se obter a salvação da alma e como um pilar do dogma da ressurreição”, criticando os costumes romanos de incineração dos cadáveres e cremação. (RODRIGUES, 2005, p. 43).
A partir das práticas descritas, a igreja se colocou como a verdadeira ponte entre os vivos e mortos. Ao se intitular promotora da liturgia dos mortos – que consistia em uma estrutura de trocas entre a igreja e o morto – ela recebia parte dos bens destes em troca de orar por sua alma e distribuir uma parte dos mesmos entre os pobres. (RODRIGUES, 2005, p. 43).
A clericalização do culto aos mortos teve um forte crescimento nos séculos XI e XII. Nos mosteiros e abadias, aonde a comemoração dos mortos se dava por meio de orações, em sua memória, o clero assegurava a celebração dos ritos fúnebres e da memória dos mortos, com a prática de nomeá-los durante as orações nos monastérios e abadias. Assim, as comunidades monásticas se especializaram ainda mais nas comemorações aos mortos. Segundo Claudia Rodrigues, sobre a influência da Abadia de Cluny, no século XII foi institucionalizado o dia de culto aos mortos, da forma que nos conhecemos atualmente como “Dia de Finados’, um dia após o de “Todos os Santos”. (RODRIGUES, 2005, p. 44).
No século XIII, a oração pelos mortos se tornou uma das principais funções de todo o clero. Devido ao crescimento da realização de ofícios e missas pelos mortos, este crescimento promoveu a afirmação da função funerária dos sacerdotes; a igreja insistia em seu lugar de mediadora entre os vivos e os mortos. Desta forma, “o cuidados com os mortos” seria atividade de todos os padres e não mais somente das comunidades monásticas, também se estendeu aos leigos como nas confrarias e nos penitentes, desenvolvendo de acordo com os estudos de André Vauchez “uma emergência da espiritualidade leiga”. (RODRIGUES, 1997, p.44)
Após ter conseguido o controle dos sepultamentos e dos cultos aos mortos, a igreja passou a se sentir ameaçada pelos leigos, pois a difusão das práticas funerárias levou as confrarias e penitentes a rezarem eles mesmos por seus entes que se foram. A igreja reagiu a esta perda de controle e procurou distinguir o profano do sagrado, o leigo do eclesiástico, realizando, assim, uma separação e reorganização. Neste contexto foi elaborada a doutrina do purgatório.
Claudia Rodrigues destaca, em sua obra, a importância da investida da igreja sobre uma parte essencial no ritual aos mortos – o velório. Este, que ainda era realizado nas casas, no seio da família, passaria, a partir daí, para os templos, considerados espaços lícitos para tal rito, enquanto os demais seriam profanos. Era necessário colocar o morto sobre o abrigo da igreja e longe dos ataques de demônios; desta forma, todas as confrarias e penitentes que fossem cuidar dos mortos deveriam estar vinculados diretamente à esfera eclesiástica. Apesar dos esforços da igreja, este controle era difícil, devido à cultura já estabelecida da prática do velório nas casas. Tanto nas áreas rurais como nas urbanas, havia a persistência de se permanecer praticando esses ritos entre a família do morto.
Dentro deste contexto, a doutrina do purgatório se consolidou e as práticas diante da morte se conformaram com ela. O purgatório passou a ser o local entre o céu e o inferno aonde a alma poderia pagar seus pecados, contando com a ajuda dos sufrágios dos vivos. Esses pecados, que poderiam ser redimidos no purgatório, eram considerados pecados leves e perdoáveis. Sendo denominados, segundo Claudia Rodrigues, como pecado venial, esta purificação dos pecados estava ligado diretamente à confissão auricular, isto é, a pessoa poderia se confessar e ainda em vida ser perdoada de alguns pecados após pagar uma penitência. O IV Concilio de Latrão, de 1215, tornou a confissão auricular obrigatória, pelo menos uma vez por ano entre os adultos cristãos. (RODRIGUES, 2005, p. 46).
Mas o fiel que não seguisse as determinações de penitência estipuladas após a confissão e permanecesse no pecado, seria punido e esta punição viria após a morte. Com esta ameaça baseada na vida após a morte, o fiel se preocupava com sua alma após o falecimento e a igreja formulava o que Claudia Rodrigues chamou de pedagogia do medo. Esta situação facilitava o domínio da igreja diretamente no comportamento dos cristão, tendo em vista a preocupação com o julgamento individual diferente do juízo final, aonde todos seriam julgados, mas estando preocupados com a sua própria salvação. (RODRIGUES, 2005, p. 47).
O purgatório passou a ser uma opção para as pessoas que tiveram pecados em vida, tendo em vista que seria um local de sofrimento provisório; já o inferno seria definitivo e eterno. Com este medo dos últimos dias, intensificou-se a prática dos sufrágios pelas almas presas no purgatório, surgindo daí uma relação estreita entre os vivos e os mortos. Uma verdadeira relação de solidariedade: durante a vida, a pessoa oferecia os sufrágios em intenção das almas de parentes e amigos mortos na esperança de diminuir o tempo no purgatório; esta alma já salva e descansando no paraíso ajudaria a alma do familiar quando ela chegasse ao purgatório. A partir destes atos, surgiram irmandades e confrarias, que tinham como principal função a realização de sufrágios em intenção das almas de seus confrades.
Juntamente com a intensificação dos sufrágios, surgiu a prática testamentária. Através do testamento redigido em vida, haveria a possibilidade de reparação de erros, desde que o texto fosse composto de legados piedosos. Na maioria deles, desde a idade média até finais do século XIX, ficava explícita a ideia de salvação da alma:
Temendo-me da morte: e por não saber quando será servido leva-me para si, faço este meu testamento na forma seguinte: primeiramente encomendo a minha alma a Santíssima Trindade que a criou e rogo ao Padre Eterno pela morte e paixão de seu Unigênito Filho e queira receber assim como recebeu a sua estando para morrer na arvore da Vera Cruz que já nessa vida e ao meu senhor Jesus Cristo p(...).(RODRIGUES, 2005, p. 32).
Os religiosos aproveitavam o momento da confissão para induzir o moribundo a realizar seu testamento. Sobre a assistência de padres e párocos, esta influência na hora de sua redação, diante de uma situação de morte, facilitava a possibilidade de ser conseguir benefícios para a igreja vindos do moribundo. Ficava cada vez mais claro o poder da igreja tanto para influenciar as atitudes diante da morte, quanto para controlar todo seu aparato.
O trecho em destaque abaixo, retirado do livro de Claudia Rodrigues, ajuda-nos a compreender como a pedagogia do medo, utilizada pela igreja, influenciou o imaginário dos fieis e modificou a ideia de julgamento coletivo, induzindo a crença na salvação individual. Portanto, um testamento bem elaborado no qual ficava claro as intenções do moribundo em relação a sua colocação religiosa, sua humildade em suplicar perdão pelos seus pecados, e interseção por sua alma junto a Deus – lembrando sempre em deixar missas em seu nome, através de seus confrades e parentes – garantiriam sua salvação e livramento dos castigos divinos.
Um importante aspecto de todo esse empreendimento sobre a morte foi, assim o direcionamento da pastoral para o sentido do medo, onde o julgamento e as penas do purgatório e do inferno adquiriram lugar essencial. Não foi por acaso que os séculos XIV E XV surgiram segundo Michel Volvelle, como o período de ouro das representações em torno da imagem do inferno justamente no momento em que os temas medievais, dominados pela imagem da punição coletiva - em torno do juízo final -, cederam lugar ao julgamento particular, que se fez acompanhar, com força, do medo da punição. (RODRIGUES, 2005, p. 32).
Procurei demonstrar nesse capítulo, de forma resumida e baseando-me essencialmente no trabalho da professora Claudia Rodrigues, as atitudes diante da morte, levando em consideração à intervenção da igreja sobre os costumes fúnebres. Ao trazer as sepulturas para dentro de seus templos, o que era afastado da sociedade agora estava à igreja; os mortos passaram a fazer parte da rotina diária dos religiosos, sendo uma responsabilidade da igreja. Como bem destacou Philippe Ariès em seu trabalho Historia da Morte no Ocidente “a partir de então não houve mais diferença entre a igreja e o cemitério.” (ARIÉS, 1977)
A clericalização do trato com os mortos se fez necessária, para um maior controle da igreja sobre os rituais. Com este controle em questão, a igreja colocou em prática a teoria do purgatório e utilizando a pedagogia do medo envolveu seus fieis na crença da salvação particular. (RODRIGUES, 2005, p. 47)
No próximo capitulo, apresentarei o que João José Reis chama em seu livro A Cemiterada, de “A hora da morte”. Com o capitulo de mesmo nome, tentarei explicar, baseado também no livro acima citado, os preparativos para o bem morrer. Este processo, diferente do que foi citado em relação aos costumes fúnebres, ocorria no quarto do moribundo. Nos dias que antecediam a morte, o enfermo já estava com seu testamento pronto e só aguardava a chegada da hora de partir; o quarto deste doente terminal se tornava local público e algumas pessoas acompanham a agonia e despedida de seu confrade, parente ou até mesmo estranho. Phillipe Áries, denominou este episodio de “a morte de si mesmo” . (ARIÉ, 1997, p. 29).
Apesar de ser bastante breve, o próximo capitulo se faz necessário, pois através dele poderei chegar à problemática deste trabalho – a secularização da morte – aonde colocarei em questão a sua necessidade. Devido às epidemias do século XIX, exigia-se o afastamento dos mortos das cidades, para que o convívio com estes não viesse a proliferar doenças em função da contaminação do ar e outras questões que discutiremos a seguir.
Olá galeraaaaaaaa
Alguém vai para a Anpuh-SP em julho?
Eu participarei do Simpósio Temático que tem como tema " A Morte e o Morrer na Sociedade Brasileira", organizado pelas historiadoras Elízia Borges e Cláudia Rodrigues.
Meu trabalho é: A Morte e o Morrer na "Paris dos Trópicos"
Coloquem seus trabalhos aquí para discutirmos.
Grande Abraço!
Comentário de Prof Rafael José de Campos Pinto em 12 março 2011 às 14:29 Bem-vindo (a) ao
Cafe Historia
A Memória que me contam - 2013
Entrou em cartaz o novo filme da diretora brasileira, Lúcia Murat, o drama "A Memória que me contam".
A ex-guerrilhera Ana (Simone Spoladore), ícone do movimento de esquerda, é o último elo entre um grupo de amigos que resistiu à ditadura militar no Brasil. Com a iminente morte da amiga, eles se reencontram na sala de espera de um hospital. Entre eles está Irene (Irene Ravache), uma diretora de cinema que sente-se perdida diante da iminente morte da amiga e que precisa ainda lidar com a inesperada prisão de Paolo (Franco Nero), seu marido, acusado de ter matado duas pessoas em um atentado terrorista ocorrido décadas atrás na Itália.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
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